Em Perigo

2 Capítulo 2 - Irreconhecível



“Nós matamos pessoas” A voz impetuosa ressoava em minha mente diversas vezes, o eco fazendo com que o desespero tomasse conta de cada célula de meu corpo.



O choque me atingiu como um golpe.



Não podia acreditar que Jasper era um atirador. Deixei os olhos passearem ao redor me certificando de que aquelas pessoas não pareciam nada amigáveis. Era um pesadelo real. Os batimentos cardíacos dispararam. Esse pesadelo parecia cada vez mais grave e minha mente tentava compreender se realmente estava preparada para entender o final daquela história. O final da história daquele homem, o homem que acreditei ser meu melhor amigo durante anos. Francamente não sabia se realmente queria entender como Jaz se encaixava naquele lugar.



“Soltem a garota” Afirmou o autoritário dono dos azuis malignos. Foram questões de segundos para que meu corpo viesse ao chão. A obediência era imediata pelo que pude notar. A única coisa que fiz foi cair de joelhos, as pernas se recusando a obedecer o comando de permanecerem firmes. Não me movi, sentindo a mente implorar por minha volta para casa. Os segundos anteriores repassados de forma automática e já não lembrava o motivo que havia me levado tão firmemente aquele lugar.



"Senhor, por favor, me permita levá-la embora, não tem nada a ver com tudo isso" A voz suplicante saia dos lábios de Jasper que parecia transtornado.



"Mestre, ela viu muita coisa, sabemos das regras, quem vê algo tem que morrer!" A garota falou autoritária e um arrepio se espalhou por meu corpo, quase tudo nela transbordando em deboche.



"Senhor, tenho certeza de que Isabella não sabe o que está acontecendo aqui, ela ficará calada, não se preocupe" Clamava, tentando convencê-lo.



"As regras são bem claras mestre" A garota não pestanejou.



"Você conhece as regras Jasper" Finalmente se pronunciou decretando minha sentença. Levantei a cabeça a tempo de ver os olhos Jasper demonstrarem desespero palpável e um sorriso vitorioso surgir no rosto da tal garota.



"Quais regras, senhor?" Jasper despejou sua angústia e identifiquei que não desistira de minha vida tão facilmente. "Sua autoridade é muito maior que qualquer regra"



"O mestre nunca passaria por cima de suas próprias regras!" Contra-atacou a garota voraz. Assistia sem pronunciar uma única palavra enquanto conversavam sobre minha futura morte como se falassem sobre o noticiário da última noite. Arrepios passeavam por meu corpo e a seriedade do assunto me dissipou como se fosse uma neblina. Eu estava perdida.



"As regras são claras ao dizer que qualquer leigo que entrar aqui será morto ou terá que se juntar a nós" Citou algo que parecia um código sempre direcionando sua atenção à Jasper. "A segunda opção é inviável neste caso"



Enquanto as três vozes decidiam meu futuro minha mente imergia em pensamentos diversos, desde minha infância até os dias atuais, simplesmente não podia acreditar que minha vida terminaria assim: em uma enorme sala – que não fazia a menor ideia de para que servia – cercadas de desconhecidos e sem saber o que havia arrastado meu amigo até o maldito lugar. Simplesmente não podia desistir, lutaria por minha vida apesar de não saber exatamente como fazê-lo. Precisava tentar.



"Por que?" Levantei do chão com a adrenalina espalhando-se aos poucos por meu corpo. Era tudo ou nada. "Se o Jasper está aqui, porque não posso participar disso também?" Não queria morrer, não agora. Não queria que Jasper se culpasse, afinal, estava ali por meus próprios motivos, por minha vontade de recuperá-lo. Um fio de esperança se espalhou lentamente em seus olhos quando logo se dissipou com a risada debochada do que chamavam de mestre.



"Olhe só para você, não aguentaria nem um dia aqui" A gargalhada estrondosa derramava ironia e deboche mostrando que o desgraçado me menosprezava. Não conhecia nem metade de minha determinação.



"Se tem tanta certeza, por que não tentamos?" Falei corajosa.



"Está me desafiando?" A voz tornou-se séria rápido demais, mostrando que o homem à minha frente não gostava nada de brincadeiras. Após a duvidosa pergunta a sala rompeu-se em um silêncio quase mortal, todos se calaram esperando firmemente por uma resposta da mulher que ousava desafiá-lo.



"Estou" Firmei meus olhos naqueles imensos olhos azuis e algo passou por eles, algum sentimento que não soube identificar. Levantou-se e olhou para Jasper.



"Pegue uma roupa para ela, vamos testá-la" Jasper levantou-se eufórico e correu para pegar a tal roupa.



Talvez fosse uma dessas jaquetas que todos usavam ou algum tipo de uniforme. Jasper voltou com as roupas em mãos e me puxou para algum tipo de cômodo lateral. Entramos em uma pequena sala ainda observados pelos enormes homens que se espalhavam pela lateral do salão. Ele trancou a porta.



Sentei sobre o enorme sofá que existia e pude identificar como algo que parecia uma sala de descanso. Jasper andava de um lado para o outro murmurando palavras indecifráveis, provavelmente tentando achar alguma forma de me tirar daquele lugar.



"Como, meu Deus?" Lamentava sozinho, movendo-se de um lado para o outro. "Como pude deixar isso acontecer?" Repetia angustiado.



"Pare com isso, estou ficando tonta" Tentei amenizar o clima tenso.



"Como chegou aqui?" Perguntou com seriedade.



"Segui você" Confessei olhando para as minhas mãos, por algum motivo um enorme medo de encarar Jaz se apossou de mim, tinha medo de encarar aquele outro lado que não conhecia, definitivamente não era o meu antigo Jasper e não sabia o que esperar do homem à minha frente.



"Agora que sabe de tudo, está satisfeita?" A voz saiu uma oitava acima, demonstrando a irritação do orador e uma raiva ainda maior passou a crescer dentro de mim. Estava ali por querer saber o que estava acontecendo com ele e por estar preocupada com o homem que costumava ser meu amigo semanas atrás, não tinha o direito de ficar bravo, esse direito era meu e não dele.



"Você não tem o direito de ficar irritado” Afirmei sentindo a mágoa me atingir juntamente com as palavras de Jaz, por algum motivo me sentia sozinha dentro daquele lugar, como se estivesse com um estranho e não com meu melhor amigo.



"Não entende, Bella?" Exclamou derrotado, sentando-se ao meu lado. "Não podia ter entrado aqui, não podia!" Suas palavras eram fortes e continham uma extrema carga de desânimo, mostrando-me que independentemente de onde estivesse, não era um bom lugar para estar. Notei que aquele lugar traria mais angústias do que minha mente desnorteada poderia imaginar.



"O que é tudo isso, Jasper?" Finalmente fiz a pergunta que não parava de latejar em minha cabeça.



"O maior centro comercial de drogas do país" Afirmou olhando em meus olhos.



"Está se drogando?" Assustei-me por alguns segundos, a simples hipótese de ter Jaz como um viciado me aterrorizava.



"Não Bella!" Falou mais assustado ainda. "Nós vendemos, não sou burro suficiente para ser usuário, sei que isso mata." Encarou o chão, pensativo. “Aliás, não é permitido que os comerciantes consumam a droga, se todos nos tornássemos viciados, não restaria droga a ser vendida”



As palavras de Jaz geraram ainda mais curiosidade dentro de mim e na mesma medida o terror se espalhava, me via tentando encontrar algum motivo lógico para que Jaz estivesse envolvido com tudo aquilo, mas nada se encaixava.



"E como isso tudo funciona?" Olhei-o chocada com minha própria curiosidade. "Quem é aquele cara?" Balancei a cabeça de um lado para o outro em descrença. "O que faz aqui, Jaz?"



"Edward Cullen" A voz aparecia certo tom de respeito ao citar o nome do tal homem. Só ouvir o nome do cretino me enojava. "O maior traficante da história, conhecido internacionalmente por seu sigilo e autonomia."



"Mas... ele parece ser tão novo." A mente continuava acelerada tentando processar todas as informações. "É impossível que alguém da idade dele tenha construído esse império" Recordava de horas antes, em que havia contemplado toda a luxuosidade do enorme castelo e as diversas motos posicionadas na entrada do local.



"Não, antes dele, o maior traficante era seu pai Carlisle Cullen" Falou como se fosse óbvio. "E antes do pai dele, era o avô e antes o bisavô e assim por diante. O tráfico já está na família dele há décadas!" Jasper falou interessado.



"Esse lugar é assombroso Jaz, esse homem também, não acreditei quando ouvi você chamá-lo de mestre" O desespero crescia. Não entendia como o dono dos olhos demoníacos havia cegado todas as pessoas daquele salão. Seria um tipo de Seita?



"Presta atenção no que vou falar" Jasper me segurou pelos ombros de forma nada delicada e o encarei assustada. "Nunca mais proponha desafios, não dirija nenhuma palavra desse tipo a ele se quiser continuar viva, entendeu?"



"Sim" Desviei o olhar de Jasper me afastando alguns passos.



"É melhor se acostumar, aqui tudo muda, Bella" Percebeu meu afastamento.



"Acho que já percebi" Falei ressentida. "Preciso trocar de roupa" Falei ainda sem olhar e ouvi o baque da porta.



Encostei-me na parede, escorregando até sentar no chão e simplesmente chorei.



Não sabia ao certo porque estava chorando e isso me deixava ainda mais perturbada. Chorava por tudo: por não reconhecer meu melhor amigo, por não saber o que aconteceria comigo e por não saber o que fazer para ajudá-lo.



Jaz sempre fora um garoto incrível e não podia me conformava com todas as informações recebidas, não era possível, ele nunca se meteria em um lugar como um Cartel de drogas, com pessoas desvirtuadas. O terror era iminente e escorria por meus olhos.



Percebi minha situação: até pouco tempo era apenas uma estudante preocupada com seu melhor amigo que havia sumido e agora ali estava, sentada em um piso frio de madeira com lágrimas nos olhos, sem saber o que aconteceria e sendo preparada para um teste que sabe Deus o que significava.



Reuni o que restava de minha coragem. Não podia ser daquele jeito, não aceitaria esse destino. Mentalizei toda minha raiva naqueles malditos olhos azuis que destoavam dos demais. Foquei no único que parecia se adequar ao lugar como um líder. Se fosse obrigada a permanecer em um calabouço como aquele detestável lugar, ficaria e provaria a ele que não deveria ter incomodado um amigo de Isabella Sawn. Agora eu tinha um desafio para vencer e iria vencê-lo, independente do custo.



Terminei de vestir as roupas e encarei o espelho, não parecia eu mesma. Estava com uma calça jeans justa e aquela maldita jaqueta de couro, notei que realmente parecia um deles.



Eu parecia perigosa.



"Está pronta?" Não respondi, apenas o segui pelo mesmo corredor que havia andado anteriormente. Vi as mesmas pessoas na sala me encarando como analisam um cachorro de briga, esperavam por sangue, esperavam pelo pior. O tal "mestre" não estava presente e vi ao longe o sorriso da mulher que lutou por minha morte.



"Não é que a patricinha está parecendo gente" Riu acompanhada de outros idiotas.



"Você fala demais, ainda não a vi fazer nada" Falei ousada e os trogloditas soltaram alguns deboches, ela segurou meu braço puxando-me para fora da sala e a última coisa que vi antes da porta bater foi o rosto aflito de Jasper.



*



Andava novamente de um lado para o outro, minha preocupação beirava a loucura. Uma batida do relógio marcava que exatamente vinte e quatro horas atrás Mabelle arrastara Isabella consigo. O pavor me corroía. Nas poucas semanas que estive ao lado do mestre havia presenciado cenas terríveis, que gostaria de esquecer para sempre. Não podia me enganar, sabia que dificilmente Bella voltaria.

O teste do Cartel era desumano, principalmente com invasores. Era desumano com todos. Era uma prisão. O nó apertou no peito incendiando o que restava de mim. Bella seria massacrada e a culpa era exclusivamente minha. Por procurar seu amigo sem saber que se fora para sempre e em seu lugar sobrara apenas uma carcaça. O resto de mim.



Os poros incendiavam. A raiva acumulada por todos os dias em que me obriguei a participar de tudo, me atingiu em cheio e pensei que a garota morreria como uma tola por ter me procurado. Quão arrependida deveria estar por ter me buscado?



Era uma tola que me amava.



Uma tola que eu amava.



Conhecia o cenário. A raiva tinha partida e norte, tinha um alvo e era minha, era voltada para mim. Não importava o que acontecesse, se Isabella sobrevivesse ao treinamento, provavelmente não se manteria por muito tempo no Cartel. Jurava por minha vida que se algo acontecesse não responderia por mim. Destruiria cada gota daquele Cartel.



"Você está me irritando" a voz do Cullen soou autoritária. "Ela não vai voltar viva" Falou com toda a sua habitual frieza. Como era o melhor atirador do cartel havia sido destinado à defesa pessoal do mestre. Continuei calado, agora estático.



Deveria ter contado a verdade desde o início. Deveria ter explicado o que havia me feito entrar nisso. Deveria ter explicado que não tive opção.



Um alto estrondo nos fez olhar para a porta de onde surgiu um rosto contorcido de raiva. Dois dos seguranças de Mabelle carregavam Isabella pelos braços e a soltaram em nossa frente enquanto desmoronava com um baque surdo no chão totalmente sem forças. Possuía vários ferimentos por seu corpo e pareceu ter um pouco de dificuldade para se ajoelhar. Uma poça de sangue se espalhou por todo o chão e o Cullen permaneceu imóvel.



"Está surpreso, mestre?" O murmúrio saiu tão baixo que quase não acreditei que finalmente ouvia a sua voz. O sorriso irônico não saiu como o esperado, pois o rosto estava beirando a desfiguração. Não tive tempo de comemorar sua volta, pois a angústia ainda fazia morada em mim. O sangue precisava ser estancado o mais rápido possível para que houvesse alguma chance. "Eu disse que voltaria, não disse?"



"Dê um quarto a ela, o treinamento começará amanhã" Disse ignorando sua provocação e os seguranças novamente a carregaram, estava péssima, sem mover um dedo sequer. Parecia bem próxima da inconsciência.



"Peço permissão para acompanhá-la mestre" Não houve resposta, apenas passos em direção à saída. Considerei como um sinal positivo e corri até o quarto.



Quando entrei encontrei o pequeno corpo esticado sobre a cama, completamente imóvel. Alguns enfermeiros já ocupavam o espaço, pré avisados por mim quando pensei na possibilidade de encontrá-la com vida. Os ferimentos eram profundos, mas a fé na força de Isabella era maior. Saber que o coração dela ainda batia me acalmou meu próprio coração.



"Fiquei tão preocupado, não acredito que..." Me aproximei aos tropeços, notando que estava acordada por um momento. Antes de chegar perto de sua cama fui interrompido.



"Saia do meu quarto" Era uma ordem, destinada com o fio de voz que ainda restava.



"Bella, você precisa descansar e quero ajudar a estancar os ferimentos" Toquei sua mão e ela puxou retraída. "Para de besteira, sei que fui grosso com você, mas..."


"Você não entende, Jasper?" Me olhou e só então percebi que seus olhos estavam inchados e vermelhos "Isso tudo é culpa sua!" Baixou a cabeça soluçando, vê-la chorar doeu mais do que imaginava "Na verdade a culpa é toda minha, como fui idiota me preocupando com você" Chorava como uma criança e tudo que eu queria era abraça-la, mas os meus pés pareciam fincados ao chão "Deveria saber que você não é mais o mesmo"



"Não exagera, posso ter mudado em alguns aspectos, mas ainda sou o mesmo"



"É mesmo Jasper?" Me olhou acusadora "E quem é você?"



"Sou seu melhor amigo"



"Não Jasper, você agora é a porra do melhor atirador do maior Cartel de drogas do país, é só isso que você é" Virou de costa para mim. "Saia do meu quarto" Repetiu.



"Sabe que pode me procurar a qualquer momento, não sabe?" Não respondeu, sai do quarto e fui em direção ao jardim, precisava pensar. Só no jardim percebi que minhas mãos tremiam.



Andei até o bosque.



O lugar era calmo e morto, talvez um pouco assustador, mas era exatamente por isso que gostava dali, parecia exatamente como minha vida atual, silenciosa e perigosa.



De um dia para o outro tudo havia mudado e nem ao menos tive a chance de escolher entre o certo e o errado.



Foi exatamente no dia do aniversário de cinquenta anos de meu pai.



As lembranças me invadiram de repente.



Usava pela primeira vez aquele terno listrado e a gravata parecia apertar minha garganta mais do que o recomendável, pensei em tirá-la, mas o olhar reprovador de minha mãe do outro lado do salão mostrou que estava me observando.



Confesso que estava nervoso, Bella havia chegado e o vestido vermelho parecia ter sido feito sobre medida para seu corpo escultural. Seus olhos encontraram os meus e a chamei para sentar comigo, porém, nossa conversa não durou muito pois meu pai parecia especialmente sensível aquele dia me chamando para uma conversa de homem para homem, estranhei, pois parecia ainda mais sério do que o normal, algo parecia errado.



Afrouxou a gravata e me olhou nervoso.



"Hoje completo cinquenta anos Jasper" Aquilo era algum tipo de brincadeira?



"Jura pai, não me diga" ri forçado "Será que não é por isso que tem uma festa rolando lá fora, que, aliás, estou perdendo?" Revirou os olhos e continuou sério.



"Porra Jasper, estou falando sério" A raiva pareceu surgir em seu rosto e chutou algumas coisas que estavam em seu caminho, andando de um lado para o outro.



Assustei-me por alguns segundos, era muito raro meu pai falar palavrão, algo estava errado.



"Eu preciso de um favor Jasper"



"Um favor?" Estranhei. "Ok, mas só porque é seu aniversário" Tentei amenizar o clima.



"Jasper, não sou exatamente o que você pensa" Continuou sério. "No aniversário de cinquenta anos do meu pai ele também me pediu um favor e tive que cumprir"



"Algum tipo de tradição?" Talvez pudesse ser alguma tradição idiota, talvez me desse um anel ou algo parecido.



"É quase isso" Sentou-se frustrado. "Não é algo que eu gostaria de dar a você, mas é necessário"



"Não quer continuar a tradição?" Irritei-me. "Sei que não sou o melhor filho do mundo, mas tenho certeza que posso continuar com o que quer que seja" Fala sério, sou capaz de guardar um anel até completar cinquenta anos.



"É exatamente porque você é um bom filho que não gostaria de envolvê-lo nisso" A cada momento ficava ainda mais confuso, que diabos estaria acontecendo?



"Mas do que é que você está falando?" Não teve tempo de responder, quando alguns seguranças adentraram a sala onde estávamos, juntamente com outro homem, todos eles usavam roupas iguais às do meu pai, provavelmente colegas de trabalho, mas porque aquilo me parecia tão formal?



"Já se passaram dez minutos e ainda não deu a notícia ao garoto?" Ele bufou. "Era de se esperar, você sempre foi o mais devagar" Revirou os olhos. "Espero que seu filho compense o prejuízo que deu ao meu pai" O tal homem me analisou, não gostei do tom que usou com meu pai e o mais estranho era que meu pai continuava calado, numa assombrosa submissão.



Ele tinha provavelmente a mesma idade que eu, mas tinha algo de diferente, parecia ter mais experiência de vida do que todos presentes naquela sala, inclusive meu pai.



"Por favor, senhor, me dê mais alguns minutos" Parecia ainda mais nervoso a cada segundo e me perguntava o que estava acontecendo.



"Tem sorte que estou de bom humor" Foi em direção à porta e parou para dar um último olhar em minha direção. "Nos veremos em breve" E simplesmente saiu, seguido de seus seguranças.



"O que está acontecendo?" Interroguei meu pai que parecia acabado, estava jogado na cadeira, apoiando a cabeça entre as mãos.



"Você terá que me substituir" Levantou a cabeça e olhou em meus olhos. "Eu não trabalho em um banco Jasper"



"Como assim?" Sempre trabalhou em bancos e era exatamente isso que nos dava uma ótima condição financeira. “Essa não é sua profissão? ”


"Não Jasper, não é" Abaixou novamente a cabeça. "Isso era o que eu dizia"



Continuei encarando buscando algum nexo para aquelas palavras, queria que o substituísse em algo e acabara de me dizer que nunca trabalhara em um banco, simplesmente não entedia o que isso tinha a ver com a festa de aniversário de meu pai.



"Olha pai, esse não é o momento para esse tipo de conversa" De algum modo meu pai havia mentido sobre sua profissão durante todos esses anos e com certeza uma festa não era o lugar ideal para grandes revelações. "Vamos voltar para festa e em casa nós conversamos"



"Não Jasper, esse é o momento ideal" Vire-me em sua direção novamente. "Eu trabalho em um cartel de drogas, trabalho para Edward Cullen e você terá que me substituir"



Não lembro exatamente quantos minutos foram necessários para perceber realmente o sentido das palavras que meu pai havia dito.



"Que brincadeira é essa?" Olhei para os lados procurando por alguém que poderia estar querendo pregar alguma peça em mim, mas não havia ninguém. "Isso é impossível, você é o homem mais correto que conheço, nunca se envolveria com esse tipo de coisa."



"Não tive escolha Jasper, no aniversário de cinquenta anos de seu avô ele me disse a mesma coisa e tive que aceitar substitui-lo"



"E porque aceitou?" Perguntei enraivecido.



"Porque se não aceitasse, todos nós morreríamos"



Lembro-me de como foi a primeira semana e do quanto foi difícil passar por todos os testes.



Entendi porque meu pai havia me ensinado a atirar desde pequeno, o porquê de sua insistência por aulas de tiro ao alvo e porque ele e minha mãe sempre temiam por seu quinquagésimo aniversário.



Tive de respeitar e acolher as ordens do Cullen se quisesse continuar vivo, todo homem que trabalhasse lá tinha que ter um filho para substituí-lo quando fizesse cinquenta anos, era a idade máxima permitida para se trabalhar e caso seu filho não aceitasse, toda a família era exterminada.



Fiquei algumas semanas sem falar com meu pai, mas aos poucos percebi que era tão vítima quanto eu.



Mas o que havia sido mais difícil era ter que me afastar de Bella, teria que esquecê-la, era terminantemente proibido ter amizades fora do cartel no início do treinamento, tínhamos que ser cuidadosos e solitários.



Logo tive que me adaptar as roupas e costumes daquele lugar, o ambiente sombrio e as pessoas frias não combinavam com Bella e isso me fazia sentir ainda mais falta dela.



Primeiramente achei que logo me esqueceria, sempre fora orgulhosa, não costumava implorar muito por alguma coisa, mas estava sendo bastante insistente ultimamente, ignorá-la estava ficando cada vez mais difícil, eu deveria saber que seria teimosa bastante ao ponto de me encontrar onde quer que estivesse.



Por um lado, estava angustiado de vê-la ali, no meio daquelas pessoas, presa, a partir de agora, na mesma maldição que eu. Por outro lado, era tranquilizante que alguém de meu antigo convívio soubesse de tudo, era tranquilizante não ter que ignorá-la, quando a única coisa que queria era correr para a sua casa e lhe contar tudo.



Queria que conhecesse minha nova vida e agora ela conhecia, porém não tinha aceitado bem, estava me culpado por estar ali, mas no fundo reconhecia que as suas escolhas a levaram aquele lugar, não havia culpa distribuída, havia chegado ali com seus próprios pés.



Estava errada por não ter desistido de mim, quando eu mesmo já havia desistido.



Minha nova vida era incrivelmente perigosa e talvez não houvesse espaço para o perigo na vida de Bella.


Bem, agora teria que ter, pois estava juntamente com todos ali presa àquela maldição.


Ela agora fazia parte do maior cartel de drogas do país e teria que se adaptar a isso.



Por bem ou por mal.



*



Não lembro quanto tempo se passou, mas acordei com os machucados ainda mais doloridos. Algumas partes de meu corpo possuíam feridas com sangue seco por cima. Qualquer pessoa que entrasse em meu quarto perceberia que não estava exatamente como uma bela mulher. Estava cortada, com áreas roxas por todo corpo e certamente meu cheiro não deveria ser dos melhores.



Esse fora o resultado do temido teste. Mabelle, que descobri ser o nome da garota que tanto me odiava, fora a responsável por realizá-los.



Testes de resistência foram feitos durante vinte e quatro horas seguidas, e devido ao ódio gratuito que a tal garota sentia por mim, fora ainda mais pesado. Cordas, socos, afogamentos, com certeza, se o exército presenciasse as torturas realizadas naquele maldito lugar, ficariam envergonhados de tão fraco que seria o treinamento deles.



Arrastei-me até o banheiro e olhei a imagem refletida no espelho, envergonhada. Os olhos inchados, os ferimentos, as roupas rasgadas e o cabelo desgrenhado me fazia parecer um cachorro sarnento e o exterior era fichinha para o que sentia por dentro.



Estava humilhada e simplesmente me sentia... traída.



Mas, apesar de tudo, algo estava diferente em meus olhos. Aquela seria a última vez que choraria naquele lugar, a partir de agora faria parte do maior cartel de drogas do país, assim como Jasper e todos naquele lugar, esqueceria tudo que estava deixando para trás.



Tomei uma ducha com dificuldade, suprimindo o grito de dor quando a água atingia algum ferimento mais grave. Enxuguei com cuidado tentando não piorar os ferimentos, em algum lugar daquela porcaria deveria ter uma caixa de primeiros socorros ou até mesmo uma enfermaria.



Vesti minhas roupas e sai do quarto percebendo que já era de madrugada, o que explicava o silêncio que imperava nos corredores.



Cheguei com dificuldade até a área do jardim, era realmente encantador depois que se acostumava com a aparência assustadora, para falar a verdade, quando você olhava bem o suficiente, os arbustos e vegetações até pareciam um pouco reconfortantes em meio a toda aquela solidão.



"Conhecendo seu novo lar, princesa?" Uma voz me assustou fazendo soltar um grito. "Opa, amor, não precisa se assustar, a gente é do bem." Falou rindo.



Dois dos cinco seguranças que me carregaram durante o dia estavam ali, a alguns centímetros de mim. Possuíam olhos extremamente vermelhos e garrafas de bebida em suas mãos.



"Poxa, que sorte a nossa a gente encontrar a Bella adormecida aqui fora" Parou rindo com o outro retardado que estava ao seu lado. "Adoraria dar o beijo para te acordar" Se aproximavam lentamente.



"Já estou bem acordada com esse seu bafo de cachaça, obrigada" Revirei os olhos e virei de costas, com a certeza de que nunca deveria ter saído do meu quarto, quando a mão dele segurou o braço, me encostando em seu corpo, fazendo meu estômago embrulhar com o forte cheiro de álcool. O corpo protestou, tudo estava dolorido.



"Nossa, como adoro essas mulheres revoltadas" Cheirou meu cabelo. "E ainda está cheirosinha, caiu do céu pra mim!" Riu alto acompanhado do outro débil mental que estava caído no chão de tão bêbado.



"E você provavelmente subiu do inferno!" Cuspi no rosto do grandalhão.



"Me solta!" Gritei tentando me soltar com toda minha força, fazendo com que meu corpo protestasse devido a dor dos ferimentos, porém o homem parecia ter se ofendido e me segurava ainda mais forte.



"Olha aqui, eu que mando nessa merda de cartel então acho bom você me obedecer!" Ele gritou irado.



"É você quem manda?" Uma terceira voz entrou na conversa e o homem pareceu congelar. "Realmente imaginei que quem mandava nessa merda de cartel era eu"



Olhei para o lado e o Cullen estava levemente encostado na parede, com os braços cruzados e o rosto impassível. Mantinha o olhar diretamente no homem que ainda me segurava.



O troglodita me soltou rapidamente, tremendo mais que garoto de sete anos quando percebe que vai levar uma surra do pai.



"Mestre" Se ajoelhou. "Só queria dar um susto na garota, não estava falando sério, seu poder é total e inquestionável" O que o medo não faz com o ser humano, faz até bêbado falar bonito.



"Susto você vai ter amanhã, quando receber seu castigo" Apesar da voz dura, o rosto do Cullen estava sereno, não possuía nenhuma expressão. "Agora saiam daqui, porque esse cheiro está me enojando"



Em questão de segundos os caras simplesmente sumiram, aquele tal de Cullen era realmente obedecido por ali.



"É proibido andar por aqui a noite" Finalmente dirigiu-se a mim. "Já que quer tanto entrar para o Cartel, deveria ao menos dar-se o trabalho de ler as regras" Desencostou da parede e virou de costa andando para longe.



"Engraçado, um criminoso me mandando cumprir regras" Falei e ele parou de andar, virando-se novamente e andando em minha direção.



"Você se acha muito durona porque voltou do teste, não é?" Os olhos azuis pareciam faiscar. "Uma ordem minha e você está morta em menos de um minuto, então acho bom você aprender a controlar essa boca se quiser continuar respirando" Falava pausadamente e em um tom baixo, fazendo com suas palavras parecessem ainda mais verdadeiras. No fundo sabia que o que estava falando era verdade, a dimensão do poder daquele homem estava bem clara para mim devido a tudo que havia ocorrido naquele dia. "Se você for pega andando por aqui novamente, farei questão de interferir"



Virou-se e sumiu na escuridão enquanto eu continuava parada no mesmo lugar de antes, com uma certeza pulsando em cada fibra do meu ser:



Eu odiava aquele babaca.

Notas finais
Não esqueça de dar sua opinião.