Notas iniciais
heyy esse é o último capitulo! talvez eu poste um epílogo mas eu não curti muito o resultado então who knows

Com dificuldade, espiou o mundo por alguns segundos. O céu estava azul. As folhas das árvores se mexiam fervorosamente com o vento. Era mais uma calma manhã com a mãe lince. Só precisava acordar e levantar. Uma fisgada em sua nuca fez com que perdesse as forças.

Não. Sem mãe lince.

Um filhote de urso estava a sua frente. Sua visão embaçou de novo. Fen.

Era seu amigo. Fen. Ele estava ali. Onde estava sua mãe, afinal? Sentia-se tão cansada.

― Fen...? ― Conseguiu murmurar.

― Descanse mais, Inna. Você vai melhorar. ― Ele tentava parecer sério, mas era possível detectar preocupação em sua voz. ― Seu machucado parou de sangrar já tem muito tempo. Você só tem que descansar agora.

― Machucado...?

Sangue. Uma perseguição. A raposa na clareira enevoada. Assim como o fogo, ela era rápida e voraz. Onde estava a raposa? Onde eles estavam?

― Durma, Inna... Você tem que ficar bem. Por favor...

Exausta demais para entender, atendeu aos pedidos do amigo e caiu no sono. Em seus sonhos, corria junto dele sem preocupações. Não havia ferimentos nem raposas furtivas. Somente uma lince pequena e um urso amigável. Também havia um... abraço. Suave, e que lhe chamava de volta para casa.

O cheiro de sangue fresco lhe dava fome. Cuidadosamente se levantou, para ver Fen junto a si. Perto dele, um pequeno pássaro. Não tinha ideia de qual seria sua espécie. Pássaros eram todos tão diferentes, como os cisnes que havia visto no pântano escuro. Sentiu uma leve queimação na nuca, a região onde levou uma mordida, mas nada doloroso demais. Lembrou-se de cada momento. Do pavor, da adrenalina, de ter aceitado sua morte. Porém ali estava, viva.

― Inna, você está bem! Como se sente? ― O pequeno urso controlava sua animação, embora fosse fácil de farejar. ― Trouxe um rouxinol para você. Foi difícil de pegar. Não sou exatamente ágil... Mas aqui está.

Um rouxinol. Nome engraçado para uma ave pequenina. Fen era tão inteligente, sabia de muitas coisas.

― Não sinto muita dor, só um pequeno incômodo às vezes. Você me salvou, Fen! ― Inna se aconchegou em seu pelo, dando lambidas perto das orelhas de Fen.

― Ah, não foi nada... Eu disse que conseguiria lutar com uma raposa fedorenta! Agora você precisa comer. Ficou desacordada por muito tempo.

― Obrigada. De verdade. ― Agradeceu enquanto comia o pássaro. Era maravilhoso sentir o sabor de carne após dias. O gosto metálico do sangue a deixava com vontade de caçar por mais presas. Tentaria, caso se sentisse apta. Felizmente Fen não parecia ter nenhum ferimento, somente alguns arranhões em algumas áreas, e outras marcas pequenas. Ele disse que não era nada demais, e que a raposa havia ficado numa condição muito pior. Acreditava nele.

Os pequenos conversaram um pouco sobre o que fariam. Inna tinha esperanças de que sua mãe não estava longe, contudo, após o ato heroico de Fen, ela tinha medo de estar abusando demais de sua boa vontade. Talvez fosse melhor continuar seu caminho sozinha. Mas ele discordou. Eram amigos, e ele havia dito que iria ajudá-la a encontrar a família. Ainda não tinha cumprido com suas palavras.

O dia estava bonito. O Sol iria se pôr, dando um belo show de cores. Assim como Inna, Fen também adorava aquele momento diário. As cores nunca eram iguais, oferecendo sempre uma bela surpresa. O urso sugeriu que continuassem caminhando pela floresta, até que ela conseguisse recuperar o cheiro de Nora. Iriam com calma, aproveitando a tarde, e se esquecendo do terror do dia anterior.

Vários pássaros cantarolavam, escondidos pelas árvores. Inna queria saber o que eles estavam dizendo. Parecia tão bonito. Avistou um pequeno grupo de aves pelo chão, provavelmente se alimentavam. Bom, ela queria se alimentar também. Nunca tinha tentado apanhar um pássaro, mas tentaria assim mesmo. Se fosse silenciosa e rápida o bastante, um deles não teria tempo de voar. Dito e feito, a felina se mesclou nas sombras da floresta, e furtivamente saltou sobre eles, que saíram voando e piando em socorro. Um, no entanto, estava em suas patinhas. Orgulhou-se.

― Você é muito boa, Inna. Eu fui bem mais desajeitado... ― Fen ficou um pouco envergonhado ao observar as habilidades da lince. Ah, se ele soubesse o trabalho que tivera para caçar uma mera borboleta poucos dias atrás.

― Não seja bobo. Vem, vamos dividir.

Devoraram o animalzinho rapidamente, deixando manchas avermelhadas em suas patas e focinhos, muito mais aparentes em Inna, devido ao pelo mais claro. Fen riu da situação, e os dois começaram a brincar. Inna adorava seu amigo inusitado, e Fen também. Ela trouxe tanta alegria para seus dias solitários. Ficou com medo de que fosse morrer, deu seu melhor ao tentar melhorar a ferida deixada pela criatura cor de fogo, usando algumas plantas com propriedades medicinais. Sentiu um alívio enorme ao ver o sangue finalmente parar de escorrer de sua amiga. E então, só podia pedir aos céus que não a deixassem ir.

Mas, caso fosse, pediria para Katja cuidar dela. E sabia que cuidaria. Sua mãe era ótima.

Não foi necessário, no entanto. Inna estava bem, e se recuperava depressa. E logo, ela iria embora. Fen tentava ao máximo não se deixar abater por isso, mas ficava um pouco cabisbaixo com o pensamento. Inna agora era sua grande amiga. Tudo havia acontecido depressa demais, mas eles se tornaram amigos. Seria doloroso vê-la ir, ao mesmo tempo que também lhe traria alegria quando encontrassem Nora. Era muito confuso.

Continuaram andando, e encontraram um pequeno trecho de água corrente, onde se deleitaram com água fresca para beber e se refrescarem um pouco. Aquela parte da floresta era realmente agradável. Cheia de pequenos animais, de arbustos com frutinhas e de beleza. Ou talvez fosse o novo olhar de Inna, depois de uma experiência de quase morte. Mas Fen concordou que era mesmo bonita.

Tempo depois, chegaram próximo a um rio. Inna estava prestes a pular noutro grupo de passarinhos, quando detectou um leve odor da mãe lince. Ela ia avisar Fen, e viu o urso sentado quietamente, à margem do rio.

― Fen? ― Ela ia questioná-lo, quando pôde ver sua família do outro lado do riacho.

Eles estavam ali. Era mesmo sua mãe, ela estava bem ali, a poucos metros de distância. Ela conseguiu. Eles conseguiram. Inna quis chorar, sentia tanta falta do afago de Nora, de estar com seus irmãos, de simplesmente tudo. Mal podia esperar para nadar até eles e sentir seus cheiros de perto novamente. E só então percebeu: isso significava nunca mais ver Fen.

― Nós chegamos, Inna. Eu disse que ia te ajudar.

― Fen, eu... Nada do que eu disser vai ser o bastante. Sem você, eu não teria conseguido. Você foi incrível! E virou meu melhor amigo...

― Você também é minha melhor amiga...

Naquele instante, Nora já havia visto sua pequena filhote. Ou seria somente sua impressão? Seu odor não parecia o mesmo. Ficou com medo de estar sendo enganada pelos próprios sentidos, e se sentou na beira do rio, enquanto seus filhotes se refrescavam com a água.

― Eu vou sentir sua falta. ― A filhote se aconchegou nos pelos espessos do urso, que a abraçou.

― Eu também, Inna...

Os dois se olhavam, sem saber como se despedirem apropriadamente. Os olhos marejados, as orelhas retesadas. Nenhum dos dois se preparou para aquele momento que uma hora chegaria. Era estranho. Era difícil. As palavras se recusavam a sair.

Mas precisavam. E após minutos de carinhos trocados, elas saíram:

― Adeus, Inna. Vamos nos ver de novo, um dia.

― Vamos, Fen. Adeus.

Assim, Inna entrou na água, tentando expulsar todos os seus medos de ser levada para o fundo, ou para longe. Olhando para trás, esforçava-se para memorizar todos os detalhes de seu amigo urso. Não queria esquecê-lo, nunca. Nadando vagarosamente, miava para sua mãe, que enfim percebeu que não eram ilusões de sua cabeça. Aquela era mesmo Inna. Sua querida filhote que pensou ter morrido dias atrás. Ela estava viva, ela estava bem, ela estava ali! Com ela! Pegou-a pelo cangote, ainda na água, enquanto deixava delicadas lágrimas escorrerem de seu focinho. Ao colocá-la gentilmente no chão, percebeu que a área estava machucada. Sua filha havia passado por muita coisa, tinha certeza. E iria perguntar sobre tudo em breve.

― Inna, eu não acredito que está viva! ― Nora exclamou, enquanto aninhava a filhote. Jouko e Anika logo vieram cumprimentá-la, também muito animados e chorosos. Soren não estava ali, e um nó se formou na garganta de Inna. Ele não tinha sobrevivido. A mãe lince achou que perdera dois filhotes, e ficava cada dia mais arrasada, com medo de que mais um fosse tirado de si pelas forças da Mãe Natureza. Reencontrar Inna fez seu coração saltar de alegria.

Seus irmãos lambiam-na com carinho, felizes por terem a irmã de volta. Ficaram tão preocupados no dia da tempestade, e horrorizados com a visão da filhote sendo arrastada rio abaixo. Queriam ouvir todas as histórias que ela teria para contar.

― Eu senti muitas saudades... ― Sua voz era trêmula. Chorava de emoção por estar junto a eles, e por abandonar seu querido amigo.

― Vamos para casa. Irei cuidar de você, está bem? ― A mãe esfregou seu focinho no dela, ainda incrédula com o que estava acontecendo.

Inna apenas assentiu, e, antes de ser carregada por Nora, virou-se uma última vez para trás, dando um longo miado de despedida para Fen, que devolveu com um longo grunhido melancólico, enquanto permanecia sentado. Uma lágrima pingou no chão de terra quando foi levantada do chão por Nora, que a segurava com delicadeza devido aos seus ferimentos. E ali, Inna percebeu que jamais se esqueceria de seu amigo. Guardaria para sempre as lembranças que tiveram em seu coração.

Quando finalmente chegaram em seu novo abrigo, Inna falou sem parar, enquanto devorava um gordo coelho que Nora havia apanhado. Contou absolutamente tudo, desde seus medos na noite solitária, até o resgate de Fen. Também soube que Soren havia sido vítima de uma raposa, numa região próxima de onde Inna fora atacada. Talvez fosse a mesma. Infelizmente, Nora não conseguiu ser rápida o bastante. Com a névoa confundindo os filhotes, Soren acabou se afastando do grupo. Mesmo que pouco, era o suficiente para que a raposa aproveitasse. Inna se permitiu chorar por seu irmão. Ela havia tido muita sorte de ter levado uma mordida imprecisa e mal dada. Caso contrário, poderia ter sido fatal, e nem mesmo Fen teria como ajudá-la.

Anika e Jouko estavam embasbacados. Só conseguiam dizer o quão corajosa Inna fora durante o tempo inteiro. Acima de tudo, estavam felizes por ter sobrevivido. Nora achou a amizade entre ela e Fen curiosa, mas eram apenas filhotes. Para eles, não existiam barreiras entre espécies. As coisas mudam quando se chega na vida adulta, cumprindo seu papel na natureza. Agradeceu aos céus por poder estar com sua filhote de volta, e por ela estar saudável. E, antes de dormirem, também pediu que Fen permanecesse bem, e que nada de mau acontecesse ao pequeno urso.

Inna mal conseguia acreditar que estava com sua mãe novamente, no calor dos seus pelos, recebendo carinho. Não foi preciso muito para que logo dormisse, em paz. Teve a impressão de um urso aparecer em seus sonhos.

Com o cair da noite, Inna acordava. Não estava cansada, e seus instintos quase gritavam para que saísse da toca. Para onde iria? Não tinha certeza. Respirou fundo, e se deixou levar. Andava pela grama macia, sem medo. Avistou um pequeno morro, similar ao que sua mãe estava na noite em que viu a estrela, porém, um pouco mais alto. Estava indo para lá. Não sabia explicar o porquê, mas tinha que ir para lá.

Sem muitos problemas, chegou. Não farejava predadores aos arredores, não farejava nada, na verdade. Somente o odor de sua própria curiosidade. Ao alcançar o topo, uma estrela desceu. Era pequena e delicada, assim como a que tinha visto. E então, pôde vê-lo.

― Fen! Fen, você virou meu guia! ― Entusiasmou-se, enquanto se fixava na imagem do urso, que estava em tons meio azulados, quase transparentes. Ele estava sentado, amigavelmente.

“Você também é minha melhor amiga” Ele disse. Lembrou-se do diálogo que tiveram mais cedo. Ele estava acontecendo de novo. Inna quis chorar.

“Vamos nos ver de novo, um dia.”

― Sim, nós vamos, Fen! ― Ela queria poder sentir seu pelo fofinho. Poder brincar com ele e puxar sua orelha. Dividir frutinhas. Queria saber o que estava fazendo.

“Adeus, Inna” O urso grunhiu, com os olhos cheios d’água. Os da lince também estavam. Era agridoce demais poder revê-lo dessa forma. Assim, a estrela subia, e a imagem de Fen aos poucos desaparecia também.

― Adeus, querido amigo. Adeus. ― Chorou, solitariamente. Passou mais alguns minutos ali, antes de voltar para a toca. Sentindo a brisa noturna, ouvindo o farfalhar das árvores. Estava imersa em lembranças, que agora pareciam tão distantes.

Fen seria para sempre seu grande amigo.

E nunca iria esquecê-lo.

Notas finais
:( primeiramente foi muito dificil escolher um titulo. originalmente eu ia colocar só "fim", mas achei tosco. pensei em "encontros e despedidas" mas estou seguindo uma estetica de capitulos com uma palavra só, então tbm nao dava. no final ficou isso aí 👁_👁 como o proprio texto diz, foi bem agridoce. inna encontrou sua mãe, mas teve de deixar o amigo que fez na floresta. sei que voce tem como ficar com o urso no fim, mas nao foi esse o final que eu fiz, e eu tbm não acho que faça tanto sentido. enfim, foi legal escrever essa história! :^) espero que tenha sido agradável de ler também! nos vemos em breve, quem sabe no epilogo (pra quem ja leu outras coisas minhas, sim, aparentemente o unico passaro que eu ponho nas minhas historias eh um rouxinol leave me alone)