Em Perigo
21 Capítulo 21 - Quebrando barreiras
Notas iniciais
Os primeiros raios de sol eram surpreendentemente fortes para uma típica manhã londrina, fazendo com que meus olhos se fechassem ainda mais, para tentar impedi-los. Uma dor alucinante pulsava em minha cabeça, podendo contar as pontadas que me levavam a soltar um pequeno gemido. Tomei coragem e abri brevemente um dos olhos, tentando lembrar onde estava. Me movi minimamente e simplesmente paralisei. Estava deitada em uma muralha de músculos, mais especificamente os músculos do mafioso mais bastardo no universo. O grito entalou-se em minha garganta e meus olhos encaravam espantada meu acompanhante que ainda dormia tranquilo, com os braços possessivamente ao meu redor.
Parecia tranquilo demais para um criminoso que passava a maior parte do tempo alarmado com ameaças. As imagens da noite anterior me atingiram como um soco: as bebidas, o cara do bar apanhando, o carro em alta velocidade, a perseguição, minhas patéticas falas. Gemi baixinho, fechando os olhos novamente, apenas torcendo para tudo aquilo ser um pesadelo. O que tinha feito? Por que lembrava de tudo? Costumavam ingerir álcool os que possuíam como qualidade a perca de memória pós-bebedeira, mas toda aquela merda da noite passada ainda estava ali, mais viva do que nunca.
Não me movi, tensionada ao extremo por não saber como reagiria quando acordasse. Enquanto decidia como escaparia da situação, analisei o rosto tranquilo a centímetros do meu. A respiração era pesada e as olheiras praticamente permanentes de meu inimigo pareciam menos acentuadas devido a noite de sono. Notei o quanto era difícil encontra-lo naquela posição, tão despreocupado, sem notar que era observado. Meus dedos formigavam e uma das mãos automaticamente se esticou com uma leveza exagerada ao tocar sua mandíbula, sentindo a textura da pele que tanto me fascinava. Diante da extrema proximidade só conseguia enxergar o quanto era bonito, o quanto sua barba mal feita era incrível e que seus olhos, mesmo sem o azul profundo que costumava decifrar até a alma, eram lindos fechados. Fascínio, era aquele maldito sentimento que atormentava. Franzi o cenho, buscando compreender porque o coração latejava tanto ao imaginar o momento em que voltaríamos ao Cartel, onde tudo voltaria ao seu devido lugar.
Nossos lugares eram completamente opostos, só nos restava repelir um ao outro, pois nada tínhamos em comum, a não ser a enorme teimosia. O mafioso era um assassino da pior espécie, destruidor de milhares de famílias e líder do Cartel drogas que exportava para vários cantos do mundo, gerando diversos viciados à suas custas. Ainda assim, por que era tão difícil ignorá-lo? Merecia aquela porra toda, merecia ser um sozinho na vida, merecia que absolutamente ninguém desse valor à sua existência. Exatamente por isso me intrigava aquela enorme sensação de paz que parecia tomar conta de mim naquele instante. Estava nos braços do maior traficante da Europa, ainda assim, meu coração doía ao imaginar qualquer outro lugar distante daquele, doía ao imaginar que não era o meu lugar.
Fechei os olhos sentindo uma enorme nostalgia se instalar. Não era possível que fosse mais uma daquelas garotas que se apaixonavam pelo cara errado, não podia ser. Jamais desejara fazer parte da estatística de mulheres que perdiam a autoestima, vontade própria. Tinha pavor a esse tipo de relacionamento. Pavor a pessoas que não podiam amar, que não se doavam, que apenas consumiam tudo o que viam pela frente. Sentia pavor por que Edward não sentia nada, porque era a pessoa mais fria e egocêntrica que já havia conhecido. Não importava o quanto me perseguisse ou quanto dissesse que era dele. Era apenas isso. Me desejava como uma de suas posses. Como um rico apostador que dava o melhor preço, não medindo esforços para adquirir o cavalo que o impressionara. Era apenas isso, conseguir o cavalo desejado jamais satisfaria o apostador. Pelo contrário, o apostador poderia ser entretido por sua nova aquisição durante algumas semanas, quem sabe meses, mas ao primeiro sinal de tédio, logo o cavalo seria deixado para atrás.
Sabia que era um desses cavalos, sendo incrivelmente doloroso admitir que talvez sentisse algo por alguém que não sentia absolutamente nada, que não possuía nada para dar em troca, era vazio.
Arregalei os olhos com horror notando ser a primeira vez que realmente pensava no assunto: seria possível que sentisse algo por ele? Seria possível ser masoquista a ponto de me apaixonar pelo cara que mais odeio? Não fazia o menor sentido, não podia ser verdade! Voltei os olhos para o rosto adormecido sentindo os pensamentos turvos e perplexa demais diante dos vestígios incoerentes que a óbvia beleza do criminoso me trazia. Sim, o desgraçado era perfeitamente bonito.
Num instante as imagens de Ben invadiram minha mente, comprovando que se realmente existisse algum sentimento dentro de mim, teria de ser fortemente reprimido. Não havia nada que eu pudesse fazer e me recusava a virar mais uma na estatística patética de mulheres que se submetiam demais. Não funcionava assim para mim, não podia perdoar a morte de Ben, não quando sabia que o amava, que havia me apaixonado por aquele pequeno menino em segundos. Abri os olhos puxando minha mão de seu rosto e o empurrando com força para que me levantar. O movimento brusco fez com que tudo dentro de minha cabeça sacudisse gerando uma dor quase insuportável. Ele arregalou os olhos, puxando a arma de dentro da jaqueta de couro, levantando-se em um segundo.
"O que aconteceu? Quem está aí?" Avaliou o local, imaginando que meu alarme era devido algum perseguidor insistente, mal sabendo que o que destruía minha vida era justamente ele.
"Você está aqui, que merda estou fazendo nos seus braços?" Gritei sentindo a raiva aos poucos tomar conta de mim. Uma mistura era feita: a morte de Ben juntava-se com minha recém suspeita de possíveis sentimentos e aquela merda toda me tirava do sério, não era possível que o maldito tivesse todo esse efeito em mim.
"Desnecessário essa gritaria em plena manhã, Swan" Revirou os olhos numa mistura de estresse e escárnio, o que foi passageiro. Olhou para os lados tentando localizar alguma coisa, enquanto os carros voavam por nós no tráfego matinal. Aquela guerra ainda não estava vencida.
"Foda-se o que você acha, me deve uma explicação, ou eu juro que..." O bastardo me interrompeu.
"Jura que o que?" Arqueou as sobrancelhas em desafio explícito. "Foda-se você Swan, não banque a bêbada que não lembra de nada, o papel não cai bem em você" Congelei.
"Do que está falando?" Tentei continuar com a farsa a todo custo. Preferia arrancar todos os dedos dos pés à confessar que as lembranças da noite anterior estavam mais do vívidas do que nunca em minha mente.
"Ah, sabe muito bem do que estou falando" De repente seus olhos foram preenchidos com extrema diversão, o que só me deixou ainda mais furiosa, o bastardo estava rindo de mim. "Lembra muito bem de todo seu showzinho da noite anterior, posso ver em seus olhos" Os azuis me encararam como se pudessem ler até a alma e por um segundo, duvidei que realmente pudessem. Porém, continuei firme.
"Só pode estar louco" Revirei os olhos e finalmente desviei o olhar dos olhos que pareciam me consumir.
"Sabe, até que foi bem divertido vê-la tão vulnerável" Soltou uma gargalhada e meus olhos arregalaram com as ideias que passaram por minha mente. Minha roupa parecia amaçada demais e uma das alças de meu vestido estava meio destruída. Teria acontecido algo que não lembrava? O medo de ter sido tomada desacordada era repugnante e minha mente bloqueava tal hipótese, mas para alguém que matava uma criança a sangue frio, não seria tão difícil, ou seria?
"Você me tocou" Lancei a afirmação com um sussurro e os olhos azuis me encararam sem entender, mas, de repente, Edward pareceu compreender o que eu apontava. Todo o humor saiu de seu rosto dando espaço à uma fúria genuína.
"O que está querendo insinuar?" Aproximou-se com os olhos mais frios do que gelo, mostrando o tamanho de sua indignação diante de minha acusação, mas não recuei, iria até o fim.
"Sabe muito bem do que estou falando, você fez ou não?" Encarei-o de frente, e estávamos a centímetros, a tensão podendo ser notada à quilômetros de distância.
"Se acha a porra da última mulher do universo, não é mesmo? Acha que faria qualquer coisa para possuí-la, não é?" Exclamou, demonstrando toda sua fúria e tentando esconder com sua voz grave a mágoa que certamente sentia devido à acusação, mas nada me faria recuar naquele dia.
"Não é isso que depravados fazem?" Disse com toda a minha ousadia, sentindo uma pontada dentro de mim ao dizer as palavras, mas me recusava a sentir pena do maldito mafioso. Não merecia nada de mim. "Você é um monstro, não sei o que esperar, nada mais me surpreende" Minha voz parecia inacreditavelmente sombria e a frase era dita para atingi-lo, mas estranhamente, o efeito foi contrário. Parecia a ponto de desmaiar devido à enorme tensão. Os olhos azuis perderam a vivacidade e se desviaram para longe de mim, o que quase me fez murmurar de desprazer. Sentia-me em pura solidão sem os olhos profundos para me decifrarem.
"Não Swan, não toquei em você e jamais faria isso com uma mulher desacordada, pode ficar despreocupada, inclusive, nunca precisaria fazê-lo" A voz era áspera e senti que minhas palavras tiveram o efeito desejado, o havia atingindo. Me recriminei por ter um nó embolado em meu estômago, não era hora para me arrepender.
Virou-se de costa para mim, passando a andar sem pressa em direção à estrada, fazendo com que minha sensação de solidão fosse ainda maior sem a presença preenchedora dele na cabana. Minha cabeça latejante não me deixava pensar e eu olhei para baixo notando uma pequena bola de pêlos até então ignorada por mim. O pequeno cachorro pulou em minhas pernas demonstrando toda sua gratidão que certamente não merecia. Mas após fazer alguns minutos de festa para mim, disparou em corrida e a observei para ver até onde iria. A surpresa veio quando ajeitou-se bem ao lado do mafioso, andando no mesmo ritmo. Traidora! Não era possível que até o cachorro gostava dele, argh!
Andei até a pista lentamente, sentindo uma leve vergonha se espalhar por meu corpo. Por algum motivo minha mente patética me repelia por ter sido estúpida com Edward, mas isso só mostrava o quanto minha lógica era ridícula. Porque simplesmente não conseguia odiá-lo por completo? Sempre existia aquela mínima parte de mim que se importava. Para falar a verdade, uma enorme parte de mim sentia uma falta absurda de estar naquelas mãos firmes. Havia dois longos e tediosos meses em que o ignorava e nunca havia sentido tanta falta de brigar com alguém como naquelas malditas oito semanas. Até o simples som da voz arrogante fazia falta. E o que mais doía era que ele parecia melhor do que nunca. O bastardo não sentia um pingo de falta de mim e aquilo me rasgava por dentro me lembrando exatamente o porque de odiá-lo tanto: o mafioso não tinha coração.
Mas não era o que parecia naquele momento. Estranhamente irritado, apesar de estar bem ao seu lado, não virou o olhar para mim sequer uma vez. Mantinha o olhar firme na estrada esperando que algum motorista bondoso parasse por vontade própria, não era assim que aquilo funcionava. De repente, o mundo pareceu vazio demais sem o olhar firme e desafiador em mim, precisava chamar sua atenção de alguma forma.
Levantei a barra do meu vestido um pouco mais, deixando minhas coxas mais expostas. Que me lembre era assim que faziam nos filmes americanos para pedir carona. Dei um passo em direção à rua e sacudi minha mão levemente para um pequeno carro que vinha a vários metros de distância.
"Mas o que está fazendo?" A voz soou irritada e tive que me forçar para conter o sorriso de vitória que insistia em aparecer em meu rosto. Havia cedido, ponto pra mim.
"Estou pedindo carona, coisa que obviamente não sabe fazer" Falei com voz irritante e petulante, ainda sem olhar para ele. O carro apertou no freio e lentamente parava perto de nós. Virei esbanjando meu sorriso de vitória. "Vê se aprende e faz direito da próxima vez" Zombei e senti que revirou os olhos logo atrás de mim. Os vidros do pequeno Fiat eram cobertos por uma negra película, mas aos poucos o vidro era baixo e um rosto era visualizado. Aproximei do lado do motorista sentindo a presença de Edward logo atrás.
"O que está fazendo moça?" O rosto de uma mulher que possuía mais ou menos seus trinta e cinco anos me analisava horrorizada. Os cabelos loiros contrastavam com a pele alba. "Somos um carro de família e tenho crianças no automóvel, pare de fazer insinuações no trânsito, é por isso que muitas famílias acabam, que Deus lhe perdoe garota" A voz soava como uma broca e encarei mortificada o rosto da mulher, o sangue subiu rapidamente e senti vontade de puxar aquela loira-aguada do carro e encher de porrada, mas os braços de Edward foram mais rápidos e me puxaram para trás, fazendo com que assumisse o comando.
"Realmente peço desculpas senhora, minha amiga aqui" Virou o olhar para mim com um misto de diversão e bronca. "tem sérios problemas de pudor, mas estamos fazendo um curso intensivo para purificar seu espírito problemático, o que leva tempo" O mundo só podia estar de sacanagem comigo, o mafioso estava tirando uma com a minha cara e a mulher parecia realmente interessada no assunto, como se entendesse cada palavra e acreditasse que realmente precisasse de ajuda. Maldito ator de merda! "Mas então, fomos assaltados ontem a noite e acabamos presos nessa estrada, sem ter como voltar para o centro de Londres, é realmente cansativo esperar o resgate, ficaríamos realmente gratos se nos desse uma carona" De onde vinha toda aquela educação?
"Não sei não, tenho duas crianças no carro moço e não me sinto confortável com maus elementos em meu carro cristão" Lançou um olhar feio para mim e me segurei para não dar uma voadeira naquela cara.
"Oh, entendo plenamente" Lançou um olhar sério em minha direção, mas podia ver um leve filamento de humor em seus olhos incrivelmente azuis enquanto eu cruzava os braços. "Mas penso que uma mulher caridosa como você ignorará o fato de minha amiga ser problemática, realmente irá se comportar, eu prometo" A mulher olhou duvidosa. "Por favor?" Fez uma cara de piedade e no segundo seguinte ela cedeu. Qual é, não é possível que todo ser humano que tenha uma vagina entre as pernas se deixe levar pelos encantos do maldito mafioso! Comemorou lançando um sorriso enorme para a mulher que pareceu se derreter ainda mais. Foi em direção à porta traseira, cochichando em meu ouvido ao passar por mim.
"Vê se não faz merda" A voz era rouca e fez com que todos os meus pelos arrepiassem.
Entrei rapidamente no carro, tentando inibir qualquer efeito que o mafioso pudesse ter sobre meu corpo. Ele fez o mesmo, entrando pelo o outro lado, pois um pequeno bebê estava no meio do carro, em uma cadeira de segurança. Porém, ao ver o que carregava no colo, pediu um minuto à motorista e voltou até a minha porta, me puxando com uma das mãos com toda a delicadeza que só Edward Cullen pode ter.
"O que está fazendo?" Apontou para o cachorro em minhas mãos que o olhava com ansiedade, tentando controlar a voz para que a mulher não percebesse o teatrinho.
"Não vou deixar ela aqui" Bati pé firme, não iria deixar a cachorrinha no meio do nada!
"Não pode levá-la para o Cartel, não temos animais lá Isabella, pare de testar minha paciência" A linha estava tênue e eu notava que ele se controlava para não explodir, o que só me divertia ainda mais.
"Pois será o primeira então, qual é Cullen, é só uma cadelinha, não vai dar trabalho"
"Não posso me atrasar, dá pra vocês se decidirem?" A mulher olhou impaciente para nós e Edward desistiu lançando-me um olhar em chamas que fez com que todo meu corpo se arrepiasse. Percebi que aquela conversa ainda não tinha terminado.
Entrei no carro com o pequeno cachorro, recebendo um olhar irritado da motorista. No acompanhante estava uma adolescente que olhava curiosa para nós, analisando. Por algum motivo lembrei de Lizzie, talvez já estivesse na fase de se apaixonar por garotos e despertar para essas coisas, deveria perguntar à Cida. Realmente me importava com a rebeldia dela e a quietude de Gabriel. Acidentalmente lembrei de Tiziano e da mania que tinha de fugir das coisas.
Pensando bem, era meio óbvio que fosse amigo de Edward, afinal, os dois eram idênticos. A única diferença era que Tiziano parecia ainda guardar um lado bom e esperançoso dentro de si, coisa que Edward havia perdido há muito tempo.
Encostei a testa no vidro tentando acalmar meus pensamentos, a dor de cabeça ainda estava presente e a imagem do moço caído no chão ainda me assombrava. Torcia para que realmente estivesse bem. Fitei Edward de relance, que ainda parecia chateado. Possuía um pequeno corte na sobrancelha, com o sangue já estancado, provavelmente se machucara na briga. Revirei os olhos e desviei o olhar. Dane-se o rosto perfeitamente simétrico do babaca, queria mais que se cortasse mesmo. Afundei no banco como uma garota mimada, desejando chegar ao cartel o mais rápido possível, porém, um barulho estrondoso nos assustou e logo o carro estava sem direção. A motorista freou com habilidade enquanto ficávamos alarmados.
"Droga, o pneu furou, não acredito nisso" Deu um pequeno soco no volante e me espantei por sua atitude rebelde demais para uma religiosa.
"Deixe comigo" A voz grave preencheu o carro e logo saiu. Fitei através do vidro e fiquei chocada ao notar que tirou a jaqueta e logo depois a camiseta, deixando sua muralha de músculos completamente visível. Minha boca secou e senti meu coração palpitar acelerado, como era exibido!
Reprimi todos os pensamentos nada agradáveis que surgiram com a visão nada tradicional e sai do carro, acompanhando a motorista que parecia meio embasbacada pelo efeito do mafioso.
Abriu o porta malas lentamente, mostrando onde estavam as peças e o pneu novo. Em alguns segundos já estava no chão, com o carro levantado, trocando o pneu furado com uma habilidade impressionando. Me perguntei se havia algo que aquele arrogante não pudesse fazer. Os olhos da loira-sem-sal quase saltavam para fora enquanto avaliava o físico do criminoso e quase gritei um enorme ELE TEM DONA!, mas me segurei em nome de meu orgulho que estava por um fio, afinal, não existia mesmo uma dona. Precisava mesmo ficar sem camisa? Exibido!
"Nossa, parece que ele malha bastante hein... Vocês não são namorados né?" Minha boca escancarou-se diante da cara-de-pau da loira filha-da-mãe e agradeci aos céus por Edward estar longe demais para escutar a constrangedora conversa, nada seria pior do que um mafioso orgulhoso gabando-se de seu físico estúpido.
"É claro que somos, pensei que fosse óbvio" Disse secamente notando que ela arregalara os olhos para mim e finalmente murchara. Rá, cala boca sua tapada, esse mafioso tem dona. Não que fosse eu, até porque não fazia a menor questão, mas olhar a cara de estúpida que ela fazia era simplesmente refrescante.
Mais alguns minutos e o pneu estava no lugar certo. Um ódio ainda maior se espalhava por meu corpo, porque o mafioso tinha que ser bom em tudo? Argh!
Voltamos ao carro e Edward permaneceu sem roupas, alegando que estava quente demais. Em relação à temperatura tive que concordar, a temperatura naquele carro subia a todo instante!
Novamente encostei-me na janela apreciando a paisagem, tentando ignorar que a única coisa que me separava do mafioso semi nu era um pequeno bebê. Um contraste bizarro. Foquei no bebê simpático.
"Edward, Isabella me contou que são namorados, como se conhecerem?" Meu coração parou e olhei para o retrovisor de olhos arregalados vendo que a motorista fazia uma cara inocente para ele, que parecia meio surpreso e divertido. Sabia exatamente o que estava fazendo, aquela pilantra estava tentando me envergonhar na frente dele e testar se era verdade ou não. Merda! Não olhei para ele e voltei à minha posição inicial esperando ser desmascarada pelo mafioso e ambos rirem de mim até não poder mais.
"Faz um longo tempo que nos conhecemos, se apaixonou por mim em menos de uma semana e como poderia resistir à uma garota tão incrível, não é?" Olhei em choque e notei um enorme traço de divertimento em seu rosto, franzia os lábios para tentar evitar um sorriso. Por algum motivo, senti vontade de sorrir também. Ver a cara de cocô da motorista era meu maior prêmio. "Conta pra ela amor" Edward estendeu o braço por trás do banco e tocou meu ombro, apertando-o com força. Mostrando o que realmente queria fazer, apesar da brincadeira. Os dois iriam jogar.
"Edward é um dos mais procurados traficantes de drogas do país e me obrigou a fazer parte do cartel por motivos estúpidos e no fim, a gente tá junto, né amor?" Fitei-o e parecia mais branco que papel, certamente surpreso por meu atrevimento. A motorista caiu na risada.
"Ah, que papo furado, acha mesmo que vou acreditar nisso?"
"Ela é tão brincalhona" Deu um sorriso falso e apertou meu braço com tanta força que quase me fez gemer. Puxei o braço de volta e me enfiei no banco, esperando que chegássemos logo.
Meu desejo logo foi realizado e depois de vários minutos de um silêncio constrangedor, finalmente chegamos ao centro de Londres. Edward pediu para que nos deixasse em uma das esquinas, alegando que "nossa casa" era bem escondida. A mulher aceitou de bom grado e logo estávamos andando no meio das ruas de Londres. Um puxão em meu braço e o mafioso estava de frente para mim.
"Que palhaçada foi aquela hein?" Deixou a raiva que estava submersa voltar à superfície com força total. "Sabe muito bem o que acontece com gente que fala demais"
"Foi você que começou!" Cuspi as palavras em seu rosto, trêmula demais de tê-lo tão perto e tão sem roupas. Droga de físico bonito!
"Eu que comecei?" A voz subiu uma oitava e ele estava à centímetros de mim. "Se não me engano foi você que disse que éramos namorados, aliás, porque fez isso?" Sua voz continha uma enorme curiosidade, apesar da raiva, notei que tentava entender o que estava por trás das minhas palavras.
"Argh!" Rosnei e voltei a andar, ignorando-o. Não por muito tempo, logo estava na minha frente, prendendo meus braços para que não pudesse andar.
"Fale" Disse simplesmente e em seus olhos não havia mais raiva, só curiosidade, como se fosse importante para ele saber.
"Não toque em mim" Exclamei e tentei me livrar, mas ele continuava firme.
"Sabe que sou mais forte que você e podemos ficar nisso o dia inteiro" Apesar da voz firme, seus traços eram carregados de puro divertimento. Como se sentisse falta de nossas brigas.
"Disse porque quis ver a cara de idiota dela, simples" Puxei meus braços e continuei andando, sentido seu corpo logo atrás de mim e uma estrondosa gargalhada soando.
"Sentiu ciúmes" Advertiu entre risadas e virei congelada.
"Só pode ser muito estúpido para pensar uma coisa dessas" As risadas continuaram e ele parecia extremamente... satisfeito.
"Ah, você realmente sentiu ciúmes, nunca pensei que seria tão gratificante, obrigado" Avançou em mim e me puxou com força, selando meus lábios nos dele. O choque das suas palavras misturavam-se com o choque de ter sua boca quente na minha. Empurrei-o com toda força que possuía, mas o bastardo era incrivelmente forte. Me apertava tanto que estava praticamente cercada por seus braços de aço e esmagada contra a muralha de músculos. Apesar na noite mal dormida, ainda possuía um cheiro inebriante, como se a natureza quisesse provar que o cheiro era dele e não provindo de um perfume qualquer. Sua língua invadiu minha boca, me preenchendo e um curto gemido rouco saiu do fundo de sua garganta. Estava feliz por me tocar. Suas palavras tinham um misto de ironia e divertimento, só assim poderia ser educado. As mãos firmes continuaram me apertando contra si e me permiti aproveitar seu entusiasmo contra mim, mesmo sem retribuir. Só Deus sabia o quando sentia falta daquela porra de homem.
Algum tempo depois, me soltou com brutalidade e voltou a andar em minha frente, me deixando desnorteada para trás.
"Para alguém que me odeia, até que é bem receptiva" Soltou uma gargalhada, e acelerei o passo para lhe alcançar, sentindo a fúria se espalhando aos poucos.
"Seu babaca!" Gritei e o empurrei com toda minha força, coisa que só fez com que se movesse levemente para frente. Passei a sua frente, com passos rápidos e furiosos, ainda sentindo algumas risadas atrás de mim. Odiava aquele maldito bastardo e seu bom humor. Andamos alguns quarteirões e em alguns minutos pude avistar o enorme cartel, dando graças a Deus. Mas antes que pudesse atravessar a rua, os braços firmes me seguraram, me puxando para trás.
Olhei para meu inimigo assustada vendo sua expressão séria.
"Vê se olha antes de atravessar" Me soltou e continuou a andar enquanto víamos o carro que quase me atropelou avançar novamente. Estava preocupado comigo? Há, essa é boa!
Atravessamos em silêncio e os grandes portões foram abertos diante da ordem do mestre. Passei como um furacão por ele, desejando finalmente ir ao meu quarto, que naquele momento parecia um refúgio em meio as diversas emoções que o mafioso causava em mim. Lançou-me um último olhar e sumiu entre as diversas motos estacionadas.
Não pude decifrar o que os olhos azuis tentavam dizer, mas meu coração insistia em lamentar-se por estar longe dos braços fortes e bem decididos que tanto adorava. Apesar das péssimas circunstâncias, meu corpo parecia relaxar diante das horas que havia passado com o maldito mafioso. Era como a droga de uma viciada que precisava urgentemente alimentar o vício de tê-lo perto de mim. A respiração ruidosa, os braços firmes, o olhar profundo. Aquela porra de mafioso parecia ter sido criado justamente para me enfeitiçar.
Mais uma vez minha mente repreendeu-se tentando provar a todo custo que havia algo estranho ali. Não era normal que sentir tanta falta de alguém que deveria ser odiado por mim. Não era normal que o quisesse perto de mim mesmo sabendo quem era. Droga, ele havia matado o Ben, porque minha mente não conseguia entender isso? Chateada e frustrada demais comigo mesma e com minhas mudanças de humor contínuas continuei andando, mas nem tive tempo de chegar às enormes escadarias do cartel. Uma estranha movimentação era feita na garagem e minha cabeça ainda latejava.
"Meu Deus Bella, todos nós estávamos preocupados com vocês, ainda está com as roupas da festa?" Jenny me olhou estranho tentando entender o que havia acontecido e minha cabeça latejou uma pontada com a voz aguda.
"Fomos perseguidos, o carro explodiu e tivemos que esperar uma carona esse tempo todo" Falei com sotaque monótono, esperando que processasse as informações. De repente parecia estar carregando um enorme peso na costa, como se por se afastar do mafioso um enorme cansaço tomasse conta de mim. Sem a adrenalina que ele gerava em meu corpo, sentia os efeitos da noite mal dormida, misturada com vários copos de álcool. "Estou bem, não se preocupe" Murmurei notando os olhos arregalados de minha colega de quarto, e voltei a andar com passos extremamente lentos e contidos.
"Esse cachorro é seu?" Olhei para trás surpresa e notei que o pequeno cachorro ainda me seguia. Um sorriso involuntário surgiu em meu rosto, talvez houvesse uma coisa boa afinal de tudo.
"Acho que sim" Voou ajoelhando-se e fazendo carinho nela, enquanto perguntava se já havia dado um nome. "Escolhemos mais tarde, preciso tomar alguma coisa para dor de cabeça e dormir"
"Ah, nem pense nisso, já estamos saindo Bells" Disse com voz autoritária e notei que outros iniciantes já saiam com suas motocicletas. "Vamos para minha casa"
"Fazer o quê?" Vasculhei minha mente tentando lembrar se havia qualquer tipo de festa ou reunião marcada para aquele dia, quando Jenny me devolveu o olhar chocada.
"Ok, estou oficialmente preocupada" Levantou-se novamente, enquanto o cachorro deitava-se aos meus pés. "Hoje é dia vinte e quatro Bella, daqui a pouco é natal, vá tomar um banho, eu espero" Arregalei os olhos levemente, surpresa demais com minha falta de percepção. Claro que todas as casas e ruas pareciam enfeitadas demais para dias normais, mas ainda assim imaginei que faltavam alguns dias para o natal. Subi as escadas pensando que naqueles dois meses havia ligado poucas vezes para minha família. O que estava acontecendo comigo?
Cheguei ao quarto e liguei o celular que jazia há muito tempo. Vinte mensagens de texto e dez mensagens de voz de minha mãe, realmente tinha que ligar para eles, mas decidi que faria apenas depois do banho. Entrei no chuveiro grata por finalmente relaxar. Em poucas semanas faria um ano no cartel, finalmente passaria de "iniciante" à "mafiosa fixa". Pensando em como Edward era, provavelmente, aquilo não mudaria em nada minhas condições ali dentro. Em breve novos iniciantes viriam e o ciclo se repetiria outra vez. Lembrava vagamente de meus primeiros dias ali. A tensão de fazer parte de um cartel de drogas era quase insuportável e agora realmente me sentia como parte daquele lugar. Como se realmente pertencesse àquelas pessoas. Bloqueei a ideia de possivelmente pertencer a um certo mafioso que me desequilibrava.
Encostei minha testa na parede e gemi em desaprovação. Sabia o que estava acontecendo, sabia muito bem e não podia aceitar. Não podia me apaixonar pelo cara mais estúpido que havia conhecido, não era possível que meu cérebro praticasse tamanha incoerência. Desliguei a água com força exacerbada, me dirigindo ao guarda-roupa, talvez fosse realmente bom ir à casa de Jenny. Algumas bebidas e diversão era tudo que eu precisava. Ficar longe do mafioso me faria raciocinar corretamente.
*
Chegamos à casa de Jenny e mal pude manter minha boca fechada, era uma mansão! Perguntei a mim mesma se era a única classe média naquele cartel, provavelmente sim, já que todos pareciam ser milionários. A casa possuía três andares de puro luxo e acredite se quiser, não morava ninguém ali, além dos empregados. Por algum motivo os pais de Jenny possuíam várias propriedades em Londres e aquela não estava alugada, portanto, estava disponível para o uso. Nem preciso dizer a felicidade dos iniciantes com a novidade, preciso?
Alice e Emmet já estavam lá e Jasper logo chegaria. Apesar de todos estarem liberados para passar o natal com a família, haviam escolhido ficar por lá. A maioria possuía família passando férias em outros países, o que impossibilitava uma viagem longa, após o ano novo precisaríamos estar de volta ao cartel para as atividades anuais. Alice veio de dentro da casa com um enorme sorriso no rosto e uma caixa pesada nas mãos.
"Bella, meu Deus, estava preocupada com você, Edward parecia furioso ontem" Revirou os olhos e sorriu para mim, peguei a caixa de suas mãos, ajudando-a.
"Ele ladra, mas não morde" Soltou uma gargalhada e puxou-me para a cozinha.
"Vamos, precisamos deixar tudo pronto para hoje a noite, nem acredito que vamos fazer uma festa" E de repente Alice estava de volta, batendo palminhas e cheia de excitação, simplesmente adorava essas coisas.
A partir de então a única coisa que vi foi iniciantes correndo de um lado para o outro com caixas e enfeites. Várias grades de bebida foram entregues em nosso endereço e eu sabia que em breve uma enorme festa de natal começaria, o que não me animava muito. Depois de dormir por algumas horas no quarto de Jenny, me senti finalmente relaxada. A noite anterior tinha sido dura, cansativa. Sentei na borda da enorme piscina, sentindo que o pequeno cachorro deitou relaxado ao meu lado, Jenny havia insistido que levássemos ela até lá. Liguei o celular e disquei o número de minha mãe já tendo noção da enorme bronca que logo viria.
"Hey mãe, feliz natal" Disse assim que ouvi a respiração do outro lado da linha.
"Não me venha com feliz natal Isabella, não me venha" A voz parecia assombrosamente irritada. "Você não tem o mínimo de consideração com sua família, como você some assim e simplesmente não... " Uma outra voz surgiu e após o que pareceu alguns segundos de briga assumiu o telefone.
"Oi querida, como você está?" Era Jamie. Sorri com satisfação notando o quanto sentira falta de meu avô, precisava mesmo ir visitá-los.
"Vô, que saudade, como estão?" Surpreendi-me com o tom esperançoso em minha voz, era maravilhoso ouvi-lo de novo.
"Ah querida, estamos bem, não ligue para minha filha louca" Soltou uma risada esganiçada e ouvi um murmúrio de minha mãe ao lado. "Estamos sentindo sua falta, você realmente precisa nos visitar ou teremos de conhecer essa fabrica misteriosa na qual trabalha, devo dar umas broncas naquele seu chefe mal humorado" A ideia me pareceu assustadoramente boa.
"Oh vovô, temo que a culpa dessa vez seja minha, realmente esqueci de me comunicar, mas creio que passarei o ano novo com vocês, caso não tenha nenhuma alteração de horário por aqui"
"Será um prazer meu amor, sua avó está realmente preocupada e quer vê-la em breve, já disse que não há nada de errado, mas você sabe o quanto esses velhos de hoje em dia são teimosos" Estou escutando Jamie, não me provoque! Foi escutado da cozinha e caímos na gargalhada ao mesmo. Meu Deus, realmente estava com saudades!
"Pois confirme que está tudo bem, estamos na casa de Jenny e logo mais será o natal, então só liguei para desejar um feliz natal" O sorriso murchou, uma enorme nostalgia me atingiu, meu pai adorava essa época do ano.
"Ok querida, feliz natal para você também, vou passar para sua mãe" E logo a fera voltou.
"Não pense que sou tão fácil quanto seu avô Isabella, não quero saber de feliz natal" Forçou a raiva para fora.
"Lembra como ele adorava essa data?" O telefone de repente ficou silencioso. "Feliz natal mãe"
"Feliz natal" E desligou. A morte de meu pai ainda era um assunto delicado. Apesar de ser extremamente elétrica e passar a maior parte do tempo fazendo algo, ainda sentia falta dele, assim como eu. Era estranho porque apesar dela odiar aparentar fraqueza, sabia que era seu ponto frágil, a única perda que ela jamais superaria, assim como eu.
O dia foi rápido demais e logo chegavam mais pessoas. Estava tudo impecavelmente pronto, desde os panos de prato até as bebidas alcoólicas, tudo era milimetricamente arrumado por Alice, que parecia ter nascido para isso. Senti uma leve inveja de suas habilidades, com a certeza de que se eu estivesse em seu lugar, tudo seria uma bagunça. Jacob havia chegado no local e possuía os cabelos ainda mais curtos do que da vez anterior, dando-lhe um aspecto jovial. Estávamos todos sentados ao redor da piscina quando um luxuoso carro foi estacionado no portão e de dentro saiu um mafioso que conhecia — e odiava — muito bem.
Trajando sua típica jaqueta de couro, andou até o portão que logo foi aberto e seus olhos encontraram-se com os meus, ansiosos. Logo vi Gabriel e Elizabeth, estavam no carro e tentavam observar de longe. Mas foi a cena posterior que chamou minha atenção: uma esbelta mulher saiu de dentro do carro.
Alice foi em sua direção olhando torto para a garota desconhecida, que parecia a vontade demais ao lado do mafioso. A loira possuía olhos verdes e a cintura fina envolta em um vestido que até um cego veria de longe, devido seu rosa brilhante. Não podia acredita que havia arranjado uma prostituta para o natal. Qual é, era o aniversário do menino Jesus, merecia um pouco de respeito. Algumas palavras foram trocadas entre eles e logo Alice parecia irritada demais para seu costumeiro e permanente estado de alegria. Minhas pernas levantaram-se sem minha autorização e logo estava de frente para o mafioso. Aos poucos os convidados pareciam a estranha cena.
"Não sei se percebeu, mas é uma festa particular" Torci para que Alice não o tivesse convidado, não era possível, ela sabia que a maioria das pessoas do cartel não apreciavam a presença do mafioso e além do mais, aposto que o tipo de festa que iria fazer com a loira-sem-sal não era adequada para aquele público e local. Que passasse o natal em um prostíbulo!
"Tenho idade suficiente para saber se é uma festa particular ou não Swan, não preciso de sua ajuda" Sua voz era derramada com sarcasmo, o que só aumentava ainda mais minha irritação que parecia ilimitada quando o criminoso estava por perto. Todo o seu corpo estava tenso enquanto apertava a cintura da acompanhante com força, o que me deixou ainda mais furiosa.
"Então também deve saber que não é bem-vindo aqui, pode sair pela mesma por em que entrou" Apontei para o portão e sua mandíbula trincou-se com irritação.
"Vou embora na hora que quiser, Swan" A voz era tão seca que em segundos me senti em um deserto.
"Edward, é melhor você ir, não acho apropriado que fique aqui com sua... acompanhante" Disse Alice à contra gosto, já prevendo a confusão que viria pela frente, mas foi a fala seguinte que a fez travar a respiração.
"Então era dessa puta que estava falando?" A voz extremamente arrastada apontava para mim e juro que vi Edward ficar pálido. "É realmente uma vadia, tinha razão"
Senti todo meu corpo fulminar e naquele momento soube porque odiava tanto Edward Cullen. Não importa o que sentisse, não importa o quanto tentasse. Ele havia feito contra mim, exatamente para me machucar, para terminar com qualquer possibilidade de relação. Com um nó na minha garganta cada vez mais apertado, diminui a distância entre nós, com os olhos fixos na loira e ignorando o olhar cheio de angústia que Edward me lançava.
"Então falou sobre mim?" Me encarava de volta em um misto de diversão e soberba, talvez cogitando a possibilidade de uma briga, mas não precisava daquilo, não precisava usar as mãos para mostrar quem Edward Cullen era. "Creio que não falou sobre si mesmo" Dei uma olhada de relance para ele que ainda permanecia em um choque silencioso. Todos do jardim estavam voltados para nós, surpresos demais para perder a cena. "Contou o quão frio você é Edward, contou que não tem coração, que todos naquele Cartel lhe odeiam?" Os olhos azuis permaneciam em mim, sem piscar, aguardava silencioso que terminasse meu discurso. "Contou quantas pessoas já matou e torturou? Contou que é um assassino?" Cheguei mais próximo dele, torcendo para que minhas palavras o atingiam como adagas, exatamente como o efeito de suas ações em mim. "Contou que é um monstro?"
"Já chega Bella" Alice segurou meu braço, mas o puxei de volta.
"Vá embora daqui" Disse pausadamente. "Ninguém quer você aqui, não vê? Você estraga tudo que toca" Contive algumas lágrimas teimosas escorriam por meu rosto com toda minha força. "Nós temos crianças aqui Edward e gostaríamos que permanecessem vivas até amanhã, então por favor, vá embora" Senti seus olhos frios apertarem, como se tivesse golpeando bem fundo nele. Sabia sobre o que estava falando, sabia que era sobre Ben, sobre o garoto que havia matado com mãos frias.
"Bella, pare com isso!" Alice gritou em desespero. "Edward, por favor, fiquei, eu..."
"Chega Alice, já estou de saída" A voz fria soou e virou-se para o portão, mas Alice agarrou seu braço com força.
"Edward, por favor!" Clamava com desespero e simplesmente não entendia como ainda o protegia mesmo sabendo de tudo que havia feito, não era possível que ainda o desejasse por perto!
"Porra Alice!" A voz soou com autoridade. "Já disse que vou embora" Gritou com aspereza e saiu a passos largos, com a acompanhante seguindo seus passos assustada.
Meu coração batia furiosamente contra mim e tinha vontade de chorar por horas, até o dia de natal o maldito tinha que estragar. Partiu em seu carro e voltei para a parte vazia da casa, entrando em um dos quartos e sentando-me na cama. Soluços enormes saíam de dentro de mim e não podia acreditar que estava chorando por aquele bastardo. A velha suspeita estava confirmada dentro de mim: eu estava apaixonada por ele. Dentre todos os milhares de homens havia me apaixonado justamente por aquele que não podia ter. Por aquele que destruía tudo. Por aquele que não podia amar nada além de si mesmo. Havia matado Ben, ainda assim meu coração batia furiosamente ainda sobre o efeito de sua presença.
Alice entrou furiosa pela porta e me encarou por alguns segundos decidindo se me consolava ou espancava. O motivo da raiva não entedia, sabia que Edward era seu irmão, mas era um assassino, não podia ficar do seu lado, merecia toda aquela merda.
"Não foi justo o que você fez lá fora Bella, sabe que não deveria ter feito aquilo" Andava de um lado para o outro, passando as mãos nervosamente pelos cabelos. "Te disse que ele precisava de você, disse e agora você estragou tudo, meu Deus, o que vamos fazer?" Ouvia as palavras da garota, mas não as entendia. De alguma forma estava sendo vista como vilã da história e o que me irritava ainda mais.
"Não é justo Alice?" Exclamei surpresa com minha própria raiva. "Mas de que porra você está falando?" Minha voz era alta e mostrava irritação por ser acusada. "Esqueceu do que ele fez? Você viu Alice, ele matou Ben, é um estúpido que só pensa em si mesmo e ..." Mais alguns soluços surgiram dentro de mim e ela me olhou com ansiedade.
"Ah Bella, queria tanto poder esclarecer as coisas, mas não posso" Sentou-se ao meu lado frustrada. "Simplesmente não posso" Colocou o rosto entre as mãos.
"Não há nada para esclarecer Alice" Disse envergonhada por minhas próprias lágrimas. "Ele é um assassino sem coração, isso é tudo que devo saber" Dei de ombros sentindo o enorme nó voltar em minha garganta. Fitei Alice, sentindo que deveria colocar tudo para fora, precisava dividir minha vida com alguém, estava cansada de carregar tudo aquilo sozinha. "Estou apaixonada por um assassino Alice, minha vida é uma tragédia"
Minha frase fez com que todo o quarto mudasse. Alice levantou a cabeça com rapidez mostrando os olhos arregalados para minha vergonhosa declaração.
"O que você disse?" Perguntou em puro choque.
"Estou apaixonada por ele Alice, é tão vergonhoso que mal posso repetir" Abaixei a cabeça e esperei que me espancasse por minha estupidez, mas tudo que recebi em troca foi uma gargalhada. Voltei meus olhos novamente para cima, assustada com o surto de risadas de Alice.
"Repete, por favor" Me encarava radiada.
"Não é hora para gracinhas" Passei as mãos nervosamente pelos fios de cabelo.
"Ah meu Deus, essa é a notícia do ano" Ajoelhou-se perto de mim entregando-me a chave de sua moto com rapidez. "Olhe, você precisa correr, precisa alcançá-lo agora, precisa fazer com que saiba disso"
"Mas do está falando?" Arregalei os olhos ainda mais. "Alice, não vou atrás dele, não posso me envolver com ele, você não entende?"
"Pode confiar em mim uma vez na vida e me ouvir?" Perguntou com desespero. "Bella, não devo dizer nada à você então por favor, confie em mim e vá atrás dele. Nem tudo é o que parece"
"Isso não é uma opção Alice, jamais poderia procurá-lo, não enquanto estiver mentalmente sã" Levantei da cama e fui até a porta.
"Que Deus me perdoe, mas preciso quebrar a promessa, é por uma boa ação Senhor" Murmurou atrás de mim e minha testa franziu em incompreensão. "Bella, Edward não matou o Ben" Disse e todo meu corpo paralisou. "Ele não o fez" Voltei para trás em choque.
"Alice, não é hora para brincadeiras" Repreendi.
"Não estou brincando, é verdade Bells" Declarou desesperada. "Não matou o garoto. Havia dado uma ordem antes de tê-la mandando para a suposta missão, mas quando viu que tinha se afeiçoado a ele, a retirou" Explicou franzindo a testa. "A ordem não foi acatada por que os atiradores são uns imbecis e acabaram matando Ben, mas foi tudo um enorme erro e Edward já os puniu por isso. Não foi ele" Declarou com alívio enquanto a compreensão passeava em meu rosto.
"Não é possível, ele afirmou que o matou" Lembrava plenamente das suas palavras.
"É um estúpido que não sabe o que faz Bella, disse a você, disse que não podia desistir quando fizesse alguma estupidez, tem que procurá-lo, tem que provar que pode ser melhor, é disso que ele precisa." Encarei Alice tentando entendê-la, tudo passava tão rápido por mim. "Todos o abandonaram Bella. É só isso que conhece: ódio e solidão. Não sabe lidar com sentimentos bons, você terá que ensiná-lo." Arregalei os olhos e fiz a única pergunta que veio em minha mente.
"Cadê a chave da moto?" Alice piscou algumas vezes e abriu o maior sorriso que já havia visto em seu rosto, lançando-me a chave que peguei com pressa, voando para porta. Mas com a mão na maçaneta, voltei para trás. "Alice" Chamei e ela olhou para mim. "O que vou dizer quando chegar lá?" De repente, uma enorme indecisão passou por mim. Não era o assassino, ele não era tão mau quanto pensava. Sabia que era pouco, mas precisava me agarrar àquele resquício de bondade com todas as minhas forças.
"Você saberá exatamente o que dizer... Bella, o faça querer melhor, se há alguém que pode fazê-lo, esse alguém é você" Assenti recebendo as palavras como uma missão.
Voei pela porta passando pelos convidados com pressa. De repente, tudo era novo dentro de mim. Precisava ser rápida, precisava alcançá-lo.
Enfiei a chave na ignição e motor da moto rugiu.
Eu tinha um mafioso para salvar e era isso que eu faria.
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