Em Tom De Azul
8 Toda vez que tentar se suicidar, pense nas margaridas
Notas iniciais
“War is peace.
Freedom is slavery.
Ignorance is strength.”
― George Orwell, 1984
Alberto trabalhava, corriqueiramente, sobre a cidade. Como era de praxe, dizia “Desce daí!”. “Não desço”, alguém rebatia. E era meia hora de cantiga: Desce daí, Não desço, Desce daí...
– Quero morrer – explicou-se a jovem, nervosa; suas mãos tão firmes quanto a própria barra metálica em que se moldavam.
– Isso é coisa de jovem, passa. Desce daí!
– Não posso viver neste mundo! Fartei-me da fatal inevitabilidade pacífica da existência humana! Não há esperança, fomos dominados pelo indomável e trancafiados dentro de uma ilusão. E ninguém vê, e, se vê, não se importa! Está tudo errado! Somos menos que porcos!
– Eu entendo – murmurou para si mesmo Alberto, arrancando do bolso um quadrado esverdeado de plástico. A garota virou-se para encará-lo, surpresa pelo que o homem falara. Ela viu, alargando ainda mais os olhos-órbitas, a pílula rósea que ele segurava entre os dedos, oferecendo-a a felicidade encapsulada.
– Não vida mais sentido – confundiu-se pelo nervosismo. Não iria tomar, não iria tomar, iria sentir o medo e a dúvida e a morte e a tristeza e a solidão e a fragilidade de sua condição humana. Sim, ainda era humana num mundo de máquinas superinteligentes e de pessoas-zumbis com seus robôs que a alimentavam e que a vestiam e que a entretinham e que gozavam, completamente vazias de significado existencial.
O homem arfou, a expressão clareando, os lábios erguendo-se em sorriso de deleite manso. Havia entendido, enfim, o que estava de errado com a menina, pensava.
– Seu SMC¹ está quebrado, moça?
Ela gritou, desesperada – Não aguento mais, vou saltar! Adeus!
– Espere, moça. Tome a pílula, logo, logo se sentirá melhor. Como a jovem tornou a gritar, eufórica, Alberto pediu: — Pense nas margaridas...
– Tudo falso, tudo completamente irreal! Não quero pílulas contra a infelicidade, não quero chocolate isento de calorias, não quero brócolis com gosto de pizza de peperoni, não quero ter que passar por cinco catracas para sair pela portaria do meu prédio, não quero que margaridas sejam espécies raras, não quero poesia feita por máquinas, não quero uma sátira do Grande Irmão no Poder, não quero uma garrafa de água eletrônica que saiba tudo sobre mim quando a toco!
– Você é uma daquelas pessoas retrógradas, então... – comentou para o vento.
A garota não o escutou, estava presa em seu solilóquio – Eu quero o direito de ser gorda e sedentária, de ter problemas de saúde, de odiar comer abóbora pelo simples fato de eu não gostar do sabor dela. Que gosto tem abóbora, aliás? Será ela realmente laranja? E este corpo que uso como roupagem, a quantas outras garotas pertenceu? Sou eu no reflexo do espelho ou o reflexo no espelho sou eu? Esta consciência divergente é minha, unicamente minha, ou até ela advém de um defeito no SMC implantado no antebraço deste corpo? Ainda está ele no meu antebraço, ou no meu cérebro? Não quero saber, não quero saber – gritou e despencou, subitamente.
Alberto não esboçou reação notável. Apertou um botão no relógio de pulso, pegou um pedaço de vidro quadrado esquecido no chão e desceu as escadas. O vidro acendeu-se em milhares de cores, iluminado o rosto extático de um homem aos seus vinte e três anos. As cores formaram uma imagem engraçada, sobre ela, os dizeres: Megacomputador Einstein II ganhou prêmio Nobel de Química e de Medicina pela quarta vez consecutiva.
– Não há nada como um dia normal de trabalho – cantarolou Alberto.
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