Em busca de abrigo
4 Perdida
Pequenos tossidos podiam ser ouvidos por quem estivesse perto, o que equivalia a quase ninguém ― exceto por alguns sapos, coaxando despreocupadamente uns com os outros. Nas margens do riacho, com uma parte do corpo ainda na água, que se encontrava completamente branda agora, estava Inna. Finalmente saía de seu estado de desmaio, e tossia freneticamente para expelir restos de água que engolira. Estava escuro, mas a Lua não tinha muito espaço no céu, e felizmente não chovia mais. Olhou para os lados, como sempre, mas dessa vez seus irmãos não estavam lá lhe oferecendo calor, o que explicaria o porquê de tremer tanto, com os pelos úmidos. Pior ainda: não viu sua mãe em lugar algum, fazendo seu coraçãozinho disparar.
Afinal, onde estava?
Esforçou-se para se recordar de como havia parado ali, e sem perceber, flashes de horas atrás piscaram em sua mente. A longa caminhada, a chuva, o rio, e a correnteza. Fora arrastada para um local que não tinha ideia de onde era, sentia-se frágil, em seu físico e em seu emocional. Até onde sabia, seus irmãos estavam todos bem. Mas como iria encontrá-los? A mãe lince sempre lhes advertiu para que não fossem para longe de seu campo de visão, pois um filhote solitário está fadado ao perigo.
Não tinha ideia do que fazer, de como prosseguir. Não sabia onde seria sua nova casa, então também não poderia ir para lá. Não sabia absolutamente nada. Tossiu mais um pouco, e enfim tirou as patas traseiras da água, sacudindo-as. Queria tanto poder se secar ao Sol, porém, para isso, precisaria sobreviver até ele surgir. Sentou-se, buscando colocar as ideias no lugar, e deixou algumas pequenas lágrimas escorrerem por seu focinho. Como se manteria viva sozinha naquele lugar estranho aos seus olhos? Fitou o céu, em busca de respostas ― que não seriam dadas.
Passados alguns minutos, tomou coragem de andar, seguindo apenas seus instintos. Precisava sair dali, para onde quer que fosse. No fim, só havia um caminho disponível: se adentrar na floresta, visto que não poderia seguir pelas margens do rio, pois seria necessário subir por um morro íngreme demais. Talvez no dia seguinte encontrasse algum rastro de sua família, quando estivesse menos exausta. Pôs as pequenas patas para caminhar, assustada. Tentava se manter meio agachada para atrair o mínimo de atenção possível. Não queria arriscar ser vista por algum animal maior. A falta de segurança que sentia lhe trazia calafrios. Se estivesse com a mãe lince agora, caminharia quieta, porém confiante de que não sofreria nenhum mal; sua mãe a protegeria, assim como aos irmãos. Ela saberia o que fazer em qualquer situação perigosa, e lhe transmitiria a maior tranquilidade do mundo.
Levada em seus pensamentos, quase gritou de susto ao passar por um arbusto que revelava alguns corvos escondidos, que logo saíram voando e grasnando, causando surpresa aos seus ouvidos desprevenidos. Respirou fundo, tinha de se manter focada. Olhou ao redor e não percebeu perigo iminente. Continuou andando, sempre alerta, até ver muitas pequenas luzinhas um pouco a sua frente. Com a curiosidade desperta, resolveu checar, mas ainda receosa do que poderia ser.
Porém, ao se aproximar, deu-se conta de que eram inofensivos vagalumes. Nunca tinha visto tantos em um lugar só, e era realmente bonito de se admirar. Os pequenos insetos cintilavam silenciosamente na floresta escura, dando vida ao lugar que antes parecia sinistro. Sentou-se para observá-los por mais algum tempo. Afinal, precisava aproveitar aquele delicado espetáculo que lhe fora proporcionado. Não sabia o que poderia lhe aguardar depois. Sem perceber, um deles pousou em seu focinho, fazendo-lhe sorrir.
Decidiu continuar andando para onde achasse correto e deixar os vagalumes para trás. Tentava se manter otimista, agora, buscando qualquer tipo de beleza em qualquer canto da mata. Por vezes encontrava alguns cogumelos diferentes e maiores que o normal, mas era a única coisa que era capaz de notar no meio do breu e das folhas. Tudo era igual, tudo era assustador, contudo, permaneceu focada em chegar aonde quer que suas patas estivessem a levando.
Chegou em outra parte das margens do riacho, o que lhe deu esperanças. Era melhor ficar pelas bordas do que floresta adentro. Mas logo sentiu um odor familiar. Familiar demais. Farejou o ar com toda a concentração que podia, e reconheceu os rastros de sua mãe e irmãos.
“Eles estiveram aqui! Eu tenho certeza, eles passaram por aqui!” Inna exclamava em pensamento, animada demais com a ideia de poder se reunir com a família. Aquilo não parecia mais tão irreal. Farejando mais, quase podia ter a imagem perfeita em sua mente de sua mãe e os três irmãos. Sim, estava certa de que os três estavam vivos, o que gerou um alívio em seu peito. Todos estavam bem.
O cheiro estava forte, e a filhote quis chorar com as imagens dos felinos que montava em sua mente. Seguiu caminhando, completamente elétrica com as esperanças renovadas, até o odor começar a se esvanecer. Porém, ainda conseguia notar alguns poucos rastros de pegadas no chão, que levavam para uma parte ainda mais funda e escura da floresta.
Inna engoliu em seco, pensando no quanto queria estar com sua mãe naquele instante. Não teria medo algum se estivesse com ela. Mas estava só, dependendo somente de seus instintos de sobrevivência e dos ensinamentos de Nora. Teria de ser corajosa.
“Vou encontrar vocês” Prometeu para si mesma, na quietude de sua cabeça. E, determinada, continuou andando, em seus pequenos passos de filhote.
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