Notas iniciais
fato curioso: especialmente em shelter 2, lobos são vistos como vilões da lince. eles a perseguem sempre que podem e são amedrontadores. mas sabia que na vida real, é mais comum que linces matem filhotinhos de lobos? às vezes eles entram nas tocas dos filhotes e matam todos! the more you know guys...... fiquem com o cap hehe

A Lua estava no topo do céu. O ar estava meio gélido, porém agradável, de certa forma. Inna despertava, e, apesar de tudo, enfim se sentia descansada. Ao seu lado estava Fen, seu novo companheiro de outra espécie. Ele era um urso muito amigável que havia lhe ajudado quando mais precisou, e ajudaria mais, ao que tudo indicava. O filhote também começou a acordar com a movimentação de Inna, e logo abriu seus olhos negros, iguais ao breu do céu noturno, fitando-a.

― Desculpe, Fen, não quis te acordar! O Sol ainda nem nasceu.

― Está tudo bem. É melhor continuarmos mesmo. ― Ele bocejou, revelando seus grandes caninos, que se tornariam ainda maiores com o passar do tempo. ― Você conseguiu dormir?

― Sim, como uma pedra!

― Isso é bom, eu também! Lidere o caminho e vamos ver se encontramos algo para comer. Estou faminto.

― Imagino que sim, também estou. ― A lince ronronou em solidariedade, e lambeu um pouco as orelhas de Fen, em sinal de afeto. ― Bem, vamos, então.

Os filhotes começaram a andar. Naquele momento, Inna se lembrou de quando acordou nas margens do rio, e teve que passar por tantos lugares na escuridão da noite. Estava sozinha e com medo. Mas agora conseguia se sentir mais confiante, por conta dos desafios que passou, e por causa da companhia de Fen. Nada iria detê-los.

O céu estava meio sem graça naquela noite. Várias nuvens cobriam todas as constelações, somente a Lua podia ser vista, e por vezes também era coberta. Inna queria ver as estrelas, embora não soubesse seus nomes. Talvez sua mãe olhasse para a mesma que ela. Lembrou-se da conversa que tiveram sobre guias e as estrelas, e ficou com medo novamente. E se ficasse perdida para sempre? Sua mãe se tornaria sua guia? Teria que se contentar em vê-la somente em memórias? Não, não, não. Ainda queria ter momentos com ela, para poder se lembrar depois. Ela precisava encontrá-la.

Após algum tempo, encontraram muitos arbustos de frutinhas, e puderam se alimentar um pouco. Não era o suficiente, mas teria que ser, por ora. Algumas pequenas borboletas voavam por perto, e Inna resolveu tentar impressionar Fen com suas miúdas habilidades de caça. Concentrou-se, enquanto ele se ocupava comendo, distraído, e mirou em uma delas. Num salto, capturou-a.

― Ei, o que foi isso? ― O urso grunhiu, confuso.

― Veja o que eu peguei! ― Ela mostrou a pequena borboleta, agora sem vida e com uma asa meio amassada, que em breve viraria seu aperitivo.

― Uau, foi tudo muito rápido. Você vai ser uma caçadora muito boa! Ursos não são muito de pular nas coisas. Somos grandes demais pra isso. ― Ele riu.

― Bom, mas pelo menos vocês são muito fortes!

― Isso é verdade! ― Ele se colocou nas duas patas traseiras e soltou um rugido. Inna fingiu estar assustada e foi correr para se esconder num arbusto, fazendo Fen ir atrás dela.

Os dois iniciaram, sem perceber, uma pequena brincadeira de pega-pega, deixando de lado todas as suas preocupações, as quais sequer deveriam ter. A lince não pensava se iria ou não encontrar a família, se iria ou não sobreviver, estava apenas rindo naquele instante. Divertindo-se com seu amigo, como um filhote deveria fazer. Qualquer um que tivesse a chance de observar a cena ficaria intrigado, no entanto. Um urso e uma lince correndo juntos na mata, brincando entre si, não era uma visão muito comum. Minutos depois, eles se sentaram para descansarem um pouco.

― É melhor guardarmos nossas energias, não sabemos o que vai acontecer hoje. ― Fen sugeriu.

― Você tem razão, Fen. Mas foi legal.

― Foi mesmo!

Eles voltaram a seguir a trilha de Nora, buscando por mais frutinhas no caminho. Tinham sorte dos arbustos estarem dando frutos naquela época. Começava a amanhecer, mas havia uma suave neblina por todo o lado, além de densas nuvens no céu, dando a sensação de escuridão. Aquilo causava uma inquietação nos dois, mas continuavam com coragem, um tentando confortar o outro de que nada iria acontecer. Passaram por entre muitas árvores e até mesmo alguns túneis de cavernas, quando Inna voltou a sentir um odor forte de sua mãe. Ela com certeza esteve ali não fazia tanto tempo.

Ao se atentar mais aos cheiros, parecia que um estava faltando. Estranhou, mas não deu muita importância. Era difícil localizar todos os odores misturados com um nariz destreinado. Porém, outra coisa chamou sua atenção ― odor de raposa.

― Fen, você consegue sentir? ― A fêmea virou-se para ele, nervosismo presente em sua voz. Ela não precisava explicar. Ele sabia do que estava falando, pois rapidamente sentiu o cheiro entrar por suas narinas.

― Sim, está forte... Vamos tomar cuidado. Mas no pior cenário, acho que eu dou conta. ― Sugeriu.

― Não diga isso! Raposas são muito espertas, ela pode te ferir de verdade!

― Tá legal, tá legal! Não se preocupe, Inna. Provavelmente não vamos encontrar raposa alguma.

― Eu espero... ― Encolheu suas orelhas só de pensar na possibilidade.

Havia muito mais névoa ali, tornando a visão confusa em alguns momentos, contudo, a pequena lince se mantinha focada no rastro da mãe. Ela e Fen ficariam bem. Nada iria acontecer. Ficariam bem. Quanto mais repetia isso em sua cabeça, mais apreensiva ficava. Toda aquela neblina estava lhe deixando desconfortável e assustada com possíveis predadores.

Os dois prosseguiram com cautela, até chegarem em uma área em que Fen não conseguiria acompanhá-la. Era um paredão com uma passagem muito pequena por baixo. Só a felina conseguia atravessar, e era alto demais para irem por cima. Inna teria que prosseguir por um tempo sozinha, até encontrar alguma forma de levar o amigo para o outro lado, ou encontrar outra forma para que ele passasse.

― Eu vou passar, você espera aqui. Vou procurar alguma forma de você passar também. Senão eu... eu posso voltar pra cá e tentamos achar... outro caminho. ― Ela buscava soluções na sua cabeça, porém estava amedrontada com o fato de ter que continuar por conta própria. Estava adorando ter a companhia de alguém de novo. E se algo acontecesse com Fen?

― Tudo bem, Inna. Sei que não pode ficar esperando muito, ou os rastros da sua mãe vão ficar muito fracos. Você não pode perdê-los, então não pode voltar. Vou dar um jeito de atravessar, tá legal?

― Tá bem...

Os filhotes trocaram afagos por algum tempo, e Inna prosseguiu sozinha. Quase pareceu como uma despedida, porém convenceu-se de que não era. Ela não queria ter que deixá-lo agora, ele tinha de passar também. Eles se encontrariam novamente, certo?

Qualquer um poderia farejar sua aflição de longe, o que não era nada bom. O silêncio imperava na floresta, até mesmo o vento parecia ter parado. A fêmea estava com as orelhas atentas à tudo. Captou novamente os rastros da mãe lince, que levaram-na até uma região com ainda mais neblina. Ela odiou aquilo. Mais ainda, odiou não estar sob a segurança de Nora.

Continuou caminhando vagarosamente. Localizou uma elevação onde pequenos vagalumes permitiam enxergar alguma luz. Provavelmente sua mãe passara por ali. E quanto à Fen? Será que ele conseguiria alcançá-la? Não havia nada ali que ela pudesse usar para ajudá-lo, então, assim que passasse pela bruma, esperaria por ele. Ele a encontraria.

Parou sua caminhada abruptamente. Escutou algo e instintivamente se encolheu. Mas se encolher não a protegeria naquele lugar. Com algumas fungadas no ar, identificou facilmente o que estava ali: raposa. Congelou de medo. Como proceder agora? O animal com certeza já tinha captado seu odor, então se esconder era impossível. Sua única opção era correr para tentar despistá-la, mas não tinha ideia de como faria isso. Mesmo quando alcançasse a elevação, a raposa poderia muito bem segui-la. Quis chorar, quis sumir, porém não podia fazer nada disso.

E ao ouvir outro passo do canídeo cor de fogo, correu, iniciando uma perseguição.

Queria que Fen estivesse perseguindo-a. Ele iria pegá-la, e então seria sua vez de correr atrás dele. Estariam rindo e comeriam frutinhas. Tudo estava perfeito horas atrás. Agora, uma raposa estava em sua cola. Quase podia sentir seu bafo quente, ansiando pela refeição. Tentava ziguezaguear para confundir a criatura, mas ela estava determinada. Até que a alcançou, mordendo sua nuca e a jogando para longe. Inna sentiu uma dor enorme que nunca sentira antes, a sensação de seus dentes afiados em sua pele era horrível. Chorou, aguardando por sua morte. Mal conseguia manter os olhos abertos.

Nunca mais veria Fen.

Nunca mais veria mamãe.

Nunca mais veria seus irmãos.

Até que ouviu grunhidos estranhos. E ganidos da raposa. Rosnados. O que estava acontecendo? Sua respiração estava fraca. Sentia-se frágil. Mas conseguiu detectar a presença de Fen. Seu amigo urso estava ali! Ele atravessou! Ele veio ajudá-la! Será que ele estava bem?

― Inna! Inna, você consegue me ouvir?! ― Ela conseguia, porém nada saía de sua boca. Nem mesmo podia vê-lo. ― Vai ficar tudo bem, eu prometo!

Ela acreditava nele. Fen era seu amigo. Queria abrir seus olhos, queria olhar para ele e descobrir se estava machucado; torcia para que não estivesse. Queria dizer que odiava raposas. Queria agradecê-lo.

Mas estava tudo tão escuro.

Notas finais
oh noooo :( achei legal dar enfase na "cor de fogo" da raposa porque os animais na fic associam elas com fogo mesmo, devido a cor, a velocidade e a furtividade. elas podem ser criaturas muito perigosas para certas mamaes com seus filhotes!