Em Tom De Azul

9 É lindo, vai renascer I


Notas iniciais
Essa a primeira crônica/lembrança do conjunto de textos que, no futuro, irão fazer parte de um romance. Talvez. Recomendo que leiam escutante a música "Kids" do MGMT. Ela significa muito para mim.

PARTE UM

KIDS

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"Control yourself.
Take only what you need from it.
A family of trees wanting,
To be haunted."

– Kids — MGMT

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É lindo, vai renascer.

Decidi que, se começasse a escrever um romance à tenra idade, seria essa a primeira e a última frase do livro. Eu a vi, um dia, pichada na parede de um estabelecimento decrépito e nunca a esqueci. Levo-a no meu coração, junto com todas as minhas lembranças que um dia serão também as memórias irreais de outros – vou escrever tudo, decidi.

Porém, após um banho ligeiro e um pentear de cabelos que durara cerca de uma hora em frente ao espelho, com o silêncio do quarto a me sufocar, percebi que essa frase nunca pertenceria a um romance. Ela é breve e potente. Romances são longos e complexos. Ela é um segredo no diário de uma menina, ela é o sussurro de apaixonados na cama, tarde na noite, cedo na madrugada. Ela é feita de momentos breves e insustentáveis de tão leves.

Eu a guardei em mim por um motivo, e o motivo é que ela segura em si toda a minha esperança de que voltemos a ser o que não poderíamos jamais ser outra vez.

Amantes não são os únicos a dizerem “É para sempre”.

Quero que feche os olhos e imagine um pássaro azul alevantar voo, o céu claro, sem nuvens, o sol brilhante, o som da nossa canção preferida sendo cantando no ritmo errado com o tom que somente nós conhecíamos. Sabíamos que estávamos cantando-a de forma errada, mas era justamente o erro que a tornava nossa.

Quando estiver lendo isso, provavelmente, já terá se esquecido do tom da minha voz e de qual música refiro-me. Mas tente lembrar, tente lembrar. Tudo o que fomos continua aí, dentro de você. Tente lembrar.

A primeira coisa da qual me lembro é do dia em que selamos nossa amizade.

Era quase fim de tarde. Estávamos caminhando em meio ao capim afiado, querendo correr para alcançar a praia, como se ela pudesse fugir da gente. Éramos jovens, 15, 16 anos, a vida estava apenas começando e todos os nossos sentimentos não sabiam ser moderados – quando chorávamos, chorávamos com pulmões, olhos, bocas e mãos; quando ríamos, o mundo também ria de certa forma, mesmo que fosse só a distorção do assobio do vento comprimindo-se para passar por entre dois prédios enormes e solitários.

A mãe da R. não queria nos deixar ir à praia sozinhos. Éramos muito jovens, disse ela, tenho medo que se machuquem, que se percam, que sejam raptados. Reviramos os olhos, mas não argumentamos.

Lembro-me da textura da terra debaixo dos meus pés, do vento forte no meu rosto, do som das risadas e da água se aproximando, calma, maremoto. Em seguida, há sete jovens completamente diferentes correndo com punhados de terra nas mãos, e terra no ar. Corri para longe, não queria ficar suja. Vocês me ignoraram, e eu ri sozinha da brincadeira, até que o J. se virou e gritou – Você tá tão limpa, né?

Os seis correram. Na pressa de escapar, caí na areia, acho, não tenho certeza, talvez seja apenas uma daquelas falsas lembranças que críamos para enriquecer o momento. Se for falsa, não me deixa triste. Gosto de imaginar que foi assim que aconteceu.

Pensei que estivesse chovendo areia sobre os meus olhos. Cocei-os, cocei os braços, voltei-me com areia nas mãos sendo jogada contra a blusa de alguém. O V. me agarrou e me rodopiou com ele no ar, nossas pernas se misturaram e se confundiram, caímos dentro do mar. Mas, prefiro pensar que foi o mar que cometeu o erro, foi ele quem caiu em cima de nós.

Fomos arrastados pela correnteza forte, caímos várias vezes antes de conseguir firmar os pés na areia. Quando tentamos avançar, o mar surgiu por trás e nos derrubou. Acho que queria brincar também.

Finalmente saímos, encharcados, os pulmões sem ar, a boca escancarada. Não saía som, nem precisava; nossas feições estavam contorcidas em júbilo.

Entramos na lagoa.

Havia o mar, uma faixa de areia e a lagoa.

Havia a vida, o momento e a morte, pois.

O mar era a representação da vida, por ser instável e constante, uma grande massa de água que se estende até depois do limiar do horizonte, fundindo-se, por vezes, a ele, e crescendo em direção às estrelas.

A faixa de areia era o momento. Apesar de ser terra firme, poderia se dissolver debaixo dos nossos pés a qualquer momento.

A lagoa era a morte. Existe a parte do mar, da vida, tão próximo e, ao mesmo tempo, intocável por suas águas. Vivia do lado dele, como uma constante lembrança de que o destino de todas as criaturas era certo e, por isso, inevitável.

A água estava quente.

Alguém mijou ou soltou um peido. Rimos, porque quando se é muito amigo, se é muito íntimo e não se tem frescura, falávamos sobre tudo, compartilhávamos tudo.

Contudo, admito: foi nojento.

Rio do mesmo jeito.

Mais tarde, pularíamos na piscina. Ou isso teria acontecido mais cedo naquele dia? Não sei. As lembranças confundem-se com o passar do tempo.

A próxima lembrança que tenho é a mistura de dezenas de fragmentos de todas as vezes em que sentamos nos bancos de trás da topique e cantamos alto com nossas vozes desafinadas. As pessoas odiavam; algumas riam, outras até cantavam alguns versos.

Pensando agora sobre isso, não é irônico? A topique que sempre pegávamos para ir aos mesmos lugares tinha o mesmo número que a música que tocou naquele dia, quando estávamos correndo na praia, com a areia nos cabelos, nos braços, nas roupas e nas bocas. Lembro que, durante todo o trajeto de volta à Fortaleza, o carro esteve cheio do refrão daquela canção e da nossa voz apressada tentando seguir o ritmo (que nem era tão rápido assim).

Ainda é uma das minhas músicas preferidas, e sei que sempre será a de vocês também. Um dia, espero que nos encontremos debaixo do sol, de frente ao infinito, outra vez, para repetir o refrão fora do ritmo – por favor. “I'm going back to 505, If it's a 7-hour flight or a 45-minute drive, In my imagination you're waiting lying on your side, With your hands between your thighs”.

Eu realmente sinto falta da época em que saíamos do colégio correndo para pegar a 55 e íamos assistir qualquer filme em cartaz no Iguatemi. Era o shopping mais distante da cidade, apesar de não ser o único a exibir filmes legendados. Nunca irei entender por que não íamos para os mais próximos de nossas casas. Acho que era porque gostavámos mesmo não de sair para assistir a filmes, mas para conversar e cantar por um longo, longo tempo, e chegar em casa tarde – naquela época, oito horas era escandalosamente tarde e, por isso, adorávamos pensar que éramos jovens rebeldes descolados.

Lembro que passávamos grande parte do dia falando das coisas que víamos na dash dos nossos Tumblrs. Foi ele que nos fez viramos amigos, de repente. Sete estranhas pessoas com gostos tão diferentes nós éramos. Assusta-me pensar o que eu poderia ser sem vocês na minha vida.

Notas finais
Todas as partes estarão bastante interligadas, por isso os finais de cada uma não serão, precisamente, um final, mas o início de algo novo, que será retornado na próxima parte. Espero que goste! Deixe um comentário dizendo o que achou ^^ Bisses!