Em Tempos de Paz
5 Saudade
Notas iniciais
Este capítulo (SAUDADE) recebeu a nota 10.
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Em tempos de paz...
...somos nossos piores inimigos. Relembramos nossas tragédias do passado, nossas antigas ambições. Às vezes sonhamos com isso e tentamos desesperadamente deixar esses pensamentos de lado para não cairmos na tentação de repetirmos os mesmos erros.
Nossos amigos nos perdoaram e nos deixam participar de suas vidas. Mas e nós? Será que um dia seremos capazes de nos perdoar? Os erros que cometemos não foram quaisquer erros. Eles custaram vidas humanas. E algumas delas foram valiosas para nossos amigos.
Na casa de Gêmeos, quando estamos sozinhos, tentamos ocupar nossas mentes com outras coisas. Tentamos ter uma vida normal, embora tenhamos plena consciência de que não a merecemos.
Saga está sempre com os olhos perdidos no vazio. Ele está mais afundado nessa lama do que eu, embora devesse ser o contrário. Tudo o que eu fiz foi conscientemente. Mas o que ele fez nada mais foi do que um trágico resultado de um descontrole mental. Todas as noites ele dorme temendo que Ares acorde em seu lugar.
Digo-lhe que não deixarei isso acontecer. Que nós devemos vigiar um ao outro para não cometermos os mesmo erros novamente.
− Você sempre foi omelhor de nós dois − confesso-lhe.
Ele nega. Diz que quando éramos mais novos nós éramos iguais. Que naquele tempo não tínhamos nos corrompido, que nós dois éramos melhores juntos. Ele sentia falta daquela época e eu também. Nós éramos os melhores irmãos e amigos que poderiam existir. Nós nos bastávamos.
− Você lembra? Nós dormíamos juntos até depois dos quinze anos − tentei animá-lo. Ele esboçou algo como um sorriso.
− Nós fazíamos coisas que irmãos jamais fazem − retrucou.
Silêncio.
A juventude é sempre uma época que lembramos com nostalgia. Não haviam disputas, não haviam deuses, nem maiores ambições do que estarmos vivos e juntos no dia seguinte.
− Nós nos amávamos − declarei.
Ele olhou-me no fundo dos olhos e depois virou o rosto.
− Quando foi que começamos a nos distanciar?
Ele não sabia. Eu também não.
Foi nessa época que comecei a ficar louco...
Mas por que relembramos isso? Essa saudade, essa nostalgia, não tem utilidade agora. Nós estamos juntos de novo, afinal, embora não sejamos mais os mesmos. E aquela época não vai mais voltar por mais que pensemos nela.
Resta-nos conviver com o peso dos nossos erros e agradecer por estarmos juntos agora, mais uma vez, e podermos ajudar um ao outro. Resta a mim confessar a ele que de tudo que mais me arrependo foi de um dia ter posto minhas ambições acima do meu amor por ele.
Nossas mãos se entrelaçam. Ele tem esses olhos ao mesmo tempo iguais e diferentes dos meus e esse corpo que há muito tempo não vejo descoberto. No escuro do quarto, nus, nós nos abraçamos e dormimos, quietos e satisfeitos pela mera companhia do outro. Será sempre assim daqui para frente, como sempre foi desde o ventre de nossa mãe.
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