Em Meio Ao Fogo
23 Superfície
Notas iniciais
Em Meio Ao Fogo
Escrita por Coffee
Capítulo XXII: Superfície
A sensação era de estar a tanto tempo de baixo d’água que nem ao menos sabia mais como respirar. Ela até podia sentir um movimento ou outro, como se alguém a carregasse no colo, embora não soubesse se era um humano ou alguma entidade celestial.
Ela se sentia no fio. Entre a vida e a morte, mas não tinha noção se já havia optado por algum dos dois. Havia gotas também, que caiam sobre ela, às vezes forte, às vezes fraco, e apenas a sensação de que aquilo poderia ser sangue a dava asco. Vontade de vomitar.
Porém, na situação em que estava não podia fazer muito mais do que deixar a maré a carregar. Os sons são amontoados desconexos, e ela só consegue distinguir um.
Alguém grita em horror. E ela cai novamente na inconsciência.
[...]
Acordou novamente. Dessa vez o som era brando e suave. O som parece a puxar, como o canto de uma sereia. Após tanto tempo em baixo da superfície o som a puxa para cima, a desafoga.
O barulho era de pessoas, risadas, choros, dor e alegria. Há tanto tempo que não ouvia uma exclamação de alegria que aquele é o principal som a puxá-la. O cheiro vem como secundário, há cheiro de comida, dor e algo como chuva. E em terceiro vem o tato. Ela sabe que não está mais sendo carregada, e sim deitada em uma superfície dura e reta. No chão, provavelmente.
Uma gota pinga novamente sobre ela. E depois outra, e em seguida mais uma. Ela reza para que aquilo seja água, embora imagine que provavelmente é sangue. Ela tenta abrir os olhos, ou se mover, mas tudo que consegue fazer é soltar um grunhido feio.
Na segunda tentativa seus olhos se abrem. Ela não tem muita noção de horário, mas percebe que o sol não está lá por dois motivos, ou está escondido por entre as nuvens negras ou é noite. Não consegue distinguir.
Suspira ao ver que as gotas eram água. A chuva caia fina e branda. Parecendo lavar seu corpo e sua alma. Olhando para si mesma percebe que está machucada, não há lesões muito graves, apenas queimaduras, algumas poucas costelas fraturas e alguns cortes, todo o resto provavelmente foi curado pelo byakugou.
De todo modo nem tenta interligá-lo, ou curar o resto de suas feridas. Não sei importa com isso agora, tudo que ela quer é saber onde está e como estão seus companheiros.
Quando seus olhos conseguem criar foco, tenta virar o pescoço para ver mais do que o céu negro. Depois de uma série de muxoxos e dor, finalmente consegue.
Não sabe onde está. Mas há muitas pessoas. Amontoadas, em círculos, chorando, sorrindo, dormindo ou mortas. Ao longe vê de costas para ela um homem alto e loiro, Naruto. Ao lado dele está uma mulher pequena de cabelos escuros que ela facilmente percebe que é Hinata e ela tem o desejo de levantar correndo e abraça-los, mas ela não consegue fazê-lo.
Não reconhece mais pessoas, porém não se foca muito nisso. Todas elas parecem presas em seus mundos particulares e ninguém percebe que ela está acordada. Ao olhar para o outro lado, ela o vê.
No inicio se desespera, porque ele está encostado em um tronco de árvore com sua roupa vermelha de puro sangue e os olhos fechados. Ela faz um movimento brusco e desesperado, senta-se rápido e a dor vem em seguida, tenta manter a postura, mas tudo que consegue é se jogar de volta ao chão. Quando a dor diminui um pouco, ela volta para a sua observação e respira fundo ao notar o peito dele se mexer.
Novamente tenta se levantar. Uma mão, depois a outra. Lento e constante. Até que consegue se sentar mesmo com a dor ainda presente (em menor grau). Ela engatinha até ele, que está a menos de um metro e meio.
O coração batendo forte. Ela olha para o lado, porque não tem noção se a guerra acabou ou não, mas não há barulhos de arma, nem sinal de inimigos.
Então ela se aproxima. E mesmo sabendo que pode acordá-lo o toca, porque ela precisava disso, senti-lo, saber que era real. Acaricia o rosto e os cabelos sujos e negros e, como esperado ele abre os olhos, primeiro em alerta, e depois, ao focalizá-la, relaxa.
Ajoelhada no chão, com uma mão no chão como apoio e outra no rosto dele, ela se aproxima mais. Ela nota que ele quer ajudá-la (porque ela provavelmente está em um estado deplorável) e então ele segura suas costas apoiando-a, e ela se joga.
Em um abraço desajeitado e fora de ângulo. Ela sente o cheiro dele, com suor, terra, fogo. A chuva continua a cair, fina e calma, mas eles permanecem ali, naquele pseudo-abraço.
Em algum momento ela começa a chorar.
Desesperada.
Ele a puxa mais para perto, a encaixa no colo dele e afaga suas costas.
— Acabou.
Um soluço, depois outro. Ela não consegue controlar.
— Acabou. Ele está morto.
— Shiiii... Acabou, Sakura. Acabou.
Ele tenta a tranquilizar, enquanto ela soluça e molha os restos de sua blusa.
Ela quer dizer algo, perguntar como aconteceu, perguntar se tudo está bem, mas tudo que ela consegue dizer é:
— Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo...
Continua dizendo isso até adormecer novamente, mas, dessa vez, nos braços dele.
[...]
— Depois que a vimos você caiu. Gaara conseguiu a pegar, você então chamou por Katsuyu. Graças a isso conseguimos ganhar e viver. Quando estávamos quase acabados, foi ela que nos curou, permitiu que voltássemos à luta. Muita gente sobreviveu graças a isso. Mas você gastou todo o chakra que tinha. Achamos-te caída, no meio do fogo. O seu byakugou ainda conseguir curar a maior parte dos ferimentos. Então nós saímos de lá, e viemos para cá.
— Kakashi-sensei? — Pergunta para Naruto que está narrando os acontecimentos.
— Está bem. Conseguiu tirar as correntes, e está descansando agora.
Ela ainda pergunta por alguns conhecidos, pelas mulheres da cozinha e pelos servos de Gaara. Todos estão bem, Naruto repete, com algumas perdas.
Algumas mulheres e escravos morreram na fuga, assim como muito ninjas. Era doloroso o tanto de sacrifícios que uma guerra pedia.
Em volta de uma fogueira estão Naruto, Hinata, Sasuke e ela. O resto parece dormir.
— Nós conseguimos!
O loiro comemora, um pouco alto demais, e ela nem ao menos pode contestá-lo.
— Eu sinto muito pelo o que você teve que passar, Sakura-chan.
— Não vamos falar disso agora, Naruto.
Ele acena positivamente. E o silêncio vem.
Estão no meio do nada. Há algumas arvores retorcidas, algumas poucas ainda vivas, muita lama e barro. O mundo estava destruído.
— O que faremos agora? — Pergunta para o loiro
— Vamos reconstruir! — Ele responde como se fosse óbvio.
— Tudo?
— Sim. As vilas serão novamente fundadas, e as pessoas voltaram as suas rotinas. O mundo vai ser um lugar bom de novo! Dattebayo!
Ela não quis estragar o momento de Naruto dizendo que aquilo seria um processo difícil e lento. Então apenas acenou em concordância e sorriu fraco. Ao olhar para Sasuke, que estava quieto esse tempo todo notou que ele pensava a mesma coisa que ela.
Um trovão e um relâmpago cortam o céu. Algumas pessoas acordam com o susto.
— Antes de reconstruir o mundo, vamos ter que construir algumas barracas aqui.
O loiro ri, e ela se levanta. Está amanhecendo.
— Aonde você vai?
— É hora de cuidar das pessoas. Acabar de curar esses ferimentos, acabar com essas dores. E você, vá procurar comida. Você quer fundar vilas e não sabe os itens necessários?
O loiro sorriu novamente, se levantando também.
Por um momento ela tem esperança nas falas de Naruto.
[...]
Naruto e Sasuke com muito esforço, luta e dor haviam conseguido derrotar Madara. Agora, em um pseudo acampamento eles tentavam reconstruir tudo que fosse possível.
Com itens roubados, juntados, eles montaram tendas (poucas para o tanto de pessoas), e também algumas barracas de atendimento. Tudo aquilo era provisório. Em breve eles partiriam para os restos de suas vilas, e tentariam restaurá-las, ficou decidido (em um discurso heroico de Naruto) que aquelas que não tivessem vilas poderiam ir para aquela que mais a agradasse.
A cada dia eles tinham mais pessoas. Viajantes, pessoas que ficaram sabendo daquele lugar, que vieram para ajudar. E também, perdas. Pessoas que morriam pelos resquícios da guerra, que não aguentavam por mais que ela tentasse ajudar.
Era um processo longo e doloroso.
Guerras eram assim.
Enxugou as mãos em um pano. Pronta para sair da tenda de atendimento, quando Sasuke entrou.
— Oi!
Sorriu. Ela ainda não havia o visto naquele dia (o terceiro desde o fim da guerra). Ele passava os dias ajudando em montagens, auxiliando Naruto e montando estratégias para o recomeço, enquanto ela permanecia atendendo os enfermos.
— Algum problema? Está com dor?
Ele balançou a cabeça negativamente.
— Como foi hoje?
— Naruto e Gaara acham que mais uma semana e estaremos prontos para ir. Representantes de outras vilas chegaram, e concordaram em refunda-las.
— Isso é bom!
Ele acenou novamente.
Não podendo conter, se aproximou novamente dele.
— É tão bom saber que isso tudo chegou ao fim! Que tudo acabou...
Abraçou-o. Eles estavam sujos, com as mesmas roupas da guerra. Imundos. Mas nenhum deles se importou com isso.
— Eu sinto muito.
Ele disse de repente. Ergueu o rosto, procurando pelo dele.
— Pelo o que?
— Eu não te protegi do modo certo. Nunca deveria ter deix—
— Shiiii! Eu estou aqui, não estou? A guerra acabou... Tudo valeu a pena.
Uma de suas mãos acariciou o rosto másculo. Um vinco se formou entre as sobrancelhas negras.
— Você ser sacrificada como foi, não vale a pena.
Ele tocou sua testa com os lábios, e depois beijou a ponta de seu nariz.
— Está tudo bem. Eu estou bem.
Ele balançou a cabeça negativamente, antes de se afastar.
— O qu—
— Você tem um paciente. Vemos-nos depois.
Foi tudo que ele disse antes de sair pela tenda. Em seguida, um homem entrou.
— Tomiro!
Falou em alegria.
— Você está bem!
— Assim como você, Sakura-sama.
— Você viu Kimy por aí?
— Sim, ela está do outro lado, ajudando algumas senhoras a fazerem roupas e outros itens com alguns tecidos que elas roubaram do castelo...
Eles continuaram conversando algum tempo, enquanto curava alguns pequenos machucados dele. Depois ele também se foi, e ela ficou ali sozinha.
Sentou-se em um tronco velho que eles usavam de cadeira para auxilia-la nos tratamentos, quando foi invadida por uma sensação estranha e claustrofóbica.
Não deveria ser assim. Aquele pesadelo havia acabado então qual o motivo daquela sensação horrível a percorrer? Seu coração se acelerou, e ela teve vontade de vomitar. Permaneceu assim, algum tempo.
— Sakura-chan? Está tudo bem?
Estava tão assustada que não percebeu Naruto chegar, apenas pulou de susto quando a voz dele se fez presente. Correu de encontro ao corpo loiro, abraçando-o apertado.
— Sakura-chan?
Ela tentou falar, mas tudo que saiu foi um soluço abafado pela camiseta dele.
— Sakura-chan está tudo bem. Acabou. Acabou. Ele não vai a perturbar mais.
De algum modo ela sentia que aquilo não era verdade.
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