O sinal do fim do tempo tocou e Sr. Bennet murmurou alguma coisa sobre o dever de casa que praticamente ninguém ouviu. Menos Kevin. Kevin estava anotando vorazmente em uma agenda de couro as páginas do livro que tínhamos que fazer para a outra semana, felizmente Biologia I ocupava só um tempo da minha grade de horários semanal.

Esperei ele terminar de fazer suas anotações e o cutuquei:

—Kevin! Você por acaso sabe quem foi que mandou esse bilhete? – Disse enquanto segurava o papelzinho na mão.

—Não, desculpa Elle. Sei que você deve estar curiosa, afinal é nova aqui e alguém já te mandou um bilhete secreto, mas eu estava concentrado na aula e quando vi o bilhete estava em cima da nossa bancada.

—Tudo bem, não precisa se preocupar, eu nem estou tão curiosa assim. – Mentira, mentira pura.

Kevin sorriu, se despediu e saiu andando da sala. Foi quando eu saí correndo atrás dele, eu tinha esquecido de perguntar uma coisa importante:

—Kevin, espera!

—Oi!- Disse ele virando na minha direção. – Tudo bem?

—Tudo. Você sabe onde fica a sala L226? Eu tenho aula lá agora e eu não faço a menor ideia como chegar.

Ele me explicou pacientemente e lá fui eu pra minha aula de Princípios de Economia mundial.

Entrei na sala antes do sinal tocar, escolhi uma cadeira perto da janela e percebi que aparentemente eu era a única menina fazendo aquela aula. Bom. Uma mulher que aparentava seus 30 anos entrou na sala. Calça jeans e camisa social branca. Seus cabelos cor de mel cacheados combinavam perfeitamente com a sua pele cor de chocolate ao leite e seus olhos verdes. Ela era linda.

Nesse exato instante a sala ficou num silencio absoluto observando a beleza dela, foi quando ela abriu um sorriso e falou:

—Muito bem senhores, é um prazer passar mais um ano na companhia de vocês. Como vocês podem perceber esse ano eu não dou só aula de economia familiar, mas também de Princípios de Economia mundial, aula essa que os senhores estão comparecendo hoje e que fará suas segundas e quartas mais felizes.

Foi então que um menino lá do fundo de cabelo meio comprido aloirado e olhos azuis levantou a mão e já saiu falando:

—Alexis! Tem uma aluna nova. – Disse enquanto apontava pra mim.

A professora olhou pra mim no mesmo instante, abriu um largo sorriso e falou:

— Você foi descoberta. Vem aqui pra frente, a gente tem que fazer a velha tradição.

Andei até a frente da sala e ela me mandou sentar em cima da mesa do professor. Perguntou se tudo bem se a turma e ela fizessem algumas perguntas, porque eles tinham essa tradição de todo aluno novo sofrer com uma espécie de entrevista. Falei que não tinha o menor problema e ela começou:

—Primeiro eu pergunto e você responde rapidamente.

—Ok. – Falei meio nervosa.

—Nome Completo?

—Elleonor Howeds Batchlor.

—Apelido?

—Elle.

—Nacionalidade?

—Depende? – Falei sem graça, ela parou por um segundo.

—Como assim depende? – Disse curiosa.

—Bem, eu tenho tripla nacionalidade. Sou filha de uma alemã com um americano, mas nascida no Reino Unido.

Ela riu e continuou:

—Ultima pergunta minha, prometo. Porque você veio para essa aula?

—Porque eu quero estudar para me tornar diplomata.

A sala toda ficou um pouco impressionada. Alexis, a professora perguntou se alguém queria fazer alguma pergunta. Um menino sentado lá no fundo, última carteira do canto, levantou a mão. Seu cabelo era curtinho, castanho claro e seus olhões eram cor de uva verde. Ele sorriu, um sorriso sincero, e perguntou:

—Você já participou de algum modelo das Nações Unidas? – Disse enquanto apontava pra minha camisa.

—Sim!- Respondi- Vivo nesse vício desde que eu sou uma caloura.

Ele se deu por satisfeito, sorriu e eu voltei para o meu lugar. Alexis seguiu com a aula e diferente da uma hora e meia mais chata da minha vida que foi a aula de biologia, essa aula passou voando. Da minha carteira eu conseguia vez a mesma pracinha que eu observei tanto na última aula, mas eu nem se quer prestei atenção. A discussão sobre o atual bloco econômico dos países emergentes era mais interessante. Estava passando a página do caderno para terminar minhas anotações quando achei um papel. Dobradinho que nem o outro que eu tinha recebido cheguei a cogitar ser o mesmo, mas lembrei de que tinha guardado o outro na carteira. Abri correndo:

“Tem um clube de Modelos das Nações Unidas que se reúne todas as quartas na sala K225 ás 15hrs. Novos membros são bem vindos. – A”

Abri um leve sorriso, não sei se por ter recebido outro bilhete ou por ter descoberto meu cantinho nessa escola nova. Na London International School eu era presidente do clube de MUN (Model United Nations), quem sabe aqui eu também não poderia faze parte de um? Olhei em volta em busca de alguém que me indicasse quem mandou o bilhete, mas não recebi nenhuma pista. Não lembrava de nenhum daqueles garotos na minha aula de biologia.

O sinal tocou era hora do almoço, todos saíram correndo, eu fui literalmente a última pessoa a sair da sala. Quando botei o pé para fora da porta uma mão tocou meu ombro, olhei para trás e era Holly:

—Hey Elle! Almoço? – Disse ela com um largo sorriso.

Assenti com a cabeça e seguimos para o refeitório, no caminho contei para ela a história dos bilhetes, ela ficou tão intrigada como eu.

Quando chegamos no refeitório deu para perceber que Holly era, além de ter uma beleza estonteante com cabelos quase pretos até o meio das costas, olhos tão negros quanto e uma argolinha no lado direito do nariz perfeitamente arrebitado, era a pessoa mais simpática que eu já tinha conhecido na vida. Ela cumprimentava todo mundo, todo mundo mesmo. As moças da cantina a adoravam, ela sempre estava com um sorriso no rosto e a impressão que dava era que ela jamais seria capaz de ser grossa com alguém.

Almoçamos numa mesa de Piquenique no pátio lateral da escola, só eu e ela, porque ela queria me conhecer melhor. E por mais que fossemos bem diferentes em algumas coisas, uma conexão imediata se formou ali. Eu enxergava na Holly potencial para ser minha nova melhor amiga.

Depois do almoço eu tive aula de alemão e inglês e é claro Educação Física que aparentemente nos Estados Unidos não era algo opcional. Quando eu cheguei no ginásio com o uniforme que nada mais é que um short vermelho curto de lycra e uma camisa de malha com o nome da escola me deparei com o treinador dividindo as pessoas em grupo:

—Howeds!- Gritou ele assim que me viu- Porque está 10 minutos atrasada?

—Desculpa treinador! – Eu tive que pegar meu uniforme na secretaria.

—Perfeitamente Howeds!- Ele parou por um momento e olhou dois dos grupos.- Você é alta, mais ou menos quanto de altura Howeds?

— Um metro e oitenta. – Disse enquanto pensava mentalmente se ele me chamaria de Howeds pelo resto do ano.

—Volei ou basquete?- Perguntou ele rápido interrompendo meu pensamento.

—Hãn?- Respondi assustada.

—Volei ou basquete Howeds? Você joga vôlei ou basquete?

—Basquete treinador.- Eu não jogava basquete de verdade tinha huns 6 anos. Meu pai sempre tentou que eu jogasse mais que apenas 3 partidas ao ano nas quadras do Central Park, mas ele nunca obteve sucesso. Entre a minha preguiça, atividades extracurriculares e escola eu nunca achava tempo pro basquete.

O treinador me entregou uma bola me indicou meu grupo e fomos jogar, confesso que deu até saudades de jogar com o meu pai depois disso. Só não deu saudades dos gritos dele porque eu errava o posicionamento. “Não Elleonor, não! Você é pivô, você fica no meio do garrafão.”

Quando a aula acabou e eu estava indo para o vestiário me trocara para ir para casa o treinador me parou:

—Bom jogo Howeds.

—Obrigada Treinador, fazia muito tempo que eu não jogava basquete. – Disse sorrindo, por mais que eu estivesse nojenta eu estava feliz.

—Howeds, você já considerou fazer um teste para o time da escola? Estamos precisando de uma pivô nova.

—Hm, não sei treinador, é meu primeiro dia aqui, e sem contar que eu gosto de jogar por brincadeira.

—Sexta-feira, depois da aula, apareça aqui. – Disse indo embora do ginásio.

Tomei um banho rápido, troquei de roupa e segui em direção ao metro. Não sei se era porque eram 3 da tarde, mas a estação da Rua 33 estava vazia. Entrei no meu trem da linha 4 e sentei ao lado da janela, estava quase colocando meus fones de ouvido quando vi o menino dos olhos verdades da minha aula de economia entrando no vagão.

Esperei alguns segundos ele sentar e as portas fecharem, assim que o trem começou a andar fui na direção dele:

—Hm, oi, você é da minha aula de economia, não é?

—Sou. Elleonor, né? Arthur prazer. – Disse ele esticando a mão para mim.

—Prazer. – Disse cumprimentando-o de volta.

—Então, você vai aparecer na reunião do clube? – Disse ele após alguns segundos de silêncio.

—Foi você que mandou o bilhete?- Disse surpresa.

Arthur sorriu timidamente:

—Fui eu. Meio ridículo eu sei, eu deveria ter falado pessoalmente com você, mas eu não sei, só deu vontade de escrever um bilhete, ficar no anonimato. – Disse rindo.

Eu ri, não era ridículo, era fofo, eu mesma consigo me imaginar fazendo isso pelos exatos mesmos motivos.

—Mas enfim,-retruquei- eu vou sim. A saudades de simular tá grande. – Ele sorriu.

Fomos conversando sobre Simualções da ONU até a Rua 59, onde ele levantou e se despediu. Fiquei observando ele até as portas do metrô fecharem e o trem começarem a andar.

Notas finais
Para quem não souber o que são os Modelos das Nações Unidas: http://onujr.com/o-que-sao-modelos/