Notas iniciais
A ideia desta fic está a anos na minha cabeça, porém nunca acabei completando ela por diversos motivos, Dream Drop Distance sendo o principal deles. Agora, após uma repaginada bem grande, voltei a escreve-la e acredito que esteja pronta para postagem.Então, tenham uma boa leitura!

A noite passa lenta como sempre, enquanto Requy anda pelas ruas, com suas mãos nos bolsos, assoviando. O vento frio faz com que o garoto proteja o seu pescoço, enquanto sente suas bochechas e nariz arderem ao serem espetados pelo clima comum de Planetary. O céu limpo o permite ver as estrelas claramente, ainda que só metade do céu visível seja povoado por elas, enquanto a outro metade é de uma escuridão tão profunda que parece que ela poderia sugar a sua alma por olhar diretamente para ela. Ao longe, carregado pelo vento, um som suave chega aos ouvidos de Requy, fazendo-o apressar o passo.

— Já começou. — comentou consigo mesmo, enquanto ia cada vez mais aumentando a passada.

As batidas marcadas da caixa da bateria são as mais distinguíveis na distância que ele está. Logo, o som suave do piano surge aos poucos, logo seguido de uma melodia acentuada de um saxofone. A base cuidadosa do contrabaixo por fim completa a composição quando Requy abre a porta do estabelecimento que se esconde dentre os becos e vielas mal iluminados. O ambiente aconchegante de Cat Alley mais uma vez parece convidar o garoto a sentar-se e apreciar o ambiente da noite. A canção segue, com os componentes da banda sincronizando cuidadosamente a base para que o sax faça seu número. Requy procura por um lugar para poder relaxar e apreciar o número, e logo nota que o lugar está mais cheio que o normal, mesmo para um fim de semana. Ao correr os olhos pelo estabelecimento, consegue avistar uma figura conhecida em uma mesa em frente ao balcão, os fios de cabelos castanhos escapando por debaixo daquele chapéu familiar não o deixam enganar-se. Rapidamente deslocando-se por entre os outros frequentadores do lugar, volta e meia parando para cumprimentar algum conhecido, Requy chega até a mesa. Ao descer os olhos para a ocupante de uma das cadeiras, uma menina de olhos azuis o encara de forma despreocupada e ri logo em seguida.

— Algum problema Lute? — uma pontada de raiva dando sinal na voz de Requy.

— Seu rosto. Você está vermelho como uma pimenta! — ela ri mais um pouco antes de começar a parar aos poucos.

— É do vento. Está bem frio, para essa época do ano.

— E eu acho que não trouxe roupa o suficiente. — ela olha para baixo, conferindo seu casaco de botões por cima de uma saia até os joelhos e meias cobrindo as pernas.

— Nah, estou falando de frio, não inverno e neve. — Requy dispensa o comentário da amiga — Você chega em casa antes de perder algum membro.

Lute dá uma leve risada e acena com a cabeça para uma cadeira vaga em frente à ela, do outro lado da mesa.

— Você não vai ficar de pé né? Senta aí!

O garoto senta-se na cadeira e a vira em direção ao palco para ter uma visão mais ampla, ficando de lado com Lute, que também observa o número. Seu dedo indicador bate na superfície da mesa em ritmo com a música, seguido de um leve movimento da cabeça.

Lute faz isso desde que Requy a conhece. Quando uma música a agrada, ela simplesmente passa a ignorar tudo em volta dela e foca-se somente na música. Um hábito um tanto irritante, mas que com o tempo Requy conseguiu se acostumar. Não que isso não o incomode, ele apenas passou a aturar mesmo. De toda forma, ele sabe que nenhum tipo de conversa acontecerá até o fim da música, então chama um garçom para poder pegar algo para se distrair até o fim do tranze da menina. Um dos garçons que estava parado em frente ao balcão vem até ele, o garoto pede por um refrigerante de chá verde, e então volta seus olhos ao palco novamente. Lá estão Os Thickstrings, bem conhecidos dos clientes mais frequentes do Cat Alley pelas suas composições suaves e improvisações razoavelmente longas, mas isso apenas acrescenta um charme extra para a banda. Em volta, alguns clientes assistem à apresentação enquanto bebem, outros conversam entre si, enquanto outros parecem absortos em seus próprios negócios particulares, difícil de identificar apenas olhando. A banda continua seu número com uma naturalidade que parece se misturar ao ambiente, fazendo com que Cat Alley pareça um lugar paralelo ao resto do mundo. Todo aquele clima caótico e tranquilo, aquele som que aparenta conversar com quem ouve, a sensação de camaradagem vinda até mesmo de completos estranhos… Requy sentia seu mundo centrado naquilo. Não saberia dizer qual é a importância exata daquele lugar para ele, mas sabe dizer qual seria a falta que lhe faria caso o Cat Alley não existisse.

— Então, como foi o dia?

Repentinamente Requy volta à realidade fora de seus pensamentos, e depara-se com Lute olhando para ele. A música parou há pouco, aparentemente, e a garota saiu de seu transe.

— Ah, desculpe, fiquei devaneando. — respondeu ele, meio sem jeito. Lute dá uma breve risada.

— Você sempre fica assim quando viemos aqui. — ela dá risada desta afirmação.

— É porque você simplesmente me ignora quando começam a tocar.

— Já que é assim que você vê as coisas, então tá. — ela dá de ombros, rindo novamente, e toma mais um gole da bebida em seu copo — De toda forma, tá sabendo do que estão falando por aí?

— Hã, não. O que é? — o garoto se inclina para a frente, mais próximo à ela, para ouvir as novidades.

— Aparentemente vai haver algum tipo de mudança nos céus. Pelo que o pessoal do Observatório tá dizendo, será algo do tipo “as estrelas mudarão de posição” ou algo assim. Os termos que quem falou usou eram… estranhos.

— Isso não é exatamente detalhado mas pode valer a pena dar uma olhada. — ele toma mais um gole do seu refrigerante e coça o queixo — Sabe quando vai ser?

— Daqui dois dias, aparentemente. — ela para por um segundo, olhando para baixo pensativa — Que tal nós irmos até o telhado do Observatório? Lá é o lugar mais alto da cidade, afinal.

— Boa ideia! E eu posso pegar o telescópio do meu pai. Para vermos melhor.

Ela sorri e acena com a cabeça, ele responde com um segundo sorriso, antes de beber mais um gole do refrigerante.

Algumas horas mais tarde, Requy e Lute estão andando pelas ruas de Planetary no caminho para casa. Num geral as ruas estão vazias, mas de momentos em momentos outros andarilhos noturnos passam por eles, na maioria rostos conhecidos de vista, alguma vez ou outra um estranho, e em poucos casos algum conhecido para quem eles apenas dão um rápido “oi” cortês, sem desviar a atenção de seu caminho. A noite ficou mais fria desde que saíram do Cat Alley, e tanto Requy quanto Lute podiam ver as bochechas e nariz vermelhos um do outro.

— Espero que não esteja frio assim depois de amanhã. Seria horrível subir no telhado do Observatório com um vento gelado desse. — comenta Lute enquanto esconde seu nariz na gola de seu casaco, abafando levemente sua voz no processo.

— A gente se esquenta na subida ora. — Requy brinca, rindo da própria piada. Lute lhe acerta com o cotovelo nas costelas, fazendo soltar um leve gemido de dor. — Ei!

— Pìada ruim merece punição! — e então lhe acertou novamente com outra cotovelada.

— Ok, ok. Desculpa pela piada. — o garoto fala rindo. A amiga lhe dá mais um sorriso, parando na esquina que a levará para casa.

— Depois de amanhã, às oito então? — ela pergunta.

— Ok, nos encontramos na praça do Observatório.

— Fechado! — ela começa a andar pela outra rua, mas pára após alguns passos, virando-se para Requy novamente — Boa noite e tenha cuidado.

Ela acena para ele, antes de virar-se novamente.

— Você também! — grita ele antes de continuar o seu caminho para casa.

Ao chegar em casa, Requy sobe direto para o seu quarto. Ao passar pela porta do banheiro, consegue ouvir sons vindos do banheiro. “O pai deve estar se preparando para ir dormir” pensa ele. Ele dá uma leve batida na porta.

— Pai, acabei de chegar! — avisa através da porta. Lá de dentro, consegue ouvir a voz abafada de seu pai após o som da água batendo na pia.

— Ah, oi filho! Já estava indo dormir, tenho que ir mais cedo para o trabalho amanhã.

— Ok. Quer que eu deixe o almoço pronto ou você vai comer fora?

— Pode preparar algo para você. Eu como o que sobrar quando chegar.

— Eu faço algo pros dois, pode deixar! Algo em particular?

O homem dá uma risada animada.

— Não filho, mas se puder fazer algo com carne eu fico agradecido. — fala ele alegremente.

— Ok. Boa noite pai. — despede-se o garoto.

— Boa noite filho, durma bem.

No quarto, Requy fecha o livro que esteve lendo e olha pela janela de seu quarto para o céu. Então aquela visão de que esteve acostumado desde que era pequeno de um céu metade estrelado iria mudar? O misto de divagações e apreensões de ver quais serão tais mudanças o deixam desconfortável para dormir, martelando em sua cabeça repetidamente, mas ao mesmo tempo, o fazem desejar dormir mais rápido para que o dia passe logo para ver o que tal evento o traria de novo.

E durante estes pensamentos, seus olhos pesam e ele dorme.

Notas finais
Tentarei postar um capítulo entre uma e duas semanas, então fiquem ligados! Agradeço aos que leram, agradeço ainda mais reviews e dicas, e até a próxima!