Estava trancado em seu quarto a mais de uma semana, se alimentava muito pouco e não falava com sua família. Sua mãe demonstrava estar sofrendo assim como o filho, a falta de magia por parte dele a preocupava muito, não estava preparada para lidar com essa realidade. Seu pai começava a mostrar indiferença para com o ele, ignorando-o quando dividiam o mesmo cômodo e sustentando diálogos rasos.

Agora que não falava mais com Florence os dias estavam cada vez mais difíceis, o tempo não passava, a cama se tornara uma prisão. O pequeno garoto de onze anos não sabia lidar com tantos sentimentos ruins, seu pequeno coração estava muito machucado e não podia contar com ninguém. Já havia perdido toda a vontade de chorar, ficava dentro de seu quarto fitando o teto e esperando o destino chegar.

Era final de tarde e sol estava se pondo, o quarto do garoto tomou um tom laranja, estava faminto. Levantou-se da cama e rastejou-se para comer alguma coisa. Chegando na cozinha, seus pais estavam sentados à mesa. Ao notarem sua presença a conversa cessou, sua mãe o olhou carinhosamente enquanto seu pai continuou a se alimentar e tomar seu café.

— Olá Filho.

Saudou a mãe, voltando a focar sua atenção na refeição. Nicolas acenou com a cabeça e passou por eles em busca de comida. Não sentia vontade de comer nada, mas ao mesmo tempo se sentia faminto. Serviu-se com uma fatia de pão e um copo de suco, colocou sobre a mesa, sentou-se e silenciosamente começou a se alimentar.

— Você deveria sair mais do quarto.

Continuou a mulher, demonstrando preocupação com o filho.

— Vou tentar.

Nicolas sabia que sua mãe queria apenas o seu bem, mas não sabia o que esperar da mesma caso seu destino fosse o esperado, o medo de se afastar dela o acometia todos os dias.

— Por que você não foi mais ao lago? Você adorava passar o tempo lá.

Questionou ela, enquanto seu marido demonstrava um certo incomodo com aquela conversa. Nicolas deu de ombros enquanto dava uma mordida no seu pão.

— Parou de falar com aquela trouxa imunda?

Perguntou o pai grosseiramente com uma voz carregada de raiva e rancor, sabia que seu pai estava furioso, porém não estava acostumado a ser tratado assim, aquelas palavras machucaram Nicolas que respirou fundo antes de responder.

— Ela não é imunda.

Responde insolente olhando em direção ao pai que ficou furioso com o garoto. Nicolas arrependeu-se instantaneamente, mas era tarde.

— Claro que é imunda, todos os trouxas são imundos e você deveria saber disso. — Bradou o homem com uma expressão de ódio. — É por isso que você é assim, inútil, não consegue realizar magia, você vai terminar imundo igual a ela.

Nicolas se revoltara com as palavras duras do pai, estava cansando de ser ofendido, em um súbito estado de ódio levantou-se da cadeira virando-se para o homem.

— Inútil é você, eu te odeio.

Gritou e saiu correndo, porém Thomas levantou-se rápido, segurou o braço do garoto que tentava fugir correndo e com o braço livre desferiu um golpe com as costas da mão diretamente no rosto do filho.

Nicolas caiu no chão com medo, tremendo, seu pai estava lhe tratando como um animal. Com os olhos marejados em lágrimas olhou para a mãe suplicando ajuda, porém a mesma se manteve imóvel, era visível a tristeza em seus olhos, porém ela não queria confrontar o marido.

O menino sentiu sua visão turva, o golpe do pai havia o machucado muito, seu olho esquerdo estava inchando e um filete de sangue escorria de um pequeno corte no seu supercilio. Levantou-se e mesmo tonto, saiu em direção a porta. Tentou correr para o lago, mas estava muito abalado, parou por alguns instantes e continuou caminhando lentamente.

A atitude de sua mãe havia lhe machucado mais que o tapa de seu pai, Nicolas sabia que não podia confiar no homem e que ele não lhe defenderia nunca, mas se sentiu traído pela mãe. Ver a mulher paralisada na mesa enquanto seu pai lhe batia fez Nicolas perceber que os dois estavam apenas esperando para se livrar dele após não ser chamado para Hogwarts.

Aproximou-se lentamente do lago e de longe conseguiu avistar a silhueta de Florence, ela usava um vestido verde que contrastavam com seus cabelos ruivos. Preferiu não se aproximar e ficou analisando aquela cena de longe. Os lírios estavam mortos desde a última vez que estiveram ali, a água estava calma, o dia estava lindo.

Ficou com medo de se aproximar daquela maneira, com medo de brigarem novamente, não aguentava mais tristeza. Resolveu que ficaria ali, fitando-a de longe, lembrando de quando eram melhores amigos. Tentou procurar um lugar para se sentar afastado e ao caminhar pisou em alguns galhos secos chamando a atenção de Florence que se virou para o garoto e se assustou com a situação dele.

— Nicolas? Ta tudo bem?

O garoto tremeu, mesmo brigados ela ainda demonstrava preocupação com ele, a sua vontade era correr, abraçar a garota, contar tudo que estava acontecendo, mas ela não acreditava nele. Não respondeu à sua pergunta, ficou apenas ali parado pensando em como aquela situação poderia ser diferente, se não tivesse contado a verdade.

— Meu Deus, você está sangrando, o que aconteceu?

Disse ela estendendo a mão para Nicolas que se aproximou lentamente e se sentou ao lado da garota, ela o fitou preocupada olhando seus machucados, parecia ter sido agredido. O garoto nada respondeu novamente, olhou para o chão e suspirou desanimado.

— Vem cá deixa eu te ajudar, põe sua cabeça aqui.

A garota revirou-se tirando um lenço do bolso e esticou as penas pedindo para que o garoto deitasse sua cabeça para ela limpar seu rosto. Nicolas o fez sem questionar, deitou sua cabeça sobre o colo da garota e olhou em seus olhos, ela estava abatida, parecia triste também. Com muito cuidado Florence passou o lenço sobre o machucado de Nicolas que respirou fundo e fechou os olhos.

— Você quer falar sobre isso?

Sussurrou ela enquanto limpava o rosto dele. Ele não queria tocar no assunto, queria apenas esquecer tudo que estava acontecendo.

— Não, deixa pra lá. — Respondeu ainda com os olhos fechados. — Você parece triste, ta tudo bem com você?

O menino expressou sua preocupação com Florence.

— Meus pais estão brigando todos os dias e acabam descontando tudo em mim.

Desabafou a garota. Os pais de Florence eram muito pobres e seu pai era alcoólatra, brigando quase todos os dias e acabavam descontando tudo em cima de dela. A garota era a mais velha de 4 irmãos e tinha que cuidar de todos quando seus pais brigavam e esqueciam da existência dos filhos. Aos 11 anos muitas vezes ela quem fazia a refeição de todos e cuidava dos mais novos. Nicolas sabia daquela situação e admirava muito a garota pois apesar de tudo ela sempre sustentava um sorriso no rosto e dificilmente se lamentava.

— Eu sinto muito que você tenha que passar por isso. — Disse Nicolas olhando nos olhos da garota que cuidava de seus ferimentos.

— Não é só você que tem problemas em casa, não é mesmo?

Respondeu a menina abrindo um lindo sorriso. Ela terminou de limpar o ferimento do garoto, deixou o pano de lado e começou a acariciar o seu rosto passando a mao por sua franja. Nicolas se acalmou, não se sentia assim a muito tempo, a garota tinha um efeito nele que ele não conseguia explicar.

— Você faz muita falta. — Sussurrou ele, fechando os olhos novamente e aproveitando os carinhos da garota.

Florence respirou fundo olhando para o lago, a presença dele trouxe uma paz que ela não sentia a algum tempo.

— Você também faz, é insuportável ficar dentro daquela casa por muito tempo, meus pais cobram muito de mim, meus irmãos não têm noção do que está acontecendo, eu não aguento mais sabe, eu me sinto uma empregada dentro da minha própria casa.

Desabafou ela com os olhos marejados de lágrimas.

— Eu lhe entendo, se eu pudesse eu ficava aqui com você pra sempre. — Disse o garoto.

Ela olhou para garoto em seu colo, ferido e totalmente indefeso. Sentiu que ele era a única pessoa com que ela realmente se sentia em paz, a conexão entre eles era única e estava feliz por telo de volta. Em um impulso repentino totalmente levada pela emoção, levou seus lábios até a boca do garoto e beijou-o.

Deitado sobre o colo da garota, recebendo os toques leves dos dedos da garota em seu rosto sentiu uma paz que não sentia a muito tempo. Nicolas estava ensaiando falar alguma coisa para consolar a garota, quando sentiu os lábios dela nos seus, sentiu seu coração acelerar e um calor tomar todo seu corpo. Os lábios de Florence eram incrivelmente doces, com seus corpos tão perto podia sentir o cheiro da garota e era definitivamente a melhor sensação que já sentira na vida.

Florence afastou seus lábios, fitou-o envergonhada e apreensiva com a reação do garoto. Nicolas abriu os olhos e encontrou o olhar da garota sentindo seu rosto queimar de vergonha, abriu um sorriso tímido que logo foi retribuído pela garota. Os dois caíram na gargalhada, tímidos sem saber como reagir a aquele momento.

A garota desviou o olhar, olhando em volta e assustou-se com oque viu.

— Nico, você fez isso?

Perguntou a menina assustada com oque via. Nicolas levantou-se e se sentou ao lado da garota olhando em volta, os lírios que outrora estavam secos e mortos agora estavam vívidos e fortes, emanando um aroma agradável a beira do lago. O garoto tentava processar tudo que estava acontecendo, não acreditando no que estava vendo.

— Não sei. — Disse segurando a mão da garota na tentativa de acalmá-la.

Apesar de estar confuso, ele sabia o que tinha feito. Se sentia diferente, como se estivesse completo, sentia que a magia corria em suas veias. Mas não conseguia se sentir feliz, não por hora, pois ao olhar para Florence e viu que a menina estava muito assustada.

— Ta tudo bem? — Perguntou ele.

— Então... você é realmente um bruxo? — Indagou a garota tentando entender o acontecido.

— Sim.

— E o que isso muda? — Questionou ela, não sabia o que pensar, era difícil digerir aquelas informações.

— Não muda nada. — Respondeu entrelaçando seus dedos nos da garota. — Você ainda é a única pessoa em que eu posso confiar.

— Mas e os seus pais? Você não vai contar para eles?

— Eles não me amam.

As últimas palavras de Nicolas foram dolorosas para Florence ouvir, pois a fez refletir sobre sua relação com sua família. Desde muito nova nunca havia recebido afeto por parte dos pais, toda demonstração de carinho sempre vinha seguida de cobranças e tarefas. A única pessoa que sempre foi gentil gratuitamente com ela era o garoto que estava ao seu lado, ficou em silêncio em alguns segundos pensando oque tudo aquilo significava.

— Eu te amo, Nicolas. — Disse encostando a cabeça no ombro do garoto.

Nicolas abriu um sorriso radiante olhando para o lago ao ouvir as palavras da garota.

— Eu te amo, Florence. — Respondeu.

Os dois ficaram em silêncio, os dedos entrelaçados, com as cabeças encostadas apreciando o anoitecer tentando digerir todas as informações daquele dia.