Um aborto é uma pessoa que possui ao menos um pai bruxo e que é incapaz de realizar magia. Essas pessoas são tratadas como anormais pelos demais bruxos da sociedade e sofrem muito preconceito quando tentam se inserir no dia a dia bruxo. Diferentemente dos trouxas, que não conseguem ter nenhum contato espontâneo com magia, os abortos conseguem ver e lidar com objetos e criaturas mágicas, isso faz com que muitos abortos continuem na sociedade bruxa quase como escravos, sendo humilhados e tratados como insignificantes. Muitas famílias bruxas estimulam os abortos a viverem na sociedade trouxa, frequentando escolas e empregos fora do mundo bruxo. Algumas outras famílias simplesmente se livram da criança após ela completar 11 anos. De qualquer forma, um aborto nunca terá uma vida normal.

Nicolas estava sentado em cima da sua cama, analisando a vassoura que ganhara de presente. Um mês depois de seu aniversário de onze anos, o medo de ser um aborto ainda o assombrava, nenhum traço de magia, nenhuma carta de Hogwarts. Abriu o kit de limpeza do objeto e começou a limpá-la. Nunca havia usado o presente, mas buscava alguma coisa para passar o tempo e aliviar sua tensão. A vassoura era linda, seu cabo estava delicadamente lustrado e as cerdas eram novas.

Desde a sua última conversa intensa com Florence, estava afastado da amiga. Nas poucas vezes que se viram estavam apáticos, a conversa foi breve e não se divertiram. O garoto estava completamente sem ânimo e não compartilhava com a garota seu sofrimento, aquilo fez com que ela se afastasse e a amizade dos dois estava enfraquecendo.

Por vezes pensava se conseguiria contar a verdade para ela, se ela acreditaria e se acreditasse, ela iria o apoiar? Nicolas não sabia oque esperar, eram tantas possibilidades que ficava tonto só de pensar na situação.

Levantou-se da cama, caminhou até a janela e apoiou-se sentindo o vento em seu rosto. Fechou os olhos e tentou ensaiar como contaria a verdade para Florence. Por onde começar? Questionou-se, talvez a melhor maneira de contar seria simplificando tudo, simplesmente falar a verdade. “Não, não.” Pensou rapidamente e começou a andar pelo seu quarto angustiado.

A porta se abriu e sua mãe entrou, atrás dela vinha uma vassoura que varria sozinha enquanto a mulher organizava os objetos do quarto. Fitou a mãe por alguns instantes, sentia que ela estava muito preocupada com ele, mas assim como seu filho, não podia fazer nada para diminuir a angústia que estavam sentindo.

— Mãe, por que é tão difícil contar a verdade as vezes? — Questionou o pequeno garoto confuso com toda situação que estava passando.

Sua mãe que organizava sua mesa de cabeceira, virou-se para ele com um sorriso no rosto e um olhar curioso.

— As vezes as pessoas não estão prontas para ouvir a verdade, querido. — Respondeu ela em um tom dócil.

Nicolas aproveitou a abertura da mãe para tentar aliviar seus pensamentos.

— Quando você precisa contar uma verdade, porém essa verdade é muito difícil de ser dita, oque você faz?

A mulher parou por alguns instantes, refletindo sobre a pergunta.

— É uma situação muito difícil, mas por que você está me perguntando isso?

— Nada, deixa pra lá, é besteira. — Respondeu o garoto arrependido de ter questionado a sua mãe.

Olívia terminou o que estava fazendo, caminhou até o filho que estava parado olhando pela janela, colocou a mão em seus ombros e acariciou-o.

— Uma vez eu li um livro em que dizia exatamente assim: “A verdade é uma coisa bela e terrível, por isso deve ser tratada com grande cautela.” — Respondeu gentilmente, tinha sido pega de surpresa pelo filho, era o tipo de coisa que não esperava ter de conversar com ele. Sua resposta não havia sido clara e ela sabia disso, logo continuou.

— Acredito que pior que machucar alguém com a verdade é machucar com a mentira. Então sempre prefira falar a verdade, mesmo que seja difícil, pois se você sente dificuldade em contar uma verdade, não pode esperar que seja fácil digeri-la.

Terminou a mulher e deu um abraço caloroso no garoto que continuava em silêncio olhando pela janela, beijou a cabeça do filho e saiu do quarto.

Nicolas refletia sobre as palavras da mãe, aos onze anos não conseguia processar tanta informação. Colocou as mãos na cabeça e puxou os seus cabelos em desespero. Ele sabia o que fazer, mas o resultado daquilo ele não conseguia prever, tinha muito medo de se machucar e acabar machucando Florence.

Deitou-se na cama enquanto a luz do entardecer iluminava o quarto, a algum tempo não conseguia dormir direito. O garoto estava visivelmente abalado, tinha perdido alguns quilos desde seu aniversário, sua pele estava ainda mais pálida e agora mal saia do quarto. A felicidade do garoto estava se esvaindo e ele não conseguia fazer nada para impedir, sua única esperança era que Florence pudesse ficar de seu lado.