Em Busca do Oculto
6 Capítulo 5
Notas iniciais
Olhei para Daniel e ele me olhou de volta com um pequeno sorriso no rosto, aquele sorriso que somente ele sabia dar. Sentei-me em uma das poltronas e comecei a folhear o livro, havia diversos contos, como um diário, cada coisa contada pela filha do rei.
“O sol das 14hrs queima meu rosto neste insano momento, me encontro sentada em minha árvore, pensando em como as coisas mudaram, a tristeza que rodeia o reino me faz querer chorar, a maldade entrou no coração do rei e ele se deixou corromper pelo sentimento mais lindo e destruidor, o amor. Minhas irmãs estão cada vez mais distantes e tristes, Lorelai já não cultiva suas rosas, Amelie foi embora com seu marido para a superfície, Madeline está cada vez mais próxima de nossa madrasta Lila, sinto que ela também está sendo corrompida e de Camile, só nos restaram às lembranças. A morte de minha irmã caçula não foi um acidente, me lembro da cena de Madeline manipulando a mente de Algustus, fazendo com que ele empurrasse minha pequena Camile penhasco abaixo, em seguida se juntando a ela em uma queda livre. Guardo esse segredo comigo, para me lembrar do fardo que carrego, e de como é triste prever os acontecimentos, mas não muda-los ou impedi-los. Só espero que minha pequena possa ter uma vida digna, que nasça com honra, que encontre o amor, e que não tenha seu coração corrompido, sei que tenho pouco tempo com ela, mas prometo nunca abandona-la.”
− É um diário, a escritora conta sobre sua família, e pelo que vejo não é uma história muito feliz. – Eu disse após ler o trecho sobre as irmãs infelizes do submundo.
− Essas são as filhas do rei minha cara, elas eram as mais adoradas do submundo, eram não, ainda são! – O bibliotecário comentou animado.
− Como sabia que eu viria? Quem é você? – Perguntei curiosa para descobrir quem era o misterioso homem em minha frente.
− Sou Lucius, fui destinado a proteger o livro até que você chegasse e abrisse-o. – Ele disse com olhar de admiração.
− E quem pediu pra você proteger?
− A escritora do livro.
− E quem escreveu o livro?
− Sua mãe!
Houve um pequeno silêncio pelo choque que eu e Daniel levamos.
− Minha mãe? Você a conheceu? – Fechei o livro e me pus em pé.
− Mais do que qualquer outra pessoa minha cara, sua mãe era minha protegida. Estive com ela em seus melhores e piores momentos, eu vi você nascer querida Christie.
Nesse momento fomos interrompidos pelo som estridente do meu celular, a musica de toque parecia mais alta naquela sala. Pulei em um susto.
− É Virginia. – Eu disse e atendi.
− Oi Chris, e ai, o que vai vestir hoje?
− Oi Gini, meu pijama talvez.
− Não acredito que você não vai! – Ela gritou.
− Como assim? Não vou pra onde?
− A festa do time, qual é você disse que ia, disse que ia com Daniel ainda. Não sabia que vocês estavam ficando.
− Caramba Virginia, eu me esqueci. Não sei se posso ir e eu não estou ficando com ninguém, se estivesse você saberia.
− Chris, eu nunca vou te perdoar se você não for, nunca! – Ela fez o tom mais dramático que conseguiu.
− Nossa como você é dramática, muito dramática.
− Também te amo, as oito na casa da Brooke. – Ela disse e desligou.
Desliguei meu celular e olhei pra Daniel que sorriu e abaixou a cabeça.
− Uma festa, logo hoje. – Eu disse e sorri como quem não estava nada animada, e eu realmente não estava.
− Anime-se Christie, uma boa bruxa também se diverte, sua mãe adorava festas, acredite. Ela sabia se divertir. –Lucius disse em tom de zombaria.
− Não acha que eu deveria continuar estudando? – Perguntei com ironia.
− Minha querida, o livro não saíra daqui, e você tem tempo para desbravar o oculto, vá e divirta-se, sua mãe ia querer isso! – Eu sorri ao ouvir isso.
− Dan, parece que temos uma festa hoje.
Daniel me deixou em casa e eu fui tomar um banho. As palavras de Lucius ecoavam na minha mente, ele havia conhecido minha mãe, e ela escreveu um livro, do qual só eu posso ler. Comecei a me perguntar se todas as vozes na minha mente não seria ela me guiando para a direção correta, onde eu deveria estar, onde eu estou. Tudo era confuso, minha vida havia mudado de um dia para o outro, ainda não sabia se estava feliz ou não. Tudo que eu sabia, era que durante toda a minha vida desacreditei de muitas vertentes espirituais, e agora, eu não tinha certeza de nenhuma delas, pois tudo parecia extremamente real.
Sai do chuveiro e comecei a vasculhar minhas roupas a procura de algo mais novo para vestir, não seria uma festa chique nem nada, mas queria estar mais apresentável. Vesti uma saia preta, mais curta do que eu normalmente costumo usar, uma blusa de renda preta, minha clássica jaqueta de couro e calcei meus coturnos de cano alto. Fiz uma maquiagem básica, gostava do meu rosto pálido, quando vestia roupas pretas ele aparecia mais e me deixava com uma feição de morte, e eu gostava bastante.
Desci as escadas correndo e dei um beijo na testa de minha avó que estava deitada no sofá, escrevi um bilhete dizendo que voltava logo, e desenhei um coração, desde pequena tinha essa mania, eu saía e deixava bilhetes com corações, era o meu modo de dizer que a amava.
Segui para a esquina e lá estava Daniel, me esperando, ele usava uma calça preta, botas, uma camisa do Behemoth e uma jaqueta preta. Seu cabelo estava solto e caia perfeitamente sobre seus ombros, ele estava incrivelmente bonito.
− Ual! Mas como você está bonito! – Eu disse e girei em torno dele.
− Obrigada Chris, você sempre está. – Ele respondeu com certa vergonha.
− Vamos, temos umas líderes de torcida para atormentar hoje.
Seguimos para a festa e pelo caminho conversamos sobre toda essa coisa de magia, Dan me contou mais sobre o seu povo, nosso povo na verdade, comecei a aceitar minha origem e me interessei mais por cada detalhe do Mundo Oculto.
Chegamos à festa e logo encontrei com Virginia e Soraya, elas bebiam perto de uma janela, Brooke veio nos cumprimentar e elogiou meu cabelo. Daniel parecia deslocado, fui pegar uma bebida enquanto ele se acomodava em um canto. Quando passei pelo corredor em direção à cozinha pude ouvir alguns barulhos vindos do banheiro, olhei pelo vão da porta e vi John e Alicia, uma das líderes de torcida, eles estavam se pegando ferozmente no banheiro.
− Idiota! – Sussurrei pra mim enquanto caminhava.
Fui em direção a Daniel que me olhava com olhar carinhoso, nunca havia reparado no modo como ele me olhava, nem no modo como eu o olhava, parecia que já nos conhecíamos há muito tempo. Em pouco tempo ele conseguiu conquistar boa parte de mim e sua amizade era algo que eu estimava muito, talvez mais do que o necessário.
− Por que está me olhando Chris? – Ele perguntou e sorriu.
− Não sei. Só gosto de te olhar. – Respondi e retribui o sorriso.
A música era animada, não do tipo que eu gostava, mas era animada, as meninas dançavam e os meninos bebiam, falavam das meninas e riam entre si, uma típica festa adolescente. Olhei para o lado e vi Erick se aproximar de Soraya e beijando-a, vibrei por dentro. Imaginei como isso seria assunto por um bom tempo na minha roda de amigos. Minha alegria se transformou em preocupação, da ultima vez que Erick e Soraya ficaram, ele ficou um bom tempo a ignorando, e depois voltaram a conversar como se nada tivesse acontecido.
− Eles vão ficar juntos! – Daniel tocou meu ombro chamando minha atenção.
− Como tem tanta certeza?
− Eu só sei Chris, só sei. – Ele disse e foi em direção à saída da casa, não entendi, mas o segui.
Quando cheguei ao lado de fora da casa, ele estava encostado em uma árvore, o pé esquerdo apoiado no tronco e as mãos nos bolsos da calça, ele era extremamente charmoso. Eu passaria o resto da vida olhando-o, ele me encantava. Era como se eu não respondesse por mim, só aceitava o que meu corpo fazia.
Fui até ele que me recebeu com o mesmo sorriso de sempre, algo acolhedor, como quem já sabia o que eu ia fazer ou quando eu ia chegar.
− Por que faz isso? – Perguntei.
− Isso o que?
− Sorri desse jeito quando eu chego, é tentador e parece que já sabe que estou prestes a chegar. — Eu disse me aproximando.
− É que eu sei quando você vai chegar.
− Como?
− Eu sinto!
− Parece que essa jaqueta te deixou mais galanteador.
− Acredite, não é a jaqueta.
− E o que é então?
− Você. – Seu rosto estava baixo, mas eu sabia que nesse momento ele sorria.
Cheguei mais perto dele e toquei uma das ondinhas que se formavam no seu cabelo, depois segui contornando seu rosto com o dedo indicador. Estávamos muito próximos. Ele então tocou meu rosto e eu descansei a cabeça em sua mão, era como se só existíssemos nós ali. Seus olhos estavam fixos nos meus e nossos rostos tão perto um do outro. Aquele momento poderia ser eternizado, parado ali, não me importaria em passar toda minha vida ali.
E então aconteceu, em um gesto delicado, carinhoso e super esperado, devo admitir, nós nos beijamos. Foi calmo, e pude sentir todo cuidado dele por mim, diferente de John e de todos os meninos que eu já havia beijado na minha curta vida, foi único e extremamente mágico, pois ali eu sabia que não era só sobre o beijo, só sobre a atração física, só sobre corpo a corpo. Era sobre mim, era sobre nós.
Após me beijar, Daniel me olhou com um sorriso afetuoso e retribuí com o melhor que pude, o beijando novamente. Dessa vez mais ferozmente, mostrando como eu queria aquilo. Após trocar mais alguns beijos fomos caminhar pelo jardim de Brooke.
− Gosto de você Christie. – Ele disse enquanto caminhávamos.
− Também gosto de você Dan. Mais do que devia. – Disse e sorri envergonhada.
− Esperei muito por você. – Seu sorriso sumiu nesse momento, mas seu olhar ainda era o mesmo. – Você se escondeu bem, sua mãe te escondeu bem, quero dizer.
− Eu sinto muito, se eu soubesse, eu mesma iria te encontrar. Mas como você sabe, cresci sem saber nada sobre o mundo oculto. Sem saber sobre mim. – Nesse momento ele pegou minha mão e parou de frente para mim.
− Ei, entenda, sua mãe fez o melhor pra você te escondendo de todos, só assim garantiu que você estivesse viva, e ela sabia que eu te encontraria. Sua mãe era mais esperta do que você imagina. – Não pude evitar sorrir ao ouvir sobre ela. – Ainda que você estivesse do outro lado do mundo Chris, eu te acharia. – Soltei uma risada e voltamos a caminhar.
− Espero que não tenha usado magia para fazer com que eu me sentisse atraída por você. – Brinquei olhando nossas mãos juntas.
− Nem se eu quisesse, sua magia é mais forte que a minha, e bloqueia todo tipo de manipulação, até mesmo a minha.
− Então realmente estou gostando de você, caramba! – Admiti em tom de susto, seguido por diversas gargalhadas.
− Parece que sim Chris.
Decidimos que a festa não estava a nossa cara e fomos para a mesma montanha de antes, dessa vez sem bebidas nem nada, somente nós e meu mp3, que tocava músicas dos anos oitenta. Ali seria, a partir daquele momento, o nosso lugar, dessa vez mais intimo e com sentimento.
− Dan, como você me imaginava? Quero dizer, como imaginava que seria a sua protegida? – Milhares de perguntas surgiam na minha mente, mas nesse momento, só as que se referiam a nós importava. – A aparência dela, o jeito, como ela seria na sua mente?
− Menos marrenta e agressiva, com certeza. – Ele disse com ironia.
− Eu não sou marrenta. – Respondi fingindo estar ofendida.
− Imagine se fosse. Mas veja bem, eu nunca consegui imaginar você, eu sabia que seu cabelo era escuro, pois sonhei durante muito tempo com você, desde os meus doze anos você atormenta minhas noites de sono. – Ele brincou acariciando minha bochecha. – Uma pena não ter visto seu rosto antes.
−Se pudesse trocar de protegida, trocaria?
− Nem pela mulher mais linda e poderosa do mundo oculto, eu jamais trocaria você por nada em nenhum mundo. Você é o que eu mais estimo e vou lutar por você e com você até um de nós morrermos. – Ele disse serio olhando no fundo dos meus olhos e segurando com firmeza a minha mão.
− É uma bela declaração, tirando a parte de que podemos morrer. – Respondi desviando o olhar.
− Você deveria dizer que me ama ou me beijar ao invés de procurar defeito na minha declaração ensaiada.
− Serio que ensaiou isso? – Mal consegui pronunciar as palavras em meio às risadas.
− Não, eu não conseguiria. Seria ridículo, se já não foi.
− Foi fofo, e eu adorei. – Disse isso e encerrei nossa conversa com um beijo.
Eu não sabia se amanhã seria como hoje, se ficaríamos juntos ou se eu me machucaria. A única coisa que eu queria, era aproveitar aquele momento, que eu nunca acreditei que viveria. Pois naquele momento, pela primeira vez em toda minha vida, eu experimentei um amor, que não era somente maternal ou fraternal, mas do qual eu não era capaz de explicar, eu finalmente me sentia amada e querida. Somente aquilo, aquele momento bastava pra mim, e se ele acabasse ali, e nunca mais acontecesse, eu seria eternamente grata.
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