Notas iniciais
Quero agradecer a todos que ainda acompanham essa história, obrigada pelos comentário incríveis que vocês me mandam! Capítulo dedicado a querida Yeriim que mandou uma recomendação maravilhosa para a história! Boa leitura!

Em Meio Ao Fogo

Escrita por Coffee

Capítulo XXIV: Traumas

Havia tanto fogo que ficava difícil enxergar e até mesmo respirar, se era difícil para ele, que era do elemento fogo, ele nem conseguia imaginar como estava para os demais. Os ninjas com elemento suiton tentavam apagar um pouco o fogo, mas nada parecia fazer efeito.

Muitos se revezavam entre ajudar civis (e até mesmo ninjas desmaiados) e tentar apagar o fogo. Em algum momento desistiram, se colocaram a sair dali o mais rápido possível e com o quer que pudessem resgatar, pessoas, alimentos, equipamentos.

Tudo isso ficava ainda mais difícil com os ninjas o atacando.

Ele só procurava uma pessoa.

Ao achar a tenda vazia, praticamente toda queimada ele correu a procura dela, altruísta como era só podia estar ajudando outras pessoas.

Mas não a achou.

Ela não estava ajudando ninguém, carregando ninguém, nem curando ninguém.

Após matar outro ninja inimigo, ele viu Naruto, sujo e desesperado. Todos eles sabiam o que estava acontecendo ali. De algum modo Madara estava vivo e agora estava causando toda aquela catástrofe.

— Naruto ela não está aqui.

O loiro olhou imediatamente para ele, com os olhos arregalados. O barulho de armas e o cheiro de gente queimada eram insuportáveis.

— Sakura não está aqui.

Repetiu. Pela primeira vez o Uzumaki parecia de braços atados.

Tudo aquilo começou de um modo estranho, chovia muito, e talvez por isso demoraram a perceber o fogo. Quando saíram de suas tendas já havia gente morta, ninjas lutando e o fogo espalhado.

Seu coração martelava.

Tinha prometido.

Prometido que a protegeria, que nada de mal acontecia com ela novamente.

E falhara. De novo.

— Ele vai vir atrás de nós.

Concordou com um aceno se livrando de mais um ninja. Seu sangue corria rápido em suas veias, assim como o ódio.

Eles lutaram por mais algum tempo. Alguns ninjas foram encarregados de tirar os civis dali (os que ainda estavam vivos), e os demais continuavam lutando.

Ao acabar de matar mais um, ele o viu.

— Naruto.

Chamou.

O Uchiha mais velho estava em cima de uma das pequenas montanhas que ficavam um pouco afastadas do acampamento (ou do que restara dele). Parecia maravilhado ao olhar a sangria e a morte abaixo dele.

Os dois correram a pequena distância que os separavam. Ainda sim permaneceram em baixo para terem mais terreno de ataque.

— Seu maldito! — O loiro gritou quando estava perto o suficiente para que ele os ouvisse.

— Surpresos?

— Você deveria estar morto!

O jinchuriki partiu para o ataque.

— Deveria?

— Onde ela está? — Perguntou, combinando um jutsu com o rasengan de Naruto.

Madara se defendeu. Mas não respondeu.

A luta se arrastou por minutos, horas, dias, não soube dizer. No fim os três estavam exaustos. Perto deles não havia quase ninguém, somente alguns líderes continuavam lutando, os demais bateram em retirada com os civis.

A chuva ainda caia forte e o cansaço estava o matando.

Só o que o mantinha ali, lutando, era o ódio. E ela.

O Uchiha mais velho parecia ainda mais exausto que ele e Naruto, já respirava com dificuldade e seus jutsus não estavam mais tão poderosos quanto no começo. Era a chance deles, se combinassem um jutsu e conseguissem atingi-lo, obteriam sucesso.

Olhou para o loiro que entendeu o que ele queria dizer, qual era o seu plano. Pegaram as poucas armas que restaram jogando-a em direção ao Uchiha, muitas delas atingiram o chão, o que realmente queriam que acontecesse.

Antes que pudessem se mover Madara sumiu em uma fração de segundos, e depois retornou. Em frente ao corpo dele havia um escudo.

Uma proteção.

Sakura...

Banhada de sangue e com feridas ainda se cicatrizando. Ela estava desacordada, os cabelos tapando o rosto.

Sakura...

O Uchiha colou-a ao seu corpo, sabendo que eles não atacariam para não machucá-la ainda mais.

— Olha quem tenho aqui... A putinha.

O loiro rosnou irritado. O sangue pulsou em fúria dentro do seu corpo, a mente maquinando um modo de tirá-la das mãos dele.

O Uzumaki olhou para ele e acenou com a cabeça. Os dois sabendo o que fazer. A conexão entre eles era de outras vidas, conseguiam se entender com olhares, nesse quesito o loiro não era tapado, sempre sabia o que fazer.

Rapidamente usando seu rinnegan trocou de lugar com uma das armas que jogaram anteriormente já com esse objetivo. Madara percebeu sua presença e se pôs a desviar, mas ele trocou rapidamente de lugar novamente com outra arma mais a esquerda e acertou um chute no Uchiha.

Desequilibrando-se pela falta de forças, o peso de Sakura e por estar no topo de uma montanha, o homem acabou soltando-a montanha abaixo.

Naruto rapidamente a amparou nos seus braços e ele voltou a lutar com seu tio, dessa vez corpo a corpo. O bijuu sumiu, provavelmente levando Sakura a um lugar seguro. Depois voltou ao seu lado.

Eles combinaram jutsus, o rasengan de Naruto com as chamas do amaterasu. O Uchiha tentou se defender, mas já sem forças gritou em horror e dor quando o golpe o atingiu.

— Queime seu desgraçado.

O loiro disse de um modo que ele pensou nunca tê-lo visto. Com ódio o possuindo.

Dessa vez eles não saíram dali, eles permaneceram olhando o Uchiha queimar, até sobrarem cinzas de seus ossos que foram seladas.

— Sakura-chan está com Kakashi-sensei e Gaara.

Acenou positivamente sabendo que eles cuidariam dela. Eles voltaram o olhar para o acampamento. Já não havia mais nada, o fogo havia consumido tudo, queimado pessoas, tendas, alimentos.

O jinchuriki passou as mãos nos cabelos, com raiva. Praguejou o acontecimento.

— Estava tudo indo tão bem... Nós...

O Uzumaki se jogou sentado no chão, em derrota, a cabeça entre as mãos. Observou em silêncio o loiro deixar a dor o tomar, ele chorou durante horas enquanto o chakra da raposa cicatrizava os ferimentos que tinha na pele.

Os seus próprios ferimentos estavam abertos, mas diante de tanta desgraça nem sentia a dor.

Depois de um tempo o loiro levantou-se.

— Vamos... Eles não estão longe daqui.

Eles correram moderadamente, os dois com pouco chakra até chegarem a uma campina onde estavam os sobreviventes. Uma sombra (que ele descobriu ser Hinata) voou para o colo do loiro em um abraço desesperado.

Já ele passou os olhos procurando por ela.

Kakashi acenou quando o viu. Deitada no chão com a cabeça em uma das pernas do ex-sensei Sakura estava dormindo. Ele se aproximou, vendo algumas feridas em cicatrização.

— Ela ainda não acordou, não sabemos bem o que aconteceu, mas imaginamos que ele tenha causado esses ferimentos.

Sentou-se ao lado do mais velho.

— Tem uma mulher que sabe jutsus médicos ali — Apontou, mas ele nem ao menos olhou — Por que não vai curar esses seus machucados?

Não se deu o trabalho de responder. Permaneceu sentado olhando para a rosada.

Não queria, não podia sair do lado dela, não novamente.

[...]

O número de pessoas foi reduzido praticamente à metade. Foram poucos os civis que sobreviveram e alguns ficaram com sequelas, partes do corpo queimadas, a pele enrugada para sempre.

Superar esse segundo ataque foi pior do que superar a invasão ao castelo de Madara. Muitas famílias, amigos que tinham se reencontrado haviam se separado novamente, e dessa vez, pela morte.

Traumatizados todos andavam em alerta máximo, qualquer coisa era motivo de discórdia e brigas, todos descontando suas dores e frustrações uns nos outros.

Sakura acordou dois dias depois, assustada, gritava em pesadelos todas as vezes que dormia. Tinha medo de ser tocada, mas ao mesmo tempo não queria ficar sozinha. Os olhos ficaram opacos, perdendo totalmente o brilho de vivacidade que tinha antes.

Ao descobrir que Kimy, a mulher que ajudara no castelo estava morta ela gritou e se jogou no chão, não suportando a dor. Kakashi, Naruto e ele permaneceram ao lado dela, tentando consolá-la, mas ela passou o resto do dia repetindo:

— Eu prometi, prometi que ela ficaria bem, que teria uma vida melhor.

O loiro a consolava como podia, falando que não era culpa dela, que ela não tinha como saber e que qualquer destino era melhor do que ficar presa no antigo castelo.

— Queimada, ela morreu queimada.

Ela repetia deitada em posição fetal no chão duro (eles não tinham mais tendas, nem cobertores, não tinha praticamente mais nada).

Vê-la daquele jeito parecia cortar seu coração.

A dor dela se projetava dentro dele também.

Não fique assim. Por favor. Sakura...

Os dias se passaram. Eles começaram a caçar e estocar o máximo de comida que podiam, construíam algumas coisas com galhos de árvores, pedras e o que quer que achassem por aí. Enquanto eles faziam isso a rosada permanecia sentada em um tronco de árvore, as mãos em volta dos joelhos dobrados, a dor a comendo viva.

E ela repetia sem parar: Eu prometi, eu prometi.

À noite quando o trabalho acabava ele voltava para o lado dela (nunca a tocando, ela não queria ser tocada) e escutava as lamúrias dela em silêncio, vez ou outra tentando consolá-la em vão. Naruto e Kakashi nem tentavam mais.

Sakura estava tão quebrada que eles duvidavam que ela voltasse a ser ela mesma um dia.

Nunca souberam que tipo de genjutsu ou tortura Madara usara com ela, nunca tocavam no assunto para que ela não sofresse ainda mais.

Quando um ninja que também a ajudara no castelo morreu não resistindo aos ferimentos depois de duas semanas ela pareceu ainda pior.

O peso pesava em seus ombros, o arrependimento de ter deixado tudo aquilo chegar aquele ponto, de ter a deixado passar aquele tempo naquele castelo, de não ter cuidado nem a protegido como deveria.

O clima de dor e angústia permaneceu. Todos eles estavam queimados pelo sol (devido à ausência de tendas) dormiam a céu aberto a noite, mas nada daquilo se comparava aos seus fantasmas interiores.

Decidiram seguir para Konoha um mês depois. Os grupos se separaram cada um partindo para sua determinada vila – ou ao que restara delas – sem nenhum discurso de otimismo ou felicidade.

Estavam todos quebrados.

Até mesmo Naruto parecia desanimado em seu propósito.

Viajaram três semanas sem parar. Algumas pessoas desmaiando no caminho, sendo carregadas, outras não resistindo aos ferimentos. A Haruno nem tentava salvá-los mais, a decepção de não conseguir era tão grande que ela preferia evitá-la.

Quando chegaram reconheceram o espaço.

Do arco de entrada da vila restara somente uma coluna em pé, corroída pelo tempo e pelo abandono. Havia entulhos, restos de casas, comércios, como uma cidade fantasma abandonada.

— Esse é um novo começo. Nós iremos reconstruir essa vila, pela memória de todas as pessoas que se foram nessas lutas. Vamos reerguer Konoha, nos reerguer para que nenhuma morte, nenhum sacrifício tenha sido em vão.

Naruto disse antes que eles passassem pelo resto do arco. Várias pessoas se espalharam, procurando algo útil em meio aos escombros, embora provavelmente não houvesse nada.

Estava procurando também quando olhou para lado.

Sakura estava parada sobre o resto de uma parede caída horizontalmente. Ele viu-a olhar ao redor, todos aqueles escombros do que um dia fora uma vila temida e respeitada. Depois ela dobrou os joelhos, encontrando o chão duro.

Correu até ela, ajoelhada no chão chorando.

Pela primeira vez em mais de um mês ela fez sinal para que ele se aproximasse. Ele se ajoelhou no chão ao lado dela, as pedrinhas dos escombros entrando em seus joelhos. Abriu os braços, ela encostou-se a seu peito, os olhos fechados, as lágrimas descendo.

— Nós vamos superar isso.

Disse, mas sua voz não saiu tão entusiasmada quanto deveria.

Repetia mentalmente tentando se convencer:

Vai ficar tudo bem, vamos reconstruir tudo, vamos nos reconstruir.

Mas a verdade era:

Será que eles podiam se reconstruir? Havia volta para tamanha dor?

Notas finais
Momentos difíceis de pós-guerra! O que vocês acham? Obrigada por ler! Leia também: https://fanfiction.com.br/historia/686745/Promiscuos/