Em cinco estações
4 Capítulo três – Colcha de retalhos
Notas iniciais
Capítulo três – Colcha de retalhos
Existem, neste mundo, coisas infinitas. O espaço do 01 ao 02, a paciência de Jó e a criatividade de Sun, por exemplo, se encaixam neste grupo. Entretanto, se havia algo que não dava mais era a sua situação com o pior modelo do século. Oh, meu deus, não que o modelo fosse ruim... Longe disso. Era um imbecil sem profissionalidade, sim, mas ele não deixava de ser incrível, é verdade. Era apenas o querer do garoto em ficar encarando erroneamente a câmera, tentando desviar seu foco nas horas COMPLETAMENTE erradas. Fora isso, eles trabalhavam bem juntos.
Naquela semana, eles terminariam seus contratos com a estilista que os contratou. Ou seja, Efrem estaria livre para voltar para a Rússia, ou que quer que ele fosse fazer, e Demétrio estaria livre de Efrem. E ele ainda não sabia: a) o que sentia e b) se realmente queria que acontecesse as consequências do fim do contrato.
Então, por aquela época mesmo, decidiu que resolveria pelo menos alguns problemas da sua vida. Se ele não poderia se livrar de Efrem o mais rápido possível, precisava ao menos largar para trás seu passado complicado com uma ex-esposa, mas melhor amiga. Conversou pacificamente com Sun, que acatou solenemente sua decisão. Logo, uma semana depois da conversa, ele estava lá, em seu novo lugar para chamar de lar.
O apartamento era muito menor que seu duplex de casado, porém, entrar nele não trazia culpa e nem arrependimentos. Era simples e aconchegante e quase o fazia pensar nos tempos em que viajava pelo mundo com muito menos conforto em sua missão na Terra.
Demétrio, como se sabe, é um fotógrafo dos mais renomados da atualidade, e não se consegue isso apenas trabalhando no – em sua opinião, supérfluo – mundo da moda. Viajar, procurar novas vistas e ares, paisagens e pessoas, realidades e imaginários... Tudo isso fazia parte de buscar a melhor captura do momento, e se lembrar disso o fez olhar para o seu L’Iris d’Or Fotógrafo do Ano, procurando com disfarçado pesar o que o fez parar.
Até os vinte e quatro anos, antes de conhecer Sun, ele não pensava em parar com sua autoconcedida missão existencial. Seu casamento o prendeu em um único lugar, e ele, naquele momento, não conseguia se arrepender por isso. Sua câmera e sua primeira pequena fortuna foram decorrentes deste prêmio, além de conhecer ótimas pessoas e de se estabelecer. Depois que conheceu sua ex-esposa, Demétrio reconhecia, sem saber se com ou sem orgulho, que parou com a vida peregrina que levava. Mesmo assim, sentia falta de seu trabalho, sentia falta de tudo o que sua câmera podia fazer. E foi por esse motivo, por essas lembranças e por conseguir de volta os seus sentimentos que ele se demitiu do estúdio assim que o contrato com Amelie venceu.
Suspirou, um pouco surpreso pelo rumo que seus pensamentos tomaram e, por acaso, olhou o relógio: faltavam vinte minutos para seu encontro amigável com Sun (e este foi o incrível nome que eles deram para o almoço que teriam) e ele estava terrivelmente atrasado. Agradeceu ao seu subconsciente por avisá-lo de algo assim. Passou a manhã toda, sem que percebesse, arrumando suas coisas das caixas e se perdendo dolorosamente em recordações. Por esse motivo, atrasou-se para seu compromisso. Voou para o banho, trocou de roupas com toda a pressa humanamente possíveis e correu para a garagem.
Em pouco tempo, estacionou em frente do restaurante combinado. Entrou e logo avistou, sentada a uma das mesas, sua amiga, bonita e elegante como sempre. Demétrio se controlou muito fortemente para não correr para ela e esclarecer a hora em que chegara, porque conhecia a raiva que ela tinha por atrasos. Em vez disso, andou calmamente até o lugar e acomodou-se na cadeira. Ela o olhou, desgostosa e visivelmente irritadiça. Tudo o que falaria fugiu de sua garganta na primeira oportunidade. Na frente dela estava um copo com suco, o que fez parecer a espera muito maior do que realmente era. Sentiu-se culpado.
Ele até queria se explicar, mas aquela mulher, com sua austeridade e seu semblante sério, atrapalhava.
— Sou digna de saber o porquê do atraso? – ela questionou enquanto, depois de quinze segundos, decidiu que o cardápio era muito mais merecedor de seu olhar acusador que Demétrio.
— Eu estava arrumando as minhas coisas... O tempo passou rápido e...
— Já entendi. – a publicitária levantou as sobrancelhas ceticamente, como se não quisesse acreditar em algo particularmente estúpido, como “brancofobia” ou qualquer outra babaquice.
— Estou falando sério. – retrucou levemente, porque a conhecia. Ela o encarou, quase divertida, por milésimos de segundos, então não olhava mais.
— Sim, claro. Não te chamei de mentiroso em nenhum momento. Aliás, acredito em você. – Sun bebericou seu suco de melancia. Eles ficaram em silêncio confortável novamente, e Demétrio aproveitou para ler o menu e escolher logo o que queria. De repente, Sun fez uma pergunta no mínimo curiosa, se tratando dela. – Como anda sua vida amorosa pior que a maquiagem da concorrência? – a pergunta saiu incrivelmente debochada, e o fotógrafo se controlou muito para não se levantar e sair.
— Eu não sei se você sabe... – ele começou, um pouco aborrecido. – mas acabei de sair de um casamento. Minha vida amorosa está em frangalhos. Obrigado. – ela riu, o irritando um pouco mais.
— Eu não quis dizer sua vida amorosa de um passado recente. A segunda parte, a do presente, por favor. – ela não parecia disposta a reconsiderar sua pergunta. Demétrio respirou fundo, não mais irritado com ela, mas inconformado com sua situação.
— Eu estou agradecendo a deus pelo fim do contrato. Não quero mais relação com esse garoto e o trabalho se torna completamente atrapalhado por ele. – ele procurou as palavras, e então acrescentou. – Insistente, no mínimo! – Sun o encarou como se ele fosse a vergonha de sua família. – O quê? Que foi?
— Nada. Até tento te entender, mas você complica. Eu já tive uma alma gêmea, você sabe. E ele se foi muito rapidamente depois de nos encontrarmos. – ela comentou cheia de pesar. Ele sabia da história do garoto que morreu na linha da miséria alguns anos depois de conhecer sua rica alma gêmea. Não podia sequer imaginar como ela se sentia. – Alguns anos não são suficientes quando você encontra alguém com esse nível de ligação. E se você não agir logo, vai se arrepender amargamente! Nem todos os prêmios de fotografia no mundo irão tirar de você o vazio que a falta de algo tão profundo faz.
Ele quis ignorá-la, porque sabia da situação de Sun quando eles se tornaram amigos, e sabia que a ligação dela com sua alma gêmea era totalmente diferente da dele com Efrem.
— Eu agradeceria se nós pudéssemos esquecer que esse mundo existe por uma hora. Eu não preciso ficar me lembrando da minha vida fracassada agora. – explanou meio a contragosto. Ela sorriu resignada.
— Ok. Por mim tudo bem, eu não me importo se você quiser apenas fugir do problema.
Demétrio quis de verdade ir embora. Pois, se sabia de algo, era que Sun só o deixou em paz porque ela tinha o conhecimento de que plantara em sua cabeça a semente da dúvida e da reflexão.
...
Era o último dia do contrato e Efrem se sentia um pouco destruído. Aquele ensaio passou muito longe de ser o seu melhor trabalho, e o tempo que tinha ao lado de sua alma gêmea estava acabando. (O que ele só veio a perceber naquela noite, entretanto, o fazia se sentir melhor: ele estava vivo antes de Demétrio, e ele estaria vivo depois dele.).
A estilista que o contratara, Amelie Louis, estava maravilhada com as imagens. Ela disse que eram apaixonantes e cheias de química, e agradeceu a Demétrio e a Efrem. Mal sabia ela, entretanto, que deveria agradecer às suas tatuagens (e Efrem não se arrependia, nem um pouco, por estar se sentindo tão amargo naquele momento).
Pegou suas coisas e segurou o celular, pronto para chamar um táxi, quando Demétrio apareceu, brotando do nada, ao seu lado. Como resultado, Efrem levou um susto tão grande que um ofego saiu de seus lábios (depois, quis morrer de vergonha, mas não vem ao caso). O fotógrafo parecia ter um agudo problema em encarar os olhos das pessoas, mas se agravava ainda mais quando se tratava dos seus. Eles ficaram em silêncio, lado a lado, por horas e séculos, mas que na verdade foram pífios segundos. Quando Efrem pegou coragem suficiente para falar, Demétrio parece ter tido a mesma ideia. O modelo se calou, esperando o outro dar voz aos pensamentos. Então, timidamente, o fotógrafo disse:
— Precisamos conversar, né? – e Efrem quis cometer um homicídio qualificado que lhe renderia a prisão perpétua no mínimo (mas como ele mataria sua alma gêmea, acabaria em um manicômio, era muito para se considerar).
‘Né?’!, quis perguntar. Eu peço isso há três semanas, seu idiota teimoso e inconsequente! Em vez disso, acenou com a cabeça, firme e quase raivosamente.
— Sim. Por favor.
...
Demétrio insistiu para que fossem para seu apartamento a fim de ter mais privacidade e Efrem, felizmente, aceitou. Aquele não sabia o que faria se este finalmente tivesse criado juízo e desistido de sua perseguição.
Mesmo assim, ainda que a ideia fosse sua, tudo parecia descoordenado e errado quando os dois ficavam sozinhos em um ambiente tão íntimo, ao menos na cabeça do fotógrafo. Estar a sós com Efrem queria dizer muitas coisas, as quais ele preferia ignorar por hora. Sorriu meio sem jeito e apontou um dos sofás da sala, sentando-se rapidamente no oposto. Seu exemplo, graças ao bom deus, foi seguido, porque não saberia como agir se o garoto resolvesse ser petulante a esta altura.
— Você pode falar quando quiser. – Efrem jogou verde, levantando a sobrancelha perfeita com um quê de indignação e desgosto.
— Efrem. – ele começou hesitante e cheio de erros, mas sinceramente. E o garoto parecia irritado com toda a razão do mundo. Segundos muito longos para ser somente isso se passaram quando resolveu continuar. – Eu sei o quanto tudo isso é frustrante. – continuou, agora entendendo e pegando o fluxo do discurso. – Não entenda mal, eu não tenho nada contra você. É muito maior que nós dois, sabe? Quer dizer, não sei se posso colocar em palavras... mas eu não quero ser uma ferramenta do sistema. Eu não quero seguir a onda, eu não quero ter que ficar com você por algo tão estúpido quanto duas tatuagens... Eu não penso que você seja obrigado a me compreender, só peço que... – suspirou pesadamente, sem saber exatamente o que pediria, porém, sabia que precisava fazê-lo logo para esclarecer as coisas ali.
— Eu entendo. – e foi tudo o que Efrem disse. Porque era verdade.
Eles eram almas gêmeas, estavam ligados por algo muito maior que apenas tatuagens, estavam unidos por algo transcendental que era realmente maior que eles. Era também maior que aquele mundo. Não importava onde estivessem, nem se neste lugar existisse as marcas... Eles ainda estariam mais próximos em relação a quaisquer outras pessoas.
— Eu sempre entendi, na verdade. Era só olhar nos seus olhos. – o modelo riu envergonhado. – Queria dizer que não por um capricho egoísta, só que apenas sei que não seria justo fazer isso com você. Eu conheço o meu lugar agora... Mas quer saber? Pode ser que eu não te leve pra cama. Nunca! Talvez nem beijo eu ganhe! Ainda assim, eu quero tanto passar um tempo ao teu lado...
Demétrio foi quem riu dessa vez, um pouco constrangido, porque todos os seus planos foram rapidamente arruinados e suas defesas foram completamente derrubadas por um menino que acabou de pegar o bonde e já queria sentar na janelinha. Encarou-o melhor e entendeu porque eram almas gêmeas. Era quase um paradoxo, todavia, olhar para Efrem era como olhar um espelho: os seus sentimentos, os seus sonhos. Tudo estava ligado. Mesmo que soubesse que eles eram nada além de perfeitos opostos.
— Eu não me importaria de ser seu amigo. Se você não tentar nenhuma gracinha e se parar de ser tão sem compromisso com o trabalho. – expôs as propostas sem muita energia na última frase. Efrem riu deliciosamente.
— Eu nunca disse que queria outra coisa com você.
...
Depois disso, a vida de Demétrio parecia muito mais fácil. Sua consciência não estava tão pesada quanto no dia em que conversara com Sun e seus dias não estavam mais tão culpados sempre que olhava os tais olhos dourados. Ele tinha um amigo agora. Era um tipo de amigo meio diferente, alguém que o entendia com um olhar, que o fazia sentir o joelho tremer e o peito formigar, é verdade, mas ainda assim, um mero amigo. Como qualquer outro (e talvez, o maior defeito de Demétrio fosse sua teimosia).
Eles se encontravam algumas vezes em parques, sorveterias ou restaurantes, onde, além de consumir o que os lugares tinham de melhor a oferecer, apenas conversavam sobre coisas banais. Às vezes, iam ao cinema em algum lançamento de filme de super herói (e Demétrio tomava todo o cuidado do mundo para o filme não ser qualquer coisa relacionada à romance). Ainda, de vez em quando, passavam pela grande livraria do Shopping, para comprar livros ou material de desenho para Efrem.
O tempo passava rapidamente quando estavam juntos e Demétrio não conseguia se arrepender de sua decisão quanto este relacionamento. O modelo parecia estar decidido a não voltar para sua cidade natal. No meio tempo, o italiano visitava Sun e eles faziam seus programas de melhores amigos normalmente. Melhor ainda: o divórcio amigável saíra e eles não poderiam estar em melhores termos. Neste intervalo de tempo que pareceram anos, só se passaram cinco semanas.
(E, portanto, sem que percebesse, Demétrio estava preso em uma teia complicada e violenta, chamada amizade. A aranha era maquiavélica e ardilosa, ele sabia, com seu sorriso bonito, com as covinhas e com os olhos cor de mel. Ah, os olhos cor de mel...)
Mesmo assim, não foi o suficiente para que se arrependesse. Esta parte ainda estava por vir. Aconteceu no fim daquele semestre.
O céu estava escuro mesmo que fossem apenas quatro da tarde, repleto de nuvens quase negras; uma chuva de verão estava por vir, e Demétrio sabia que seria forte e pesada. O fotógrafo caminhava ao lado de Efrem naquele dia, e eles estavam apressados e irritados, porque o temporal com certeza os pegaria. Estavam prontos para alugar bicicletas e andar com elas no parque, mas os planos foram definitivamente alterados pela mudança brusca e repentina da condição atmosférica. Efrem o encarou rapidamente.
— Eu não acredito que você não olhou a previsão do tempo. – ele acusou, mesmo que um traço de diversão fosse ouvido em sua voz.
— Você também não olhou, capitão prevenido. – cuspiu venenosamente de volta. Efrem riu levemente.
— Tem razão, eu não tive tempo de ver TV hoje. – deu de ombros. Demétrio virou os olhos para a simples e pura vontade de deixá-lo irritado. Ele nunca conseguia, o que tornava a tarefa engraçadinha. Apenas porque era Efrem, e isso o incomodava.
— Então, por favor, se apresse. – ele ordenou, jogando, em seguida: – Você não está querendo estragar seu penteado. – riu quando recebeu uma leve palmada no braço, e isso apenas o deixava intrigado, porque, entre eles dois, as pequenas coisas eram realmente suficientes (quando estava sozinho e refletia mais a fundo sobre isso, a frustração era apenas muito presente, já que nunca tivera esse tipo de relacionamento até aquela pessoa em específico).
— Meu deus, eu não acredito nisso, você é impossível! – Efrem provavelmente diria mais alguma coisa, no entanto, se interrompeu quando os primeiros pingos de chuva bateram em seu rosto. Ele olhou para cima, e de repente não eram mais parcas e solitárias, mas gordas e muitas gotas de água gelada que batiam em tudo o que estivesse em seu caminho. Como que em um movimento combinado, em pura sincronia, eles começaram a correr, a fim de inutilmente fugir da chuva.
Em pouco tempo, ainda correndo e ainda lado a lado, estavam ambos ensopados. Mesmo assim, poucos metros antes do apartamento do fotógrafo, Efrem começou a rir, um riso tão limpo e de forma tão espontaneamente que Demétrio não teve alternativa senão rir junto. E os dois estavam molhados, rindo como dois estúpidos de algo que muito provavelmente não tinha graça, se tratando do modelo, e em total desalinho. Apesar disso, olhando para aquele rosto cujos olhos eram cor de mel, encarando aqueles cachos desfeitos e observando os lábios repuxados em um sorriso pueril, Demétrio soube a partir dali que estava irrevogável e fatalmente apaixonado.
...
Estava se sentindo uma criança estúpida depois de sua incrível conclusão. Pensou seriamente em cortar contato com o garoto, mas sabia que seria infrutífero. Sun agiria como o grilinho do Pinóquio, sendo a sua consciência e o fazendo se sentir culpado. E Efrem... Bem, Efrem era mais insistente que gripe no inverno, não desistia facilmente, muito menos se Demétrio pedisse, como se pode ver. Riu sem nem uma emoção contente no som, e folheou mais uma vez seus álbuns antigos.
Além de refletir sobre sua fracassada vida amorosa, pensava seriamente em um novo projeto. Estar emocionalmente instável e há algum tempo longe do mundo da moda o fazia ter uma mente fervilhante de ideias para seu projeto (isso não queria dizer que deveria agradecer a Efrem por bagunçar com sua estabilidade duramente conquistada).
Olhava para o projeto que o fez ter o seu mais amado prêmio, procurando o que ele poderia ter de especial. Via a luz, via o jogo que fazia com a câmera, via as expressões corporais e faciais das pessoas, além do ângulo... E como em um desenho animado, em que uma lâmpada se ascende acima da cabeça do personagem, ele sentiu uma ideia de repente florescer em sua mente que antes parecia um deserto avermelhado. Riu, dessa vez sinceramente.
Procurou seu celular ao seu redor na cama e, quando o encontrou, o número de Efrem era discado como se sempre saísse de seus dedos. Só precisou escutar o barulho irritante que indicava chamada três vezes, e logo estava na linha com o modelo.
“Alô?, Demétrio, o que foi?”
— Como assim “o que foi?”?. – indagou curioso. – Eu posso estar te ligando apenas porque somos amigos.
“Ah, eu acho difícil.”, ouviu o cinismo na voz alheia. “Você nunca liga se não estiver desesperado. E você só ligou uma vez!” Demétrio riu um pouco, ouvindo a respiração lenta do outro lado da linha. Isso o acalmava como o barulho do útero acalma um bebê.
— Eu estou trabalhando em um novo projeto. – informou mais seriamente dessa vez. – Em resumo, eu tenho uma proposta de trabalho para você.
...
Eles estavam fazendo de tudo juntos nas últimas semanas e, se Demétrio tentasse bastante, mentiria para si mesmo a ponto de acreditar que era apenas pelas fotografias. Claro, o projeto não envolvia nem de longe apenas Efrem, era bem mais abrangente que um único rosto. Entretanto, o modelo o ajudava bastante quando o sentido era inspiração. De outra forma, ele era apenas irritante.
Estava olhando todas as fotos que tinha até agora, e era um resultado surpreendente até para ele. As crianças, as mulheres e os homens, todos vistos da mesma forma, mas ainda assim de forma diferente. Seu projeto em si poderia ser a coisa mais simples do mundo, porém, sair daquele mundo que até hoje ele não sabe como foi lá parar, e voltar a fazer coisas tão surpreendentes com uma câmera o fazia se sentir vivo. Efrem chegaria a pouco tempo para que eles fizessem o que Demétrio chamou de Il grand finale. E assim foi denominado apenas porque o fotógrafo estava com vergonha demais para voltar atrás.
Escutou a campainha e pensou seriamente, pela última vez em voltar atrás. Mesmo assim, vestiu toda a sua dignidade e caminhou até a porta, abrindo-a. Efrem estava do outro lado, muito mais casual do que há três meses, quando ainda trabalhavam juntos por contrato. Sorriu involuntariamente, tendo o gesto adoravelmente retribuído, e abriu espaço para o homem entrar. Estavam assim nos últimos dias: não precisavam de muitas palavras, mesmo que ainda falassem apenas por uma necessidade tola de ouvir a outra voz.
Fechou a porta e caminhou para a geladeira, enquanto Efrem retirava os sapatos e sentava-se no sofá. A cozinha era de frente para a sala de estar, como em uma tradicional cozinha americana, e Demétrio se sentia verdadeiramente agradecido, porque assim não era preciso cortar nenhum tipo de contato visual.
— Você quer ver as imagens? – o anfitrião perguntou enquanto servia um copo de chá gelado para si mesmo. Apontou com a cabeça para a caixa em sua mão. – Quer?
— Não, obrigado. Para as duas coisas. Quero ver depois das fotos de hoje. – Demétrio deu de ombros e, de uma só vez, bebeu o chá. Por um momento, sentiu falta de quando era algo mais forte colocado para dentro. Olhou o expectante rosto de Efrem e logo abandonou a ideia.
— A última parte do projeto pode ser um pouco intimidadora pra você. – avisou logo enquanto voltava para a sala de estar.
— “Intimidadora” como? – indagou sem nenhum nervosismo. O modelo não achava que qualquer coisa que Demétrio fizesse diretamente pudesse machucá-lo àquela altura do campeonato.
— São nus artísticos. – o fotógrafo finalmente expôs, com a maior naturalidade que pôde, mesmo que sua vontade fosse, naquele momento, parar com todo o projeto pelo conforto de Efrem. Ainda assim, o garoto conseguia surpreendê-lo.
— Achei que você me faria segurar um bicho morto. Nossa. – Efrem suspirou dramaticamente com a mão sobre o peito. Depois, sorriu para si. – Enquanto modelo, esses trabalhos são normais. Depois de um tempo, você perde a vergonha. E também... Eu confio em você.
Foi o suficiente para que Demétrio pegasse a câmera.
...
Efrem estava deitado em sua cama, sem nenhuma peça de roupa. A pele cor de chocolate, sem “imperfeições”, estava visivelmente arrepiada pelo ar frio de fim de tarde e os olhos cor de mel eram muito ingênuos para quem estava naquela situação. Já tirara fotos de Efrem em pé perto da porta, de Efrem no chuveiro, de Efrem na sala de estar... Nenhum dos dois ficou assustado com a nudez ou com o fato de estarem cara a cara. Foi apenas natural. Entretanto, estarem em uma cama, no ambiente de quatro paredes tão intimista que era o quarto era uma experiência completamente diferente.
Mesmo assim, eles foram profissionais. E Demétrio capturou absolutamente tudo que seus olhos bem treinados poderiam ver. Os fios de cabelo fora de lugar, a pele eriçada, a tatuagem, os olhos grandes e dourados... Quando terminaram, o fotógrafo olhava as imagens pela memória da câmera. Sorriu mais que satisfeito com o resultado. Encarou o garoto sentado em sua cama, agora coberto da cintura para baixo com seus lençóis e se aproximou. Timidamente, como não costumava fazer, iniciou um assunto.
— Hei, obrigado. De verdade. Ainda bem que você estava disponível, porque eu não sei o que seria do projeto sem você. Aliás, você ainda tem que ver todas as fotos, porque eu acho que seria legal uma aprovação antes de eu enviar todo o ensaio. E olha, pessoalmente você aparenta melhor, mas as imagens ficaram... – e seu incessante discurso de inglês rápido e quase errado, que mostrava seu sotaque italiano por puro nervosismo, foi duramente interrompido.
A boca de aparência macia, mas que na verdade estava ressecada pelo clima, estava unida à sua, de uma forma que Demétrio vinha fantasiando, e de uma forma que era completamente diferente. Não era quente e apressado, nem áspero e brusco. Era, em vez disso, morno e lento, confortável e doce. Não era nada tão intenso quanto em seus pensamentos, e mesmo assim, de algum modo, conseguia ser melhor. Seu coração estava louco em seu peito e sua mão estava confortável no ombro desnudo. Quando menos esperava, o beijo foi interrompido. Efrem estava abaixo de si, com a respiração ofegante e os olhos sorridentes.
Demétrio riu. Teria que se levantar logo, porque aquele primeiro beijo, por hora, não passaria disso. Ele não estava desesperado, obrigado. Sua risada logo foi acompanhada pelo som de criança que Efrem fazia. Trocaram mais um beijo, que poderia ser uma continuação do outro e ainda se encaixar em apenas um.
— Eu não sei o que dizer. – Demétrio sussurrou, meio estarrecido e meio maravilhado. Efrem sorriu contra seus lábios e murmurou de volta, fazendo seu coração bater forte e seu estômago contorcer.
— Você devia ter me deixado antes. Agora é tarde demais. Não quero ir embora.
{...}
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