Em Lugar do Frio
10 Estrela
Notas iniciais
Joseph abre a boca para se pronunciar, mas eu o interrompo.
– Isto não nos dá nenhuma pista – digo.
– Só diz que sou pai...
– Joseph, foco! Temos que encontrar Antônia, certo?
– Sim, mas minha filha...
Uma dor aguda passa em meu coração. Vê-lo falar assim, sobre uma filha, é horrível.
Uma ideia me ocorre.
– Há quanto tempo... você sabe... você morreu? – pergunto, sentindo-me desconfortável.
– Eu não sei, Liv... Quero dizer, eu não tenho noção do tempo. A única coisa que tenho certeza é do tempo que te conheço. Mas sei que foi um pouco mais.
– Você me conhece há oito anos. – Paro, tentando raciocinar. – Aquele senhor... é seu irmão mais novo ou mais velho?
– Mais velho. Eu era o caçula.
– Tudo bem, temos que encontrá-lo.
Vou em direção a sala e Joseph me segue, mas posso perceber que ele está abatido. Há algo errado.
– Liv... – ele me chama.
– Sim?
– O meu irmão...
Ah, por favor, não me diga que ele morreu também!
– Ele... – Joseph continua. – Ele morreu, Liv.
Respiro fundo. Não sei porque, mas uma tristeza profunda me abate. Eu não conheci aquele senhor, o irmão de Joseph, não cheguei a ter uma conversa de verdade com ele. Mas eu ainda tinha esperanças. Tinha esperanças de reencontrá-lo, agradecer pelo melhor presente de toda a minha vida.
Sento-me e escondo o rosto com as mãos.
– Quando? – pergunto.
– Há dois anos.
De repente, uma explosão de raiva se apodera de mim.
– Por que você não me disse?! Por que não me contou antes? Você sempre soube que eu desejava encontrar aquele senhor! Por que não me contou?! – percebo que estou gritando.
– Eu não podia, Liv! Você não sabia nada de mim, lembra?
Encaro-o. Sim, eu sei que ele não podia ter me contado nada. Respiro fundo. Como posso sofrer tanto por alguém que não conheço? Tento me acalmar.
– E agora, Joseph? – murmuro. – Para onde iremos?
Ele olha para o relógio. São duas horas da tarde.
– Temos que encontrá-la – diz.
– Quem?
– Minha filha.
– Você só pode estar brincando, não é? O anjo disse a você que deveria encontrar Antônia.
– Sim, mas e se minha missão não for essa? E se, na verdade, eu deva encontrar Estrela, para finalmente poder ficar em paz?
Olho para ele. Aquela lógica também faz sentido. Mas se encontrar Antônia já estava sendo difícil – sem contar que ela provavelmente é um espírito –, mais difícil ainda seria encontrar Antônia e Estrela. E temos cerca de dez horas para isso.
– Joseph, eu não sei mais... – Paro, em alerta.
– Liv, eu te... – mas eu o calo, colocando minha mão em sua boca.
– Ouviu isso? – pergunto, baixinho.
– O quê?
– O choro – murmuro.
– Que choro, Liv? Do que você está falando?
Então entendo que ele não pode ouvir. Somente eu posso. Um choro de criança. Um bebê. E o ruído está vindo do...
Não pode ser.
– Joseph, onde Estrela foi concebida?
Ele me olha, espantado.
– Fale logo, Joseph! Não importa o que vou pensar, apenas diga!
– No...
– Meu quarto, certo?
Não dou chance para ele responder. E nem é necessário. O olhar dele já me diz tudo. Levanto e corro para o meu quarto. Joseph está logo atrás de mim.
O choro está mais alto agora. Entro no quarto e olho aquela cena.
Não é mais o meu quarto. É um quarto de uma estalagem qualquer antiga, provavelmente na Europa. Há duas mulheres em pé, e outra na cama. E também há um bebê. Chego mais perto para ver a criança, e sim, é uma menina. Sei que é Estrela.
Então, quando finalmente olho para a mãe, parece que meu espirito é arrastado, e de repente já estou vendo tudo na perspectiva de Antônia. As duas mulheres se aproximam de mim e colocam a bebê para que a mãe a beije. Ela/eu a beija/o, até que uma dor aguda passa em nosso coração.
A respiração falha, tentamos gritar, mas não conseguimos. Olhamos para nossa menininha uma última vez e a nossa última palavra fica em nossos lábios, enquanto uma lágrima rola pela face:
– Estrela.
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