Em cinco estações

3 Capítulo dois – Compatriotas de trincheira


Notas iniciais
Oi, povos ♥ Bem, eu queria agradecer a todos que comentaram. Um beijo por dizer o que estão achando e obrigada por não me deixarem no vácuo! Yasmin, é especialmente pra você, viu? Te adoro! Ah, eu já falei que amo a Sun? Eu amo a Sun. Muito mesmo. Então, boa leitura!

Capítulo dois – Compatriotas de trincheira

Naquela noite, Demétrio dormiu no quarto de hóspedes. Ele jamais tiraria a Sun da própria cama porque ele era um idiota, estava fora de cogitação. O quarto deles dois agora era o quarto dela, até que resolvessem a situação entre si. Até lá, ele poderia ficar sozinho com seus próprios fantasmas e medos. Não precisou beber para dormir, não tinha vontade. Apenas ligou o computador e se conectou na rede social mais popular do momento, uma que ele, Sun e até o estúdio tinham. Então, não era difícil concluir que qualquer figura profissional teria também.

A barra de pesquisa estava lá, esperando por seus dedos nervosos a digitarem o nome de quem queria descobrir mais sobre com algo próximo, mas que com certeza não era, urgência.

“Efrem Petrovich”.

Ele era o primeiro resultado. Clicou na foto e não evitou pensar que o rapaz conseguia ser ainda mais bonito pessoalmente. Não entendia o porquê, mas era a embaraçosa verdade. O rosto sério apoiado em um punho e as típicas roupas indianas, com suas cores alegres (usadas claramente em um ensaio fotográfico. O homem russo mais característico de outra etnia que ele já vira), eram o contraste mais harmônicos que Demétrio poderia imaginar.

E a única coisa que o faria pensar que poderia fazer melhor era que o fotógrafo não capturou a melhor parte daquele rosto; focar em um nariz reto era a melhor opção se o modelo não era Efrem e não tinha aqueles olhos dourados e brilhantes de que se lembrava. A descrição da imagem dizia: “Mais um dia com a ajuda desse incrível profissional, Alexander Kouhy. Obrigado, amigo! O modelo não seria tão incrível sem você!”. A imagem tinha muitos likes e tantos comentários com o mesmo conteúdo visto de formas diferentes que Demétrio se sentiu triste pelo garoto. Quer dizer, ele não achava mesmo que Efrem conhecia todas aquelas pessoas.

Saiu do álbum de fotos de perfil, clicando na primeira imagem da linha do tempo dessa vez. Pulou a imagem de uma equipe reunida e sorridente e a seguinte o fez vacilar um pouco. A marcação indicava um nome já lido antes. “com Alexander Kouhy”. A cena mostrava Efrem, dessa vez sorrindo tão brilhantemente que poderia ofuscar qualquer iluminação do local. Não quis estar na pele de quem o fotografou. Os olhos estavam cobertos por óculos de lentes escuras, e o cenário era alguma praia cheia de areia e sol, que beijava a pele escura e iluminava o mar ao fundo.

A pessoa ao lado de Efrem era totalmente ofuscada: os olhos azuis apertados e a pele avermelhada pelo clima não pareciam visualmente atraentes para Demétrio. Não era, obviamente, o que os internautas achavam. Pelos menos não na página de comentários em que estava. Todos os “lindos ♥”, “melhor amizade” e “maravilhosos demais” foram totalmente ignorados em prol de um único e solitário “esperando a confirmação do casamento ♥333” (ignorou o fato de este ter mais curtidas que os outros, em especial). Não entendeu as dezenas de comentários com “meu shipp” e “OTP”. Achava que não queria saber.

Passou para a próxima imagem. E para a próxima. Por pelo menos vinte vezes. E dessas vinte, ao menos sete tinham a presença desse tal Alexander. Ficou, de forma que nunca diria em voz alta, incomodado. E por esse, e não outro, motivo, saiu da página sem nem se importar em seguir o garoto. Não precisava se importar com isso quando o veria todos os dias pelo o que seria no mínimo duas semanas. Era o emprego deles, afinal.

Desligou o computador com um sentimento parecido, mas que com certeza não era ciúmes (já sentira ciúmes antes e a sensação de agora era quase branda em comparação). Apenas um pouco de acusação, que ele sabia se tratar da tatuagem. E dessa vez seu interior se comprimiu em indignação, porque ele apenas falou com Efrem uma vez e não conseguia deixar de se lembrar dele e de seu olhar decepcionado quando falou de Sun. Sabia que a marca os deixava assim, agindo como idiotas e com expectativas que não seriam cumpridas tão cedo; pelo menos não ainda.

...

No dia seguinte, Sun não acordou na mesma hora que Demétrio e nem ao menos foram no mesmo carro. Ela ainda dormia e, pela mensagem que encontrou em seu celular, não queria ser acordada. Estava cansada da viagem e do choro (não confesso) da noite anterior. Seu grande dia começava com duas certezas: Sun não iria acompanhá-lo para livrá-lo (de quê?) e, bem, ele teria que enfrentar Efrem sozinho (talvez disso). A sensação era tão nova que sentia o corpo livre da ressaca: o que deveria ser automático e natural se tornou uma muito bem-vinda surpresa.

Depois do banho, onde evitou olhar para o próprio quadril, pensou que precisava entrar no quarto que antes era seu e de Sun para pegar suas roupas. De má vontade, enrolou a toalha abaixo da cintura e caminhou até lá, sentindo o frio matinal beijar sua pele imoralmente. Abriu a porta o mais silenciosamente que pôde e percebeu que a mulher dormia profundamente. Não percebeu seus olhos inchados e não percebeu os remédios para dormir ao lado da cama. Entrou no closet e vestiu-se rapidamente, pegando um cachecol graças ao frio; apanhou a câmera, a carteira e as chaves em um quase ritual e saiu de casa.

Não conseguia abandonar a conclusão de que teria sido melhor acordar Sun. Ignorou o bicho da dúvida em seu peito sem muito esforço, porque estava atrasado. E foi isso. Seu dia já fora assinado por suas próprias escolhas.

...

Ele sorria para ela.

Tão brilhante e inocentemente que não poderia deixar de pensar que era a coisa mais bonita que já vira na vida. Uma coisa mais bonita que qualquer modelo e que até mesmo as mais inspiradoras paisagens capturadas pelo melhor fotógrafo. A mocinha era uma criança de olhos amendoados e puxados, com longos cabelos castanhos e lisos, soltos como sua mãe preferia. Ela não costumava contrariar sua progenitora... Ela estava sentada na grama, sorrindo ingenuamente para o menino ao seu lado. O vestidinho florido a fazia parecer como uma criança muito bem cuidada e feliz, como se nada a preocupasse no mundo.

Já ele não passava essa impressão. A mesma que a dela, quer dizer. Parecia faminto e maltrapilho com suas vestes rasgadas e seus grandes, sofridos e envelhecidos apesar da tão pouca idade, olhos azuis.

A aparência das crianças era contrastante, e o fato de elas fazerem companhia uma para a outra era curioso. A menina puxou algo de uma bolsa que estava ao seu lado e ofereceu a ele, um pacote muito bem embrulhado. O garoto finalmente, finalmente, conseguiu sorrir desde que chegaram ao local.

— Eu ajudei minha mãe a fazer. – a garotinha explicou, um pouco envergonhada por sempre ter tanto.

— Eu agradeço por sua preocupação. – ele respondeu, igualmente envergonhado, mas por motivos completamente diferentes. Porque tinha tão pouco, porque parte de sua vida se devia aos cuidados dela... A menina não percebeu, mas ele se segurou para não comer ali. Precisava guardar para a mãe e para o irmão menor, afinal. Tinha o suficiente para os três no recipiente cuidadosamente embrulhado, porém, preferia que sua mãe dividisse entre eles.

— Sabe, você ainda pode morar lá em casa... – ela começou, e ele a olhou repreensor. – Fale com sua mãe, eu posso chamar a minha e...

— Não. Eu já falei sobre isso. – ele respondeu com seu coreano mal pronunciado, que comia alguns As e mal falava Gs.

— Você prefere continuar assim? – ela indagou de repente angustiada, de lábios trêmulos e olhos marejados. Não era chorona, não gostava de se debulhar em lágrimas sempre que o via, entretanto, era muito maior do que seu coraçãozinho poderia aguentar sem demonstrar. Quando se tratava daquela pessoa em especial, tudo era muito mais intenso, inclusive sua tristeza e preocupação. Era apenas inexplicável.

— Eu te prezo muito. – ele continuou, com seu vocabulário surpreendentemente rico para alguém que morava há tão pouco tempo em um país de língua completamente diferente. – Mas minha família é minha prioridade.

Seu frágil pulmão tremeu em seu corpo e uma sensação aguda, uma dor, algo que não desejava para ninguém, acendeu em meio aos seus sentimentos. Quis muito chorar, entretanto, não teve tempo.

Com um movimento brusco e espira, tal uma máquina de lavar, a imagem das crianças mudou, e o sentimento de apreensão e rancor em seu peito não continuou o mesmo. Havia algo essencialmente ruim preso em seu pequeno espírito, mas era algo que poderia ser controlado, muito mais brando do que quando presenciava a interação pueril. Era quase morno, como uma dor que poderia ser apreciada.

Agora ela estava assistindo a um episódio muito mais recente e era quase encantador; a menininha foi substituída por uma linda mulher de olhos puxados e amendoados, além dos cabelos castanhos, longos e lisos, presos conforme seu desejo, não mais sujeita às vontades cruéis de sua mãe.

Ela parecia conformada e perto do homem loiro de óculos.

E parecia também absolutamente satisfeita, mesmo que ele não fosse nem de longe tão bonito quanto o garoto de olhos azuis. Ele tinha sardas, uma provável miopia e dentes visivelmente tortos, mas a espectadora podia sentir todo o afeto aquecer seu corpo quando ele repuxava os lábios em um sorriso contente e oferecia um bombom de chocolate. De forma a parecer que apenas as pequenas coisas fossem suficientes para os dois. Não é, ela queria dizer para eles, para ajudá-los, para alertá-los, mas então não estava mais lá.

Agora ela estava em outro lugar e a situação era um mistério em relação às anteriores. O padrão de repetição de atores acontecia novamente, contudo, dessa vez, não usando a mulher de olhos amendoados: usava o homem loiro. Quebrando toda a lógica, porém, ela não sentia nada perante aquela cena: nenhuma familiaridade de sentimentos a acometia quando o homem loiro beijava outro homem muito bonito (mas que definitivamente não a atraía). Ela não sentia raiva, tristeza ou angústia. Não sentia absolutamente nada quando eles deram as mãos. Quando o polegar pálido do homem loiro acariciou a mão de pele cor de chocolate. Havia algo entre eles, mas não algo para ela.

Eles eram definitivamente bonitos juntos; não da forma que casais de modelos são bonitos, porém, da forma que pessoas apaixonadas são. Ela nunca se sentira tão intrusa antes, e finalmente alguma emoção a atingia, muito aquecida. Ela sentia o velho afeto, mas dessa vez temperado com resignação. Foi um pouco angustiante e mesmo assim Sun Bae Hee aguentou. Porque sentia em sua pele a felicidade deles. Sorriu, então, presa em um sonho que não parecia acabar em um filme longo e infindável. Então, ela acordou.

...

Demétrio olhou para o garoto através da lente de sua câmera e se perguntou se seria errado e antiprofissional desejar largar seu instrumento de trabalho apenas para ver esse menino mais de perto (o chamava de menino por apenas força do hábito. Eram cinco anos de diferença entre dois adultos. Ter tido uma vida matrimonial certamente ajudava nisso). Efrem vestia as roupas da nova grife assinada por uma especialmente talentosa nova estilista e o fotógrafo não sabia se as peças eram maravilhosas ou se o modelo fazia-as parecer assim. Quis por mais de uma vez nesse ensaio largar seu emprego e sua cidade a fim de ganhar distância porque, olha, era difícil.

O modelo era particularmente bom, era verdade, porém, todos os olhares errados, que Demétrio no mínimo não queria receber, estavam sendo capturados. Estava quase pausando tudo para sacudi-lo, porque Efrem precisava mudar suas ações com pressa!

Quando finalmente pararam a primeira parte, já era a hora do almoço, e um frio correu por sua espinha. Se Sun estivesse ali, poderia correr para o lado dela e fingir que o outro não existia. Fingir que aquela conversa não era necessária, que não precisavam falar sobre nada. Que, meu deus, eles não estavam “destinados”, que a tatuagem não existia. Quis se bater porque, minha nossa, um dia depois já estava tendo pensamentos estranhos.

Levantou seu olhar, que até então tratava apenas as fotografias como dignas dele, e viu que Efrem o observava curiosamente do outro lado de sua mesa. O russo se inclinou e apoiou o cotovelo na mesa. Em cima de seu punho cerrado, descansou o queixo fino e bem delineado. Demétrio, por muito pouco, não o enxotou de lá. Precisava se concentrar! Por um momento, disfarçou, fingindo que não o via e que não estava prestando atenção nas coisas ao seu redor. Mas estava. Até demais. Prestava atenção nas curvas delicadas que os cabelos enrolados faziam na nuca; prestava atenção nos lábios franzidos de quem está profundamente concentrado ou reflexivo; prestava atenção nas mãos finas de músico... Finalmente, finalmente, decidiu que era algo que não poderia ser evitado por muito tempo.

Então, como um homem, olhou para todos os seus problemas e franziu as sobrancelhas, como se questionasse o que o meliante tanto olhava.

— O quê? – Efrem questionou depois de pelo menos trinta segundos neste joguinho, como se ele fosse a grande vítima. Além de modelo, era ator também, que lindo!

— “O quê” o quê? – Demétrio devolveu rapidamente, irritado demais para controlar a infantilidade por trás de suas palavras.

— Você começou a olhar! – o modelo o acusou, como se isso significasse alguma coisa. – Tem algo no meu rosto? Ou as fotos parecem ruins demais? – voltou a perguntar, dessa vez mais urgentemente. Não que estivesse falando isso agora, mas Efrem se sentia inseguro quando se tratava de Demétrio. E apenas de Demétrio. Sim, ele se sentia um imbecil.

O fotógrafo teria achado a reação cativante se não achasse esse sentimento perigoso. Então, deixou seus comentários pra lá. Desviou o olhar da expressão meio relaxada, meio nervosa do outro, segurando firmemente a língua para não soltar um muito estúpido “nada, é tudo perfeito”.

— Não tem nada no seu rosto. – respondeu no lugar de alguma babaquice. Voltou-se para a câmera, fazendo parecer que tinha alguma coisa muito importante nela. Depois de alguns segundos – que pareceram longos e profundos minutos – em um silêncio tão desconfortável, Efrem finalmente se pronunciou:

— Você vai continuar fingindo que não é nada? – ele não parecia raivoso como o fotógrafo supunha anteriormente, mas sim verdadeiramente curioso. – Que as tatuagens não existem?

— Sim. – deu voz sem hesitar aos pensamentos. O rosto do outro homem ficou lívido por um momento, de tal forma que Demétrio se sentiu mal por ser ele o alvo de emoções tão pesadas.

— Tudo bem. – ao que parece, Efrem finalmente se rendeu, levantando-se e arrumando a postura. – Mas saiba que eu não vou deixar você transformar em pó tão rapidamente. – ele se virou dramaticamente (de uma forma que fez Demétrio se esforçar para não virar os olhos) e foi embora. O fotógrafo sem querer soltou uma risadinha, meio sarcástica, meio irritada. Que gracinha de alma gêmea ele foi arrumar!

...

Quando Sun acordou, sentiu seu corpo úmido pelo suor e a respiração entrecortada e manual, difícil. Há tempos se acostumara com seus sonhos diários. Estes, porém, tinham sempre os mesmos protagonistas: crianças que não tiveram a chance de serem felizes. Entretanto, na noite anterior, as coisas mudaram. Outros personagens entraram em sua peça tão milimetricamente ensaiada e fizeram coisas complicadas com seu psicológico. Estava com raiva e nem entendia o porquê. Provavelmente porque não conseguia ficar com raiva de seu ex-marido e menos ainda da alma gêmea dele. Será que agora que finalmente enterrara o assunto, ele voltaria para lhe assombrar? Suspirou pesadamente, decidindo que acabaria com aquilo de uma vez por todas.

Levantou-se devagar, sentindo os ossos estalarem e as juntas rangerem doentiamente. Foi ao banheiro, tomou um banho frio o suficiente para despertá-la pelo resto do dia, separou seu vestido preferido e arrumou os cabelos em um elaborado coque, como gostava de fazer. Pegou as chaves do carro que quase nunca usava para trabalhar, já que sempre ia de carona com o agora ex-marido (então não precisava gastar gasolina extra e poluir um pouco mais a atmosfera, obrigada).

Ensaiou o discurso algumas, talvez muitas, vezes em sua mente. Estava decidida a matar aquele assunto novamente, até que ele não tivesse mais vontade de voltar.

...

Entrou para a sala principal do estúdio, onde os ensaios para as grandes marcas ou grandes campanhas, com grandes fotógrafos e grandes modelos aconteciam. Não coincidentemente, estavam lá Demétrio e Efrem, e o rosto do modelo não era um rosto de modelo. Não tinha imparcialidade, não havia ausência de emoções... Existia, sim, intensidade naquele olhar que ele devotava a Demétrio, de uma forma que fazia com que todos ali se sentissem intrusos. Quase se sentiu constrangida, mas se lembrou de quem estava falando rapidamente.

Fez questão de, depois disso, passar despercebida pelo resto da equipe. Encaminhou-se para sua sala e pediu para o secretário chamar Efrem antes do fim do expediente. Precisava falar com o garoto e, de preferência, sem que Demétrio soubesse. Não era de sua natureza, afinal, causar escândalos e confusões desnecessárias, como julgava que faria se alertasse ao fotógrafo.

Apesar de ter que esperar mais cinco horas, pelo menos, para a dispensa do modelo, o tempo passou rápido graças à quantidade de trabalho atrasado por sua viagem em sua mesa.

Então, antes que pudesse terminar, de repente, estava cara a cara com Efrem. O engraçado é que Sun não o achava tão malditamente atraente assim: ele era lindo, como um verdadeiro modelo dos estúpidos padrões de beleza e, talvez justamente por isso, ela não se visse encantada por ele, como todos pareciam ficar instantaneamente. Era bonito, mas algo, puro preconceito, talvez, fazia-a pensar em uma boneca: linda, porém vazia (não que ela achasse que uma pessoa como Demétrio estivesse ligada a uma casca. É que, apesar de tudo, ela não o achava “essa Coca-Cola toda”).

Sorriu, quase deliciada, para a expressão preocupada que ele fazia. Era engraçadinho um modelo daquele porte ter alguma modéstia. Cruzou maldosamente as mãos embaixo do queixo, apenas em nível de pose.

— O que aconteceu, Senhora Hee? – ele questionou formalmente, sem usar o sobrenome de seu esposo, como mandava a cortesia. Em vez disso, inocentemente a chamou por seu sobrenome de solteira. Não que ela achasse que ele fazia sem querer, realmente. Sun tinha certeza

— Nada, Efrem. – abanou a mão displicentemente. – Eu apenas quero conversar com você. – o garoto abaixou a cabeça em desculpas quando, corretamente, acertou o assunto da conversa.

— Eu queria dizer... – ele começou. – que eu não escolhi e, se pudesse, não seria ele. – expôs de forma tão sincera que a desconcertou por um momento. Sun, meio a contragosto, sentiu o coração amolecer pelo menino. Sabia que não era a intenção dele. Nunca é nossa intenção sofrer. Ainda mais tendo uma alma gêmea como Demétrio porque, minha nossa, se ela achava que existia alguém particularmente difícil para se estar ligado, era ele.

— Eu sei. – respondeu, e soube que foi suficiente para que ele compreendesse todo o seu ponto de vista. – Eu acredito em você. Mas, não é essa a questão.

— E qual é? – ele questionou humildemente.

— Espero que saiba que eu não sou sua inimiga, e nem você é o meu. – suprimiu a vontade de murmurar que não tinha inimigos, quanto mais por algum homem. Quis rir, mas achou que choraria de frustração por toda sua situação, porque nunca se imaginou em tal cenário constrangedor. – Eu sei que você não pensa em mim assim. – jogou verde, porque era o que poderia fazer.

— Sim, mas... – ele se calou, e ela se irritou um pouco por isso. Era o momento de uma conversa franca, tenha dó!

— Mas?

— Eu destruí seu casamento... Você não tem nenhuma raiva? – Pergunta errada. Ela podia ouvir o sangue nos ouvidos por um momento e soube que, se seres humanos não fossem humanos, ela estaria fervendo de raiva.

— Não, Efrem Petrovich. – retorquiu, cheia de energia e desgosto, usando o nome completo sem querer, porque sabia que assim dava a impressão de que demitiria alguém. – Não que eu ache que é da sua conta, mas eu e Demétrio teríamos terminado independente de você. Não éramos pra ser.

Depois disso, eles caíram em silêncio, e ela soube que não tinham mais o que falar. Ainda queria ter seu melhor amigo, ainda queria estar próxima a ele, mas... Não achava que o amava romanticamente e achava menos ainda que queria se meter entre aquela química toda. Suspirou. Ainda tinha muitas coisas nas entrelinhas, mas sabia que o garoto entendeu o que ela queria falar. “Não é sua culpa.” “Ele é meio idiota mesmo.” “Estou te dando apoio.”

A conversa terminara aí.

{...}

Notas finais
E lembrem-se: eu estou sempre respondendo dúvidas sobre a história, o universo e os personagens! Sem dar spoiler, claro, mas enfim. Até a próxima!