Em Perigo
25 Capítulo 25 - Missão 313
Notas iniciais
Capítulo 25: Missão 313
“A mágoa que ficou para trás valeu minha vida inteira”
Abracei mais forte a mochila acoplada ao peito e senti a coluna latejar em protesto. Não foram poucas as horas que gastamos dentro da van que trazia tudo o que precisávamos para executar a missão. Obviamente, eu não estava só. Emmet, Alice, Jaz e Edward iam conversando em um tom de voz baixo, ocupavam o primeiro banco do enorme móvel. Estávamos separados por uma infinidade de sacolas e equipamentos e não podia deixar de me sentir excluída.
Tentei espiar mais uma vez, mas nem escutar eu conseguia.
“Você não acha que deveria ter ficado no cartel?” A voz de Elizabeth soou com a naturalidade de um idoso, enquanto conferia sua unha com os famosos brilhos infantis. “É humilhante te ver tão excluída, dá dó” Ela fez um biquinho de insatisfação e Gabriel soltou um sorriso diante da ofensa da irmã, apenas bufei tentando lembrar qual o exato dia em que havia atirado a pedra na cruz. Sim, eu estava no fim da van com as duas crianças que, sabe Deus porque, também estavam participando da missão – que eu havia implorado para participar. Soltei o ar com toda a frustração acumulada dentro de mim. Toda a empolgação havia passado com as duas crianças que participavam da missão, não parecia nada fora do comum.
Afundei no estofado, pegando um biscoito das mãos de Gabe e mastigando ruidosamente. Nenhum dos elementos à nossa frente pareceu notar.
“Não acho, sou fundamental nesta missão” Soltei para Liz, alegando em minha mente pela milésima vez o mantra: não devo me trocar com as crianças, não devo me trocar com as crianças, não devo me trocar com as crianças.
“Quando você souber do que se trata, talvez ateste sua importância” Falou com desdém e juro que respirei profundamente para não surtar.
“Liz, você é uma idosa na pele de uma criança, diga, quando roubou este corpo?” Ela soltou uma risadinha. Era nossa brincadeira particular e todas as discussões terminavam com esta piada sem graça e os dois simplesmente adoravam, Gabriel sempre gargalhava ao ouvir que sua irmã mais velha era uma idosa. Sempre acreditei que a risada de Liz vinha ao ver que seu irmão se divertia.
“Nunca revelarei” As gargalhadas de Gabe aumentaram, o que atraiu o olhar animado de Alice que entregou um joinha quando viu meu rosto. Revirei os olhos me sentindo a mafiosa mais patética do universo. Reparei na silhueta de meu mafioso favorito, ele era de fato um homem bonito, até de costas exalava masculinidade.
Acompanhei os movimentos. O sorriso guardado, a expressão indecifrável, o maxilar impassível. Que homem lindo. Não poderia negar.
Notei que logo depois da breve reunião, o Cullen se afastou do grupo, encostando-se um pouco mais na porta. Puxou o celular e discava algumas coisas, mas seu olhar estava distante, fixo em alguma lembrança que ninguém poderia alcançar. Se pudesse apostar, afirmaria que a discagem envolvia uma única letra repetidamente. A preocupação me atingiu, o que fazia o mafioso refletir? Qual seria a missão da sua vida?
Desde os primeiros dias no Cartel eu pensava naquela missão. Sabia que ele me queria para algo grande, algo pessoal. O tempo voou e agora éramos considerados como traficantes experientes. Não fazíamos mais parte do grupo de iniciantes. Exatamente qual situação faria nosso mestre precisar do meu auxílio? O que faria o mestre hesitar?
Eu não podia deixar de sentir um aperto no peito. Temia. Por mim, por ele e por nossos amigos que cabiam em uma van. Sim, temia por perder as pessoas que traziam tanto sentido à minha vida. Era possível notar cada vez mais que tudo aquilo fazia parte de mim, daquelas pessoas, daqueles planos. Estava dentro. Tinha a confiança do mestre e todos ali para participar da missão que muitos deles haviam aguardado por anos.
Fixei o olhar mais uma vez deixando a imaginação flutuar por todas as possibilidades de missões. Cheguei à diversas conclusões, mas nenhuma delas, absolutamente nenhuma das opções fazia meu coração descansar. Não sabia qual era a missão, mas me sentia apreensiva desde já.
Supreendentemente estacionamos no aeroporto. Muitas facetas escondidas no rosto dos meus amigos, nenhum deles parecia relaxar. Alice ainda tentava aos poucos quebrar o gelo, mas tudo se resumia à tensão, pura e palpável. Emmet olhava ao redor, sempre parecendo procurar por algo e em um piscar de olhos nossas bagagens estavam despachadas.
“Será que tem como eu saber, pelo amor de Deus, para onde vamos?” O Cullen parecia vidrado ainda em seus próprios pensamentos. Mal ouvia o que acontecia ao redor.
"Nós vamos para Las Vegas’’ Alice gritou com o que parecia ser a sua última tentativa de animação.
“Porque não grita mais alto? Talvez seja mais fácil divulgar no jornal” Cullen se desvencilhou com agressividade, parecendo notar, pela primeira vez que estávamos ali. Gabe se aquietou, assustado. Ele estava nervoso, dava para notar de longe.
"Não precisa ficar tão alterado, essa também precisa ser uma viagem de férias, lembra?’’ Alice afirmou com seriedade e Jaz parecia querer vomitar.
"Que férias, hein’’ Jaz revirou os olhos.
“Algo me diz que não estou tensa por motivos de ignorância” Elevei os braços como um drama exagerado. “Estou apta para dividir a tensão com vocês, vamos lá, podem vomitar os planos em mim” Cullen bufou alto e se afastou com passos largos e duros até a fila de pessoas que aguardavam o embarque.
“Ele definitivamente não supera a sua participação, que inferno” Foi a vez de Emmet bufar, acompanhado do risinho de Liz que parecia sempre confirmar a teoria da absoluta incoerência da minha presença.
“Tanto faz” Dei de ombros. “Só preciso que vocês me repassem tudo”
“Vamos ter uma reunião quando chegarmos no hotel” Alice diminuiu alguns volumes da altura de sua voz. “Por enquanto somos uma família de amigos que embarcou em férias para Las Vegas, isso é tudo que precisamos no momento” Bateu palminhas e levantou os braços apontando para a fila. “Vamos atacar o Cullen” Correu puxando as crianças, com empolgação infantil.
Definitivamente eu já estava entediada.
*
Confesso que dormi o maior tempo de voo possível, resultado do cansaço anterior, tínhamos poltronas distantes umas das outras, sabe Deus por que. Nos relances, analisei de longe e notei que o Cullen parecia inquieto, discando rapidamente no telefone, sem descansar um minuto sequer. Será que toda aquela ansiedade explicava o motivo do mafioso ter passado horas em meu colo no dia anterior? De fato, era a missão da sua vida?
Las Vegas não era exatamente o destino que eu imaginava para a missão da vida do maior mafioso de Londres, tudo era uma confusão quando se tratava daquele ser humano incompreensível. Entendi o momento, ele estava fechado em si novamente. Era o Cullen que encontrei no primeiro dia de Cartel, fechado, envolto em uma parede expeça que impedia tudo e todos ao seu redor. Era difícil localizar qualquer pensamento naquele momento.
A aterrisagem não demorou e terrivelmente estávamos em solo americano. Foram questões de minutos para atravessar todos os protocolos americanos e ter acesso às bagagens. Dava pena de olhar, as crianças estavam exaustas, emburradas e com fome, ao que parecia. Sobre os outros acompanhantes, a tensão parecia ser a acompanhante mais dedicada, pois ninguém dava uma palavra sequer. Todos sérios e andando com pressa até a saída. Quase tive que correr para alcança-los. Não sabia quanta paciência ainda teria para suportar todo aquele silêncio sepulcral.
O Cullen foi o primeiro a alcançar um carro preto, que para a minha surpresa, partiu primeiro, sem acompanhantes. Encarei Alice com irritação.
“Juro que por mim já teria explicado tudo” Deu de ombros. “Ele precisa passar em um local antes, vamos direto para o hotel, as crianças precisam dormir” Transferi o olhar para Gabe que se arrastava pelo chão com passos curtos, sempre agarrado em uma manta azul. Um sentimento de compaixão invadiu meu coração ao vê-lo tão cansado.
Um outro carro apareceu logo em seguida e nos acomodamos de forma apertada. Liz se recusou a ir no colo, o que resultou em uma Alice muito chateada no sentada desconfortavelmente em Jaz, que estava estranhamente tenso ao meu lado. Gabe logo se aninhou em meu colo e já dormia. Com muito custo tentava segurar o riso ao ver o rosto nada simpático de Alice e Emmet empolgado na frente, conversando com o motorista. Para quem imaginou que a vida no Cartel era um luxo, estávamos realmente parecendo uma família, esmagados em um carro.
Liz relutou muito, mas também sucumbiu ao sono e adormeceu encostada em meu braço. Estranhamente me senti em paz vendo aquelas duas crianças ao meu redor.
Me senti de fato em família.
Sacudi a cabeça. Não deveria deixar sentimentos como aqueles me dominar.
Em poucos minutos estávamos em um grandioso hotel. Era assustador quantas pessoas entravam e saiam, com uma infinidade de funcionários carregando malas. Me senti em êxtase, afinal, era minha primeira visita em solo americano, mais uma experiência para anexar ao currículo de mafiosa, se é que existia um.
Gabe ainda pendia em meus braços e Liz acompanha chateada e sonolenta os passos de Alice, que caminhou até o chekin-in com rapidez e parei por um instante para avaliar o meu redor encontrando uma enorme faixa no hall:
COMPETIÇÃO PARA CASAIS: DEMONSTRE SUAS HABILIDADES E GANHE MIL DOLARES.
Ri só em pensar nesse tipo de programação. Sério que existia isso hoje em dia? Esperei alguns minutos, enquanto Alice tinha acesso às chaves do quarto e caminhamos para a escadaria.
“Ai, que doçura, quanto homem bonito, meu pai do céu” Um homem com barba malfeita e mais ou menos um metro e meio de altura estava abordando os hóspedes recém-chegados na ponta da escadaria. “Para quem não me conhece, meu nome é Livson, mas posso mudar se não agradar” Piscou para Emmet e foi difícil segurar a risada. Alice já gargalhava ao meu lado e Emmet parecia mata-la mentalmente das formas mais cruéis. O homem carregava faixas por todo o corpo, com os dizeres:
“VENHA TESTAR SEU RELACIONAMENTO COM A MELHOR COMPETIÇÃO DE TODOS OS TEMPOS”
“SE VOCÊ NÃO TEM DESTINO, VEM COMPETIR COM O LIVINHO”
“Gatinhos, não entendi o formato grupal” Apontou para nós quatro, que carregávamos duas crianças. “Mas tenho certeza que precisam participar da competição, podem ganhar até mil dólares por prova vencida” Sacodiu um confete e estendeu um panfleto para Alice, que já procurava um relatório de inscrição para assinar.
“Nós vamos pensar com muito carinho na proposta” Jaz segurou o braço de Alice, que encarou de volta.
“Não pensa muito amor” Livson deu um risinho para Jaz. “As melhores coisas da vida acontecem quando não pensamos muito, não é mesmo, fofura?” Pela primeira vez voltou a atenção para mim, sorrindo.
Sorri de volta um pouco desconcertada com o olhar intimidade de nosso novo conhecido e subimos finalmente as escadas. Felizmente Gabe não acordou com a movimentação e logo estava deitado, ainda dormindo. Liz se alojou ao seu lado sem mencionar uma única palavra, sinal de seu claro cansaço. Nenhum sinal de Cullen.
Não percebi, mas aos poucos o ambiente silencioso e escuro me tomou. A inconsciência me tomou por completo e finalmente dormi com as crianças ao meu redor.
*
Quando abri os olhos novamente o céu era pura escuridão. Analisei o relógio e notei que estávamos no meio da madrugada. Todos dormiam praticamente jogados entre as bagagens. Alice estava embrulhada uma das camas. Emmet estava no chão, entre as bagagens e Jaz estava ao lado de Alice, sentado no chão com o celular nas mãos, dormindo. Eu sabia que faltava um mafioso, um muito importante para mim.
Levantei com cuidado uma das mãos de Gabe que estava fechada firmemente em meu braço, como se estivesse me protegendo. Cobri seu pequeno corpo e conferi Liz, que também estava dormindo. Abri com cuidado a porta, procurando entre os corredores, onde estava o criminoso?
Um alto barulho soava enquanto o elevador descia os andares. Cheguei ao salão principal, uma enorme porta dividia o saguão principal, guardando um movimentado cassino. Muita gente entrando e saindo, todos cuidadosamente arrumados e produzidos. O nível daquele hotel era altíssimo, cinco estrelas, e protegido em uma área escondida. Ainda era difícil imaginar qual a missão que faríamos ali. Estendi os passos até a porta lateral do Hotel que demonstrava a área de lazer, com no mínimo cinco tipos de piscinas e diversas cadeiras de sol.
Não sabia por onde começar a procurar, talvez ele não estivesse ainda no Hotal, afinal, mas por onde estaria? Um aperto surgiu em meu coração com a incerteza.
Caminhei aleatoriamente entre as áreas comuns, sentindo uma brisa tocar meu rosto. Encarei a paisagem sentindo pela primeira vez naquele diz a paz tocar meu corpo. O Hotel ficava em frente a uma belíssima praia, e dava acesso privilegiado por uma passagem. Era praticamente uma praia privada para os clientes. Ouvi o som das ondas, deixando as incertezas de toda a situação esvair de meus poros.
Entre as ondas, vi, muito distante, um belo homem sentado em meio a areia. Sim, era o meu mafioso. Senti o corpo ascender e a ansiedade de encontra-lo tomar conta de mim aos poucos. Obriguei meus pés a se moverem, buscando com ímpeto empurrar as frustrações da ausência do mafioso acumulada durante o dia. Cheguei mais perto, quase tocando. Ele ainda analisava as ondas firmemente, apesar de ter notado minha presença.
“Sei que adora praias” Busquei aliviar a tensão fazendo menção aos nossos encontros nada formais em praias, ele não virou o rosto. “Mas é um horário peculiar, não tem ninguém”
“Justamente por isso estou aqui” Revirou os olhos e senti a tensão em suas palavras. Percebi que ainda estava chateado por minha ida à missão, ignorei a pontada que a rejeição trazia. Não conseguiria me afastar, eu não deixaria.
“Uma pena estragar sua solidão, mas não me sinto culpada” Sentei ao seu lado, propositalmente encostando minha perna em seu corpo. Eletricidade passou por nós, ele não cedeu.
“Você não devia estar aqui” O tom de voz era baixo, concentrado, perdido em pensamentos. “É tão teimosa, tão incansavelmente decida, que inferno, juro que nunca encontrei alguém assim” Pela primeira vez encarou meu rosto, estávamos a centímetros um do outro. O ar carregado de um sentimento indecifrável, carregado de tensão. Os olhos eram duros, ávidos, cansados.
“Você acha que eu perderia toda a diversão?” Revirei os olhos empurrando a onda de rejeição mais uma vez. Sim, precisava entender os motivos do mafioso, precisava entender aquele cansaço em seus olhos. Que missão era aquela? “Porra, está na hora de superar minha vinda, você deveria saber que sou boa o suficiente” Soltei, desabafando. Ele soltou uma risada sofrida.
“Acha que não queria sua presença por ser não ser boa o bastante?” Negou com a cabeça, as feições transbordando de seriedade. “Tão típico”
“Tem algum outro motivo?” Minha voz saiu duas oitavas acima, finalmente estava soltando o ressentimento que guardei desde a negativa recebida. “É difícil adivinhar seus pensamentos tão obscuros e distantes, talvez para essa missão ainda não estou preparada”
“Me diga o que acha, Swan” Soltou com o tom de voz também crescente. “Um mafioso pode ter um ponto fraco?” Não entendi a pergunta, mas encarei seu rosto enigmático com firmeza.
“Quem não tem?” Sacudi as mãos, sentindo o coração acelerado com a proximidade. “Ainda somos humanos, Cullen, mesmo que não pareça”
“Não deveríamos ser” Chegou mais perto. “Não posso ter um ponto fraco, Swan” A raiva transbordando em seus olhos. “Quer saber porque não a deixei participar da missão?” Arqueou as sobrancelhas. “Eis aí o seu motivo”
Rapidamente o reconhecimento tomou conta de mim. Entendi as palavras do Cullen. O alívio tomou conta de mim. Por algum motivo eu era o ponto fraco do Cullen?
“Está dizendo que sou seu ponto fraco?” Estalei as palavras entre risadas, uma vontade incontrolável de gargalhar tomando conta de mim. “Isso não faz o menor sentido”
“Vamos” Ele voltou a encarar o mar. “Pode rir, a situação é realmente patética” Revirou os olhos. “É a minha maior missão Swan, preciso me concentrar totalmente em cada detalhe, não vou parar os planos por nada” Voltou o olhar para mim, seu olhar cheio de cólera, sentimentos tensos, desconhecidos. “Mesmo que para isso precise deixar algum de nós morrer, entende?” O medo aos poucos rodeava o ambiente. Sim, o mafioso em minha frente estava com medo. “Não teremos tempo para preocupações, planejei essa missão por anos e tudo precisa sair como o esperado, vim aqui exterminar alguém e vou concluir cada parte de meu plano” Permanecia me encarando com firmeza. “Se alguma parte do plano não funcionar isso pode nos matar Swan, eu já preciso lidar com o perigo que meus amigos vão correr e agora também preciso lidar com sua vida em risco” Deixou a cabeça cair entre as mãos, com nervosismo.
“Está com medo?” Perguntei chocada. Sentia todo o corpo arrepiado com a confissão do mafioso. Era a primeira vez que o vi chamar o grupo de amigos. De fato, percebi que o Cullen não encarava mais o grupo como subordinados, mas como uma família. O reconhecimento fez meu coração dar uma volta, talvez não estivesse tudo perdido, talvez existisse no Cullen mais humanidade do que um dia me permiti imaginar.
“Sim, Swan, estou com medo” Assentiu em negação. “Não sou a porra de um monstro, não ainda” Sim, ele não era um monstro. Me apegava nisso diariamente. “Mas excluirei essa parte de mim, deixarei intocada, escondida” Me encarou novamente, os olhos transbordando de tristeza. “Quando a missão começar preciso que esqueça o Cullen que imagina, estarei focado Swan, não desistirei de nenhuma parte do plano e se precisar sacrificar meus subordinados para que isso ocorra, não vou hesitar” Era uma confissão. Estava confessando que deixaria todo o lado ruim dominar, comandar. Esconderia mais uma vez toda e qualquer bondade que tinha desenvolvido dentro de nossa relação tortuosa. Ele voltaria a ser o Cullen assustador que tanto havia odiado.
Me permiti sentir medo. Permiti que a tensão que ele carregava também me alcançasse. Entendi que ao tentar me de deixar de fora da missão queria me poupar de ver todo seu lado sombrio, toda a escuridão que era capaz de ter dentro de si. Era tarde demais, estava ali e veria toda a podridão.
“Preciso ver tudo” Decretei e notei que minhas mãos tremiam. “É a última prova, preciso saber quem é você de uma vez por todas”
“Talvez você não goste do vai ver” Notei sua voz apreensiva. “Desejará não ter participado disso” Dei de ombros.
“Sim, é uma possibilidade” Estiquei as pontas de meus dedos, alcançando sua mão. Senti seu corpo ainda mais tenso. “Lembrarei das coisas boas, elas vão me abastecer” Disse com incerteza. Não sabia do que se tratava tudo aquilo, não sabia quanto alcançaria do Cullen, quanto nos afastaríamos.
“Espero que seja suficiente” A incerteza também estava presente em sua voz. “Por Deus, meu maior desejo é que as lembranças boas sejam suficientes” Apertou minha mão com força, quase como uma despedida.
Em breve ele seria o mafioso, o maior mafioso do mundo, seria cruel, contaminado, pecaminoso, doentio. Eu não sabia o que me aguardava naquela missão, mas estava com muito, muito medo do que encontraria naqueles olhos azuis.
Eu sinceramente não sabia se as lembranças seriam suficientes.
*
Não foi difícil acordar no outro dia, meu corpo estava completamente descansado depois das horas de sono no dia anterior. Depois de nossa conversa na praia, voltamos ao quarto. Jaz estava acordado, resolvendo alguns problemas do Cartel. Logo voltamos ao normal e nos afastamos com certo constrangimento. De certa forma ninguém no Cartel conhecia os momentos estranhamente íntimos que dividíamos e ainda não sabia ao certo como agir ao redor das pessoas. O Cullen não teve tempo para se preocupar com o assunto, pois estava caindo de sono e em poucos minutos sua respiração estava lenta e ele estava caído na cama.
O Sol entrava reluzente iluminando o quarto minúsculo divido pelos quatro mafiosos e duas crianças. Eram apenas quatro camas, o que resultou em um Jasper muito dolorido devido à dormida no chão. Não entendi ao certo o número pequeno de camas, mas algo me dizia que tinha relação com a misteriosa missão.
A curiosidade pulsava dentro de mim. Eu desejava saber tudo, cada detalhe, quem era o alvo, qual o meu papel dentro de tudo aquilo. Quando levantei o Cullen já não estava mais em sua cama. Emmet e Jaz também não estavam no quarto. Alice surgiu do banheiro com Gabe no colo.
“Caramba, não sabia que era tão trabalhoso dar banho em uma criança” Gabe soltou um risinho travesso. “Cida, eu te venero” Sorri para Gabe.
“Bom dia, garoto” Se jogou com vontade em meu colo com um enorme sorriso. Liz levantou os olhos do tablete uma única vez, sorrindo ao ver o irmão animado. “Fez bagunça no banho?” Ele gargalhou e fez um sinal positivo com a cabeça. “Tudo bem, a Alice merece mesmo”
Não entendi qual seria a participação das crianças na missão. O cullen havia falado com tanta seriedade no dia anterior que era difícil imaginar como poderiam participar. Precisava confessar: estava transbordado de ansiedade.
“Bem, vamos?” Alice bateu as mãos. “Bella, vamos para uma reunião. Liz vai descer com Gabe para o parquinho” Liz se levantou entediada.
“Vamos Gabe, segure minha mão, ok?” Acompanhamos as crianças até o elevador e notei mais uma vez o cuidado que Liz dedicava ao irmão. Eram uma dupla e tanto. Alice segurou minha mão e foi puxando até o último quarto. Existia uma porta que dividia a área, uma porta que eu ainda não tinha notado ali e era diferente de todos os quartos. Era rústico, dourado e luxuoso como tudo naquele Hotel.
“ENTRADA SOMENTE PARA FUNCIONÁRIOS”
Não tive tempo de ler a placa por completo e Alice já digitava uma senha, fazendo com que a porta abrisse. O meu queixo veio ao chão. Dentro consegui ver um escritório completo: vários computadores de monitoramento das câmeras do Hotel, equipamentos, coletes a prova de bala, fuzil, metralhadoras, armas de pequeno e grande porte. Uma enorme tela era projetada na parede. O que era tudo aquilo?
“Meu Deus” Ouvi sair de minha própria boca, assustada.
“Seja bem-vinda à missão 313, Bella” Alice sorriu, fechando a porta atrás de nós. Emmet estava no chão, ajustando alguns cabos. Jaz e Edward encaravam atentos todas as câmeras.
“Pois bem, vamos começar os preparativos” Alice afirmou, puxando uma cadeira para que eu sentasse em frente à parece com a projeção do computador. Um enorme “MISSÃO 313” constava da parede. “Preciso da atenção de todos aqui, agora” Exigiu com impaciência, aos poucos os três mafiosos se concentraram. O Cullen parecia entediado e Jaz revirou os olhos. Emmet permanecia com o rosto repleto de puro êxtase.
“Inicialmente, precisamos entender nossos personagens. Estamos em férias. Sou irmã do Edward e Isabella é sua companheira” Edward pareceu se mover para contestar, mas Alice levantou uma de suas mãos, impedindo. “Já discutimos sobre isso, Ed, e não vamos conversar de novo” Os olhos azuis se tornaram felinos e Alice tornou-se alvo fácil do mafioso. Não moveu nenhum um fio de cabelo com preocupação, continuou demonstrando o plano. “Viemos em excursão. Liz e Gabe são meus filhos, vocês são um casal” Apontou de Edward para mim. Depois passou a apontar para Emm e Jaz. “Vocês dois são amigos da família, querem diversão e farra, só” Emmet abriu um sorriso, aprovando a ideia. Jaz permaneceu entediado. “A missão terá a duração de três dias, nosso alvo chega hoje para sua estadia. Participaremos de todas as festas do Cassino, serão três, a começar hoje. Por meio dos monitores teremos acesso a todas as câmeras do Hotel, inclusive ao quarto de nosso alvo.”
“Certo, mas qual a finalidade de tudo isso?” Não podia mais controlar minha ansiedade, tudo em mim era curiosidade e angústia para descobrir de uma vez por todas qual o objetivo de tudo aquilo. “Quem é o alvo, Alice?”
“Bella, seu papel é fundamental” Continuou explicando e senti a tensão dominar o quarto com meu questionamento. “Você será uma sedutora, participaremos de todas as festas e você precisa se destacar para tudo isso funcionar” Retornou o olhar tenso para Edward, ele se moveu, incomodado. “É a chave do plano para que tudo funcione como o previsto, terá que seduzir o alvo”
“Temos outras formas de fazer isso” Edward finalmente se pronunciou, a voz denunciando todo seu inconformismo. “Não precisamos entregar Isabella nas mãos desse desgraçado”
“As outras formas não são tão eficazes quanto esta, Edward” Alice rosnou de volta. “Por Deus, já discutimos inúmeras vezes sobre isso, todos concordamos com o plano” Nunca havia visto Alice tão irritada, seus olhos vomitavam puro ódio. “Não esqueça que a decisão final de a trazer foi sua, teve sua chance”
“Claro, porque é muito fácil contrariar essa mafiosa” Em um segundo estava de pé encarando Alice de perto, podia sentir as faíscas.
“Adoro quando falam de mim como se eu não estivesse presente” Também levantei, batendo as mãos com ironia.
“Pelos céus, parem!” Jaz finalmente se manifestou. “Sentem!” Ninguém obedeceu. “Agora!” Não sei se foi o tom mais alto, mas aos poucos voltamos aos nossos lugares. “Mestre, o plano precisa ser seguido para que funcione, lembre que tudo isso saiu de você, o plano é seu” Edward não respondeu, ainda contrariado.
A compreensão me invadia aos poucos, aquele plano era do Cullen. Sim, desde nosso acordo quando cheguei ao Cartel soube que havia um plano, que ele me usaria para alguma coisa grande. Qual seria o motivo de sua hesitação? Realmente estava preocupado comigo? Quem eu teria que seduzir? As dúvidas só aumentavam e minha paciência estava cada vez menor.
“Seguiremos o plano inicial, cada centímetro dele” Jaz afirmou e Edward permanecia encarando com o olhar vazio. “Certo, mestre?” Percebi que todos permaneciam apreensivos aguardando a resposta, inclusive eu.
“Certo” O mestre respondeu, sua voz nem de longe era aquela rajada de trovão a que estávamos acostumados, parecia mais um sussurro distante, mas tínhamos uma resposta e era isso que importava. Senti a adrenalina irradiar por meus poros, eu enfrentaria tudo, seja lá o que fosse. Estava pronta. Estava perfeitamente pronta para destruir.
“Tudo bem, agora que superamos, mais uma vez e de uma vez por todas esse fatídico ponto, vamos seguir em frente” Alice revirou os olhos parecendo querer implicar com o irmão. “Vamos lembrar que estamos falando de uma mafiosa, bem louca e ousada, do jeito que precisamos para essa missão funcionar” Sorriu para mim cheia de confiança, uma confiança que me atingiu como uma avalanche. Eu precisava dar conta daquela missão. “Então, seguiremos fielmente o plano, Isabella usará o nome do Cartel, vamos tentar evitar qualquer exposição desnecessária, precisamos realmente seguir milimetricamente o papel de nossos personagens, não sabemos quem estará camuflado como parte do time alvo”
“Só um minuto” Levantei uma de minhas mãos, com indignação. “Não vou realmente saber quem é o alvo?” Percebi que tocava em um ponto ainda não decidido. Novamente a tensão tomou conta do ambiente novamente.
“O objetivo da missão é capturar o alvo e entrega-lo nas mãos do mestre” Respondeu com nervosismo. “Ele completará tudo. Você vai seduzi-lo e entregá-lo. Estaremos monitorando.”
“Não perguntei o objetivo da missão Alice, perguntei quem é o alvo” Levantei, sentindo a irritação tomar conta de mim. Cada vez mais a apreensão dominando o ambiente.
“Iremos participar das atividades do Hotel. A camuflagem tem que ser perfeita, tudo impecavelmente calculado. Estamos lidando com um mafioso de altíssima periculosidade, não podemos esquecer disso”
“Porra, Alice!” Exclamei, me movimentando. Todos calaram. Entendi o retorno, todos aguardavam a resposta dele, do mestre.
Encarei o mafioso que tanto me intrigava. Seus olhos estavam vazios, distantes, sem vida. Deixei o medo me dominar, não sabia o que estava em jogo, mas certamente envolvia a sanidade de meu inimigo.
“O alvo é Carlisle Cullen, Isabella” Voltou-se para mim, seus olhos assustadores, sem vida, me passavam toda sua angústia. “Nós vamos capturar o meu pai”
Sentei novamente com o resultado do choque.
O pai de Edward estava vivo?
Nosso alvo era Carlisle Cullen, o maior líder do Cartel?
Por Deus, onde eu tinha me metido?
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