Em Perigo

13 Capítulo 13 - Nas alturas


Notas iniciais
Demorou, mas chegou! Leiam as notas finais E DEIXEM A OPINIÃO NOS COMENTÁRIOS!

"Entre" A voz imponente ordenava e minha testa fincou-se com a possibilidade. "Vamos Swan, não tenho o dia inteiro"

O sol ainda tímido brilhava iluminando os cabelos castanhos, deixando-os ainda mais claros, os olhos azuis saltavam de excitação e podia ver todo o divertimento em seus olhos ao ver meu nervosismo.

"Já disse que não vou" Cruzei os braços, fincando minhas pernas ao chão, decidida.

"Então está com medo" Debochou. "Tem coragem de apontar a arma para um homem, mas não tem coragem para subir em um helicóptero?" Deu uma risada e um tremor passou por meu corpo, lembrar do episódio no quarto do Cullen não me trazia nenhum sentimento agradável.

"São situações diferentes" Dei de ombros, dando alguns passos para trás. "Será que não podemos fazer outro tipo de treinamento?" Revirei os olhos. "Até parece que vou precisar dirigir um helicóptero"

Levantou-se do enorme automóvel, dando alguns passos em minha direção, uma calça de moletom e uma regata branca que deixava todos os músculos definidos a mostra denunciavam seu ar despojado, pela primeira vez estava sem sua jaqueta, o que me fez perceber que ficava realmente bem com cores claras, me perguntei se havia realmente alguma cor que não ficasse bem naquele corpo bem definidos.

"Acredite, você vai precisar" Apontou para o helicóptero. "Sobe"

Olhava indecisa para o enorme automóvel à minha frente, não tinha problemas com altura, mas especificamente com aviões. Com as lembranças da única vez que tinha andando de avião embaralhadas em minha mente, com sete anos, lembrava do falecimento de um parente distante e um voo conturbado demais para uma criança. O voo inteiro foi repleto de choro, vômito e gritos, o que causou comoção geral em toda a família para se locomover somente de trem daí por diante.

Sabia que muitos anos me separavam do ocorrido e claro, a maturidade de uma adulta me fazia querer entrar, eu não tinha mais sete anos e no fundo, aquilo não era um avião, mas era bem parecido e ainda pilotado por meu inimigo, me me causando ainda mais nervosismo.

"Porque você é tão difícil?" Murmurou a pergunta retórica para o vento com impaciência. Andou diligente em minha direção, permanecendo ainda mais próximo. "Prefere que eu carregue você?" Um sorriso sarcástico surgia aos poucos. "Não me importaria nenhum pouco." Revirei os olhos e avancei com determinação para o banco.

Para minha surpresa o mafioso se aproximou lentamente fazendo com que as pontas de seu cabelo passeassem por meu rosto, um bom aroma de loção pós-barba, passou o cinto de segurança, acoplando ainda mais meu corpo ao assento.



A porta fechou num baque surdo e no momento seguinte já nos movimentávamos em direção ao céu bordado em um azul límpido, ao ver que nos distanciávamos do solo a ansiedade e o nervosismo tomavam espaço aos poucos dentro de mim, mas tentava manter a tranquilidade, afinal, era uma prova de treinamento.

Naquela manhã o Cullen não havia me derrubado da cama como estava acostumado a fazer, eu já conseguia acordar sozinha, devido o hábito, e apesar de já estar acordada continuei deitada na cama. Um sorriso surgiu em meu rosto quando notei que meu inimigo tinha entrado em meu quarto com o objetivo de me derrubar novamente e tentando ser mais esperta com a tentativa de assustá-lo, fiquei imóvel, aguardando para dar o bote.

Porém, ao contrário do que imaginei o Cullen não me derrubou, a escuridão do quarto não permitia que o mafioso notasse meus olhos entreabertos e ao chegar perto da minha cama estagnou, seu rosto continha uma expressão séria e pensativa e por um momento pensei que talvez sua sagacidade tivesse permitido que notasse meu plano patético de assustá-lo, mas logo em seguida percebi que não. O mafioso realmente estava paralisado me observando, parecia até com pena de me acordar ou dando mais alguns minutos de descanso. Senti o coração bater mais forte e dúvidas avançaram rapidamente por meus pensamentos, realmente estava com pena de me acordar?


Um incômodo nervosismo passou por meu corpo ao notar que lentamente estendeu uma de suas mãos tocando suavemente uma mecha de meu cabelo com delicadeza, como se nem por todo dinheiro do mundo eu pudesse vê-lo naquelas condições, como se sentisse envergonhado por estar ali, me observando. Sorri internamente ao ver que o tão intocável e respeitável mestre também tinha seus momentos de fraqueza e perceber que a única que ele desejava que não o visse ali, o via, era assustadoramente prazeroso.

Durou só alguns instantes, pois logo estava no chão novamente, o mafioso possuía o dom de ser bruto, e por mais que houvesse momentos em que minha mente insistisse que havia algo de bom naquele homem, sabia que não havia, Edward Cullen era uma pedra e eu seria uma estúpida todas as vezes que pensasse o oposto disso.

A viagem do dia anterior ocorreu sem grandes desastres e apesar do frio que assolava a estrada escura, chegamos rapidamente ao cartel. Entramos pelo enorme portão e o criminoso mais uma vez sumiu sem falar uma palavra sequer, as atitudes egoístas de meu inimigo não me assustavam mais, era praticamente normal que em um momento estivesse gargalhando ou fazendo alguma piada para me aborrecer e no outro se fechasse e não soltasse uma única palavra. Era a desastrosa bipolaridade de meu lamentável treinador e eu não perderia uma gota de paciência tentando entendê-lo.


Sobre minhas ridículas alegações ao esperá-lo depois de horas, era fato minha vergonha e até um certo pesar, era só estar perto do mafioso para que uma enxurrada de meias palavras soltas voassem de minha boca, porém, poderia me acalentar com o fato de não ter discussão ou piadinhas a respeito, sabia que partilhávamos da mesma humilhação, podia ter esperado por horas, mas sabia que ele também tinha ido me buscar contando com a sorte, o que nos deixava em pé de igualdade.

Entretanto, a longa viagem dissipou o efeito da adrenalina e me fez retornar ao juízo, precisava ter foco, o Cullen não era ninguém para mim e tudo deveria permanecer igual. Tentava me apegar a todos os dias do cartel, os treinamentos doloridos, as humilhações que era obrigada a passar, a única lembrança do meu pai que agora deveria estar no fundo do oceano e o pior de tudo: lembrar de ter perdido meu único amigo, Jasper.

Voltar ao cartel me fez relembrar de tudo e talvez fosse exatamente esse o motivo de Clevee Hill ter me conquistado, a cidade tinha poder de distorcer as histórias, de fazer com que as pessoas fossem menos cruéis e os mafiosos mais confiáveis, talvez o discurso de Jacob ao dizer que a torre era encantada fosse verdadeiro, o lugar simplesmente deturpou todos os meus conceitos, mas eu os tinha de volta e não me deixaria ludibriar pelos encantos do Cullen.

As paredes longas e frias do cartel me lembravam diariamente quem era Edward Cullen: o maldito mafioso que já arruinou centenas de famílias, o homem que matou pessoas e destruiu a minha vida com toda aquela história.

Era minha obrigação odiá-lo, nada que viesse daquele ser humano era confiável e deveria sempre lembrar disso, nada bom poderia sair de meu inimigo, e lembrar de tudo aquilo fez com que meu coração estranhamente apertasse.

"Preste atenção aqui" A voz irritada de meu inimigo me tirou do transe. "Não trouxe você para passear de helicóptero, você precisa entender como funciona, Isabella" Apontou para o enorme painel que continha milhares de botões. "Onde deixou sua concentração?"

"Não sei se percebeu, mas é um pouco complicado usar a minha concentração vendo toda a cidade de Londres debaixo dos meus pés" Devolvi a irritação dando ênfase nas palavras.

"Vem aqui" Apontou para a cadeira dele com a cabeça e quase ri de incredulidade.

"Como é que é?"

"Vem logo" Ordenou.

"Você quer que eu sente no seu colo?"

"Você precisa ficar mais perto do painel, Swan" Abriu um sorrisinho. "Acha mesmo que desejo você em meu colo?" Revirou os olhos. "Por Deus, não seja tão narcisista"

"Sua repulsa é recíproca, não se preocupe" O encarei imitando seu sorriso orgulhoso. "Você não é tudo isso que pensa Cullen, estou fatalmente destinada a te explicar isso de todas as formas possíveis" Não sei que tipo de espírito maligno possuiu meu inimigo, mas juro que vi faíscas saindo de seus olhos e no momento seguinte nós simplesmente despencamos com velocidade.

Olhei para baixo em desespero, sentindo cada vez mais a velocidade aumentando e a cada momento nos aproximávamos do solo.

"Cullen, pelo amor de Deus!" Gritei para ele. "Para com isso, nós vamos morrer"

"Merda, preciso de ajuda" Demonstrou angústia fazendo com o resquício de paz que existia dentro de mim partisse.

"Você vai nos matar!" O coração acelerado faltava pular do peito, e a adrenalina corria rapidamente por minhas veias e questionava a sanidade do maldito homem ao meu lado.

"Vem aqui, me ajuda a consertar, rápido" No segundo seguinte eu já havia tirado o cinto que me prendia e voado até seu colo tentando mover os botões, com nenhum controle sobre minhas ações.

"Vamos, vamos" Gritei tentando mover os botões que não eram alterados em nenhum momento. "Sobe, vamos, por favor" Estava em pânico. "O que devo fazer?"


"O que está acontecendo?" Perguntei assustada. "Porque ainda estamos caindo?"

"Calma Swan, me deixe pensar" Gritou tocando em vários botões tentando reverter o quadro em que estávamos, porém, parecia não haver mais volta.

"Não há tempo para pensar, sobe isso, pelo amor de Deus!" O desespero fazia parte de todas as células de meu corpo e percebi que ia morrer ali, no meio de Londres no colo de meu inimigo, passei as pernas por seu quadril, escondendo meu rosto em seu pescoço e fechando os olhos com força, tentando ao máximo me segurar para a batida fatal. "Nós vamos morrer, Edward"

Apertei-me ainda mais ao meu inimigo esperando o baque surdo que certamente surgiria, mas ao invés de qualquer estrondo o que ouvi foi a gargalhada de meu inimigo, sentindo seu corpo se movimentando, com o automóvel subindo aos poucos.

O corpo dele sacudia e a risada alta preenchia todo o ambiente. Nunca havia visto tão bom humor em seu rosto.

"Não acredito que você caiu nessa" Virou as órbitas azuis para mim ainda com a risada nos lábios. "Pilotar é mais fácil que escovar os dentes, Swan, você é muito ingênua" Notei, então, que em todo meu momento de desespero o helicóptero estava no piloto automático. Nunca estivemos em perigo.

Saí com rapidez de cima de seus joelhos, suas mãos tentaram me manter ali, mas fui mais rápida, voltando para meu acento e passando o cinto por meu corpo.

"Então quer dizer que você só me chama pelo primeiro nome se estiver em perigo?" Virei o rosto para a janela, evitando, o ódio transbordando em cada canto do maldito helicóptero.

"Desce esse helicóptero" Ordenei firme para ele que devolveu o olhar. "Desce"

"Se não o quê?" Arqueou a sobrancelha me desafiando, me perguntei se todos os dias no Cartel seria assim, ao lado do Cullen, não havia nenhum momento de paz.

Sem pensar nas consequências levei uma de minhas mãos em direção à porta, logo após de tirar o cinto, mas antes que eu pudesse abri-la, as mãos fortes me puxaram para trás.

"Está louca?" Os olhos azuis me fuzilavam.

"Louca é pouco, você ainda não me viu irritada de verdade mestre, então desça a porra desse helicóptero antes que faça uma besteira" Dei graças a Deus por minha voz ter saído firme, apesar da tremedeira em minhas pernas, meu inimigo me encarava tentando perceber se era blefe e segurou meus braços com um pouco mais de força.

"Não esqueça com quem está falando, não recebo ordens de ninguém, Swan" Os azuis carregados de ódio me encaravam firmemente, mas não arredei nenhum palmo sequer, não conhecia nem metade de minha ousadia.

"Essa conversa de ser o dono do mundo já está ficando sem graça, mestre" Frisei a última palavra, soltando um de meus braços. "Você sabe que não manda muito por aqui"

"Do que acha que está falando?" Sua voz aumentou uma oitava. "Sou o homem mais temido de Londres, sou eu que dou as ordens neste Cartel"

"Não em mim" Minha voz soava firme e a cada momento seus olhos transbordavam de puro ódio, agradeci mentalmente pelo maldito automóvel ter piloto automático, se não, certamente estaríamos mortos em algum lugar de Londres. "Não tenho medo de você"

"Pois deveria" Me prensou na parede fazendo com que minha cabeça tocasse a pequena janela de vidro. "Não sabe metade das coisas que posso fazer com você" Por algum motivo mórbido a ameaça não soou como deveria, o mafioso não falava sobre castigos ou armas, falava sobre a única coisa que me deixaria assustada: meus próprios extintos.

"Então me mostre" Não soube ao certo como aquelas palavras saíram de minha boca, mas no momento seguinte os olhos do Cullen faiscaram, o desafio havia sido aceito e a boca voraz de meu inimigo voou para a minha, suas mãos firmes puxaram minhas pernas para seu quadril e notei sua masculinidade em minhas pernas com um gemido abafado, pela primeira vez naquela manhã notei que não havia como escapar, o maldito criminoso era a própria tentação em carne e osso ou talvez fosse um anjo caído enviado para me atormentar, em qualquer uma das alternativas, não importava, eu estava exatamente ali, devorando a boca do homem que mais odiava, o mundo era mesmo uma droga.

As mãos firmes passeavam por toda a extensão do meu corpo, desejando provar a dominação de tudo e ao mesmo tempo tentar apreciar cada atributo que eu tinha a oferecer, os movimentos do mafioso, apesar de brutos, não me machucavam, a boca sedenta logo passou para meu pescoço, degustando tudo o que podia, como se a qualquer momento eu fosse sumir, as mãos voavam entre meus cabelos, enquanto as minhas se seguravam firmemente em seus braços musculosos para não me desequilibrar.

Levantou meu rosto fazendo com que o encarasse, seus olhos transbordando de puro desejo.

"Quem é você?" Sua voz rouca continha uma mistura de fascínio e ódio. Em sua pergunta revelava diversos mistérios implícitos, não conseguíamos descrever nada, não nos gostávamos, não nutríamos nenhum sentimento pacífico um pelo outro, mas ao mesmo tempo estávamos ali, ao mesmo tempo queríamos a atenção um do outro. O implacável criminoso pela primeira vez na vida não sabia decifrar alguém, e fiquei grata por esse alguém ser eu, por ter a chance de ver aquele homem que dizia saber tudo sobre a vida rendido, com a dúvida incrustada nas órbitas azuis.

"Sou seu pior pesadelo, Cullen" Agora era a minha voz que continha orgulho. "Você pode tentar ser o maldito mestre onde quiser, mas não será comigo"

"Odeio você" As palavras foram vomitadas em mim e logo respondi.

"É completamente recíproco" Então os lábios voltaram ao meu pescoço, como se quisessem me punir, como se me castigassem por ser tão insubmissa, delicadeza com certeza não era típica característica do homem que possuía quase o dobro do meu tamanho, e sabia que ficariam marcas enquanto ele dava pequenas mordidas em todo meu pescoço, passei as mãos pelos cabelos desarrumados sentindo surpresa o quanto eram macios, e me odiando por gostar da sensação, me odiando por gostar tanto das mãos pecaminosas que insistiam em apertar minha cintura por debaixo da blusa, deixando marcas.

Marcas.

Meu inimigo gostava de marcas, gostava de mostrar que podia fazer o queria, que tudo era dele, e talvez, ali, realmente fosse, era como um leão que mataria qualquer coisa que adentrasse seu território, qualquer outro animal que desejasse tocar no que supostamente era dele, se queria algo, conseguia, essa era sua lógica de vida e ver que não podia me domar o transtornava, podia notar seus olhos transtornados enquanto tentava provar a si mesmo que tudo estava sob controle, mas não estava, pela primeira vez na vida, Edward Cullen não tinha nada sob controle e a sensação que isso me trazia era simplesmente encantadora.

Um gemido de insatisfação saiu de sua boca enquanto o empurrava para longe, não seria mais uma na vida do Cullen e não o queria em minha vida, me recusava a ser mais uma de suas conquistas.

"Será que dá para descer com esse helicóptero?" Me ajustei em meu acento ainda trêmula com a situação, enquanto meu inimigo voltava ao volante com passos rígidos e postura séria, ainda ofegante, a cólera palpável em seus gestos brutos, minha rejeição causava exatamente o esperado: ferir o orgulho do mafioso.

Em uma manobra rápida demais saímos de nossa rota, indo em direção ao Cartel, o mafioso dava algumas ordens no pequeno auto-falante para que a pista fosse preparada para o pouso e em alguns minutos já estávamos pousando na enorme pista.

O mafioso não disse absolutamente nada e saiu do automóvel, parecendo desesperado para sumir, enquanto um subordinado do cartel entrava para estacioná-lo. Desci com os pés ainda trêmulos, feliz por estar novamente em terra e certa de uma das melhores decisões de minha vida: evitaria contato com o Cullen a todo custo.

Seja lá o que estivesse acontecendo entre nós, precisava acabar naquele instante e não permitiria que meu corpo nutrisse qualquer desejo, com certeza ele não sentia nada além de ódio e aquela estranha relação bipolar que existia entre nós, que nem ao menos sabia denominar, estava acabada.

Voltei em direção aos quartos, subindo a enorme escadaria, Jenny estava no banho e deitei em minha cama tentando relaxar um pouco, a manhã com certeza tinha sido agitada demais. Com os olhos fechado passei a lembrar dos momentos anteriores, o Cullen certamente era um homem atraente, seus músculos gritavam o quanto era viril. Evitá-lo seria a melhor opção a seguir, não deveria gastar meu tempo com algo inútil e inseguro.

Em alguns minutos o celular começou a tocar em cima do balcão e logo identifiquei como sendo minha mãe.

"Isabella Swan, não acredito que continua sem me ligar, você é uma filha ingrata, espero que tenha consciência disso" A voz autoritária soava alta em meus ouvidos.

"Oi mãe, também senti sua falta" A ironia e o tédio se misturavam em minha voz, não sabia porquê, mas um enorme desamino havia me atingido.

"Sem brincadeiras Bella" Ralhou. "Adivinhe onde estou?" A voz mudou para pura empolgação.

"Trabalhando?" Era onde normalmente estava a essa hora do dia.

"Claro que não, bobinha" Uma risada aguda saiu de sua garganta. "Estou na chácara da sua avó, está tudo pronto para amanhã, fizemos um bolo incrível para o seu aniversário"

Eu paralisei completamente. Meu aniversário?

Corri até a mesa de cabeceira e toquei o pequeno calendário notando que realmente minha mãe estava certa: O dia seguinte seria dia dez de agosto.

Já estava no cartel há três meses e mal tinha visto o tempo passar, não havia notado, meu aniversário chegou tão rapidamente. Tínhamos o costume de comemorar meu aniversário desde pequena na chácara de minha avó, porém, com a morte de meu pai, deixou de ter significado para mim, sem animação ou festa, éramos somente eu, Renee, e meus avós festejando mais um ano sem meu pai.

Minha mãe sabia que odiava essa data e odiava festejá-la na chácara que lembrava tanto meu pai, mas ainda assim insistia em realizar a reunião, afirmando que a família deveria permanecer unida.

"Mãe..." Gemi com desgosto.

"Querida, não adianta ter reclamações, só liguei para não esquecer de vim até a chácara hoje a noite, o fim de semana será simplesmente maravilhoso" Podia notar a animação em sua voz. "Sua avó está super animada, até mais tarde querida" E logo o telefone estava mudo.

Segurei a cabeça entre as mãos, como esquecer do aniversário? Não poderia simplesmente sair do cartel sem permissão, tínhamos treinamentos agendados e precisava planejar uma boa desculpa para faltar o evento, quando uma breve batida na porta me fez olhar em direção à pequena Alice que surgia em um de seus vestidos.

"Onde está a aniversariante mais linda da semana?" Entrou saltitando em meu quarto e me perguntei quantas pessoas saberiam do meu aniversário ali.

"Alice, fala baixo" Ralhei, não querendo que Jenny escutasse, lembrar que estava envelhecendo não era exatamente uma data feliz para mim. "Como você sabe?"

"Ora Bella, por favor, sou uma profissional do maior cartel de drogas do país, acha mesmo que não saberia de uma coisa tão pequena como essa?" Firmou as mãos na cintura. "Mas enfim, só vim avisar que você está liberada de todas as suas atividades nesse final de semana, sua mãe me ligou avisando sobre a chácara, espero que se divirta" Sorriu empolgada.

Me perguntei como minha mãe tinha o telefone de Alice, mas deixei de lado, talvez fosse até melhor ter um final de semana com a minha família, seria bom ficar longe do Cullen o máximo de tempo possível.

Alice logo saiu do quarto após me dar parabéns antecipadamente e Jenny apareceu com uma toalha na cabeça jogando algumas roupas na mala.

"Vai viajar?" Soprei para ela, que pareceu se assustar por me ver no quarto.

"Ah, é" Sorriu. "O filho do meu irmão nasceu hoje de manhã, pedi uma folga para conhecê-los, a família inteira está me esperando" Sorriu empolgada enquanto arrumava a mala e fiquei mais tranquila por ela parecer não saber do meu aniversário.

"Mande meus parabéns para ele" Sabia que a família dela morava na Itália, apesar deles não serem italianos, os pais eram separados e somente o pai de Jenny morava na Inglaterra, devido o cartel, mas ela não parecia triste por ter mudado de país, Jenny sempre adorara Londres.

Sem demora Jenny se foi alegando que estava atrasada para pegar o trem que sairia em alguns minutos, após arrumar minhas coisas na pequena sacola para o final de semana, fui até o jardim, havia muito tempo em que não o visitava.

O sol forte me aquecia enquanto passeava entre as vegetações admirada, o rosto feliz de Cida invadiu minha visão, enquanto caminhava até mim, o jardim era o lugar favorito da senhora que parecia jovem demais para a sua idade avançada, só naquele instante percebi o quanto havia sentido falta das conversas de fim de tarde.

"Minha Bella" As mãos pequenas me abraçaram com carinho. "Vocês fizeram falta aqui, o lugar ficou completamente morto enquanto estavam fora"

"Também senti saudades" Disse um pouco surpresa com a sinceridade de minhas palavras. "Ei Gab, você fica mais bonito a cada dia, o que esse menino está comendo hein?" O pequeno garoto estava entrelaçado nos pés da doce senhora, com um sorriso tímido nos lábios, apesar das consultas com a psicóloga, nada havia mudado, continuava sem dar uma palavra sequer.

Cida soltou uma pequena risada e passou uma das mãos pelos lisos cabelos loiros.

"É a beleza da mãe" Concordei com um aceno, lembrando dos traços finos que eu vira na foto do escritório do Cullen, sentei no banco notando alguns livros empilhados, todos eram de literatura infantil, provavelmente usados por Cida para entreter o pequeno garoto.

"Querida, preciso ir até Alice, parece que surgiu um problema com Lizzie" Disse avaliando um pequeno celular que pendia em suas mãos. "Pode cuidar de Gabriel por uns instantes?"

"Mas Cida..." Tentei interromper, mas ela já virava para o pequeno garoto.

"Você vai ficar com a Bella um pouco, tudo bem?" O garoto olhava indeciso para mim. "Você gosta dela, lembra?" Cida deu um breve sorriso. "Eu já volto" E logo sumiu, me deixando sozinha com o garoto.

Olhei para ele um pouco incerta, costumava lidar com crianças, mas não como Gabriel, era um garoto que havia passado por muita coisa, e podia ver tristeza em seus pequenos olhos azuis que pareciam demais com os do maldito tio.

"Então, o que quer fazer?" Voltou-se para mim, divertido com minha insegurança, e lembrei que não falava. "Ok, então, vamos passear, você quer andar por aí?" Perguntei tentando lembrar do que as crianças gostavam de fazer, mas o pequeno garoto negou com a cabeça, e me entregou um pequeno livro com uma das mãos.

"Você quer que eu leia?" Perguntei e confirmou com um aceno, olhei para a capa do livro, que possuía um garoto com roupas verdes e uma chapéu na cabeça: Peter-pan. "Gosta do Peter-pan?" Afirmou e logo abri o livro, que parecia grande demais para um livro infantil. "Ok, não preciso ler, sei a história de cabeça"

Sentou-se ao meu lado com os olhos cheios de curiosidade, e levantei para contar a história com mais entusiasmo, tentava a todo custo lembrar da história, mas tudo que eu conseguia lembrar de minha infância era que ele voava e gostava de uma garota chamada Wendy.

"Ok, vamos começar" Refleti um pouco. "Peter-pan era um garoto muito malvado" Reprimi um sorriso ao pensar que talvez estivesse assemelhando o garoto da história com o Cullen.

"Vivia batendo nos colegas da escola e fazendo tolice, então, a mãe dele brigava o tempo inteiro, mandando que fosse um garoto melhor" O pequeno menino virava o rosto de interrogação, não reconhecendo a história que estava acostumado a ler. "Então, no aniversário de dez anos ele decidiu que não queria mais crescer, e pediu para a fada que era amiga dele desde pequeno que o levasse para um lugar onde não precisasse crescer" Cindinho, Dicinho, eu não conseguia lembrar o nome da maldita fada. "O nome da fada era Cindinho, é, Cindinho" Gab deu um pequeno sorriso, revelando que se divertia com meus erros.

"Então, Cindinho o levou para a terra do nunca, onde poderia ser criança para sempre, junto com outros garotos que também não queriam crescer" Juntei os braços no colo, fazendo uma careta triste. "Mas o Pan gostava muito de ouvir histórias, assim como você" Toquei no pequeno nariz do garoto e soltou um pequena gargalhada. "E na terra do nunca não havia ninguém para contar histórias, ninguém sabia nada sobre livros por lá, então ficou muito triste por isso, e passou a visitar a terra todas as noites, procurando por todas as janelas, alguém que contasse alguma história"

Os olhos do menino saltavam de curiosidade e apreciava a versão diferenciada da história.

"Mas todas as janelas estavam fechadas, só encontrou uma aberta" Fiz um pouco de suspense. "Era a janela da pequena Wendy e de seus irmãos, Wendy adorava histórias, ela contava histórias todas as noites para seu irmão e quando Peter a viu, simplesmente se apaixonou perdidamente, soube no mesmo instante que era a mulher da vida dele e decidiu levá-la para morar com ele" Percebi que a história tomava um rumo muito adulto, e tentei mudar. "Ela foi com ele até lá, e simplesmente adorou, largou a família e morou na terra do nunca para sempre, contando todas as histórias que conhecia e inventando uma nova história com ele toda manhã, fim"

Sabia que Wendy não ficava com o Peter no final da história, ao invés de ficar com o seu grande amor havia escolhido crescer e ser adulta, mas o final sempre me irritava demais e me fazia ficar triste quando criança, sempre havia julgado Wendy burra demais por trocar seu grande amor por uma vida de adulta, que aliás era uma droga, se Wendy ainda estivesse ali, provavelmente se arrependeria por trocar Peter por um emprego e um marido que trabalhava demais.

Me surpreendi com a enorme gargalhada que saía da garganta do pequeno garoto, e notei surpresa que havia adorado minha versão louca de Peter-pan, talvez também odiasse o fato de Wendy ir embora tanto quanto eu.

"Vejo que se deram bem" Cida apareceu segurando uma Lizzie irritada pelas mãos. "Ele adora histórias, Peter-pan é sua favorita"

Sentou ao lado do garoto, enquanto Lizzie ia passear no jardim irritada, talvez tivesse puxado o humor do tio mafioso.

"Preciso ir" Sentenciei para Cida. "Vou passar o final de semana com minha família"

"Alice me falou" Sorriu em minha direção. "Feliz aniversário Bella"

"Obrigada" Afirmei, dando um beijo estalado no topo da cabeça de Gabe e correndo em direção ao meu quarto, estranhamente não havia cruzado com Jaz e Emm naquele dia, pensei em ir até a ala de segurança, mas o tempo estava corrido demais, precisava pegar o trem o mais rápido possível, a chácara ficava localizada no interior da França.

Subi no trem um pouco aliviada, passaria o final de semana distante do Cullen e apenas isso me fazia extremamente satisfeita.

*

O enorme muro branco cercado de rosas preenchia toda minha visão, e o cansaço da viagem me atingia aos pouco, eram onze horas da noite, e meus pés estavam doloridos, o enorme portão abriu-se e contemplei o lindo rosto de um senhor que conhecia muito bem.

"Vô!" O abracei jogando as sacolas no chão, meu avô materno me passava uma enorme sensação de tranquilidade, com a morte do meu pai, o único que realmente conseguira me consolar era ele.

"Querida, quanto tempo, como você está linda" Me avaliou e me puxou para dentro. "Vamos, estávamos a sua espera" Não contava com a presença de meu avô ali, devido seu trabalho como piloto da marinha passava maior parte do tempo no mar, velejando. "Vá entrando, que eu vou buscar o Tom para falar com você" Tom era um enorme labrador de estimação que eu adorava, subi os pequenos degraus e abri a porta um pouco surpresa com o silêncio absoluto.

"Mãe?" Minha voz ressoou no ambiente. "Marie?" Entrei na sala e de repente diversas vozes e vários papéis salpicados me alcançaram me assustando.

"Surpresa!" Encontrei surpresa o rosto de Alice, Jaz, Emm e Jenny me encarando, olhei assustada para minha mãe que estava ao lado de Alice, com um chapéu de aniversário.

"O que é isso?" Meu rosto ainda continha uma expressão incrédula, enquanto contemplava a enorme mesa enfeitada com vários tipos de bolos e comidas.

"Fizemos uma festa pra você Bells" Jaz sorriu em minha direção. "Achava mesmo que íamos esquecer?"

"Você me enganou" Apontei, surpresa com minha própria felicidade, para Alice, que soltava um sorriso cúmplice.

"Claro, não podia estragar a surpresa."

Por mais incrível que pudesse parecer realmente estava feliz com a presença deles ali.

A campainha soou e minha mãe voltou-se para a porta.

"Falta alguém?" Perguntei surpresa.

"É claro que falta, Bella" Correu até a porta e após abri-la, eu paralisei. "Edward, você está atrasado" Ralhou divertida, enquanto meu inimigo lançava um olhar sagaz para mim.

"Posso chegar atrasado, mas jamais perderia um evento como esse" Sorriu em minha direção, desafiando-me, absolutamente todos na sala congelaram juntamente comigo, só pude pensar se algum dia realmente conseguiria me livrar do maldito Cullen.

A resposta estava exatamente em minha frente: não, jamais me livraria daquele homem.

Maldito Cullen!

Notas finais
FELIZ DIA DAS CRIANÇAS! Quero recomendações de dia das crianças, pode ser? ahahhaha Façam uma criança feliz! Que sufoco! Tive um monte de imprevisto essa semana! Ontem quanto fui postar o capítulo, o site simplesmente saiu do ar, e eu fiquei tipo: Sério isso? hahaaha mas enfim, eu decidi escrever mais um pedaço que eu tinha deixado para o outro capítulo hoje de manhã, por isso demorou mais um pouquinho, mas espero que tenham gostado. Acho que daqui a uns dois capítulos, o papo vai ficar sério e novas coisas vão acontecer heheehhe acompanhem! Para quem não sabe, EP ganhou uma linda capa da linda Naty, muito obrigada Naty =) Pra quem quiser ver: http://i50.tinypic.com/w97cdt.jpg Bem meninas, para as leitoras novas: SEJAM MUITO BEM-VINDAS! e para as antigas: Amo vocês! ♥ hahahaha Mas sério, obrigada por todo o apoio, não tem sido fácil encontrar tempo para escrever, e nem sempre os capítulo ficam como eu gostaria, mas os comentários lindos de vocês me fazem EXTREMAMENTE feliz, então CONTINUEM COMENTANDO! Vamos tomar vergonha na cara e seguir o @EMPERIGO hahahaha Bia sem vocês não é... Ah, vocês sabem! ahahhaa Um super beijo, Bia.