Em Suas Mãos

5 Capítulo 4 – Onde o Sol se Põe


Nas suas Mãos

Capítulo 4 – Onde o Sol se Põe

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Correr.

O mais rápido que pudesse. Como se isso a fizesse fugir de si. Como se a fizesse transcender.

Música alta, pulsação acelerada, corpo acelerado, mente acelerada. Era assim que vivia todos os dias. Uma adrenalina constante na qual sua vida se tornou desde o dia ao qual os acontecimentos fizeram dela o que é hoje, desde o dia que aceitou o acordo do Lockwood.

Niklaus Mikaelson, milionário, ambicioso, moral duvidosa, assassino. O conjunto de qualidades perfeitas para se encaixar no seu mural de vítimas “e talvez também em outros lugares”, ela pensou.

Não negava que ele lhe causava reações internas inapropriadas e negar nunca foi de sua natureza. Caroline não fugia de nada embora metaforicamente desejasse e isso, isso era algo ao qual definitivamente não gostaria de fazer.

Era o que ela fazia toda manhã antes de ir trabalhar. Dissipava as ideias anteriores e colocava as novas em prática. E toda vez que Caroline se via imaginando certas coisas sorria involuntariamente. Se ela gostava de ser como é? De fazer o que faz e como faz? Absolutamente.

Caroline nunca se aproximou de um alvo seu, como costumava chamar aqueles que caíam antes do amanhecer. Nunca se deu ao trabalho de ficar por tanto tempo próxima a alguém que ela gostaria de ver longe da convivência social o mais breve que quisesse. Rapidez, discrição e eficiência são seus sobrenomes. Mas dessa vez se fazia tão necessário quanto a sua própria vontade.

E ela o destruiria.

De dentro para fora.

Por inteiro.

Nas últimas três semanas avançou alguns passos na confiança de Klaus. Apresentou planos de crescimentos gradual, conduzindo reuniões que trouxeram novas expectativas aos colaboradores e a falta de tato do Mikaelson era um caso ao qual ela respondia sempre à altura, não afetando a dinâmica entre os dois, pelo contrário. Klaus parecia mais atento à empresa e recebia cada vez menos visitas inesperadas da secretária durante o expediente, trocando sua sala pelos corredores e principalmente pela sala da loira.

Este dia em particular Caroline decidira jogar mais baixo. Chamou o jovem advogado para recolher mais algumas informações jurídicas acerca da empresa e de Klaus. Para isso, permaneceu em seu escritório com Stefan o dia inteiro. E desde que chegou, avisou que não queria ser incomodada por ninguém, “nem pelo chefe”, disse a secretária reproduzindo a fala para Klaus.

Nem uma reunião com alguns novos clientes o distraiu ao ponto de não conseguir se importar com o que quer que acontecia naquela sala enquanto os dois ficavam sozinhos sem serem incomodados. Ele mesmo já fizera isso algumas vezes com Genevieve em uma desculpa qualquer de agenda da qual resultou em alguns orgasmos à sua secretária. Embora não conseguisse manter a concentração no que falavam, tentou ao máximo parecer imparcial, sem sucesso.

Ao final do expediente, Caroline saiu no mesmo tempo em que Klaus encerrava a reunião. Eles trocaram olhares por um momento quando o advogado saiu e despediu-se com um beijo no rosto da loira. Ela lançou outro olhar para Klaus, dessa vez, acompanhado de um sorriso satisfeito.

O Mikaelson travou a mandíbula e se despediu rapidamente dos novos parceiros quando a viu indo em sua direção.

― Boas notícias. – Ela disse se aproximando dele e colocando uma pasta em seu peito enquanto Klaus encarava Stefan ao final do corredor. ― Sr. Mikaelson. – Ela lhe chamou a atenção e Klaus seguiu para sua sala.

― Klaus. Já falamos sobre isso. – Ele a corrigiu, ainda mal humorado e fechou a porta dupla atrás de si.

Caroline deu de ombros e ele a observou seguir para o banheiro, onde deixou a porta aberta. Klaus foi até sua mesa de canto e se serviu de mais uma dose de whisky, recostando-se no vão da porta com o copo em mãos, admirando-a por alguns instantes.

― Quase não temos processos, mas esses dois eu acho melhor aceitar pagar o acordo. As despesas que gastaremos ao recorrer, embora eu queira que Stefan ganhe dinheiro, são muito mais altas e eu trabalho para pensar em você em primeiro lugar. – Não era ao todo uma mentira. Para nenhum dos dois.

Caroline falava sem parar enquanto retocava o batom vermelho, ajeitava sua roupa e por fim, os cabelos sorrindo empolgada com os resultados. Empolgada demais, talvez por outro motivo, ele pensou.

O modo como ela falava e se portava diante dele o fez divagar. Lembrou-se de como a subestimou quando entrou por essa porta e o quanto se sente confuso sobre confiar, mais uma vez, em alguém do qual não sabia se era certo. Seu mundo era rodeado por parasitas, por pessoas que ou gostariam de estar no seu lugar ou gostariam de vê-lo queimar sem pensar duas vezes. E apesar dela não parecer se importar com nenhum dos dois, não o temer, não se curvar, como todos, ainda assim era algo a ser observado com mais cautela. De perto. Mais perto do que realmente gostaria, mais até do que deveria. E ele sabia dos riscos que corria ao explorar seus limites. Mas o Mikaelson, o que usa as pessoas o tempo todo, realmente não se importava.

― Bom, de qualquer forma temos duas semanas para as audiências. Dá tempo o suficiente para nos prepararmos com esse pagamento e...

― Caroline. – Klaus a interrompeu e andou em sua direção. Ela ainda não havia se acostumado ter seu nome pronunciado por ele e isso lhe causava certo alvoroço. ― O que fazia com Stefan naquela sala?

A voz firme de Klaus a fez estranhar a atitude.

― O que eu estou te repassando agora. – Falou séria.

― Todo esse tempo? – Arqueou uma sobrancelha. ― Ah, por favor, amor. Não seja sínica...

A insinuação do Mikaelson conseguiu irrita-la o suficiente para deixar transparecer o quanto ficou furiosa.

Klaus riu satisfeito por tê-la atingido em um ponto delicado. Acostumado a forçar as pessoas ao seu limite usando o medo de enfrenta-lo ao seu favor o deixava a vontade o suficiente para falar o que quisesse da forma que desejasse, sem se importar com os pensamentos ou sentimentos alheios. E talvez também fosse assim com Caroline no final das contas.

A loira fechou os olhos tentando se recompor e ao abri-los, ali estava o Mikaelson, com um sorriso cínico de deboche e o ar de poder ao qual ele não consegue evitar, olhando fixamente para ela como se esperasse uma resposta. Boa ou não.

E ela sorriu. Não era mais uma menina que corre para os pais sem saber o que fazer porque bem, ela não teve pais para isso. Aprendeu a suportar tudo da pior forma: experiências. Das quais arrepiariam a alma de qualquer um. E das quais ela blindou-se por completo, assim como ele, por diferentes motivos.

― O que diabos você quer de mim, Klaus? – Usou o mesmo jogo de insinuação do Mikaelson e ele riu abafado.

― Nada. – Disse dando mais um gole no whisky. ― Já faz mais que o suficiente. – E a olhou com soberba.

― Não é o que parece. – A tensão pairou no ar que ambos respiravam tão próximos. ― E embora você seja, hmm... – Ela suspirou e o olhou de cima abaixo desejosamente voltando a encara-lo. ― não tenho nenhum tipo de fetiche com chefes. Por enquanto. Sinto muito.

― Não brinque comigo, Caroline! – Vociferou forçando-a contra a parede com uma das mãos acima de sua cabeça. ― Não estamos em um jogo. – Disse rouco cheio de sotaque tocando levemente em seu queixo, fazendo-a olhar para cima. Pupilas dilatadas, respiração pesada, lábios levemente avermelhados. O ar perigoso que ambos possuíam parecia um convite para entretenimento mútuo. E eles sabiam o quanto desejavam isso, mesmo cientes de que não deveriam.

― Não é um jogo quando não se tem perdedores. – Caroline sussurrou tão rouca quanto.

Ambos tiveram que usar o auto controle quase inexistente naquele momento para dar conta do contato misturado com o clima carregado de algo que não dariam conta de fazer parar.

― E se quisesse o Salvatore mais bonito exclusivamente para você era só ter falado. Eu aceitaria a dividi-lo contigo. Seria até... interessante. – Um sorriso cheio de malícia brotou em seus lábios e Klaus fechou os punhos em eventual irritação.

Caroline o olhou de cima abaixo como se estivesse analisando-o minuciosamente e analisando a situação. Aumentou seu sorriso, o empurrou delicadamente com a mão espalmada em seu peito e se afastou.

Um som de batida ecoou e Klaus não se prontificou em atender. Apenas pegou mais uma dose para si acabando em apenas um gole pressionando a mão contra o copo como se fosse quebra-lo em pedaços.

Por Deus, ela era realmente linda. Ele mesmo gostaria de pergunta-la para onde iria daquela forma, mas não fora necessário.

Caroline parou em frente a porta e fez uma última provocação ao ver o estado descontrolado do qual ele se encontrava.

― Tão sexy. Tão errado. Tão... – E abriu a porta sem completar.

Elena se manteve paralisada segurando sua bolsa enquanto tentava compreender a situação. A única coisa que sabia, é que havia algo terrivelmente errado ali, mas preferiu não comentar naquele momento.

Klaus não tirava os olhos de Caroline. A encarava como se ela fosse a presa e ele o caçador.

Doce ironia.

Não houve despedida. Ela virou de costas e fechou a porta enquanto Klaus permanecia inerte.

― Meu Deus, estava quente ali dentro. – Elena disse divertida se abanando. ― O que houve, hm? – Suspendeu uma sobrancelha para loira que se ateve em rir da curiosidade da amiga.

Amiga.

Uma palavra nova no seu dicionário vivencial. Não sabia se de fato poderia chama-la assim, mas gostava disso.

Nas últimas semanas ela e Elena saíram várias vezes para verem alguns apartamentos e no meio da indecisão trocaram algumas confidências interessantes até para o trabalho da loira. Apesar de frio e aparentemente apático, Klaus possui um apreço inexplicável pela família, especificamente seus irmãos. Rebekah era o seu xodó, alguém ao qual ele protegia de forma doentia. Ao ponto de preferi-la longe do que sempre destruir seus relacionamentos afetivos com qualquer pessoa.

Sua família. Seu ponto fraco.

E no meio das suas nubladas intenções, ela descobriu que podia genuinamente se importar com alguém. Ela se importava com Elena.

― Klaus não gostou dos seus funcionários tendo uma relação mesmo que esta não tenha nada sério. Ele acha um erro.

― Ah! – Elena exclamou. ― Mesmo fora do ambiente organizacional? – Perguntou preocupada.

Caroline riu, afinal, sabia bem do que ela se referia quando franziu cenho preocupada.

― O único errado aqui é ele. ― Disse e Elena expirou aliviada.

― Então você e Stefan serão, amigos...

― Embora eu quisesse uma amizade cheia de cores por aí vou respeitar meu trabalho.

Elena deu de ombros e seguiu para o encontro de Vicky, sua amiga e corretora, que aguardava na frente da empresa.

― Dez minutos atrasadas, mocinhas. – Ela apontou para o relógio de pulso em um tom divertido.

― Dessa vez culpe Caroline. Klaus decidiu aluga-la de última hora. – Elena apontou acusatoriamente para Caroline que deu uma risada descontraída.

Vicky era louca. Daquelas que curte a vida sem barreiras e sem fronteiras. Desbocada, desmiolada, descontrolada e todos os “adas”, ela era uma boa pessoa e excelente amiga, daquelas que assim como Elena, não te deixam na mão. Elas se conheceram na faculdade, da qual Vicky largou para viajar à Europa e só retornou ao saber que sua fonte financeira havia falecido e lhe deixou uma famosa imobiliária em mãos. A irresponsável e insana Vicky era agora não tão irresponsável e insana assim administrando sua vida sem limites bancada pelos compradores dos imóveis e de dormir com clientes ricos. Sua animação era tão contagiante que levantava até defunto.

― Bom, aqui estamos. – Vicky abriu a porta da cobertura e Elena a boca em um perfeito “O”. ― Não é maravilhoso? – Disse com os braços abertos como se recebesse uma brisa que balançasse os cabelos. ― Esse efeito especial não tem graça alguma quando as janelas não estão abertas. – Entediou-se.

Duas suítes e uma sala conjugada à cozinha, com móveis modernos em tons claros neutros e utensílios em inox. O apartamento era perfeito, espaçoso suficiente para dar a ela toda privacidade que queria, mas que não cabia no bolso de Elena.

― Eu... E-u, não posso pagar por isso. – Elena sacudiu a cabeça negativamente.

Vicky e Caroline trocaram um olhar confidente e riram.

― Ficaremos com ele. – Enfatizou Caroline.

― Não se preocupe, gata. Nós já cuidamos disso. – Disse Vicky passando a mão nos cabelos da morena.

― Não, não não e não. Não tem graça, Caroline. Combinamos de pegar um ao qual eu pudesse manter. – Cruzou os braços chateada não querendo demonstrar que queria aquele lugar.

― É apenas a dez minutos do trabalho e vinte da universidade. Dá para ir a pé se precisar! – Vicky disse aos pulinhos, mas nem isso pareceu convencer a morena.

― Faremos assim: eu pago o aluguel, as contas e você as compras do mês. Quando terminar sua residência e pegar um diploma, terei consultas e exames grátis para o resto da vida. – Caroline sorriu largamente junto com a corretora.

Elena ficou chorosa e correu para abraçar Caroline. Um abraço longo, apertado e sincero, algo ao qual ela pensou nem existir mais.

― Ei! Eu quero. Também fiz parte dessa máfia! – Vicky correu empolgada e abraçou as duas juntas. ― Agora vamos parar de viadagem, meninas. Olhem só o que eu trouxe... – Foi até um embrulho e retirou da embalagem comprida uma garrafa de vinho. Pegou três taças no armário e serviu todas. ― Um brinde à casa nova. Vamos ficar bêbadas!

Brindaram, se sentaram no balcão e conversaram durante horas. Todas as experiências que Vicky teve com os italianos, alemães e as vergonhas alheias foram narradas nos mínimos detalhes, sempre seguido de risadas altas que provavelmente incomodariam os vizinhos se todo o imóvel não fosse à prova de som.

― Meu Deus, espero que vocês transem muito nesse sofá e no carpete porque se vocês não quiserem eu quero. Amo veludo. É brega, mas é sexy. – Se jogaram no sofá e gargalharam juntas. ― É sério! Uma perna aqui, outra ali, talvez uma mão lá...

― Vicky! – Elena a chamou em um tom divertidamente reprovador.

― Vai dizer que você não queria? Imagina só: de quatro, de lado, de frente, de...

O celular de Caroline vibrou e ela se afastou levando consigo a taça, indo em direção ao principal motivo da sua escolha pelo luxuoso apartamento.

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Klaus não sabia o que era dormir desde que assumiu o cargo de CEO na empresa que carrega o nome da sua família. A aposentadoria do seu pai Mikael lhe deu um fardo pesado para suportar, mas não mais o qual ele suporta todos os dias.

Era desgastante lembrar-se daquela noite fria de um ano atrás que o consome e de tantas outras que o fazem muito pior.

Culpa. As palavras se tornam vazias quando essa é a dor que te mais faz sentir.

Ele levantou-se e pegou mais uma dose. Whisky é o que acalma o coração dilacerado no começo da madrugada. Isso e seu trabalho. E pensando em trabalho que lembrou-se de Caroline e como ela mexia com ele de uma forma que não sabia explicar. Ela é imprudente, com e sem moral, sexy e o seu mistério povoava seus pensamentos. Fechou os olhos por uns segundos e seguiu para o seu quarto, jogando as chaves do carro na mesa de cabeceira e tirando a camisa para tomar um banho demorado o suficiente para afastar a lembrança do que aconteceu mais cedo o causou.

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― Caroline. Tenho algo para você. – A loira sorriu diabolicamente do lado de fora, na varanda virada para o Oeste, onde o Sol se põe, e prestou atenção no que Marcel dizia enquanto observava Klaus jogar as chaves na mesa de cabeceira, tirar a camisa e fechar a cortina em seguida.