Em Meio Ao Fogo
21 Reerguer
Notas iniciais
Em Meio Ao Fogo
Escrita por Coffee
Capítulo XIX: Reerguer
Muitos dizem que antes de abraçar a morte (ou ela te abraçar) a vida passa diante dos seus olhos. Os momentos ruins, os sofridos e principalmente os bons, afinal você está morrendo e não tem como isso ficar mais deprimente.
Mas em sua mente não havia nenhum filme, apenas meia dúzia de palavrões e dor. Acima de tudo havia ódio, porque diabos, ela não havia sofrido tanto nos últimos meses para morrer agora. Para morrer justo pelas mãos do desgraçado Madara que havia tirado também a vida de tantas pessoas que ela amava.
Não havia comido o pão que o diabo amassou para ir conhecê-lo justo agora.
Ela se recusava.
Ainda sim a dor era tanta que às vezes a tirava do eixo. O ponto vital acertado não era o coração, e sim o mesmo que Sasori usara uma vez, que garantia uma morte lenta e dolorosa. Ela podia sentir o sangue quente espalhando pela sua roupa, e ela sabia que não duraria muito mais tempo.
Sem a espada em seu corpo, porque o maldito havia a retirado para que ela pudesse perder ainda mais sangue, o líquido vermelho jorrava sem restrições. Ela tentou levar a mão para tapar o ferimento, mas não conseguiu.
Tudo doía, e ela ficava cada vez mais fraca. A cada segundo mais fraca.
Não posso morrer agora.
Não posso morrer agora.
Eu me recuso a morrer agora.
Ela podia ouvir com clareza Madara conversando, provavelmente com um subordinado, ali, bem atrás dela, com uma naturalidade impressionante, como se não houvesse uma pessoa ali atrás, chorando de dor e perdendo sangue.
Perdendo a vida.
Desgraçado. Desgraçado.
Depois de muito tentar, e lutar contra a dor ela conseguiu levar a mão até o ferimento. O ferimento transpassado, mas ela conseguiu alcançar a parte da frente, colocando a mão ali para que pudesse (ao menos tentasse) parar um pouco a hemorragia.
Ela não sabia o que Madara havia feito (nem como), mas a tornozeleira estava sugando praticamente todo o seu chakra.
Ainda sim, suportando a dor, ela se concentrou.
Em seus pontos de chakra, como fazia anos atrás. Achando uma quantidade mínima em algumas partes do seu corpo. Primeira ela juntou-o em uma das mãos e aplicou-o na ferida.
A quantidade de sangue jorrada pareceu diminuir e ela podia ver as coisas com mais clareza agora.
A tornozeleira.
Preciso me livrar da tornozeleira.
Ela havia tentado – inutilmente – fazer isso durante todos os meses, todas as semanas em que estivera ali. Sem sucesso.
Sentia que sua consciência iria a abandonar logo, e que a quantidade de sangue que saia do seu ferimento (embora saísse mais lento depois de sua intervenção) ainda acabaria a matando.
Vamos lá, não posso morrer agora.
Não posso.
Mandou o pouco chakra que a restava para o tornozelo, sem nem ao menos pensar muito no que estava fazendo. As vozes atrás de si continuavam a conversar, havia barulho de armas, guerra e cheiro de fogo entrando pela janela quebrada, mas nenhum dos dois ocupantes daquela sala parecia notar isso, nem notar que havia uma pessoa ali (ela) lutando para viver.
No momento em que seu chakra alcançou a tornozeleira e lutou para ter mais liberado o choque percorreu seu corpo. Ela encolheu-se de pura dor, sua ferida cuspiu mais sangue e ela segurou um grito.
Por um momento a sua mente se nublou e ela cogitou a possibilidade de desistir, de deixar seu corpo e sua alma descansar. Mas ela se amaldiçoou pelo pensamento. Ela não podia desistir, tinha que continuar lutando, por Naruto, por Sasuke, pelos seus amigos mortos, seus amigos desaparecidos, por Kakashi, por todos aqueles que sofriam naquele inferno que Madara criara.
Tentou de novo. Seu chakra concentrado lutava contra a tornozeleira para poder liberar o outro.
O choque – dois dessa vez – veio novamente.
Vamos lá.
Vamos lá...
Ela pensou ter ouvido um click (ou talvez fosse apenas impressão de sua mente cansada) quando sentiu o chakra fluir pelo seu corpo.
Ele veio tão forte e em tão grande quantidade de uma única vez que ela ficou ainda mais tonta. Fazia tanto tempo que ela não o usava (não em grande quantidade) que ela tinha tanto ou até mais quanto na primeira guerra.
Ainda sim por não tê-lo concentrado na testa como antes ela não tinha certeza se seria capaz de ativar seu selo. Mas optou por tentar fazê-lo. Uma pontada em seu abdômen a tirou do eixo por alguns segundos e ela levou mais alguns para voltar a si.
Tem que funcionar.
O selo de Tsunade-shishou tem que funcionar.
Tem que.
Concentrou o máximo de chakra que conseguiu no ponto exato. Como fazia muitos anos atrás.
Por favor, por favor.
O corte em seu abdômen reclamou, dizendo “estou aqui, pronto para te matar”, mas ela apenas ignorou a dor.
Por favor...
E ela sentiu. O chakra saindo da testa e se espalhando para todo o seu corpo com maestria. Uma quantidade maior dele se concentrando em seu abdômen, e ela sentiu o sangue quente parar de jorrar para fora.
Ela abriu os olhos – que se mantinham fechados até aquele momento – primeiramente a claridade a atingiu. Depois de se acostumar com a luz ela piscou, movendo a cabeça lentamente (seu corpo ainda estava dolorido), mas conseguiu ver o espelho, grande e imponente do quarto de Madara bem a sua frente.
Seu reflexo era deprimente, havia sangue escorrido do seu nariz, da sua boca, sua roupa estava rasgada em alguns pontos e ridiculamente vermelha.
Nem preciso usar bandeiras vermelhas.
O sangue deixava claro que ela era da resistência.
Ainda sim o que mais a deixou aliviada no reflexo foi o losango, pequeno e tímido na sua testa, de volta... Uma lembrança da sua shishou e uma lembrança de que ainda tinha chances de permanecer viva.
Shishou.
Eu estou de volta.
Os riscos negros tinham se espalhado por todo o seu corpo.
E ela sorriu.
[...]
Em algum momento ele havia se separado de Naruto.
Ele lutava com os homens de Madara, mas a única coisa que se passava em sua cabeça era onde estaria Sakura.
Não havia a visto desde que entraram ali com o auxilio dela (que havia quebrado os muros) ainda sim, mesmo ela tendo deixado a marca assinada dela ele não podia deixar de sentir-se preocupado.
Os homens de Madara pareciam aparecer como mágica. Eram muitos (mais do que haviam estipulado) e agora eles lutavam para não fazer que aqueles anos todos de planejamento fossem em vão.
O Uchiha, seu... titio, havia sido muito mais esperto que eles. Era claro que ele desconfiava de alguma coisa, porque arranjara um exército. Porém sabia que eles haviam surpreendido na data e também na quantidade (e qualidade) de ninjas.
O que Madara tinha em quantidade, o exército da resistência tinha em qualidade.
Mas havia novamente cheiro de fumaça e sangue.
Olhou o castelo mais a frente, que eles não conseguiam de modo algum entrar, e pode ver algumas paredes caídas, janelas quebradas... Ele não sabia quanto tempo à estrutura demoraria a ceder. Mas sabia que o Uchiha estava lá dentro, porque o castelo todo estava cercado por uma quantidade infinita de guardas.
— Vá com Naruto.
Alguém falou ao seu lado, dando-o cobertura. Ele identificou como sendo Gaara, e olhou ao redor procurando o loiro. Achou-o perto do castelo, lutando com os guardas. Acenou positivamente para o ruivo e correu de encontro ao Uzumaki se juntando a ele na difícil tarefa de entrar lá dentro.
[...]
Suas mãos foram colocadas no chão em uma tentativa de se erguer. Ela tentou três vezes antes de realmente conseguir. Sentou-se observando o ferimento já quase fechado pela ação do selo Byakugou.
Com o auxilio das mãos novamente ela se colocou lentamente de pé. Se acostumando com a sensação.
Os dois homens de costas para si não sentiram sua mudança de posição, não é como se eles esperassem isso de qualquer forma.
Com maestria acumulou chakra nos punhos. Exatamente como a Godaime havia a ensinado uma vez.
Seu alvo já estava bem centrado em sua visão. E usando passos rápidos e soturnos típicos de ninjas ela se aproximou.
O soco veio de surpresa.
Ela pode perceber. Enquanto ele voou para uma parede, e depois outra e outra. O homem ao lado dele tentou acertá-la com uma arma, ele tinha os olhos arregalados como se ela fosse um demônio pelo simples fato de estar de pé.
Ou sim, querido, eu sou.
Ela pensou, e não precisou de mais que dois golpes para acabar com ele. Quando acabou Madara já andava em sua direção, furioso, limpando o sangue que escorria em sua boca.
— Você não disse que apesar de tudo foi bom me comer? Bem... Você teve sorte, afinal, nem isso eu posso dizer.
Ela se aproximou dois passos, vendo-o olhar para seu abdômen em dúvida. Ele ainda sussurrou algo como “igual Tsunade”, mas ela nem se atentou a isso. Ainda pode observá-lo procurar a tornozeleira abismado com a ideia de que ela pudesse ter a quebrado.
— Sabe querido... Você me enjoa.
Aproximou-se novamente. Ele parecia não acreditar que ela estava ali, de pé, se movendo bem na frente de seus olhos.
Ele desviou de quatro de seus socos. E usou o Susanoo para proteger-se do quinto. Com ódio e muito chakra ela conseguiu se desfazer dele, vendo-o arregalar os olhos quando, no sexto soco ela o atingiu de surpresa.
O Uchiha cambaleou e caiu em seguida, boquiaberto por ela ter quebrado seu Susanoo como a mentora dela fizera um dia.
— Você vai pagar, por cada vida que você tirou, por todas as que você escravizou, e por todas as vezes que eu fui obrigada a me deitar com você.
— Admito que você... É muito boa em encenação.
Ele disse após se levantar limpando as roupas como se não tivesse levado um soco potente há alguns minutos atrás.
— Você não tem ideia em quantas coisas eu posso ser boa.
— ‘Me socar é uma delas?
— Não, te matar é uma delas.
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