Em busca da magia que habita em mim.
2 Sob a Lua cheia.
Os dias passaram e com o tempo sua preocupação só aumentava, uma grande tristeza o abatia e ele podia sentir que seus pais estavam desconfortáveis e apreensivos. Thomas Permett, seu pai, era um homem alto e magro, com uma aparência pálida e cabelos negros como os de Nicolas, trabalhava como Auror* no Ministério da Magia inglês. Olívia Swan Permett, sua mãe, era uma mulher muito elegante, seus cabelos castanhos e sua pele bem cuidada radiavam beleza, era dona de uma loja de vestidos no beco diagonal*. Eles sempre trataram os filhos com muito carinho, porém Thomas tinha uma personalidade ríspida, enquanto Olívia era amorosa e engraçada.
Seu irmão vinha demonstrando leves sinais de magia, aquilo o deixava desesperado, o tempo estava acabando, sua carta de Hogwarts ainda não chegara. Com isso passou a evitar a presença do irmão e cada vez mais passar o tempo com Florence a beira do lago.
Certa noite estava passando na frente do quarto de seus pais quando ouviu seu nome e encostou-se levemente na porta para ouvir.
— Você acha que eu não percebo?
Ouviu a voz do pai ressoar pelo quarto, ela transparecia raiva e tristeza.
— Calma meu amor, ele é perfeitamente normal.
Respondeu a Mulher, como uma voz triste, como se ela mesmo não acreditasse no que estava dizendo.
— Como eu posso ficar calmo? Ele já fez 11 anos e não consegue nem voar em uma vassoura.
— Você mesmo disse que era normal algumas pessoas não conseguirem voar com facilidade.
— É normal, porém não é normal uma criança de 11 anos não apresentar nenhum sinal de magia.
— Ele ainda tem tempo meu amor, logo a carta de Hogwarts dele chega, não se preocupe.
— Espero que sim, eu não aceito um filho aborto.
Cada palavra do seu pai parecia uma facada em seu coração, saiu correndo aos prantos para seu quarto. Se sentia impotente, não conseguia entender o porquê aquilo estava acontecendo com ele, a tristeza o sufocava, só queria ser um bruxo, ele só queria ser normal.
Já era tarde, porém ele não conseguia ficar em casa, tirou de baixo de sua cama um celular, artefato trouxa que utilizava para se comunicar com Florence. Mandou mensagem para a amiga torcendo para que a mesma estivesse acordada, convidando-a para ir até o lago, precisava conversar com alguém, mesmo que não pudesse desabafar sobre tudo que estava sentindo, a presença da garota o acalmava.
Silenciosamente desceu as escadas e saiu da casa em direção ao lago. Seus passos estavam acelerados, quase correndo, queria se afastar daquela realidade, queria fugir, precisava ficar perto de alguém que não o julgasse.
Era uma noite de lua cheia, o lago estava claro, a lua refletia na água fazendo com que o lugar tomasse um tom sombrio e calmo. Nicolas deitou-se na beira do lago refletindo sobre tudo que estava acontecendo, tinha esperança que Florence iria ler sua mensagem, deitou-se a beira do lago pensando na vida e esperando a amiga. Fechou os olhos enquanto sentia a brisa fresca da noite em seu rosto e acabou cochilando a beira do lago.
Florence estava dormindo quando ouviu a notificação de seu celular, leu a mensagem de Nicolas sonolenta e estranhou o chamado, mas sabia que o amigo estava triste ultimamente e queria fazer companhia para ele. Levantou-se com calma e mesmo de pijama, saiu de sua casa sorrateiramente em direção ao lago. Como era muito tarde a garota não se importou com a roupa, logo chegou ao local de costume, encontrou Nicolas deitado na beira do lago, aproximou-se e notou que o garoto estava cochilando, a menina sorriu carinhosamente enquanto com muito cuidado deitou ao seu lado encostando sua cabeça na dele.
— Nico, ta tudo bem?
Sussurrou a garota, olhando para o céu estrelado. Ele abriu os olhos e sentiu um conforto com a presença da amiga ali, sentiu como se ela pudesse confortar todos os seus anseios.
— O que você acha?
Perguntou o garoto abrindo um sorriso triste e olhou para a amiga com o canto do olho enquanto continuavam com as cabeças encostadas. Florence sorriu carinhosamente e trocaram olhares deitados por alguns segundos.
— Você quer me contar oque ta acontecendo?
Questionou a garota voltando a fitar o céu, ela tinha um carinho muito grande pelo garoto, mas ficava muito triste pois o ele nunca compartilhava seus problemas com ela, nunca a deixava o ajudar.
— É complicado, deixa pra lá.
Respondeu ele tentando não entrar no assunto. Porém Florence chateou-se e respirou fundo, aquela situação incomodava muito a garota.
— Então é assim? Você me acorda a essa hora e não confia em mim para contar por que está triste?
Indagou a menina, Nicolas fitou-a e conseguiu ver a tristeza no olhar da amiga que mirava as estrelas. Sentiu-se muito mal com aquilo, aquela situação estava o destruindo, estava ensaiando alguma resposta para não magoa-la, porém Florence continuou.
— Você não confia em mim.
Disse a menina com a voz tremula e sua tristeza era visível, Nicolas sentiu um nó na garganta, sabia que não poderia falar a verdade, seria pior, ela não acreditaria e eles se afastariam.
— Você é a única pessoa que eu confio.
Respondeu o garoto com os olhos lacrimejando e segurou forte a mão da garota. Respirou fundo e continuou.
— Eu prometo que quando eu puder eu vou te contar tudo.
Ele queria acreditar naquilo, ele não sabia se um dia conseguiria contar para a garota tudo aquilo que estava vivendo, aquilo o machucava, por vezes imaginava se a garota acreditaria nele se ele simplesmente contasse a verdade, mas ele não conseguia acreditar naquilo. Como explicaria para a ela que é um bruxo se nem ele mesmo sabe se é? E como conseguiria explicar para ela que toda sua tristeza é por não conseguir usar magia? Sendo que para a menina aquilo é o normal? Toda essa situação o sufocava.
Puxou a mão da menina contra seu peito e começou a chorar copiosamente, soluçando. A garota não conseguia entender o porquê da situação, porém a amizade deles era muito mais forte do que essas dúvidas. Virou-se de lado e com a mão livre acariciou o rosto do amigo, conseguia sentir o sofrimento dele e sofria junto por não conseguir ajudá-lo.
O silêncio se instaurou, Nicolas segurando a mão esquerda de Florence em seu peito e a Menina com sua mão direita acariciando o rosto do amigo, logo adormeceram sob a luz da Lua cheia.
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