Nicolas não conseguia dormir, decidiu que iria contar a verdade para Florence quando amanhecesse. Porém o tempo não passava, olhou no relógio e ainda eram 11 horas da noite e decidiu que não conseguiria esperar amanhecer. Pegou o celular e mandou uma mensagem para Florence.

— Você consegue ir ao lago agora? — Questionou ele.

Após alguns minutos a garota respondeu a mensagem.

— Melhor não.

— Por favor, eu preciso conversar com você.

— É a última vez que eu saio de casa a esse horário para falar com você. — Respondeu Florence dando ponto final a conversa.

Nicolas esperava que aquilo significasse um sim. Colocou um casaco e saiu da casa em rumo ao lago como sempre fazia, com os cabelos despenteados, envolto em pensamentos. Seus passos o levaram a beira do lago, parou em pé próximo a água, com as mãos nos bolsos do casaco, olhando para o nada.

A menina chegou ao local quase ao mesmo tempo do garoto, tinha o cabelo amarrado acima da cabeça e usava um suéter vermelho muito maior do que o seu tamanho que escondia parte de suas pernas.

— Não tinha do seu tamanho?

Questionou Nicolas, apontando para a peça que ficava estranhamente bonita na garota.

— É do meu pai.

Respondeu Florence e sentou-se perto da raiz de uma árvore. Nicolas foi até a garota e sentou-se próximo a ela. Estava muito nervoso, quase desistindo de contar toda a verdade. Porém acreditava que se não contasse para ela, a menina iria se afastar cada vez mais.

— Você parou de vir aqui...

Começou o garoto receoso com oque estaria por vir, sua perna estava tremendo e sentia um nó em sua garganta.

— Sim... você chega aqui, me deixa triste, não me fala nada e vai embora.

A garota tinha um tom ríspido, estava claramente magoada, ele sentiu que a conversa não seria nada fácil e ensaiou um pedido de desculpas.

— É eu sei, é que...

— Sabe? Mas o que? Vai me contar quando puder? Eu to de saco cheio dessa situação.

O garoto engoliu em seco, estava em choque, Florence estava muito brava, porém ele sabia que a ela tinha razão. A garota acreditaria nele? Acharia que era uma piada? Sentiu seu estomago revirar, respirou fundo e continuou.

— Eu vou te contar a verdade, mas preciso que você confie em mim...

— Eu confio. — Respondeu ela mantendo a expressão séria, apesar de estar magoada, ainda confiava muito no amigo.

— Então... sabe por que eu nunca te convidei para ir à minha casa brincar? Ou então por que eu não te convidei para minha festa de aniversário? A verdade é que... — Engoliu em seco mais uma vez e respirou fundo, estava tremendo muito. — Meus pais são bruxos e eu deveria ser um bruxo também.

A menina se assustou com oque o garoto falou e o encarou esperando uma risada por parte do dele, só poderia ser piada aquilo que estava ouvindo. Fico imóvel encarando-o sem esboçar nenhuma reação.

Nicolas travou ao parar de falar, abriu um sorriso amarelo e esperou uma reação da garota, o que não aconteceu, ela permaneceu imóvel, como se estivesse esperando mais alguma coisa. Nesse momento ele podia sentir seu coração pulsar rapidamente.

— Você ta falando sério? — Questionou ela, depois de um silêncio incomodo.

— Sim. — Respondeu dando um sorriso sem graça.

A garota levantou-se e deu uma volta caminhando lentamente tentando entender o que o garoto estava falando.

— Você ta de palhaçada? — Perguntou a menina com uma expressão de ira que Nicolas nunca tinha visto. — Você realmente quer que eu acredite que você é um bruxo? Que seus familiares são bruxos?

Ela estava irada, mas ao mesmo tempo incrédula, estava esperando o garoto falar que era mentira e os dois caírem na risada a beira do lago. Porém aquilo não aconteceu, o garoto voltou a reforçar o que disse.

— Sim...

Nicolas tentou se explicar, mas foi novamente cortado por Florence.

— Então quer dizer que toda aquela tristeza é por que você é um bruxo? Todo tempo que eu consolei você, que tentei te acalmar, te entender, era por que você é um bruxo? Você só pode estar brincando Nicolas.

Era a maior besteira que alguém já havia falado para a garota, ela se recusava a acreditar que seu amigo estava falando aquilo, o garoto que conhecia desde os cinco anos, seu melhor amigo, falando aquelas loucuras.

Nicolas não conseguia se mexer, seus músculos estavam travados, sua boca estava seca e sentia uma forte tontura, estava envergonhado de ter falado a verdade e seu estado de pânico não o deixava explicar a situação.

— Você fez eu dormir na beira desse lago pra te acalmar por causa disso? — Continuou Florence, que agora andava em círculos respirando fundo tentando se acalmar.

Nicolas começou a chorar desesperadamente, estava perdendo a única pessoa em que confiava. Ele se sentia impotente, queria não estar vivendo aquele momento, uma grande tristeza o assolava enquanto via a garota furiosa a sua frente.

— Se você é bruxo, então faça uma magia para eu ver. — Falou a garota dando uma última chance para ele.

Ele respirou fundo e secou suas lágrimas antes de responder, falaria toda a verdade, mesmo que aquilo deixasse a menina ainda mais confusa e irada.

— Esse é o motivo da minha real tristeza, meus pais são bruxos mas aparentemente eu nasci sem magia e provavelmente serei expulso da minha família.

Respondeu baixinho, sabia que ela não entenderia, aquilo o machucava muito, principalmente porque entendia Florence, é surreal para um trouxa a existência de bruxos e sua história parecia uma grande brincadeira de mal gosto.

— Então você está sofrendo porque é um bruxo... que não é bruxo? — Questionou a garota com uma leve ironia na voz e aparentando estar mais calma. — Bruxos não existem Nicolas, para com isso, você é normal assim como eu, para de ficar se martirizando por não ser alguma coisa que não existe. — Continuou tentando manter um tom calmo, no fundo ela torcia para aquela conversa ser uma grande brincadeira do amigo.

— Não Flor, você não entende... — Começou Nicolas a se explicar, porém foi logo cortado pela garota.

— Não entendo mesmo Nicolas, é claro que não entendo. Isso tudo é loucura da sua cabeça, antes disso tudo você era divertido, carinhoso, engraçado, você era meu melhor amigo, agora você fica o dia todo com essa expressão vazia, por causa de uma loucura, você não é mais o mesmo.

A raiva se esvaíra, agora a voz da menina transpassava uma grande tristeza, ela sentia que estava sem distanciando do amigo de uma forma extremamente dolorosa.

— Não é uma loucura Flor... — Suplicou ele.

— Pra mim chega, eu gosto muito de você e por isso mesmo eu acho melhor eu ir embora.

Dizendo isso começou a chorar copiosamente, doía muito tratar seu amigo assim, mas não podia colaborar com toda aquela loucura.

— Fica por favor. — Pediu o garoto desesperado.

— Não posso.

Aos prantos levantou-se e saiu. Seu coração estava partido, nunca pensou que iria brigar com o melhor amigo daquela forma, ou que ele iria mudar tanto.

Nicolas sentiu uma grande tristeza assolar seu corpo, enquanto suas lágrimas escorriam silenciosamente. Tinha estragado tudo, deveria ter mentido para a garota, agora sua família o odiava e sua melhor amiga também. Respirou fundo e olhou em volta, o vento deixava a água do lago levemente agitada, os lírios a sua volta estavam mortos, ele se sentia sozinho.