Notas iniciais
Embora seja uma única estória, seus capítulos são independentes e foram assim avaliados no 1º Desafio Relâmpago de Drabbles do fórum Saint Seiya Dreams (novembro/2009).
Este capítulo (OBSESSÃO) recebeu a nota 9.

Link para o tópico do desafio: http://www.invisionplus.net/forums/index.php?mforum=ssdforum&showtopic=1415&mforum=ssdforum&st=0

Em tempos de paz...

...cortejamos a morte. Lambuzamo-nos em nosso próprio sangue, causamos nossas próprias dores, nos entregamos aos nossos prazeres mórbidos nas sombras de nossos quartos.

Como eu, somente ele. Os outros não são como nós, não nos entendem. Julgam-nos por nossos gostos peculiares, pelas coisas que fizemos no passado e das quais já nos arrependemos. Prometemos à deusa não destruir mais vidas inocentes, nem derramar sangue desnecessário e em troca ela nos deu uma segunda chance.

Mas isso não nos torna santos.

O gosto do sangue, seu cheiro, seu brilho quando escorre das veias ainda nos atrai. Temos prazer em causar dor. E se não podemos fazer isso com os protegidos de Athena, contentamo-nos em buscar nossos prazeres juntos.

Nossas noites são vermelhas: do veludo dos lençóis, das rosas nos jarros e do sangue que verte de seu braço onde fiz um corte com minhas próprias unhas. Ele deita na cama. Eu aperto seus pulsos com firmeza.

Nós não trocamos palavras gentis. Não nos damos a sentimentalismos. Não é disso que precisamos.

Na urgência do seu corpo, ele geme. Seus cabelos espalham-se pela cama, como uma onda, seus pés se contorcem nos lençóis. Despido, ele é como qualquer homem. Embora tenha essa estranha e suave delicadeza que se mistura com suas poucas curvas tipicamente masculinas. Ele é exoticamente belo. E fica ainda mais quando sangra, quando faz essa expressão de prazer e dor.

Passo a língua em seu sangue e beijo seus lábios. Ele entra em êxtase. Nosso sexo é violento e nossas noites, selvagens. Seu corpo é privilégio unicamente meu, marcado por minhas unhas e dentes.

Nosso pacto é selado com sangue, suor e sêmen.

Deitado na cama, exausto, ele dorme, enquanto fumo um cigarro vendo a noite passar silenciosa. Em seu sono ele remexe-se inquieto, murmura alguma coisa numa língua que não entendo. Move-se de uma forma sensual, como se mesmo em sonho continuasse o que tínhamos acabado de fazer. Mas seja lá o que ele murmura, não é meu nome.

Com quem ele está sonhando? Talvez um dos vários amantes que já deve ter tido. Quantos poderiam ser? Dezenas talvez, ele nunca me disse, eu nunca perguntei.

Ele está excitado em seu sono, posso ver claramente. E isso me irrita, porque não sou eu, dentro de sua cabeça, que o deixo assim. Não sou eu e não pode ser outro.

Pego-o pelos cabelos e o faço acordar. Ele se assusta pelo despertar abrupto.

− Eu não permito que você sonhe com outro − digo-lhe e o faço olhar bem em meus olhos.

Ele tira minhas mãos de seu cabelo com um gesto delicado, mas com força. Diz que não sabe do que estou falando, que não se lembra de ter sonhado com outra pessoa. Deita-se novamente e puxa-me pelo braço para dormir com ele.

− Você está ficando paranóico − ele murmura.

Talvez eu esteja. Mas não poderia ser de outra forma, com semelhante criatura ao meu lado, cuja beleza é digna de seu nome.