Em Busca de Teu Perdão
2 Capítulo 2 - Um Passado Presente
Notas iniciais
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Flashback On
Rio de Janeiro — 1868
Maria estava muito ansiosa. Esteban costumava vir todos os dias, mas fazia algum tempo, às vezes tardava dois ou três dias em aparecer. Sofia se preocupava pela aflição da filha. Esteban era um bom homem e havia lhe prometido casamento, mas ela sabia que, naquela sociedade, uma mulher sem dote era considerada pouca coisa. O casamento era visto como um bom negócio para homens como Esteban. Se lembrava de seu marido Tomás e da ventura que havia sido que ele a tivesse amado tanto ao ponto de romper com toda sua família e se dedicado a viver uma vida modesta com ela e a filha que tiveram. Mas temia pelo destino de Maria. Jamais a podaria, podaria suas asas e seu entusiasmo em estar vivendo um grande amor porque ela mesma havia vivido um amor improvável, mas Maria era seu tesouro, sua única filha.
Em nenhum momento do dia Maria deixava de ir até a janela sem conseguir esconder sua inquietude pela iminente visita de Esteban. Às 4 da tarde chegou um garoto com uma mensagem de Esteban e disse que esperava a resposta dela para levar até ele. A alegria encheu o coração de Maria. O homem que amava estava pensando nela, a estava buscando. Abriu o bilhete e leu cheia de emoção. Pediu ao garoto um tempo e foi até o quarto de costura, onde sua mãe trabalhava com Úrsula contando o que havia acabado de acontecer.
_ Mamãe, Esteban me enviou uma mensagem, quer me ver esta noite. – disse sem disfarçar sua emoção.
_ Que bom, filha. Não sei o que aconteceria com você se o senhor San Roman deixasse passar mais um dia sem te visitar. Acredito que de Santa Teresa ao Catete se note o quanto você está apaixonada por seu noivo. Tome muito cuidado por tanto amor, minha filha.
_ Claro que eu vou tomar. Mas não é maravilhoso amar e ser amada, mamãe? – disse com o rosto iluminado pela alegria de falar naquele amor.
_ Sim, é maravilhoso. E você merece todo o amor deste mundo, filha. – Concordou Sofia.
_ Mas o que eu queria falar com a senhora, é que Esteban não mandou avisar que vem me visitar esta noite e sim enviou a mensagem para me fazer um convite e quero sua autorização para sair com ele.
_ Sozinhos? – Se preocupou Sofia.
_ Ele é meu noivo, mamãe, logo vamos nos casar e eu não sou uma moça da sociedade para que todos falem do que eu faço. – Maria insistiu para ter a permissão da mãe.
_ E onde ele quer te levar?
_ Ao teatro. Não o Teatro Municipal que está reservado apenas para as famílias abastadas, das quais, nem Esteban nem eu fazemos parte, mas o Recreio Dramático. Tem uma obra muito boa e ele quer que a vejamos juntos. Ele quer vir me pegar às 7 da noite.
_ Está bem, você pode ir. Mas esteja em casa cedo, filha! Mesmo que você não seja uma moça da sociedade, não é bom dar motivos de que falar aos que te conhecem. A honra de uma mulher, é o bem mais precioso dela. – concordou Sofia sem deixar de orientar Maria.
Maria explodiu de felicidade. Deu um salto e um beijo carinhoso na mãe e outro em dona Úrsula que costurava com ela e correu para a sala para preencher o bilhete de resposta a Esteban. Estar com o homem que amava em qualquer lugar era maravilhoso. Se preparou, com toda pompa que sua modesta condição permitia para aquele encontro da tarde. Prendeu os cabelos de modo a deixar caídos alguns cachos negros sobre o pescoço e os ombros e se perfumou discretamente. Mas mesmo com a discrição no vestuário, sua beleza reluzente chamava atenção.
Quando Esteban chegou, um pouco antes das 7, se surpreendeu com a beleza com que Maria estava vestida. Qualquer um que a visse diria que ela era uma mulher da sociedade, como Ana Rosa, que estava comprometida com seu melhor amigo, Alfredo e que ele havia conhecido um pouco antes. Seus cabelos negros deslumbrariam qualquer homem que olhasse para ela num primeiro contato. Aqueles olhos verdes lhe davam uma pose involuntária de altivez e a alegria que via neles...
Esteban se comprometeu com Sofia a trazer Maria a tempo para casa, o espetáculo teria um pouco mais de duas horas de duração e eles poderiam visitar um amigo que vivia sozinho naquela rua e costumava reunir jovens amigos para falar sobre poesia, plano que encantava Maria. Se despediu animadamente da mãe e se surpreendeu ao ver a linda carruagem que Esteban havia trazido para levá-la ao teatro. Lembrava as carruagens inglesas, negra e toda fechada, com uma pequena janela que podia ser coberta por uma cortina. Ele contou que esse amigo do sarau lhe havia emprestado para que ele pudesse conduzir sua noiva como a mulher que ela era: uma grande dama.
Maria ficou feliz com os galanteios e a privacidade que a carruagem permitia, que nem mesmo o cocheiro podia se dar conta do que se passava dentro dela, os incentivaram a se lançar a beijos quentes e apaixonados. Maria conhecia pouca coisa sobre o sexo, mas sabia que o que Esteban lhe fazia sentir era algo arrebatador, todo seu corpo era invadido por um intenso calor quando se beijavam, sentia seu gosto, sua língua, suas mãos sobre seu rosto, sobre seus cabelos. Ela ficava inebriada com as carícias de Esteban e seu impulso era despir-se, se entregar, mesmo sabendo o que aquilo significava. De repente, sentiu a mão de Esteban por baixo de suas saias afastando a liga de sua lingerie e acariciando deliciosamente suas coxas. Ela se assustou com o contato e segurou a mão dele.
_ Não, Esteban! Não podemos!
_ Eu sei. – ele disse ofegante – É que você me deixa louco, me faz perder o discernimento. – tirou a mão da perna dela e segurou suas mãos acariciando-as – Não pense que eu não te respeito Maria. Mas tenho uma urgência para que você seja minha mulher, você não sabe quanta. Eu te amo.
_ Também te amo, Esteban. Te amo e estou disposta a te entregar toda minha alma. É que me faz tão feliz estar com você que vale tudo. A minha vida inteira.
Esteban voltou a beijá-la comovido por tão emocionante declaração e Maria já se esqueceu outra vez da compostura e se entregou aos beijos e ao carinho do homem que amava. Beijaram-se apaixonada e despudoradamente e ele voltou a tocá-la de maneira libidinosa e Maria sentia que perdia seu sustentáculo com aquela maravilhosa sensação. Ele beijava seu pescoço, sua orelha e alcançou sua intimidade com a mão, dessa vez, sem resistência dela que sentiu desfazer-se. Jamais havia experimentado uma sensação tão arrebatadora como aquela e se sentia ainda mais apaixonada por Esteban por ser ele o homem que lhe apresentava o amor. Ele acariciava sua intimidade úmida, tomada pela excitação daquele contato, e Maria era envolta por sensações de prazer que jamais havia experimentado e que não queria deixar de sentir. O deslumbramento que envolvia os dois foi interrompido pelo breque da carruagem e a voz do cocheiro anunciando que haviam chegado ao teatro. Esteban desceu e apoiou Maria para que ela descesse também e ela ficou envergonhada ao recordar aquele momento de intimidade que haviam tido dentro da carruagem.
Esteban pediu que ela esperasse próxima à carruagem e foi até a entrada do teatro. Ela ficou feliz de não ter que olhá-lo e que ele se desse conta do quanto ela estava ruborizada com sua incapacidade de detê-lo em suas tentativas dentro da carruagem. E se ele pensasse que ela era uma mulher depravada? Uma mulher sem honra, que não se dava ao respeito? Porque todos sabiam que era dever da mulher zelar por sua honra e que ela devia entregar-se apenas a seu marido. Temia que ele acreditasse que ela não era uma mulher “para casar-se” depois de tentar ter intimidade com ela e ela não ter oferecido muita resistência. Minutos depois Esteban voltou, sem nenhum rastro dos pensamentos que despertavam o temor de Maria com uma notícia desanimadora:
_ Meu amor, você não vai acreditar.
_ No que Esteban? – Ela procurava disfarçar seus temores.
Flashback Off
***
Retomemos o diálogo de Maria e Esteban na sala da casa dela...
Em nenhum momento Maria demonstrou variação em seu estado de espírito o que confundia Esteban. O confundia porque apesar de exercer sobre ele o mesmo fascínio de dois anos atrás ela nem de longe lembrava aquela menina inocente e submissa que ele havia amado e permanecia amando. Sua altivez e segurança de si eram espantosos, era como se agora, os papéis houvessem se invertido. Ela não se sentou, nem demonstrou inquietação, mas ele sabia que ela esperava uma resposta ao que lhe havia questionado. Esperava e merecia.
_ Romper nosso compromisso foi a maior estupidez que eu fiz na minha vida, Maria.
_ É mesmo? – ela voltou a inquiri-lo sem abandonar sua altivez.
_ Sim! Desgraçou a minha vida, eu me senti muito mal pelo que lhe fiz.
_ Eu imaginei que tivesse superado. Logo que rompeste nosso compromisso, conheci o senhor Alfredo e ele me contou que você havia se comprometido com a senhorita Ana Rosa Vasconcelos, que havia tido uma relação com ele e oferecia um grande dote. Imaginei que estivesse muito bem.
_ Mas eu não estava. Estava tomado pela culpa e pela preocupação com você e seu destino. Sobretudo depois que soube da morte de sua mãe. Fui te procurar algumas vezes, mas ninguém sabia de você. Indaguei seus vizinhos, todos que te conheciam. Carregaria isso na minha consciência por toda a vida se não fosse essa surpresa de hoje.
_ Eu não imaginaria isso. Na verdade eu pensei muito pouco nisso esse tempo todo. – mentiu, Maria.
_ Você acredita? Acredita que eu nunca quis te fazer mal? – ele indagou ansioso.
_ Deixemos o passado no passado, Esteban. – Ela fez não se importar. – Nos encontramos amanhã na nossa cerimônia de casamento. Esteja me esperando no altar.
_ Esteja segura disso. – garantiu ele estendendo a mão que ela segurou de maneira sedutora. – Não há nenhum lugar no mundo que eu possa estar para o resto de minha vida senão a teus pés. – Disse galante.
Maria respondeu apenas com um sorriso e se despediu vitoriosa de seu noivo. Sentia-se satisfeita por perceber que teria Esteban à sua disposição como havia planejado durante muito tempo. Viu como ele recolheu seu chapéu e retirou-se de sua casa já no meio da noite, ainda incrédulo daquele reencontro que acabava de ocorrer. Já havia ouvido falar da herdeira de Paracambi, a mesma com quem ele havia firmado compromisso através de Pedro Irajá. Que era uma mulher muito rica e havia conhecido sua sensibilidade através das cartas que trocara com ela. Como imaginaria que essa mulher, recém-chegada à corte e com quem estava comprometido à se casar, fosse aquela mesma que ocupava ainda suas culpas e a lembrança de um amor puro e doce pouco mais de dois anos antes.
Talvez ela realmente o tivesse perdoado e estivesse pronto à começar tudo de novo como lhe dizia, mas algo lhe soava estranho e amedrontador em tudo aquilo. Era perfeito demais. De toda forma, estava prestes à entender de vez suas intenções. Na tarde seguinte se uniria em núpcias perpétuas com ela. Sua visão romântica do casamento não existia, mas não podia imaginar, nas circunstâncias que fossem, nada melhor que fosse com a mulher que amava. Com a mulher que havia amado com loucura. Como ansiava a oportunidade de novamente fazê-la sua. Tê-la em seus braços e compartilhar a vida, toda a vida. Que o tempo passasse rápido e a tarde seguinte chegasse logo.
Maria se recolheu à seus aposentos triunfante. Sabia que ele não desistiria e que o havia deixado deslumbrado, pôde ver em seus olhos, em suas atitudes, na forma que ele beijou sua mão ao se despedir, na forma que a olhou enquanto ela descia as escadas. Teria aquele homem em suas mãos como havia planejado. E se pudéssemos realmente ser um casal apaixonado que se casa e pode viver seu amor? Indagou-se Maria. Não! Exclamou fortemente para si. Não depois de tudo que ele me fez! Recordou dolorida. E ainda há ela! Por ela eu tenho que manter me firme! Foi o primeiro sinal de hesitação que apareceu em Maria. Mas era natural que ela embrandecesse, era algo que ia de acordo com a natureza das mulheres. No dia seguinte teria que estar mais firme que nunca e recordar dos motivos que a faziam tomar aquela atitude e unir sua vida à de Esteban, mas nunca, jamais voltaria a se mostrar frágil e entregue diante dele, jamais! Disso estava completamente segura.
***
Na tarde seguinte o jardim estava singelamente enfeitado para a cerimônia. Não seria uma grande festa, a Maria lhe causava repulsa a ideia de grandes reuniões sociais, de pessoas representando papeis de pompa e circunstância exibindo luxos e cunhando conversas rasas e superficiais. Sabia que jamais pertenceria àquele mundo, jamais. Seu noivo estava esperando-a no altar, ao lado de sua mãe. O padre que realizaria a cerimônia seria o padre Belisário, que conhecia Maria e havia sido seu confessor desde criança. Esteban sorriu ao ver a beleza de sua noiva que despontou no fim do tapete. Todos a olharam enquanto ela caminhava sorridente. Seu vestido não trazia saias muito pomposas. Era branco, mas singelo. A sofisticação estava na incrível esmeralda que ostentava sobre seu pescoço e na tiara também com pedras verdes sobre seus cabelos sobriamente presos.
Esteban recebeu a milionária órfã com um sorriso de orelha a orelha e a conduziu até o altar onde padre Belisário ditou o discurso comum de uma cerimônia de casamento. Todos se admiravam da aparente felicidade dos noivos. Sabiam que eles pouco se conheciam e mais que Esteban tinha fama de oportunista e interesseiro. Era conhecido como o caça-dotes. Mas naquele dia pareciam um casal apaixonado recebendo as bênçãos de Deus para uma união que indicava durar até que a morte os separasse.
Após o casamento, a primeira valsa foi dos noivos como tinha que ser e todos os aplaudiram. Como Esteban a conduzia delicadamente pelo salão, era como se ela deslizasse guiada por ele. Teve a impressão de sentir que Maria se esquivou de um beijo que tentou dar-lhe após a dança dos noivos, mas preferiu não ocupar sua mente com essa dúvida porque era apenas isso, uma dúvida. E agora estavam casados. Suas vidas haviam sido unidas em matrimônio, um laço que devia uní-los, para bem ou para mal, durante toda a vida. Assim dispunha aquela “sociedade” que Maria tanto repudiava. A festa durou um longo tempo, rompeu noite adentro com música, bebida e uma aparente alegria. Irajá animava a todos no salão com suas anedotas e dizia que se sentia aliviado porque agora sua menina já tinha um esposo. No fundo se remoía por deixar de ser seu tutor, por não poder controlar mais seu dinheiro, mas não deixava que todos conhecessem sua ambição.
Com o esvaziamento do belo salão da mansão de Maria, e o afastamento das carruagens, finalmente os noivos estavam sós. Rodeados apenas dos empregados e todos que estavam ali para servi-los como Maria havia disposto. Esteban foi conduzindo até a câmara nupcial, onde Maria e ele consumariam sua união e estariam juntos, depois de espiritualmente se tornarem um perante Deus, agora voltariam a unir-se fisicamente, a fundir seus corpos como se realmente fossem um. Esteban pensava na beleza da mulher que ele possuía. Sentia-se o homem mais venturoso de todo o mundo, voltaria a experimentar a incrível sensação de possuir aquela incrível mulher.
Abruptamente foi tomado por um pensamento aterrorizante, insuportável para sua mente machista e apaixonada: e se houvesse pertencido à outro. E se tivesse se entregado a outro com a mesma doçura e paixão que havia sido dele dois anos antes? Sorriu num acometimento de presunção: Não Esteban, não pense nisso. Maria te ama. Só ama a você como você só amou a ela. Se censurou por haver se deixado acometer por um pensamento tão infame como aquele. Maria jamais perteceu ou pertenceria a outro homem. Era dele, inteiramente dele, e, a partir daquela noite, com a bênção de Deus.
Depois de um tempo que pareceu uma eternidade Maria finalmente adentrou à câmara nupcial. Mas ela realmente havia tardado, não era algo da ansiedade de Esteban. Maria o observou enquanto ele permanecia sentado no sofá onde a esperava desde que o empregado o conduzira àquele aposento. Era um homem bonito, com um porte incrível. Vestia um robe de seda que ela havia cuidadosamente separado para que seu marido vestisse em sua noite de núpcias. Ele percebeu isso com um carinho, uma prova do cuidado dela para com ele. As verdadeiras intenções de Maria jamais passaram por sua cabeça. E nem seria possível, a Maria que ele conheceu era muito diferente daquela que estava diante dele naquela câmara nupcial, aquela que agora era sua esposa.
Como sempre, a beleza de Maria deslumbrava ao San Roman. Ela também vestia um robe com um detalhe branco na gola, mas com um decote que exaltava seus seios atraentes. O robe era da cor púrpura e Esteban pensou que aquela devia ser cor preferida, ou seria agora, pois já era a segunda vez que a via portando uma peça de roupa daquela cor. E em duas ocasiões importantes. Porque a noite de núpcias é um dos momentos mais especiais da vida de uma mulher. E quem a visse admiraria a forma como ela se arrumava para seu marido, para a primeira noite de amor do casal. Ela sentou-se ao seu lado e sustentou um estranho sorriso.
_ Aqui estou, meu senhor.
Esteban ajoelhou-se diante dela, olhou-a com olhos de amor e reclamou-lhe:
_ Como você demorou, Maria.
_ Eu precisava desprender-me de algo. Desprender-me de uma vez para pertencer toda a meu único senhor – ela galanteou com um sorriso cínico.
_ Isso seria minha mais maravilhosa alegria na vida. Viver toda ela à teus pés, adorando-te como uma verdadeira deusa que inspira os mais lindos sentimentos a meu coração, Maria.
Maria recostada no canto do sofá e os olhos brilhando mirando a Esteban com uma ternura que somente ela possuía, escutava os afagos de seu marido. Esteban percebia as reações dela, como se emocionava com aqueles afagos de amor que ele a dedicava ajoelhado a seus pés em um lindo gesto de amor.
_ É verdade? Você me ama, Esteban? – Maria indagou friamente.
_ Por que a pergunta? Você tem dúvidas? – Esteban estranhou
_ Você me amou sempre, desde o primeiro dia que nos vimos? – Maria ignorou seu estranhamento e seguiu questionando-o.
_ Não foi o que eu te disse ontem?
_ Você nunca amou a nenhuma outra? Nenhuma outra mulher?
_ Isso eu posso te jurar, Maria. Meus lábios jamais tocaram com amor a outra mulher. Esse beijo de amor eu guardava para você, minha senhora, minha esposa, a única que eu amo.
Aproximou-se dela com paixão, estava louco para tomá-la em seus braços e que ela pudesse novamente ser dele, não suportava mais a ânsia por beijá-la. Quando se aproximava, o rosto de Maria ficou lívido e ela respondeu com uma inesperada afronta.
_ Ou de outra mais rica!... – afirmou afastando-se levemente para evitar o beijo de Esteban afastando sua boca com as pontas dos dedos. Sua voz inclusive ficou mais grave, a ternura desapareceu de sua expressão e de sua voz.
_ O quê? O que significa isso, Maria? — Esteban ficou pasmo com aquele confronto, desconhecia a esposa, desconhecia Maria.
_ Representamos uma comédia, na qual ambos desempenhamos o nosso papel com perícia consumada. Podemos ter este orgulho, que os melhores atores não nos excederiam. Mas é tempo de pôr termo a esta cruel mistificação, com que nos estamos escarnecendo mutuamente, senhor. Entremos na realidade por mais triste que ela seja; e resigne-se cada um ao que é, eu, uma mulher traída; o senhor, um homem vendido!*
_ O que você disse? – indagou Esteban dolosamente ferido – Vendido?
_ Vendido, sim! – afirmou Maria sarcástica e impiedosa. – Não há outra palavra. Eu sou uma mulher milionária e essa sociedade exige para as mulheres honestas um traste indispensável: um marido. O senhor estava no mercado e eu arrebatei-lhe por cem contos de réis. E te garanto, Esteban: custou pouco! Daria o dobro, três vezes mais apenas pela satisfação desse instante. Você se vendeu e eu o comprei, a partir desse momento você é meu patrimônio, parte da herança que me presenteou meu avô. Você me pertence, sua alma me pertence.
Ela o olhava desde cima. Ele não se levantara, não havia mudado de posição permanecia no chão, abatido e humilhado enquanto ela desfrutava do prazer da posse, da humilhação e da vergonha que impunha à Esteban.
_ Meu marido tem interesse em conhecer as razões porque eu o comprei de preferência a qualquer outro? Deseja saber o que envolve e consome a minha alma há dois anos? Levante-se, sente-se nessa cadeira e não me interrompa que lhe contarei todos os motivos.

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