Em busca de abrigo
3 Tempestade
Notas iniciais
O dia amanheceu escuro. Nuvens cinzentas cobriam o céu, impedindo que até mesmo o Sol fosse visto. Uma brisa gelada gerou um breve incômodo no nariz de Inna, remexendo seus bigodes. Abrindo os olhos, via seus irmãos se pondo de pé, dando pequenos bocejos.
― Hoje vamos a um lugar novo. ― Anunciou Nora, embora houvesse pouca determinação em sua voz. O céu encoberto parecia lhe trazer dúvidas ou medo. Mas de quê? Inna fitava sua mãe e via uma grande lince forte e inteligente, então não entendia o porquê de a chuva a impor receio.
Os filhotes captaram a mensagem. Euforia e curiosidade poderiam ser farejadas até alguns metros de distância. Contudo, junto a elas, logo se sentia também a inquietação. Um novo lugar. Onde? Por quê? Deixar o conforto de sua agradável toca não fazia sentido.
― Para onde vamos, mamãe? ― Jouko perguntou.
― Por que vamos sair daqui? ― Anika emendou seu questionamento.
A mãe lince ronronou divertida. Gostava de ver o quão inquisitivos eram seus bebês.
― Vocês estão crescendo, e precisam de cada vez mais comida para se alimentarem. ― Explicou. ― É verdade que há muitos coelhos aqui, e vários outros pequenos roedores. Mas eles estão indo para outros locais. Está ficando mais difícil encontrar várias presas num mesmo dia. Estive pensando sobre isso ontem à noite, e cheguei na conclusão de que precisamos também sair daqui.
Os irmãos mexiam as orelhas, inquietos e sem saber ao certo o que pensar. Porém, os argumentos de sua mãe soavam sensatos e pertinentes. Apenas torciam para que pudessem comer logo, pois começavam a sentir fome.
― Já estão grandes o suficiente para conseguirem me acompanharem numa viagem assim. Só devemos tomar muito cuidado, e vocês não podem se afastar de mim em hipótese alguma, entenderam?
― Sim, mamãe. ― Todos disseram em uníssono. Compreendiam os perigos que sua mãe já lhes ensinara, e que vagar por aí longe da toca era definitivamente um grande risco. Mas que valeria a pena, provavelmente.
O vento rugia do lado de fora do abrigo de pedras. Seu som era melancólico, e por onde passava, levava algumas folhas junto. Como se não fosse capaz de ser infeliz sozinho. Apesar disso, ao bater no corpo de Inna, trouxe-lhe frescor. Ele brincava com seus pelos, fazendo-a sorrir. E então, após as advertências da mãe, eles enfim saíram. Nora lhes disse que precisariam atravessar o pequeno riacho, e aquilo deu leves calafrios na filhote. Imaginou que em seus irmãos também. Afinal, nunca haviam passado por experiência parecida. Mas mesmo preocupados, tentavam ver a grande aventura que era tudo aquilo.
Mal sabiam que Nora já carregava todas as preocupações por todos eles.
Seguiram caminhando, sem pressa. Alguns feixes de grama mais curta causavam uma sensação engraçada em suas patas. Após alguns minutos, a mãe miou para que se agachassem. Ela se agachou também, e então notaram dois coelhos a frente. Os irmãos se encolheram o máximo possível para não serem vistos, e assim, não atrapalharem a empreitada da mãe, que se esgueirava silenciosamente. Seus movimentos eram precisos e belos de serem assistidos, mexendo apenas o necessário, e parando ao chegar perto demais. Nenhum músculo saía do lugar, sua respiração era impossível de ser ouvida ― a ansiedade pelo alimento fresco era perfeitamente controlada. Um iniciante poderia já sair em disparada, o odor da presa deixando-o agitado demais, a sede impulsiva de caçar.
Mas ela não.
A fêmea obviamente sabia o que estava fazendo. Já havia feito a mesma coisa outras milhares de vezes, umas com sucesso, outras nem tanto. Porém, precisava ter agora. Seus filhotes precisavam muito daquelas proteínas para terem forças durante o dia. Atenta, era agora ou nunca. Num salto perfeitamente calculado, já estava a pouquíssimos metros dos coelhos, que começariam a correr. Mas Nora fora mais ágil, e, sem nem precisar correr muito, capturou um deles. O outro continuava a correr para longe, sem olhar para trás. Talvez nem tivesse percebido a fatalidade de seu companheiro.
Bem, pouco importava.
― Comam para podermos continuar. Foi uma grande sorte encontrarmos esses coelhos aqui. ― Disse, um pouco ofegante por causa da adrenalina do momento.
Sem questionamentos, os quatro se puseram a comer, animados somente de farejarem o cheiro de sangue fresco. Sentiam-se mais preparados para caminharem agora, com seus adoráveis focinhos manchados de vermelho. Nora checou se havia sobrado algo, por menor que fosse. Não sabia quando iria arrumar comida para si mesma, então se contentou com pequeninos pedaços grudados aos ossos. Teria que ser o suficiente por ora.
― Vamos. ― Chamou, com seus pequenos felinos ao seu redor.
A jornada parecia realmente extensa para suas pequenas patas, entretanto, tentavam distrair uns aos outros brincando algumas vezes. Derrubavam-se no chão, mordiscavam-se, tudo sem ficar longe demais de Nora, que nunca parava de andar. Inna estava gostando de observar a paisagem, embora fosse parecida com o de sempre ― várias árvores vastas, arbustos e muita grama. Mas tentava se atentar a qualquer coisa diferente, como um grande tronco caído que tiveram que saltar.
Nora pulou graciosamente sem dificuldade, como esperado. Os filhotes tentaram replicar, uns com mais sucesso do que outros. Ainda assim, riam da situação, e continuavam a caminhada que parecia não ter fim. O vento uivava com mais força, e a mãe lince conseguia sentir que logo a chuva tão contida nas nuvens escuras desabaria dos céus. Por isso, tentava seguir o mais rápido possível, porém sabia que iriam enfrentá-la. Torcia para que não atrapalhasse a viagem, embora também soubesse que era inevitável. Soltou um suspiro pesado.
“Será que ainda estamos muito longe?” Inna se perguntava, mas preferiu manter os questionamentos consigo. Não imaginava receber uma resposta concreta. Ela e seus irmãos saberiam quando estivessem chegando.
Continuavam a caminhada em silêncio, apenas com alguns miados hora ou outra para checar se estavam todos bem. E sem mais avisos, gotas consistentes passaram a molhar o pelo dos felinos. O céu escureceu mais do que poderiam imaginar. O cheiro da terra molhada penetrava em seus narizes. Era agradável, em total oposição àquele momento. Inna tentou se apegar nisso. Agora entendia a apreensão de sua mãe. Fazer uma travessia em meio a uma chuva densa era um tanto assustador.
― Mamãe, vamos ficar bem? ― Soren engoliu em seco, a voz trêmula, o incômodo notável por estar encharcado.
Nora se voltou aos quatro filhotes. Todos com feições de medo ou dúvida, as orelhas rentes à cabeça. Lambeu um a um, assegurando-lhes que ficariam bem. A chuva seria um breve empecilho. Imaginou se estava tentando convencê-los ou convencer a si mesma daquilo.
Enfrentaram aquela espécie de temporal, que ainda insistia em cair, até chegarem nas margens de um rio. Não era tão largo, a passagem provavelmente não seria muito difícil com o auxílio da mãe, mas esta estava petrificada. O que temia havia acontecido ― a chuva tornara o rio mais cheio e com a correnteza imprevisível. Respirou fundo. Levaria os filhotes com o maior cuidado que pudesse, um de cada vez, e ficaria tudo bem. Logo aquilo estaria acabado.
― Conseguimos atravessar, mamãe? ― Inna decidiu perguntar, um pouco aflita. O som da água corrente não a tranquilizava muito, estava sendo difícil encontrar a beleza quando o medo tomava conta de seu pequenino corpo.
― Sim. Fiquem nas partes rasas e esperem a vez de cada um. Quando eu os levar, tentem não engolir água, está bem? ― Tentava passar o máximo de calma possível aos filhotes, mas eles eram capazes de farejar uma pitada de temor. Concordaram, é claro, pois confiavam no que sua mãe lhes dizia. Sabiam que ela estava fazendo o melhor que podia.
Deixando três filhotinhos apreensivos no raso, Nora pegou Inna pelo cangote. Ela se tremia um pouco devido aos pelos molhados, e pensava no frio que iria sentir depois. Não conseguiu segurar um miado de inquietação enquanto a mãe entrava na água, mas tentava imaginar que já, já estaria do outro lado.
Até que a correnteza se embraveceu, fazendo a mãe lince soltar sua filhote. Inna guinchava e batia as patas na água o máximo que conseguia. Nunca havia nadado, porém seus instintos gritavam naquele instante. Seus irmãos também estavam na água agora, tirados da segurança do raso. Nora se desesperou. Nadava contra o fluxo do rio, localizando os filhotes na água. Todos miavam e berravam por ela. As águas voltaram a ficar mais constantes, e ela podia nadar com mais facilidade novamente. Sabia que não ficaria assim por muito tempo até que o rio voltasse a puxá-los, então apanhou os pequenos o mais rápido que conseguia, colocando-os na margem.
Eles tossiam e choravam, tremiam de frio e de puro horror, mas encontravam consolo em si mesmos. Já haviam três. Faltava Inna, que estava fazendo o possível para chegar à terra, também notando a trégua da correnteza. Via seus irmãos, e via também sua mãe. Trocaram olhares, e agora sabia que seria tirada dali. Já se sentia mais aliviada. Mas a correnteza estava ficando mais e mais forte. A trégua havia chegado ao fim, e o rio dispôs de seu ímpeto novamente, impedindo que Inna gritasse, e que Nora a alcançasse. Ela nadou aterrorizada, não podia perdê-la assim.
Era tarde, porém. Inna já não enxergava nada, não tinha mais forças para lutar contra a água furiosa. Não tinha mais destino. Sua última visão fora a mãe lince, com o olhar apavorado, tentando resgatá-la. Exausta, e sem saber se sobreviveria, deixou que o riacho a levasse para onde achasse melhor.
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