Em Meio Ao Fogo
7 Vivência
Em Meio Ao Fogo
Escrita por Coffee
Capítulo VI: Vivência
Há três dias estava na mesma rotina. No seu primeiro dia nessa nova rotina, quando foram se deitar, em um lugar aos fundos do castelo, uma sala grande e ampla, porém sem janelas, apenas com poucos colchões distribuídos pelo chão, uma garota veio até si.
Ela era magra, alta, e tinha cabelos alaranjados. Havia visto-a na cozinha mais cedo.
Quando ela veio, estava em pé, olhando em duvida, para as várias mulheres deitadas, cada uma no seu colchão fino e velho. Não havia espaço, nem colchão para ela ali.
– Você se acostuma.
A garota disse perto de si, assustando-a.
– No começo é difícil. – Ela continuou. – Mas você é ninja, passou por coisas piores.
– Como você sabe?
Inicialmente pensou que fosse por causa das correntes, mas ao observar viu que todas elas usavam.
– Você tem técnica com a faca. – Ela sorriu – E se move rápido demais, mesmo para quem está fraca.
– Oh!
– Sou boa em observação. Algum tempo aqui, e todas nós ficamos.
Ela lhe sorriu novamente, e lhe estendeu um tecido.
– Coloque no chão para dormir.
– Mas... Você não vai ter com o que se cobrir.
– Não tem problema.
E sorrindo ela se distanciou.
– Qual o seu nome?
Sussurrou para que as outras mulheres não ouvissem.
– Mikka.
– Sou Sakura.
– Sei que sim.
– Sabe?
– Já ouvi falar de você antigamente, antes da guerra. Você poderia dar um soco no chão, e quebrar tudo isso. Seria ótimo.
Sorriu com ela.
– Ei! – Ela chamou sua atenção. – Você vai sobreviver.
E por fim ela distanciou-se totalmente, enquanto ela estendia o tecido no chão.
(...)
Após esse dia, ela e Mikka ficaram mais próximas. Ao invés da mulher mais velha lhe dar ordens, era a garota de cabelos alaranjados e curtos que dava. Ela dava com a voz séria, assim como sua feição, e não sorria. Aquilo parecia ser regra.
Ser grossa, séria, e má com todo mundo.
Mas às vezes, quando conseguiam ficar sozinhas, ou afastadas das outras, após lavar a louça, ou antes, de dormir, Mikka voltava a ser doce.
Havia descoberto que a mulher que sempre ralhava com ela quando chegara era Kimy, uma senhora de sessenta anos, que havia perdido o filho, e o neto na guerra.
Ela não gostava de crianças, porque elas a lembravam do neto falecido. E ela era sempre durona, e seca, porque já havia sofrido demais.
Elas só tinham direito a uma refeição por dia, feita apenas naquela panela, daquele tamanho. Uma vez por semana, elas podiam comer duas vezes.
E então perguntara por que elas não burlavam essa norma. E ela a contara que uma vez fizeram isso, e foram pegas. Elas ficaram mais de quatro dias sem comida. Duas mulheres, que já estavam fracas, morreram.
Lá em baixo, no subterrâneo, aquelas pessoas que ficavam lá, eram pessoas que foram para cima, mas tentaram fugir, ou pessoas que eles ainda não haviam decidido o que fazer com elas.
Também havia pessoas inimigas ali. E ela se perguntava por que diabos ela não continuara ali, afinal, era uma inimiga. As pessoas de lá recebiam comida de dois em dois dias, Mikka a contou. Eram sobras, mas serviam para que eles não morressem de fome.
Elas também haviam tentado levar mais comida para eles à noite uma vez, enquanto os guardas dormiam, mas também haviam sido pegas. A partir desse dia os guardas se revezavam para que não dormissem, e todo o lugar era fechado com grandes cadeados.
– Então... Você alguma vez já viu Madara?
Sussurrou para ela, enquanto deitavam-se. Havia estendido seu pano ao lado do colchão de Mikka, para que pudessem conversar.
Ela riu.
– Sim. Uma vez. Quando eu fui a responsável por servir na sala de jantar. Porém eu derrubei vinho em cima de um homem, e nunca mais fui à escolhida para ir. Você quer chegar nele não quer?
– Sim... – Não queria falar muito sobre isso com Mikka, não a conhecia direito embora gostasse dela. – Você sabe como posso fazer isso?
– Não se preocupe. Não tente fugir, nem se rebelar. Eu ouvi Kutsu falando que vão te levar até ele, para que ele decida o que fazer com você. Estão apenas te testando. Vendo se você vai tentar fugir, ou se apresenta algum risco.
– Oh! Então eu devo apenas... Esperar?
– Sim.
Ela disse, encerrando a conversa e fechando os olhos. Mesmo incerta, fez o mesmo.
(...)
Lavava a louça do almoço somente com a ajuda de mais três mulheres. As outras haviam sido liberadas para tomar banho, embora ela não soubesse onde, nem como.
– Sua vez.
A voz de Kimy se fez presente. Ela tinha os cabelos úmidos, parecia limpa, embora usasse a mesma roupa suja.
Ela pegou o prato que lavava de sua mão, e a empurrou para trás. Ainda incerta, seguiu as outras. Kimy vinha logo atrás de si.
Elas saíram pela porta da cozinha, acompanhadas de dois guardas. Ninjas ela pode perceber. Lá fora o sol estava fraco, seu olho se acostumou rapidamente.
O mato estava alto, e úmido, provavelmente havia chovido mais cedo. Eles passaram reto pelo banheiro que elas iam quando precisavam, composto apenas por um único vaso e uma pia pequena.
Andaram alguns metros até chegarem a frente a uma porta de madeira. Os ninjas ficaram ali parados.
Duas garotas saíram pela porta, também com os cabelos molhados.
A mulher lhe empurrou, para que andasse e passasse pela porta. Um dos guardas fez menção de entrar também.
– Eu vou com ela. As outras estão fazendo meu serviço, eu cuido dela. Qualquer coisa, eu grito.
Um deles acenou positivamente com a cabeça. E ela, mesmo não gostando muito da senhora agradeceu mentalmente por ser ela a entrar, e não um dos guardas.
O interior era úmido, e escuro. Uma luz entrava de uma janela muito alta, e fechada. Havia alguns banquinhos, um fogaréu esquentando água, e muitos ralos por onde provavelmente a água saia.
Incerta sobre o que fazer, olhou à senhora que estava mexendo na água no fogaréu. Ela apenas indicou o banco colocado em meio de vários ralos.
Então, incerta, retirou a roupa, não tivera vergonha, há muito tempo havia se esquecido do que era isso, e se sentou no banquinho.
Ela veio até si, com o balde de água, e despejou um pouco sobre suas costas, lhe entregando sabão.
A barra de sabão estava gasta, mas não se importou.
Ensaboou as mãos, lavando seus braços, e suas axilas. Kimy tirou o sabão de suas mãos, e ensaboou as próprias mãos enrugadas, e depois pôs-se a massagear seus cabelos róseos.
Isso lhe fazia lembrar-se de quando era pequena, e sua mãe lavava seus cabelos. Tinha um estranho reconforto, embora aquela senhora fosse ruim com ela o tempo todo.
– Vão te levar para vê-lo hoje. – Ela sussurrou, provavelmente para que os guardas não ouvissem.
Seus olhos verdes se arregalaram.
– Não queira de rebelar, ele te mataria antes mesmo que você desse um passo.
Acenou positivamente com a cabeça.
– Eu... Pensei que você me... Odiasse.
Disse por fim. Ela não lhe respondeu.
– Tome cuidado. Ele não vai te matar, você é uma garota muito bonita, então ele pode te mandar para o grupo de concubinas, o que também não é bom...
– O que eu devo fazer?
– Eu não sei sua história, nem porque está aqui, e nem porque vão te deixar falar com ele... Mas apenas seja cautelosa, tome cuidado com o que fala.
Acenou positivamente, voltando a ensaboar seu corpo.
Horas depois, seca, e vestida com a mesma roupa suja, e com os cabelos penteados apenas com os dedos, um homem alto, com uma cicatriz enorme no braço esquerdo veio lhe buscar.
Pela primeira vez ela passou pela porta ao lado da cozinha, e pela primeira vez, ela viu algum cômodo do castelo na parte interna.
Havia uma mesa enorme, o suficiente para mais de cinquenta pessoas, com um lustre exagerado. As cadeiras eram de madeira resiste e brilhosa.
Havia várias portas na sala, embora ela não soubesse para onde elas davam, e também uma escada alta, e imponente, em espiral, subindo para um segundo andar.
A mesa estava repleta de comida do jantar. Seu estomago roncou ao ver as carnes e os legumes pela segunda vez desde que haviam saído da cozinha.
O homem lhe arrastou por uma das portas, lhe levando até um corredor vazio, apenas com um lustre, e depois por outra porta, e por outra, como um labirinto de corredores vários.
Até que chegaram à frente á uma porta de mármore, grossa, e de aparência pesada. O homem bateu nela duas vezes, e em seguida a abriu.
Lá estava ele. Do jeito exato que se lembrava na guerra. Imponente, e com o olhar mais gelado que ela já vira na vida.
Havia quatro homens dispostos ao lado da parede, como seguranças. Ele levantou-se da cadeira, e deu sinal para que todos eles saíssem inclusive o que lhe trouxera.
Quando ouviu a porta ser fechada, seu corpo gelou.
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