Em Meio Ao Fogo
24 Ilusão
Notas iniciais
Em Meio Ao Fogo
Escrita por Coffee
Capítulo XXIII: Ilusão
— Eu e as outras escravas não temos palavras para agradecer o que fez por nós. Garantiu que saíssemos de lá vivas... E nos livrou daquele terror.
— Vocês não são mais escravas Kimy, eu que agradeço a ajuda, por vocês terem cuidado de mim quando cheguei, me ajudado a sobreviver.
— Fui muito dura com você no começo e...
— Não vamos falar disso, passou, estamos todas bem, certo?
A senhora acenou positivamente com a cabeça.
— Vou voltar ao meu trabalho.
Kimy se afastou com os pés arrastando no chão, cansada e aliviada ao mesmo tempo. Há uma semana ela estava livre, naquele campo aberto com tendas, mas com a vantagem de não ser mais uma escrava.
Sakura sorriu, conseguiram finalmente ter o mundo ninja de volta, em segurança.
— Está tudo bem?
Kakashi perguntou ao entrar na tenda médica.
— Claro!
Apesar da voz animada, o mascarado via a tristeza, o trauma que ela tentava esconder.
—Vai melhorar com o tempo.
Ele disse, com dó de sua aluna, de tudo que ela passara. Mas ela não se deixou abater, desconversou rapidamente.
— Quando partiremos?
— Não demorará muito, Naruto vai assumir como Hogake, todos concordamos com isso, então ele está trabalhando alguns acordos com os outros futuros kages.
Acenou positivamente.
— Kimy e outras ex-servas virão conosco para a futura Konoha.
— Todos são bem-vindos.
Eles sorriram mutuamente, embora aquele sorriso fosse marcado por mais cicatrizes e dores do que eles realmente gostariam.
[...]
Era noite, eles estavam sozinhos na tenda, relaxados por terem um momento de paz.
— Tudo finalmente acabou.
Sasuke acenou, aproximando-se. Ele tocou seus braços suavemente, em uma carícia lenta. As bocas se aproximaram cautelosas, seu coração martelando no peito. Seus lábios se acariciaram, mas ela não permitiu passagem em um primeiro momento.
Depois ela finalmente abriu os lábios, para que a língua dele dançasse com a sua, mas quando ele se aproximou mais colando seus corpos, ela o repeliu rapidamente.
Do outro lado da tenda ela pode ver o rosto confuso dele.
— Desculpe, desculpe, eu... Desculpe.
Ela escondeu o rosto envergonhado entre as mãos.
— Está tudo bem Sakura...
Ele disse a surpreendendo.
— Eu não estou preparada para... Aquilo me machucou muito e—
— Está tudo bem Sakura. Ninguém nunca mais vai te obrigar a nada.
Ela andou até ele, ainda um pouco arisca, respirou fundo e o abraçou.
— Obrigada.
[...]
Os dias passaram tranquilos, os grupos se davam bem, provavelmente porque todos ainda relembravam os tempos de guerra. Eles caçavam, pescavam e faziam comida para todos, comiam todos juntos em baixo das tendas quando estava sol, ou ao ar livre quando a lua se fazia presente.
As cicatrizes psicológicas se esvaiam aos poucos, fazendo-os relaxar, abaixar a guarda ou dormir sem pesadelos. Embora ainda fosse comum acordar no meio da noite com gritos e gemidos de desespero.
Sakura tratava de ocupar seu tempo entre ajudar na caça e na preparação dos alimentos, tratava os doentes ou feridos, tudo que a deixasse o mais longe possível de pensamentos, lembranças.
Sasuke não tentara se aproximar novamente, e por mais que o amasse não sentia que estava pronta para se entregar totalmente, ainda sentia arrepios de pensar em um homem tocando sua pele.
Agora, sentados no chão sob o luar, eles ouviam Naruto falar, feliz, perto de uma fogueira.
— Nós conseguimos! Amanhã partiremos para uma vida nova, as vilas serão fundadas novamente, com muitas alianças e acordo de paz para que toda essa tragédia não ocorra novamente!
Palmas foram ouvidas.
— Para os que estão sem vila poderão se juntar a que quiserem, basta seguir seus lideres quando sairmos amanhã. Sabemos que não conseguiremos erguer tudo de uma hora para outra, mas com muito esforço e luta tenho certeza que dentro de alguns anos as vilas estarão bem estruturadas e com toda a força que tinham antes, dattebayo!
Algumas pessoas, principalmente os lideres das vilas aplaudiram de pé.
Ouviu Naruto falar sempre era algo reconfortante, o olhar dele, a confiança que tinha nas palavras e na execução delas fazia todos sentirem aquela quentura afável no peito e aquela segurança: esperança.
Esperança era o que fazia todos ali levantarem de manhã, ajudarem um ao outro, lutarem para sobreviver e melhorar de vida.
A esperança os movia.
Assim como as palavras de Naruto.
Após o discurso ela foi para a tenda em que dormia sozinha, porque ela ainda não aguentava respirações ao seu lado (principalmente masculinas) e relaxou ao deitar no saco de dormir.
Um vento começou tranquilo, balançando sua tenda, e ela pode ver gotas finas de chuva caindo sobre a lona. Sabia que tinha prendido-a bem no solo, e por isso relaxou mesmo com o principio de chuva.
Ali, somente com um lampião iluminando o pequeno lugar ela pôs-se a pensar (algo que estava evitando há muito tempo).
Ela suspirou, lembrando-se dos seus entes queridos. Seus pais tão amorosos, sua shishou, Ino... E todos os outros que haviam partido. De todo modo, onde quer que estivessem ela sabia que eles estavam felizes, felizes por eles terem superado todas as dificuldades, por terem dado um fim naquela ditadura de Madara.
E também estavam orgulhosos dela, por ela ter permanecido firme, com a sanidade praticamente intacta depois de tudo que passara.
Não tinha muita noção de como seriam as coisas agora, se continuariam tranquilas, se alguém tentaria se revoltar ou se eles finalmente teriam paz.
Paz...
Era tudo que ela queria, um tempo para se recuperar, para curar suas feridas, e ficar pronta para viver outra vez. Construir uma vida tranquila ao lado de seus amigos e ao lado de Sasuke, caso ele quisesse...
Um trovão alto cortou seus pensamentos. A chuva engrossou, o vento balançava cada vez mais sua tenda, o lampião se apagou.
Seu coração acelerou, ela não gostava do escuro depois que tudo que passara, mesmo que aquilo fosse infantil ela pensou em gritar para que Naruto, Sasuke ou até mesmo Kakashi viessem trazer luz para ela.
Antes de abrir a boca uma mão apertou seu pescoço. No desespero ela começou a se debater no escuro em desespero, os seus olhos ninjas viam alguns vultos, e uma pessoa a sua frente, mas ela não conseguia identificar mais nada.
Concentrou chakra nos punhos, e quando estava prestes a se soltar, a sombra disse:
— Sentiu minha falta querida?
Sem pensar, tremula de medo, em pânico para ver alguma coisa, acabou olhando para o que jamais deveria olhar.
Olhos vermelhos.
A luz estava de volta, Madara estava a sua frente e ao redor deles havia corpos de todos os seus amigos, ensanguentados, despedaçados.
Ela tinha consciência que aquilo era um genjutsu, sempre fora boa em reconhecê-los, porém ela não conseguia se libertar, em algum momento algo atingiu seu corpo, ela cuspiu sangue, desesperada, por mais que forçasse seus braços não se moviam, nem suas pernas, nada.
Não, por favor... De novo não...
— Está assustada? Querida? Não era você que disse que eu morreria? Que seria destruído? Por que você está tremendo de medo agora ãhn?
Quis gritar, quis fazer qualquer coisa para pedir ajuda, mas seu corpo parecia pesar uma tonelada, seus amigos continuavam a morrer esgotados no chão e Madara estava com corpo colado ao seu.
‘Me largue...
Por mais que soubesse se tratar de uma ilusão a imagem dos companheiros mortos, aquela ilusão mexia com o seu psicológico, queria se mexer, sair de perto dele, socá-lo, mas cada vez que tentava fazer qualquer coisa parecia mais e mais cansada, exausta psicologicamente, mais perto da inconsciência ou quem sabe, da morte.
— Esse será o seu fim, puta. Ninguém vira te socorrer, ninguém vira te salvar. Você está presa, não pode sair... Sei que você sabe que é uma ilusão, mas me responda, até que ponto ela cruza com a realidade?
Algo afiado, uma arma provavelmente foi posta em sua pele, puxada de baixo para cima, rasgando sua perna. Ela sentiu o liquido quente escorrendo, e não podia fazer nada para estancar.
— Seus queridos amigos foram embora, te deixando aqui sozinha, agonizando, não me parece uma amizade muito verdadeira, não?
Naruto? Sasuke? Kakashi?
Por favor...
Ela foi socada, várias vezes, embora não tivesse se mexido, a dor se fazia presente.
Por favor...
Outra vez foi esfaqueada, agora no braço, o sangue escorrendo, quente, quente, quente. E o desespero a sufocando.
Naruto?
O cenário mudou, ela estava de volta no castelo. No quarto do Uchiha, dentro do banheiro, a porta trancada, ela bateu desesperada tentando quebrá-la sair dali, mas nada fazia efeito, ele a pegou pela parte detrás do pescoço, a arrastou até a banheira cheia de água quente e enfiou sua cabeça ali.
Sasuke?
A água quente não chegou a queimá-la, mas fez com que o sufocamento fosse ainda mais rápido. O ar começou a faltar dos seus pulmões, eles arderam, e quando estava prestes a desmaiar, morrer, ele retirou sua cabeça.
Kakashi?
E lá foram eles novamente, seu short foi rasgado, sua pele marcada, ele a fudeu forte. Ela chorou, gritando para que parasse, mas suas palavras não saiam.
‘Me deixe!
No fim eles estavam de volta na tenda, ela respirava feito louca em busca de ar.
Ela pensou que estava de volta a realidade, mas a felicidade durou pouco, apenas tempo o suficiente de sentir seu corpo sendo queimado, sua pele enrugando, ressecando.
Shishou? Mamãe? Papai? Ino?
Alguém me ajude.
Por favor, alguém me ajude...
Chorou. Já não sabia mais diferenciar a verdade da ilusão, estava cansada, exausta.
Disseram que ele estava morto... Então porque diabos ele estava ali? Na sua frente?
— Não vai me xingar? Vadia? ‘Me chamar de desgraçado? Falar que se deitou comigo por interesse? Cadê toda a sua petulância agora?
Pare por favor, pare!
A sua mente estava atolada de pensamentos, de falas que ela não conseguia pronunciar, de caos. Sabia que já deveria ter desmaiado, mas de algum modo ele a mantinha ali, naquele inferno.
— Parece que a leoa virou um ratinho assustado...
Filho da puta! Desgraçado!
Tentou pela centésima vez mover algo, chakra, um membro, se livrar daquela dor, mas não conseguiu fazer nada. Mover nenhum dedinho. A dor continuava a corroendo, e ela não podia fazer nada.
Ela estava, no fim, morrendo ali, justo pelas mãos dele e não podia fazer nada para impedir.
Sentiu cheiro de fumaça, de repente eles estavam fora da tenda, todas as outras queimando, as pessoas correndo em pânico, fugindo do fogo, morrendo queimadas, sendo engolidas pelas chamas.
Não podia distinguir se aquilo era uma ilusão, mas sentia que não era.
Ainda sim nenhuma delas parou para percebê-los ali, ele a segurando e ela com o rosto banhado de lágrimas, se é que eles estivessem mesmo ali... O cansaço a abateu.
Quero dormir, quero dormir.
— Fique acordada vadia, veja seus companheiros queimarem, os veja morrerem, os assista agonizando, sabendo que tudo isso foi culpa sua...
A culpa não é minha. Não é.
— Você foi mexer no que estava bom, tentar me derrubar, arrastou todas essas pessoas para essa loucura com você, e agora eles estão morrendo, queimando por sua culpa.
Tentou fechar os olhos, mas nem ao menos suas pálpebras se moviam.
Quero morrer, quero morrer.
Não sabia se tinha conseguido dizer em voz alta, ou se ele estava dentro de sua mente, com os seus pensamentos, porque ele respondeu.
— Oh! Morrer seria muito simples... Fique tranquila, você também vai morrer, mas não sem assistir toda essa desgraça que você causou... Não sem antes eu a fuder de novo até enjoar... Não sem antes ver seu querido Naruto e Sasuke sendo mortos... Você tem muita coisa para ver querida...
Não quero. Não quero.
Sasuke, Naruto, por favor, fujam.
Por favor, estejam longe daqui.
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