Em busca da magia que habita em mim.
4 A verdade.
Nicolas não conseguia dormir, decidiu que iria contar a verdade para Florence quando amanhecesse. Porém o tempo não passava, olhou no relógio e ainda eram 11 horas da noite e decidiu que não conseguiria esperar amanhecer. Pegou o celular e mandou uma mensagem para Florence.
— Você consegue ir ao lago agora? — Questionou ele.
Após alguns minutos a garota respondeu a mensagem.
— Melhor não.
— Por favor, eu preciso conversar com você.
— É a última vez que eu saio de casa a esse horário para falar com você. — Respondeu Florence dando ponto final a conversa.
Nicolas esperava que aquilo significasse um sim. Colocou um casaco e saiu da casa em rumo ao lago como sempre fazia, com os cabelos despenteados, envolto em pensamentos. Seus passos o levaram a beira do lago, parou em pé próximo a água, com as mãos nos bolsos do casaco, olhando para o nada.
A menina chegou ao local quase ao mesmo tempo do garoto, tinha o cabelo amarrado acima da cabeça e usava um suéter vermelho muito maior do que o seu tamanho que escondia parte de suas pernas.
— Não tinha do seu tamanho?
Questionou Nicolas, apontando para a peça que ficava estranhamente bonita na garota.
— É do meu pai.
Respondeu Florence e sentou-se perto da raiz de uma árvore. Nicolas foi até a garota e sentou-se próximo a ela. Estava muito nervoso, quase desistindo de contar toda a verdade. Porém acreditava que se não contasse para ela, a menina iria se afastar cada vez mais.
— Você parou de vir aqui...
Começou o garoto receoso com oque estaria por vir, sua perna estava tremendo e sentia um nó em sua garganta.
— Sim... você chega aqui, me deixa triste, não me fala nada e vai embora.
A garota tinha um tom ríspido, estava claramente magoada, ele sentiu que a conversa não seria nada fácil e ensaiou um pedido de desculpas.
— É eu sei, é que...
— Sabe? Mas o que? Vai me contar quando puder? Eu to de saco cheio dessa situação.
O garoto engoliu em seco, estava em choque, Florence estava muito brava, porém ele sabia que a ela tinha razão. A garota acreditaria nele? Acharia que era uma piada? Sentiu seu estomago revirar, respirou fundo e continuou.
— Eu vou te contar a verdade, mas preciso que você confie em mim...
— Eu confio. — Respondeu ela mantendo a expressão séria, apesar de estar magoada, ainda confiava muito no amigo.
— Então... sabe por que eu nunca te convidei para ir à minha casa brincar? Ou então por que eu não te convidei para minha festa de aniversário? A verdade é que... — Engoliu em seco mais uma vez e respirou fundo, estava tremendo muito. — Meus pais são bruxos e eu deveria ser um bruxo também.
A menina se assustou com oque o garoto falou e o encarou esperando uma risada por parte do dele, só poderia ser piada aquilo que estava ouvindo. Fico imóvel encarando-o sem esboçar nenhuma reação.
Nicolas travou ao parar de falar, abriu um sorriso amarelo e esperou uma reação da garota, o que não aconteceu, ela permaneceu imóvel, como se estivesse esperando mais alguma coisa. Nesse momento ele podia sentir seu coração pulsar rapidamente.
— Você ta falando sério? — Questionou ela, depois de um silêncio incomodo.
— Sim. — Respondeu dando um sorriso sem graça.
A garota levantou-se e deu uma volta caminhando lentamente tentando entender o que o garoto estava falando.
— Você ta de palhaçada? — Perguntou a menina com uma expressão de ira que Nicolas nunca tinha visto. — Você realmente quer que eu acredite que você é um bruxo? Que seus familiares são bruxos?
Ela estava irada, mas ao mesmo tempo incrédula, estava esperando o garoto falar que era mentira e os dois caírem na risada a beira do lago. Porém aquilo não aconteceu, o garoto voltou a reforçar o que disse.
— Sim...
Nicolas tentou se explicar, mas foi novamente cortado por Florence.
— Então quer dizer que toda aquela tristeza é por que você é um bruxo? Todo tempo que eu consolei você, que tentei te acalmar, te entender, era por que você é um bruxo? Você só pode estar brincando Nicolas.
Era a maior besteira que alguém já havia falado para a garota, ela se recusava a acreditar que seu amigo estava falando aquilo, o garoto que conhecia desde os cinco anos, seu melhor amigo, falando aquelas loucuras.
Nicolas não conseguia se mexer, seus músculos estavam travados, sua boca estava seca e sentia uma forte tontura, estava envergonhado de ter falado a verdade e seu estado de pânico não o deixava explicar a situação.
— Você fez eu dormir na beira desse lago pra te acalmar por causa disso? — Continuou Florence, que agora andava em círculos respirando fundo tentando se acalmar.
Nicolas começou a chorar desesperadamente, estava perdendo a única pessoa em que confiava. Ele se sentia impotente, queria não estar vivendo aquele momento, uma grande tristeza o assolava enquanto via a garota furiosa a sua frente.
— Se você é bruxo, então faça uma magia para eu ver. — Falou a garota dando uma última chance para ele.
Ele respirou fundo e secou suas lágrimas antes de responder, falaria toda a verdade, mesmo que aquilo deixasse a menina ainda mais confusa e irada.
— Esse é o motivo da minha real tristeza, meus pais são bruxos mas aparentemente eu nasci sem magia e provavelmente serei expulso da minha família.
Respondeu baixinho, sabia que ela não entenderia, aquilo o machucava muito, principalmente porque entendia Florence, é surreal para um trouxa a existência de bruxos e sua história parecia uma grande brincadeira de mal gosto.
— Então você está sofrendo porque é um bruxo... que não é bruxo? — Questionou a garota com uma leve ironia na voz e aparentando estar mais calma. — Bruxos não existem Nicolas, para com isso, você é normal assim como eu, para de ficar se martirizando por não ser alguma coisa que não existe. — Continuou tentando manter um tom calmo, no fundo ela torcia para aquela conversa ser uma grande brincadeira do amigo.
— Não Flor, você não entende... — Começou Nicolas a se explicar, porém foi logo cortado pela garota.
— Não entendo mesmo Nicolas, é claro que não entendo. Isso tudo é loucura da sua cabeça, antes disso tudo você era divertido, carinhoso, engraçado, você era meu melhor amigo, agora você fica o dia todo com essa expressão vazia, por causa de uma loucura, você não é mais o mesmo.
A raiva se esvaíra, agora a voz da menina transpassava uma grande tristeza, ela sentia que estava sem distanciando do amigo de uma forma extremamente dolorosa.
— Não é uma loucura Flor... — Suplicou ele.
— Pra mim chega, eu gosto muito de você e por isso mesmo eu acho melhor eu ir embora.
Dizendo isso começou a chorar copiosamente, doía muito tratar seu amigo assim, mas não podia colaborar com toda aquela loucura.
— Fica por favor. — Pediu o garoto desesperado.
— Não posso.
Aos prantos levantou-se e saiu. Seu coração estava partido, nunca pensou que iria brigar com o melhor amigo daquela forma, ou que ele iria mudar tanto.
Nicolas sentiu uma grande tristeza assolar seu corpo, enquanto suas lágrimas escorriam silenciosamente. Tinha estragado tudo, deveria ter mentido para a garota, agora sua família o odiava e sua melhor amiga também. Respirou fundo e olhou em volta, o vento deixava a água do lago levemente agitada, os lírios a sua volta estavam mortos, ele se sentia sozinho.
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