Em Lugar do Frio
9 A Carta de Antônia
Notas iniciais
– O que é isso? – pergunto, quando algo branco surge na terra.
Joseph para de cavar instantaneamente e se abaixa, enfiando as mãos na terra para pegar o que parece ser um papel.
– Mas...? – ele para. Suas mãos atravessam o papel, como se o objeto não existisse. Ou...
Como se o próprio Joseph não existisse.
Olho para ele e ele me olha de volta.
– Liv... – Joseph abaixa o rosto e encara as próprias mãos. – O que está acontecendo?
Não respondo. Apenas seguro a sua mão. E posso senti-lo.
– Meu tempo está acabando, Liv. E é isso que vai acontecer? Eu vou desaparecer? – ele diz, amargurado.
Prefiro não responder àquelas perguntas. Apenas digo:
– Tente de novo.
– Mas, Liv... – tenta dizer.
– Joseph. – Ele me olha. – Eu acredito em você.
Joseph respira fundo. Sei que ele está receoso. Mas sei também que ele precisa tentar. Nós sempre precisamos tentar. Difícil sempre vai ser, nada do que é fácil vale a pena. O importante é lembrar que a vida só colocará na nossa frente os obstáculos que podemos ultrapassar.
E eu acredito em Joseph.
Mesmo que ele não faça parte deste mundo. Mesmo que ele não esteja vivo. E mesmo que ele precise de mim para encontrar a mulher que ele ama. Eu ainda o amarei. Ele ainda fará parte do meu mundo. E ele sempre estará vivo na minha mente e no meu coração.
Ele novamente tenta pegar o papel. Posso perceber suas mãos tremendo. Joseph respira pesadamente, e então finalmente segura o envelope.
– Pronto – eu digo suavemente.
Joseph suspira de alívio e sorri. Entrega-me o pequeno embrulho e se levanta, limpando as roupas. Logo voltamos para dentro de casa e vamos para a cozinha. Pego uma pequena faca e abro com cuidado o envelope. Dentro há uma carta e um anel com uma pedra enorme em formato de lua crescente. Suspiro e entrego a carta à Joseph.
– Você quer que eu leia em voz alta? – pergunta.
Viro-me de costas para ele. Eu não quero ouvir as declarações de amor de uma mulher ao cara que eu amo. Finjo que estou procurando algo no armário da cozinha.
– A carta é sua, Joseph. Não precisa, se não quiser.
Sei que ele está olhando para mim. E provavelmente não entende minha reação. Mas tudo bem. Tudo bem, porque ele é apenas o meu melhor amigo.
Então eu ouço a voz dele:
Joseph,
Sinto muito por tudo. Eu não queria ir. Queria a nossa vida, os nossos filhos, os nossos planos, o nosso futuro. Mas a vida não é perfeita.
Eu estarei pensando em você todos os dias, todas as horas, todos os minutos, todos os segundos. O nosso amor é lindo e eu me sinto a mulher mais feliz do mundo por ter você.
Escrevo esta carta para te contar algo. Na verdade, te agradecer. Agradecer pelo presente mais lindo que você me deu.
Eu estou grávida.
Darei a ela o nome de Estrela, porque ela será para sempre a lembrança do nosso primeiro encontro, sob as estrelas.
Um dia, espero que nós três possamos ficar juntos.
Eu te amo, para sempre e além.
Antônia
Joseph termina de ler e eu viro para encará-lo. Ele ainda olha a folha, seus lábios formando as três palavras que mais me assustaram durante toda a leitura. Eu estou grávida.
Ele levanta o rosto e me encara. Nós não dizemos uma palavra sequer. Mas sei que ambos pensamos a mesma coisa.
Existe alguém por aí, fruto do amor de Joseph e Antônia.
Joseph é pai.
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