Em Perigo

26 Capítulo 26 - O início do fim.


Notas iniciais
O capítulo ficou ficou maior do que imaginei, portanto, vou dividir em algumas partes. A história está caminhando para o fim e teremos grandes desdobramentos a partir de agora, preparem o fôlego e o coração! Lembrem de ler as notas finais. COMENTÁRIOS E RECOMENDAÇÕES são o meu combustível, lembrem de fazer!!! Boa leitura! =)

Pisquei os olhos, sentindo a confusão ainda tomar conta de mim. Não era possível, Carlisle Cullen estava morto, não estava? Ao menos era isso que diziam todos os mafiosos do Cartel. Não fazia sentido Edward matar o único familiar que ainda restava.

“Como assim, mestre?” Encarei Edward, desolada. “Você quer matar o seu pai?” O transtorno dominava o ambiente.

“Tenho todos os motivos para fazê-lo, Isabella” Edward levantou, desconfortável.

“Qual é o motivo que justifica eliminar seu único familiar próximo vivo?” Levantei, questionando. “Porra, Edward, ele é o seu pai”

“Você não sabe nada da minha vida, Isabella” Se aproximou com passos de leão, atacando, violento. “Se quiser sair, fique à vontade, mas se for ficar, não questione minhas decisões” Manteve seu olhar duro diante do meu, como uma guerra. Inacreditavelmente, ele foi o primeiro a destravar a guerra, direcionando seus passos duros para a saída, deixando uma porta quase em pedaços com o estrondo. Ótimo, vá embora, faça o que sempre faz, inferno!

“É sério tudo isso?” Encarei Alice com choque vívido. “Vocês estão apoiando isso?” Dei uma gargalhada irônica. “Estão ficando loucos, todos vocês”

“Bella” Alice soltou cheia de cansaço. “Não sei se sou a pessoa ideal para explicar os motivos, não sei nem se realmente concordo com essa missão, mas estou com ele, nós estamos, e vamos até o fim” Encarei os outros rostos e encontrei concordância. Me lancei sobre a cadeira novamente, cheia de frustração. Eu ajudaria Edward a eliminar a única pessoa que ainda restava? Porque Carlisle não fazia parte do Cartel?

Eu precisava de respostas, todas elas. Direcionei meus passos firmes para a porta, resoluta a resolver aquela situação de uma vez por todas. Estava cansada dos jogos de meu adversário. Encontrei o mafioso na praia, em sua área mais isolada. Estava ficando previsível seu fascínio por locais como aquele. O Sol ainda reluzia tímido no céu, era cedo. Praticamente tínhamos a praia toda para nossas discussões, pois os hóspedes ainda dormiam.

“Pode parar com suas saídas dramáticas sempre que a conversa te incomoda?” Empurrei seu corpo, ele nem se moveu. “Para um mafioso poderoso, você é bem patético” Sim, eu queria incomodar o mafioso, queria provocar sua raiva. Ele precisava vomitar tudo para fora, precisava mostrar os seus reais motivos.

“Ele matou todos” Sua voz saiu gélida, congelada, doentia. “Foi o responsável pela explosão do carro que matou minha família” Seu rosto impassível virou-se para mim e eu tremi com o que vi. Ódio, sangue, desejo de vingança. Reconheci em um minuto que tinha medo daquele Edward. “Esse homem não é nada para mim, ele matou tudo que eu tinha, ele acha que eu estava naquele carro, Isabella, lutou para extinguir tudo que representava fraqueza” Os pulsos estavam firmes, os punhos fechados, ódio pulsando de cada fibra. “Eu as encontrei. Os corpos carbonizados que nunca, nem por um dia, saíram de minha mente.” Chegou mais perto com passos perigosos. Sua voz saiu uma oitava mais baixa, mas o pavor só aumentou. “Vivi cada dia de minha vida para chegar nessa missão, vou até o fim, vou destruir esse desgraçado, nem seja a última coisa que eu faça”

Ah, eu vi. O menino Edward, seus sonhos e planos destruídos. Vi o adolescente Edward, tão novo, encontrando os corpos carbonizados de sua família. Meu coração fechou-se em uma bolha, senti uma angústia profunda me atingir. Quanta maldade ele conheceu? Quanto precisou suportar durante todos esses anos? Quão pesado era o fardo que carregava?

Senti meu corpo mole, resultado das declarações. Tudo estava travado. Como um pai exterminava toda a sua família? Como abandonava seu filho?

“Porque?” Percebi que não conseguia soltar o resto. Qual o motivo de ter exterminado a todos?

“A família era um fardo para ele” Soltou com repulsa. “Não éramos nada, apenas fraquezas, éramos pura e palpável fraqueza” Deu de ombros. “Planejou tudo, não deixou rastros, fez tudo parecer um maldito acidente. Pensou ter se livrado de tudo. Deixou o Cartel para trás, conseguiu negociações melhores e maiores” Passou as mãos pelo rosto, todo seu corpo era pura tensão. “Eu o procurei por anos, procurei por cada ponto deste mundo, gastei tudo que eu tinha, contratei os melhores para encontra-lo, e consegui” Soltou uma risada assustadora. “Eu consegui, vou finalmente descansar, vou terminar tudo que começou anos atrás”

O ódio que transbordava de Edward era assustador, era como se fosse tomado por todas lembranças, todos os seus medos. Como se os corpos carbonizados estivessem bem na sua frente, como se esse fosse seu único motivo de viver. Sim, o meu mafioso não tinha nada de bom, assim como prometera no dia anterior. Estava nú, sem qualquer capa de bondade ou mansidão. Era corpulento, forte, fogo, destruição. O peso das palavras me tomava. Eu não reconhecia aquele homem, não sabia os seus limites.

“Sinto muito” Senti meu peito rasgando. “Sinto tanto, você suportou tanta coisa, guardou tudo isso sozinho” Quase consegui segurar sua mão, mas ele se afastou, fechando-se em sua própria escuridão.

“Não sinta, vou finalizar tudo isso, ele terá o que merece” Seu olhar era distante e solitário.

Mais uma vez senti que um abismo enorme estava entre nós, depois que tudo aquilo terminasse não sabia se poderia salvar algo de bom em Edward.

O sentimento de angústia não se aplacou com o passar do relógio. Era agoniante estar na sala de controle e não ter absolutamente nenhuma influência. Alice detalhou o plano de forma minuciosa. Eu seria uma sedutora, meu papel era fundamental por um único motivo: estaria diante do alvo, desprotegida, revolta, poderosa. O Cullen havia me treinado para isso, eu sentia. Sua hesitação inicial no Cartel sobre minha participação na missão tornou-se certeza convicta após a discussão. Ele não hesitaria mais e tinha deixado isso bem claro para mim no dia anterior, mas então porque meu coração ainda permanecia estranhamente apertado?

Eu podia fazer isso, sentia que era capaz para completar a missão. Seduzir o maior inimigo de meu mafioso. Me apeguei aos fatos descritos, o homem era simplesmente um demônio na terra, exterminou toda a família e acreditava que o filho não tinha mais vida. Não precisava me sentir culpada, eu sabia que não precisava. Entretanto, muitos anos separavam os acontecimentos do passado e eu sabia como ninguém o quanto poderíamos mudar com o tempo, não seria possível um encontro entre pai e filho? Uma chance para remissão? Será que Carlisle realmente tinha feito tudo que Edward tão fielmente acreditava?

Os questionamentos eram um redemoinho dentro de mim e suspeitava que nunca teria verdadeiras respostas. Eu estava dentro da missão, havia lutado por isso. Então, porque me sentia tão fraca, tão cansada do rosto vazio e obstinado de Edward? Não era difícil se perder ao planejar uma vingança e era possível ver que o mafioso se perdia um pouco mais há cada movimento, cada ataque.

Gabe segurou o meu dedo, chamando atenção. Sorri de volta, vendo que ainda estava agarrado em um urso que carregava para todo o lado.

“Está com fome?” Perguntei e ele fez um não com a cabeça, Liz analisando tudo de longe. Me parecia que seu olhar nunca o perdia de vista, como se fosse seu tesouro, como se não tivesse nada além dele. O meu coração apertou com a constatação. Liz realmente não tinha ninguém, sua mãe havia sido morta pelas mãos daquele monstro, pelas mãos de seu avô. Meu Deus, era doentio! O que ele faria se soubesse que ainda restavam as crianças? O que faria se soubesse que Edward ainda estava vivo?

Um arrepio passou profundamente por mim. Não queria pensar nisso, não podia pensar em perdê-los. Não podia perder ninguém naquela maldita missão, por isso precisava ser perfeita, intocável, treinada.

“Bella, conseguiu entender os detalhes?” Alice questionou me tirando dos devaneios que assombravam minha mente, ainda com os papéis em mãos.

A missão estava detalhada em três etapas, teríamos três dias. Nossos personagens deveriam se misturar no Hotel, deveríamos parecer pessoas normais de férias. Edward e eu participaríamos das atividades para casais para manter a camuflagem, tópico bastante questionado pelo Cullen, mas superado com muita insistência de Alice. Cada noite reservava uma festa no Cassino do Hotel e seria ali o meu momento de efetivar os contatos com o alvo.

Minha personagem era uma caçadora, uma mulher entregue aos prazeres mundanos e flertaria com um dos maiores mafiosos do mundo, flertaria com Carlisle, precisava ser notada por ele. O alvo seria alcançado no último dia: um convite fatal para o seu quarto. Sim, seria lá, em seu próprio quarto, o fim de sua vida pelas mãos do filho. O comando era único e absoluto: não matar Carlisle. Meu papel era seduzi-lo e entrega-lo nas mãos do Cullen.

Como eu seduziria um homem cruel e sagaz sem ser pega? Sacudi a cabeça na milésima tentativa de clarear os pensamentos. Não deixaria o medo tomar conta de mim.

Definitivamente não havia mais espaço para hesitação, a missão finalmente estava começando.

DAY 01

Era fácil se misturar na multidão com duas crianças ao meu redor e um mafioso concentrado e irritado. Realmente parecíamos uma bela família entediada. Gabe correu para a piscina infantil e Liz revirou os olhos, ainda segurando seu tablet. Mentalmente eu revivia todas as fotos mostradas por Alice de Carlisle e mais especificamente de seu braço direito: Vitoriano.

Vitoriano era uma dificuldade a parte. Uma fase bem peculiar da missão. Com uma formação militar invejável, ele era o responsável pela segurança do mafioso. Encarei de longe, deitada em uma cadeira de descanso na área da piscina. Ele estava há metros de distância, mas ainda sentia um arrepio ao encará-lo por muito tempo. A maldade pulsava em suas veias, era visível. Um porte atlético e uma cicatriz no rosto escondiam um passado obscuro de mortes e treinamentos. Seu cabelo era seco, sem vida e seus gestos brutos demais para chamar alguma atenção positiva, mas parecia ter sido um homem bonito um dia. Sua localização dominava o ambiente, como se também fiscalizasse tudo, estava perto do muro que protegia a área externa. Com a expressão impassível, parecia analisar toda a extensão do local.

“Alvo dois localizado” Soltei entre os dentes, tendo ciência que minha voz saia quase imperceptível nos fones que cada um dos subordinados carregava. A comunicação permanecia constante e o alvo neste momento era o segurança, avaliar e gravar cada um de seus movimentos, tentar encontrar alguma fraqueza na muralha de músculos. Encarei Emmet encostado no muro, travando uma conversa animada com uma americana desconhecida, em seu disfarce perfeitamente executado. Era impressionante sua atuação, quem não o conhecia muito provavelmente o veria como um inglês interessado em aventuras em solo estrangeiro, mas eu notava sua atenção vagar ao seu redor, alcançando em poucos minutos nosso primeiro alvo, a cabeça inclinada em sua direção tentando captar alguma informação demonstravam o excelente treinamento recebido no Cartel.

“Alvo um ainda não está no local” A voz de Jaz surgiu no fone, sua localização ainda fixa na sala de comando, monitorando todas as câmeras. “Movimentação permanece tranquila”

“Temos que encontrar esse desgraçado” Edward soou com a voz autoritária. Estava distante de mim, sentado em uma cadeira há metros de distância com as mãos em um livro qualquer. Os óculos escuros e o rosto cético forneciam uma postura implacável, o criminoso sabia como chamar atenção.

“Estou escutando alguma coisa” Emmet soltou com ansiedade, enquanto a mulher ao seu lado falava algo distraída no telefone. “Ele chegará antes do pôr do Sol, na passagem privada do Hotel” É claro que Carlisle não seria exposto tão facilmente. Seus homens já monitoravam todo o Hotel, sua chegada seria através do acesso restrito, recebido em seu helicóptero particular.

Por meio do monitoramento de Jaz descobrimos que a missão era a entrega de um enorme carregamento de drogas ao Cartel de Las Vegas, uma missão a ser concluída dentro do luxuoso recinto do salão privado. Não tínhamos ideia de quem seria responsável pelo recebimento ou se já estavam no Hotel, mas em breve teríamos todas as informações. Minhas mãos suavam ao imaginar que precisaria chamar a atenção de um mafioso tão fatalmente treinado e maquiavélico. Eu conseguiria de fato alcança-lo? Eu torcia para que tudo fosse encaminhasse da forma correta, mas era cada vez mais assustador me imaginar em contato direto com um homem tão cruel.

“Alvo em movimento” Alice soltou com a voz de felina. “Vou me divertir” Acompanhei seu andar seguro e cuidadoso. Vitoriano seguia com passos largos para o interior do saguão, enquanto Alice caminhava na direção oposta. “Caramba, desculpa moço” Esbarrou na muralha de músculos, ele nem se moveu. Não se deu ao trabalho de desviar o olhar para baixo, seguindo firmemente seus passos, um poço de estupidez. “GPS devidamente implantado” Alice soltou lentamente e percebi que segurava minha respiração aguardando o retorno da situação. Definitivamente aquela mafiosa de meio metro era incrível.

“VAMOS LÁ, TODOS NA PISCINA” O susto foi produzido pela voz aguda de Livson, o homem que encontramos na entrada do Hotel. Estava acompanhado de vários casais animados, eufóricos para receber os valores prometidos. Suas roupas estampavam um verde neon, quase ofuscando minha visão. Vi Emmet se benzer de longe e me permitir gargalhar. As competições seriam divertidas, precisava admitir. Voltei o olhar para Alice, que discutia com Edward, exigindo sua participação.

“Está faltando um casal” O tal Livinho declarou em meio à multidão. “Edward e Isabella, onde estão?” Deixei a risada escapar novamente, vendo um Edward muito irritado marchando em minha direção. Alice tinha feito nossa inscrição, supostamente uma necessidade para a camuflagem dar certo. “Vamos garoto, não tenho o dia inteiro” Vi o rosto de Edward tremer com ódio.

“Finalmente começaremos a melhor competição de casais deste país” Soltou uma risada bizarra, seu humor oscilava entre risonho e assustador. “Desse daí, criança, está amaçando os papéis” Gritou para um pré-adolescente que passava por perto, encarando como se fosse uma aberração. “Todos em seus postos, doçuras, essa competição tem o patrocínio de nosso querido Hotel, obrigada pelo espaço” Ninguém realmente parecia escutar o homem, a não ser os casais empoleirados ao seu redor. Xinguei Alice mentalmente, as atividades seriam uma tortura, mas a expressão mortificada do Cullen quase fazia tudo valer a pena.

Vi de longe o riso estampado no rosto dos marginais, Emmet e Alice estavam salivando de prazer ao nos ver expostos em uma situação patética. Eu quase ri também, disse quase, não era louca de rir do Cullen. Ele estava a ponto de ter uma síncope, ainda mais depois de notar que Alice carregava uma câmera polaroide para registrar todos os patéticos momentos que dividiríamos.

“Bem, nossa primeira prova será dentro da piscina, mas sem intimidades dentro da água, viu?” Soltou novamente a gargalhada bizarra, sendo plenamente ignorado por seu público. O homem não tinha limite do para passar vergonha. “Estão vendo ali?” Apontou para um enorme circulo redondo, pintado com cores e metragens diferentes. Um pequeno centro cintilava, mostrado que tínhamos um alvo a nossa frente. “Vocês receberam pistolas de água e terão que alcançar o alvo” Vi o rosto do Cullen se transformar em um quase sorriso, o desgraçado sabia que era bom e se tinha uma característica marcante, era sua competitividade. Já podia ver o Cullen salivando pela vitória. “Mas é claro que não será tão simples, os outros casais serão empecilhos, poderão utilizar todos os meios para atrapalhar” Deixei um sorriso escapar, em breve aqueles jogadores perderiam. “Os parceiros deveram defende-los, fazer de tudo para que os outros casais não impeçam o tiro”

Aos poucos todos se dispersaram para a borda da piscina, em torno de dez casais que dividiam o espaço. Desci até a borda, pulando para dentro. Encarei de baixo a feição nada gentil do mafioso.

“Vamos Cullen” Revirei os olhos, permaneceu impassível. Sua visão vasculhando todo o local, ainda em alerta. “Me ajuda aqui” Esticou a mão distraído e o puxei para dentro. “Não acredito que caiu nessa, que babaca” Fui metralhada pelo olhar impassível de meu inimigo, a gargalhada escapou sem permissão e senti meu coração mais leve. Talvez a ideia de Alice fosse boa, afinal.

O Cullen espirrou em meu rosto o máximo de água que conseguiu, se deixando levar pelo momento. Vi um sorriso brotar levemente e respirei fundo sentindo o coração trepidar, meu mafioso ainda estava ali, por baixo de toda aquela capa de dureza. Analisei Alice de longe, que possuía um enorme sorriso em seu rosto, piscando de volta. Eu sabia que também era um alívio para ela qualquer momento de leveza que pudéssemos ter naquela missão, sabia o quanto toda a avalanche de escuridão trazia para a vida de cada um de nós. Avistei Gabe sorrir para mim e senti o coração diminuir. Duas crianças tão pequenas envolvidas em toda a trama de mentiras e deformações, não era justo.

Encarei meu mafioso. O rosto estava bem próximo do meu, os olhos azuis me encarando, cintilando vida por um momento. Me agarrei aquela faísca, precisava de momentos leves, todos nós precisávamos.

“Não é por ser a missão da sua vida que não podemos nos divertir” Dei de ombros, limpando a água do rosto.

“Claro que você não perderia essa enorme diversão” Movimentou os braços com ironia e me permiti chegar mais perto.

“Dá para fazer coisas interessantes na piscina, Cullen” Aproximei nossos corpos, falando mais baixo. Encarei o público em minha frente, como se estivesse distraída. Meu corpo acoplado ao seu, minha coluna ereta. Senti seu corpo tenso sobre o meu. Deixei a cabeça jogada em seu pescoço, com os lábios bem próximos de sua orelha. “Podemos nos divertir bastante” Sua mão direita apertou minha cintura, fazendo meu corpo arrepiar. A voz de Livinho nos tirou da hipnose.

“Uma informação importante, queridos pombinhos, dos dez casais, somente seis passarão para a próxima fase, então devem dar tudo de si” O criminoso já estava com sua arma de brinquedo em mãos, com o típico rosto impassível e olhar destruidor. Por Deus, o Cullen não sabia nada sobre disfarces.

“Não prefere segurar sua pistola favorita?” Revirei os olhos. “Fala sério, está escrito na sua cara que é um criminoso, vê se não se expõe tanto” Nem precisávamos decidir quem atiraria e quem defenderia o ataque, o mafioso já estava agarrado na arma de plástico e segurei o riso ao ver o contraste da seriedade que carregava em seu rosto e a infantilidade da arma em suas mãos.

“É o mesmo que dizer para um leão que não seja um leão, é sua natureza” Senti seus olhos brilharem com a competição e me perguntei quem era aquela criança de dez anos chamada Edward Cullen.

Revirei os olhos, permanecendo em minha posição. Livson fez uma contagem rápida, e no três os casais começaram a se estapear e impedir a formação dos tiros. Uma loira agarrou meu cabelo e devolvi o olhar chocada, não acreditava que as pessoas levavam aquela competição patética tão a sério. Nenhum tiro tinha sido disparado e vi ao longe Alice com uma placa gritando meu nome, murmurando algo como “acaba com ela”. A situação só ficava cada vez mais vergonhosa e eu sabia que as fotos estavam registrando toda a nossa humilhação.

“Larga. O. Meu. Cabelo” Dei um tapa no rosto da loira, tentando não machucar a mulher, os treinamentos que recebíamos no Cartel definitivamente não eram adequados para uma guerra informal na piscina. “Seria maravilhoso se você atirasse logo com esta merda” Gritei para o Cullen salivando de ódio, o babaca permanecia intacto, o rosto contorcido em um semblante de paz por pura diversão ao me ver lutar.

“Não sei se quero acabar com isso, tenho medo de nunca mais me divertir tanto na vida” Gargalhava, enquanto outra mulher avançou em mim, precisei esticar um dos braços segurando com força seu rosto distante de mim. A louca debatia em meus braços, tentando me alcançar.

“Eu vou te matar, Cullen, juro que vou” Bravejei com ódio cintilando em cada sílaba.

“Certo, certo” Permaneceu se divertindo. “Vou me arrepender disso, mas tudo bem” Não foram necessários nem dois minutos e Edward tinha acertado o centro do alvo. Barulhos de tiros eclodiam por todo canto e pouquíssimos acertavam a alvo, a maioria ainda distante. Uma buzina soou e as duas me largaram. Encarei de volta mostrando os dentes, ainda segurando a vontade de fazer picadinho daquelas duas.

Encarei o Cullen, mortificada, sentindo um corte pequeno em meus lábios.

“Já disse que fica maravilhosa, assim, descabelada?” Me puxou para perto e pisei em seu pé com força, mal fazendo uma cosquinha.

“Vá para o inferno” Revisei os olhos, tentando manter distância, mas suas mãos permaneciam possessivamente ao meu redor.

Sobre o final da prova, é claro que vencemos. Meu inimigo não aceitava ser perdedor e nosso martírio permaneceria no dia seguinte, para a continuação das competições.

*

Encarei meu rosto pela terceira vez em minutos. Eu não tinha certeza em como Alice tinha feito tudo aquilo, mas eu estava simplesmente fantástica. Um vestido preto de seda rodeava o meu corpo. A silhueta era marcada pelo magnífico tecido nos lugares certos, favorecendo um enorme decote a disposição de quem desejasse observar. Os cabelos estavam soltos em leves cachos e o rosto impecavelmente delineado por uma maquiagem suava, mas precisa nos lugares certos. Os meus olhos destacados por uma sombra clara com toques de dourados.

“Uau, eu sou fantástica” Alice bateu palmas. “Definitivamente sou uma profissional em transformar aquele seu cabelo cheio de cloro nesse espetáculo” Estávamos no quarto ao lado da sala de comando. Dividíamos três ambientes que tinham passagem uns para os outros: um supostamente para minha farsa de casal com o Edward, outro para Alice, Emmet, Jaz e as crianças e o terceiro sendo a sala de comando. Os quartos eram interligados, projetados para ter conexão e isso facilitaria nosso contato durante o período da missão. As crianças já estavam dormindo, e nos arrumávamos para o Cassino.

“Obrigada pela parte que me toca” Empurrei seus ombros de leve. “Isso tudo aqui foi dado pela natureza, não creia que seja um mérito seu”

“Por favor, você estava como uma mendiga hoje a tarde, não tire meus créditos”

Encarei novamente o relógio, sentindo a apreensão me invadir novamente. Não era simples encarar a missão com confiança, eu não era essa deusa conquistadora diariamente, mas precisaria ser para que a missão funcionasse. A consciência do peso que estava em meus ombros me deixava enjoada.

“Ah, não” Me segurou pelos ombros. “Não me venha com essa cara de nojo de novo, você não vai vomitar, Isabella, já está com o batom” Alice tentava manter o tom leve, mas era nítido o seu nervosismo. Enfrentaríamos o maior inimigo do mestre, não poderíamos falhar.

“Obrigada por estar comigo nisso” Segurei suas mãos por um instante, tentando receber ou dar algum conforto. “Não conseguiria sem você” Ela se inclinou sobre a cadeira que eu sentava, sorrindo.

“Claro que conseguiria, você é Isabella Swan, porra!” Não conseguir prender o riso e fiz um sinal de força com os braços. “Vamos destruir essa noite”

“Está na hora” Como se descobrisse nosso estranho momento de paz, a voz de Jaz soou no ponto, exigindo de mim toda a minha coragem. Levantei, sentindo meu corpo dormente. Era hora de agir.

*

Pisei degrau por degrau, segurando em minhas mãos a barra do vestido. O grau de nervosismo era enorme, mas minha personagem aos poucos dominava o pânico instalado em mim, transformado em uma pequena bolha distante. Se estava envolvida, deixaria que a sedutora tomasse o controle da situação. Empurrei a Bella comum e medrosa o mais fundo possível, ergui o queixo e desenvolvi a postura ereta. Meus passos eram de uma felina entrando no território que gostaria de dominar.

Os passos calculados logo encontraram Edward no final da escadaria luxuosa, um cumprido tapete vermelho nos aguardava. Suspirei, como o mafioso estava lindo, vestido em seu smoking slim. O preto contrastava com sua pele clara, destacando os atentos olhos azuis. Estendeu sua mão direita.

“Você está dolorosamente incrível neste vestido” Sua voz baixa despertou todos os meus instintos, instigando ainda mais a mafiosa que existia em mim. “Mas sei que ficaria ainda mais deliciosa sem essa peça de roupa” Destacou a frase como se pedisse uma sacola em um supermercado, era impressionante como conseguia falar as frases mais indecentes como a naturalidade de um padre dando o sermão em uma paróquia. Ele não tinha um pingo de vergonha na cara, um dos motivos que me atraía ainda mais. Revirei os olhos, segurando firme em seu braço.

“Aproveite o papel de companheiro, não é sempre que poderá se agarrar a uma mafiosa do meu estilo” Brinquei, mas o mafioso já estava com atenção afiada avaliando o local. Com discrição acompanhei sua busca, enquanto caminhávamos perfeitamente sincronizados entre o salão. Fazíamos um belo casal, não tinha como negar. O Cullen estava perdidamente lindo naquela roupa, o que atrapalhava bastante o funcionamento de meus pensamentos.

“Nos poupem dos flertes” A voz de Emmet soou no ponto, e o vi do outro lado do salão, acompanhado de Jaz. “Já estamos bem infelizes para suportar azaração alheia em meu ouvido” Vi um leve sorriso invadir o rosto do Cullen e me permiti avaliar o salão.

Era impressionante a suntuosidade daquele local. O som era praticamente ensurdecedor e música alta embalava as jogadas. Não era possível contar quantas mesas existiam, mas absolutamente todas estavam lotadas. Os jogos aconteciam simultaneamente e cada mesa tinha um especialista do Hotel para conduzir os jogadores, evitando fraudes. Não existia uma só pessoal mal vestida no lugar, todos pareciam ter saído de revistas de celebridades. Senti um aperto no peito, como eu ia me destacar no meio de tanta gente? Será que o plano calculado daria realmente certo?

Vi Alice acenar para nós e caminhamos até sua mesa.

“Esse jogo já está na metade, podem entrar no próximo” O coordenador afirmou e nos agregamos ao redor para observar. Todos permaneciam concentrados, intencionados a ganhar, independente do custo. Era o momento de sorte de Alice, que logo gargalhou com sua segunda vitória da noite.

“Meu talento ainda me choca” O Cullen apenas ignorou, ainda atento ao nosso redor. Vitoriano estava em uma das mesas, de pé, como se protegesse o local. Carlisle ainda não tinha sido visto. Me questionei se realmente apareceria assim que chegasse ao Hotel. Não precisei pensar muito, pois as portas do Cassino se abriram num baque surdo minutos depois revelando um homem alto e bem vestido entrando no ambiente. O traje elegante, o rosto impassível e a postura de um rei denunciavam nosso inimigo. Era impossível não o compara-lo ao filho, ambos eram dominantes e simplesmente o ambiente pareceu apertado demais para receber os dois no mesmo espaço.

Percebi que Edward estava rígido, imóvel diante da monstruosidade de suas memórias. O semblante vazio denunciava que nem em mil anos estaria preparado para o encontro com o ser desprezível que destruiu sua vida. Soltei o ar sem perceber que prendia a respiração durante todo o tempo. Alice era uma estátua ao meu lado e notei que suas mãos tremiam, ergui minhas mãos em sua direção por baixo da mesa, e ela apenas recebeu o conforto. Não tive coragem de fazer o mesmo com Edward. Não tinha coragem de enfrentar com ele aqueles fantasmas do passado, era um momento intimo e eu iria respeitá-lo.

“Alvo localizado” A voz de Jaz saiu fria em meu ponto. “Monitorando de perto” Jaz pareceu querer liberar o Cullen daquele momento e ele apenas levantou, buscando a saída. Vi meu mafioso saindo do salão com excelência, sem chamar atenção. Não tive tempo de pensar sobre o assunto, sentindo novamente a voz fria de Jaz. “Bella, o plano precisa continuar”

“Deixa comigo” Voltei a mim dando um último aperto nas mãos de Alice, recebendo várias fichas de suas mãos. Analisei o alvo. Vitoriano sempre ao seu redor como um muro. Ele já estava assentado em uma das enormes mesas de jogo, com vários jogadores distraídos ao seu redor, talvez não soubessem que a dividiam com um criminoso de altíssima periculosidade. Felizmente, a mesa ficava no único caminho que levava ao bar.

Alguns minutos se passaram e deixei que o alvo se adaptasse ao ambiente. Meus sentidos estavam aguçados, a mente firme e convicta, seria o meu momento de agir e não permitiria que nada desse errado. Levantei, esticando o corpo esbelto, lembrando que também era uma dominadora ou pelo menos a minha personagem era. Bebi em um único gole o que restava de minha bebida e tracei meu caminho. Os passos eram firmes, selvagens e calculados. Era uma mafiosa caminhando. Vi vários olhares me acompanhando.

“Cuidado com Vitoriano, Bella” Emmet avisou com cautela. “Não o deixe suspeitar de nada” Assenti minimamente, sentindo a atenção de meus três amigos em mim, não poderia decepcioná-los. Passei ao lado da mesa do mafioso, propositalmente batendo o braço com força na cadeira do homem ao lado, como um tropeço. Vitoriano automaticamente ergueu a mão para a arma em sua cintura e vi todas as fichas que carregava em minhas mãos se espalharem ao redor de Carlisle, chamando sua atenção.

O rosto impassível virou lentamente em minha direção e vi tudo em câmera lenta. Ele não se moveu, mas enviou um olhar para Vitoriano, assentindo. O segurança voltou suas mãos para a costa, em sentido de guarda. Percebi a afinidade entre os dois, somente com um movimento de seu corpo Vitoriano entendia a ordem. Talvez fosse ainda mais difícil do que imaginamos ultrapassar a muralha.

“Por Deus, como sou desastrada” Deixei um sorriso sem graça escapar, sentindo todo meu corpo em alerta sobre a análise atenta do mafioso, assustadoramente, notei que possuía as órbitas azuis de seu filho, mas em um tom bem mais escuro, era sombrio demorar encarando. Meu corpo todo estava envolvido na farsa, elétrico e atento a qualquer detalhe. “Mil desculpas” Dobrei os joelhos, tentando alcançar o chão. Propositalmente deixei parte de meu busto em direção à avaliação perspicaz do criminoso. Minha estratégia não passou despercebida.

“Uma bela jogadora” Era uma constatação, estava quase me admirando de uma forma bizarra, mas sem retirar a seriedade implacável do rosto. “Pegue” Lançou a ordem para seu subordinado e em questão de segundos todas as fichas voltaram para minhas mãos.

“Isso?” Voltei a ficar de pé apontando para as fichas, me obrigando a encarar aquele rosto que me causava um reboliço no estômago de puro terror. “Besteira, precisa ver o que consigo fazer em outros tipos de jogos” Deixei um sorriso depravado escapar lentamente, como somente uma sedutora faria.

Vi a sombra de um sorriso surgir no rosto do criminoso, a implacável firmeza permanecia intacta em suas feições. Ele somente assentiu de volta, como se estivesse me despachado. Virei de costas e continuei os passos o mais firme que pude, tentando não deixar rastros de meu corpo bambo com o encontro. Não sabia se tinha sido convincente, minhas mãos tremiam e cheguei ao bar com pressa, me apoiando em uma das cadeiras, tentando me estabilizar. Meu coração faltava sair do peito, acelerado. A presença do mafioso de fato liberava no ar um ambiente completamente tóxico, como nunca havia visto antes. Respirei fundo, quase deixando as fichas caírem ao chão novamente.

“Excelente atuação, Bella” Jaz afirmou e eu sabia que Edward acompanhava tudo, mesmo não estando no salão. Ele tinha acesso a todas as câmeras da sala de comando e nosso ponto deixava o som ecoar com precisão. “Primeira parte da missão atingida com sucesso” Deixei o alívio me alcançar, eu só queria que tudo aquilo acabasse o mais rápido possível.

“Oi” Me assustei, vendo um rosto feminino bem próximo ao meu. “Desculpe, não queria assustar”

“Tudo bem” Declarei, identificando aquele rosto como familiar.

“Sou Eva, prazer” Estendeu a mão e a peguei, com cautela. “Estava na competição hoje de manhã e vi você, aquele ali é meu marido, Steve” Esticou a ponta dos dedos para a direção de uma mesa distante e reconheci o casal, eles também tinham vencido a prova. Steve estava sentado, empolgado com suas transações no jogo. Seus cabelos eram de um loiro quase branco e possuía típicas feições americanas. “Você e seu marido foram incríveis, nunca vi pessoas tão rápidas” Gargalhou com um ar agradável.

Eva era alta, esbelta e incrivelmente simpática. Seus cabelos ondulavam em cachos de uma tonalidade de castanho bem escuro, quase preto. Suas feições se assemelhavam aos estrangeiros latinos e carregava consigo um corpo escultural delineado em um vestido azul royal. Definitivamente sabia como se portar como uma dama. Em segundos notei que minha atuação era patética diante daquela verdadeira jogadora.

“Obrigada” Soltei quase sem voz, constrangida pelo elogio. “Vocês também foram bem, se não me engano”

“Ah, sim, Steve adora se gabar pelos anos de caça aos patos com o avô, finalmente esta habilidade patética serviu para alguma coisa” Sorriu com simpatia. “Desculpa a abordagem, mas estou realmente me sentindo solitária nesse playground de adultos, não sei como funcionam as regras desses jogos malditos e meu marido parece um menino mimado que não quer descer do brinquedo”

“Que gostosa, será que não quer um substituto para o palerma?” A voz de Emmet surgiu no ponto e o xinguei mentalmente.

“Entendo” Sorri, sem graça pelos comentários de meu amigo infeliz. “Meu companheiro não estava se sentindo bem e voltou para o quarto, acho que somos reféns dessa loucura” Estremeci ao pensar em Cullen como meu companheiro, era aquela expressão que nos definia?

Travamos mais uns minutos de conversas banais e aos poucos sentia uma vibração boa de minha nova conhecida. Talvez fosse incrivelmente gratificante conversar com uma pessoa normal, que não estivesse envolvida em todas as loucuras que minha vida continha. A preocupação de Eva era o tempo que o marido gastava nos Cassinos e por um momento senti inveja da normalidade que aquela afirmação carregava.

Com um aceno Eva se despediu, afirmando que tentaria arrastar Steve para o quarto. Sorri, acenando, enquanto a mulher se afastava. O encontro tinha sido reconfortante, afinal, por alguns momentos me senti livre da sensação de sufocamento que Carlisle desenvolveu em mim com apenas alguns minutos de interação.

O primeiro contato tinha sido feito com o alvo, mas apesar da afirmação de Jaz me questionei se realmente estava indo bem. Carlisle nem gastou dois minutos conversando comigo, sua feição tinha permanecido intacta durante todo o tempo. Nenhum semblante de interesse, nenhuma fagulha, nada. Teríamos que aprofundar nossas investidas para que eu recebesse um convite formal do mafioso para seus aposentos. Precisava alcança-lo, se não todos os planos seriam inúteis.

Firmei meus pés, voltando meu corpo para a saída. Não queria dar pistas sobre nossos planos, então, com o primeiro contato concluído, o melhor era permanecer distante até o próximo passo. Caminhei com calma, mantendo a elegância calculada, sem saber se nosso alvo me acompanhava com algum interesse, mas esperava que sim. Pelo bem da missão. Pelo bem de meus amigos.

*

Subi os degraus com certo nervosismo, não sabia se o Cullen estava no quarto que dividíamos, mas estava decidida a não o procurar em nenhum outro lugar. O misto de emoções vividas trazia um extremo cansaço emocional e eu definitivamente só queria deitar e dormir por horas. Notei meus planos desaguarem no mar das frustrações ao abrir a porta e encontrar um mafioso muito a vontade na cama de casal, segurando uma taça de vinho nas mãos. Bufei, certamente não dormiria cedo dividindo um quarto minúsculo com aquele pedaço de... incômodo.

Entrei rapidamente, seguindo para minha bagagem que estava sobre a cômoda. Edward mantinha os olhos grudados em mim, sem pestanejar. Vi, de canto de olho, um sorriso brotando em seu rosto. O mafioso já estava aprontando alguma coisa.

“Uma bela atuação” Sua voz saia levemente arrastada, um efeito da bebida. “Quase nem parecia a garota que não conseguia acertar o alvo com uma pistola” Ridicularizou meus primeiros dias no Cartel.

“Tive um bom professor, sabe” Revirei os olhos, evitando o contato visual. Não poderia cair nas gracinhas do Cullen, precisava estar concentrada para exercer o papel com exatidão. Porém, o quarto permanecia estranhamente dominado por seu cheiro inebriante. Céus, a quem eu queria enganar?

“Sabe, a parte mais interessante foi imaginar o que pode fazer em outros jogos” Travei, meu corpo inteiro reconhecendo a fala perigosa. “Confesso que a curiosidade não me deixou dormir” Levantou com lentidão, todo meu corpo em alerta, cada fibra de meu ser imaginado o gosto da proximidade. Era vergonhoso, meu corpo respondia automaticamente ao Cullen, sem medo, sem burocracias. Era quase.... natural. Me apoiei na bancada, mantendo a conexão entre nossos olhos. Um instinto se apoderou dele, que dava passos lentos em minha direção. Um alvo. Eu era o seu alvo. “Pensei em tantas coisas” Firmou seu corpo, me alcançando, prendendo meu corpo entre suas mãos, sem saída. Agradecia aos céus por ter desligado meu ponto quando subi as escadas, definitivamente seria constrangedor dividir as falas nadas morais do mafioso com meus amigos. “São tantas possibilidades do que podemos fazer” Sua voz saía como um sussurro, algo quase gutural. Um som que definitivamente causava muitas reações em mim.

Uma de suas mãos subiu lentamente por meu braço esquerdo, detalhando cada movimento. Não tinha mais espaço para raciocínio lógico em minha mente, tudo em mim era desejo e lascívia. Sentia seu corpo reagindo ao meu, sentia as falhas de sua respiração e deixei um sorriso escapar ao notar que podia causar todo aquele efeito no maior mafioso de Londres. Sim, eu não era a única entregue aos sentidos, meu ex-inimigo tinha muito interesse em mim e era difícil negar a óbvia atração que causávamos um ao outro. Encarei seu rosto, notando toda a tensão, todo o desejo, mas no fundo, bem ao fundo encontrei uma tristeza devastadora. Eu sabia que o encontro com seu genitor não tinha sido fácil.

“Deveríamos nos concentrar nas próximas etapas da missão” Minha voz soou com fraqueza.

“Sim, deveríamos” Continuou percorrendo o caminho até meu busto, sem nenhum pudor.

“Deveríamos ser mais responsáveis, é a missão da sua vida” Meu sussurro quase não saiu, meu corpo inteiro respondendo ao toque do mafioso, pedindo por mais.

“Sim, somos irremediavelmente irresponsáveis” A mão desenhava perigosamente em meu busto com os dedos, passeando entre o território do pescoço, movendo-se de forma dolorosamente lenta.

“É melhor...” Solucei, sentindo sua mão em meus cabelos. “...é melhor, digo, melhor...”

“O que é melhor do que isto, Swan?” A esta altura seu corpo já estava grudado ao meu, completamente adaptado. Seu nariz encostava no meu e sentia o seu hálito quente em mim. Ele aspirou meu cheiro com precisão, derramando-se em cobiça. “Não há nenhuma posição que gostaria de estar, além dessa” Apontou para nossos corpos colados, demorando sua atenção em meu busto. “Não me diga que há algo melhor que isso, pois eu duvido”

Voou seus lábios em mim, sugando minha boca. Meu coração era um emaranhado de batidas e agarrei seu pescoço com intensidade. Sua boca era macia, saudável, chamativa, profunda. Era uma armadilha que eu adorava cair. Maldição, percebia tantas coisas naquele beijo. Ele estava sedento. Sentia que as mãos, ao invés de continuarem passeando voluptuosamente por meu corpo, apenas me abraçaram. O Cullen me abraçou de uma forma tão urgente que me assustei com o movimento, era quase como se ele não quisesse que eu fosse a nenhum outro lugar, como se estivesse desesperado.

Parti o beijo com dificuldade, conseguindo uma distância pequena para encará-lo. Ele notou que eu queria uma explicação, que queria entender o que se passava dentro dele.

“Estou com medo” Sua testa apoiada na minha, seus olhos firmemente fechados, formando um finco em sua testa. O rosto retorcido em puro desespero. “Não posso perder você, não posso perder mais ninguém” Seu peito subia e descia em um movimento rápido, o corpo eletrizado com todas as emoções ao mesmo tempo. O meu mafioso estava se descobrindo, abrindo um espaço em seu muro só para mim, só para me mostrar o que existia ali.

“Não vai perder, Cullen” Me agarrei à oportunidade, apertando ainda mais nossos corpos. “Estamos aqui, estamos com você”

“Não posso deixar...” Suas frases eram murmurações, vazias, sedentas, tristes. O ambiente ficou preenchido com a escuridão que emanava de seu interior e me senti pesada. Era um fardo assustador, todas essas loucuras, toda aquela escuridão que acompanhavam o mafioso, por vezes me perguntava se poderia realmente lidar com suas memórias. “... não posso deixar que ele leve mais alguém de mim, não posso deixar” Balançava a cabeça em negação. “Ele é perigoso, se descobrir, se desconfiar de alguma coisa, ele pode...” Sua voz morreu aos poucos e ele abriu os olhos me encarando. A sinceridade de suas declarações me atingiu como uma avalanche. Seus olhos eram cheios de verdade, ele estava com medo, definitivamente estava angustiado pelo perigo que corríamos.

“Shh” Elevei um de meus dedos aos seus lábios. “Nada vai acontecer, em breve tudo isso terá um fim e você será livre” Minhas frases saiam com a firmeza que meu coração não possuía. Eu não sabia como tudo terminaria, não sabia se conseguiria completar a missão, se todos voltaríamos bem para casa, mas precisava acreditar nisso, precisava ter fé.

“Bella, eu...” Balbuciou com insegurança, fazendo meu coração rodopiar com a felicidade que um momento seguro entre nós me causava. O efeito do mafioso sobre mim era estupidamente desastroso. “... quanto tudo isso acabar, eu... você e eu poderíamos...” Encarava o chão com o rosto vazio, uma esperança surgia dentro de mim com a possibilidade de sua frase. “... poderíamos tentar...” Notei que ele não conseguia concluir a frase e apertei suas mãos.

“Tentar?” Questionei baixinho, incentivando.

“Transformar isso em alguma coisa” Não tinha coragem de me encarar, percebi que usava toda sua intrepidez e não sobrara nenhum pingo para descrever em palavras o que sentia por mim.

“Isso?” Apontei entre nossos corpos. “Nós?”

“Deixa” Sacudiu a cabeça e tentou se afastar, mas o segurei. “Esquece isso”

“Não” Encarei seu rosto com firmeza. “O que está querendo dizer?” Peitei o mafioso. “Acredita que podemos ser alguma coisa, eu e você?” Uma fagulha de esperança estava acessa dentro de mim.

“Talvez” Confessou, como se assumisse um crime. “Não sei, eu não sei de nada quando estou com você, sinto...” Me encarou com os olhos vivos, cheios de um sentimento que não soube reconhecer. “... sinto que estou no ar, sendo nocauteado diariamente e gostando muito da sensação louca de ser arrastado por essa maldita correnteza” Deixei um sorriso escapar com a descrição nada convencional.

“Edward, eu...” Uma batida ecoou na porta, nos fazendo pular com o susto. Vi que todos os sentidos ficaram alertas em um só minuto. Ele apertou a mão em sua arma, engatilhando. Tentava me acalmar, o fogo ainda pulsava em minhas veias. A batida se intensificou um pouco mais.

Edward avançou para a porta com destreza, abrindo lentamente. De longe vi o rosto minúsculo de Gabe, agarrado ao seu urso inseparável. Liz estava atrás do garoto, encarando o Cullen com olhos trêmulos. Pela primeira vez notei como a garota ficava desconfortável diante de Edward.

“Ele não consegue dormir” Liz revirou os olhos. “Está com saudade dela” Apontou para mim com desprezo, parecendo enciumada. Gabriel correu até mim, sorrindo. Eu agarrei seu pequeno corpo, o trazendo ao meu colo, enquanto Liz entrava e Edward batia a porta com força. Minha respiração acelerada se acalmava aos poucos e Gabe me abraçou com força.

“Então temos um garotinho lutando contra o sono, é isso?” Fiz cócegas, o fazendo gargalhar. Liz acompanhou a risada, aliviada em ver o irmão feliz. “Vamos já para a cama, já!” Notei que ele queria permanecer ali. “Quer dormir aqui hoje?” Ele sacudiu com força, afirmando. “Tudo bem, essa cama é enorme mesmo” Dei de ombros.

Edward pareceu um pouco desconfortável com a decisão, mas pegou um colchonete e deixou no chão. Diminui a intensidade das luzes, deixando o ambiente em um quase breu. Liz logo se jogou na cama, relaxando. Sentei do outro lado, tendo ciência que Cullen estava no extremo oposto do quarto. Definitivamente uma forma segura de dormir, mas a nossa conversa ainda não tinha terminado e obrigaria o mafioso a concluir seu raciocínio no dia seguinte.

As luzes da cidade invadiam a enorme vidraça do quarto, fazendo brilhos diferentes e coloridos dançarem diante de nossos olhos. Rapidamente a respiração de Liz e Gabe entrou em um ritmo tranquilo. Gabriel segurava um de meus dedos como de costume e Liz entornava o braço em sua pequena cintura, um sinal de proteção. Sorri diante da imagem incomum, tendo ciência do retrato diferente formado naquele quarto. O mafioso não se movia, mas eu sabia que estava acordado.

“Como se sentiu?” Minha voz saiu bem baixinha, pois não queria acordar as crianças. Não sabia se Edward conseguia me ouvir, tendo em vista que as duas crianças separavam o espaço entre nós.

“Inquieto” Soltou, entre dentes. Estava ouvindo. “Nada que eu pudesse estar preparado para enfrentar” A consciência de suas palavras atingiram meu coração. Imaginava como deveria ser a sensação de enfrentar toda a situação depois de tantos anos de raiva cultivada por seu agressor. Não deveria ser fácil travar aquela guerra interna. “Odeio tanto aquele homem que poderia fulmina-lo só com a força do meu pensamento” Vi de longe seus pulsos firmes, fechados em um nó.

“Tem certeza que é a melhor opção?” A frase escapou quase sem permissão, precisava questionar os seus motivos ou ao menos fazê-lo duvidar momentaneamente de seus planos. O Cullen imaginava que estaria livre após exterminar de sua vida a pessoa que mais odiava, tinha nutrido e cultivado aquele ódio por anos, fazendo disso seu objetivo de vida, mas depois que concluísse tudo que tanto almejava, o que sobraria? Será que ainda existiria alguma parte de seu ser não alcançada pela escuridão?

O ódio era traiçoeiro, era um cálice que tomávamos para matar o outro, mas não vinha sem as consequências. Engolir aquele líquido amargo significava aos poucos abrir mão dos pensamentos bons, era abastecer a alma de escuridão, uma armadilha traiçoeira, era um constante e irremediável estado de trevas. Não se podia ter tudo: escuridão ou luz, era uma escolha. Ambos não habitavam o mesmo espaço. Eu temia que se o mafioso fosse até o fim de seus planos e ao final não encontrasse nada mais, sem vida, sem alma, seria apenas uma obscuridade sem fim. Ele hesitou em responder. Nunca, em um único dia vi o criminoso hesitar tantas vezes. Não poderia escolher o caminho certo ao menos uma única vez?

“Escolhi esse caminho há muitos anos, Bella” Virou seu rosto para as luzes da janela, como se quisesse evitar que as sombras em seu rosto me alcançassem. “Preciso ir até o fim” Deu o ultimato mais uma vez. Deixei meu corpo afundar no colchão, eu pensava que poderia mudar o rumo da história, doce ilusão, não tinha poder de mudar absolutamente nada no destino. Estava fora de meu alcance, bem sabia.

“Entendo” Soltei, tentando de fato entender. Não havia outra saída, precisava seguir em frente e torcer para que houvesse algo de bom em Edward quando tudo terminasse. “Boa noite, mestre” Vomitei as palavras, com desânimo.

“Boa noite, subordinada” Respondeu baixinho.

Minha mente já se afundava em névoa e imagens distorcidas, quando um movimento chamou minha atenção. O som de curtos passos no chão me fez abrir os olhos. Encontrei Gabe fora da cama, encarando com incerteza o corpo de Edward no colchonete. Permaneci imóvel, querendo avaliar onde a cena inusitada terminaria. Edward pareceu notar sua presença, voltando-se para o garoto.

“Ei” Respondeu, sem graça. “Não consegue dormir?” Gabe assentiu e o Cullen soltou um sorriso cheio de compreensão, tão diferente de horas antes. “Eu também não, pode sentar” Arredou para o lado, dando espaço. Gabriel sentou sem medo, parecendo completamente à vontade. Edward encarou o garoto por uns instantes e imaginei que não falaria mais, quando se manifestou. “Sabe, você pode falar quando quiser, não precisa ter medo” Passou a mão no cabelo do menino, em um gesto incrivelmente humano. “Se não quiser falar também não tem problema, faça tudo no seu tempo, podemos esperar” Sorriu e o menino deitou se aninhando nos braços do mafioso. Edward ficou tenso por um minuto, mas logo relaxou, vendo que o garoto só precisava de calor humano.

Encarei a cena boquiaberta, despreparada para a onda de emoção que me atingiu de forma quase violenta. Gabe segurou um dos dedos de Cullen, exatamente como sempre fazia comigo, abraçando o urso conhecido com o outro braço. Demorei um pouco mais naquela visão, meu coração se enchendo de gratidão por presenciar aquele momento. Só um minuto depois percebi que uma lágrima tinha escapado sem permissão e rolado por meu rosto.

Se eu chorava por Gabriel, por Edward ou por mim, era uma resposta que eu jamais teria.

Notas finais
Ah, o final! Está aproximando e meu coração já está nostálgico. Espero profundamente que gostem, pois estou dando tudo de mim, inclusive nas edições para o livro. Conto com os comentários e recomendações, é muito importante pra mim o retorno de vocês. Obrigada a todas as leitoras que entraram em contato por Whatssap e Instagram, o incentivo de vocês é simplesmente incrível. Estou fazendo esse livro com muito carinho pra vocês e espero contar com todas. Como disso, teremos grandes desdobramentos a partir de agora e veremos nossos mafiosos em situações extremas e cheias de adrenalina. Como eles vão sair disso? Só lendo para descobrir! Me procurem lá no whassap [(091) 98327-1364] e no instragram [@bianoronha] para conversarmos. Vou criar um grupo no whatssap para os leitores daqui, caso não vá postar o final aqui (ainda estou decidindo) vou compartilhar a quem participa do grupo, então corram lá. Obrigada por tudo. Bia.