Em Busca Do Amor Da Lua
22 O Passado Vem à Tona
Notas iniciais
Isa acabara de acordar desorientada. Não sabia se era dia ou noite. Quando olhou a janela percebeu que era madrugada e a luz do sol já surgia timidamente. Mú estava ao seu lado dormindo tranquilamente. Pelo menos alguém naquele quarto dormia tranquilo. Sem conseguir conciliar o sono graças aos pesadelos que envolviam o passado e a exigência de Shaka, Isa caminhou até o jardim, se agasalhando por causa do orvalho que umedecia a terra.
Ficou algum tempo parada, olhar fixo, pensamento longe. Um movimento ao longe a trouxe de volta a realidade. Mú encostou a mão no ombro da lunar que sorriu com o toque quente.
__ Não queria te acordar! Estou um pouco nervosa. – Isa tomou a mão do dourado e encostou seu rosto nela.
__ Acho que deveria me contar por que anda tão nervosa, ansiosa. – Mú tinha um sorriso tímido de apoio à amada. – Ainda não me contou por que mudou tanto seu físico depois que viajei.
__ Te falei que foi num desmaio. – Isa abaixou os olhos para as mãos.
__ Para o pouco tempo que temos juntos, te conheço o suficiente para saber que anda me escondendo algo. Só não entendo quando foi que perdi sua confiança ou quando não fui merecedor dela. – Mú se controlava muito para não se emocionar.
Já lunar não teve tanta compostura. Ao ver o rosto do amado e ouvir as últimas palavras, a represa de lágrimas se rompeu. Aquele seria o momento que teria que revelar toda a triste história de suas vidas e passado.
Mú tentou secar as lágrimas inutilmente. Com os afagos do dourado, Isa cessou seu choro passando para uma expressão de conformismo. Fosse seu resultado ruim ou não, Isa sabia que o fim do segredo era agora.
__Está certo Mú. Venho de fato carregando um segredo que pertence a nós dois. E mesmo sem eu saber, foi o motivo de ter vindo para o santuário. – Isa sorriu fraca.
Mú estava um tanto curioso, mas não poderia imaginar o tamanho da consequência que conhecer essa verdade traria a si.
__ Melhor que contar é trazer tua memória de volta. – Isa tocou a fronte de Mú e seu cosmo brilhou envolvendo os dois. __ Agora a verdade será revelada.
Em meio aquele turbilhão Mú começou a assistir memórias que entendeu finalmente serem suas.
“Uma desavença no Olimpo. Os deuses não aceitaram a paixão da deusa lunar pelo pastor Endymion. Fizeram uma armadilha. Zeus ofereceu o um presente a Endymion que pediu a juventude eterna. E num sono eterno permaneceu jovem e bonito, mas sem viver as aventuras da juventude.
Selene vira todo espetáculo criado pelos deuses. Já que Endymion desejou a juventude ao invés do amor da deusa, Selene não poderia fazer nada. Sofreu séculos por aquele que não hesitou um segundo para escolher outro presente em detrimento do seu amor.
Mas Eros não descansava em seu trabalho e a deusa se apaixonou outra vez, superando o mal do antigo amado egoísta. Mas de nada adiantou. Aquele humano era odiado pelos deuses pela descrença que os levou a cair.
Eliminado pelos deuses, a jovem deusa estava de luto. Cansada desse mando e desmando dos deuses, preferiu se afastar de todos. Desapareceu por séculos até um plano criar e executar.
Lá estava à deusa Selene em forma humana. Seus poderes restringidos para não ser descoberta pelo Olimpo. Moça graciosa se tornou. E umas das sacerdotisas da deusa Athena se transformou. A deusa era conhecida por desafiar os deuses em defeso dos humanos. Ali pelo menos estaria segura.
Ah, mas Eros trabalha, ah e como trabalha esse travesso. Aprontou de novo com deusa agora humana. E de um amor mais proibido lançou a deusa menina. Da elite dos guerreiros de Athena, seu amor caiu. Era um jovem grego de olhar decidido e muito amável. Encantador de primeira classe, a deusa conquistou. A reciprocidade permeou a amizade dos dois, que evoluiu para um amor sincero. Não era de aparências e nem ambição, o casal era pura entrega.
Estavam felizes, mas alguém já conspirava. A deusa da caça em encalço já estava. No poder emanado das sacerdotisas teve a certeza: a moça de pele clara e cabelos prateados de origem divina era. E pela noite, se escondendo e espreitando a sua caça, Ártemis a surpreendeu.
Numa discussão acalorada as deusas se envolveram. Mesmo humana, na essência era deusa. Não, dessa vez não. Os deuses não mandavam em seu destino. A ameaça então pairou sobre Selene que se assombrou. Em palavras duras Ártemis proferiu a maldição:
Quando do Mortal a deusa conceber,
Pelas mãos do homem, a morte há de conhecer.
Não haverá fruto desta afronta aos deuses,
Que não se repita mais vezes.
Se como mortal queres amar, Selene,
Como mortal viverá.
Da decepção e traição, a dor conhecerás.
Da impotência sentirás o peso.
A maldição está lançada,
Duramente será aplicada.
Como destino se repetirá,
Até que a deusa supere sua rebeldia.
Assim foi convocado os poderes dos deuses. Selene não acreditava em nada daquela maldição. E da sua mente fez perder-se aquela confusão.
Meses mais tarde quando a notícia se confirmou, Selene não se lembrou. Do guerreiro Feres concebeu a deusa, e a alegria se multiplicou. Como a maior das deusas ele a fez se sentir.
É, mas como um aviso da maldição, Ártemis apareceu. Controlando o guerreiro, a deusa ordenou.
__ Mate Selene!
Ele tentava no seu interior sair das guerras da deusa da caça, mas em vão viu a sua ação completar.
__ Não a deixe te controlar. Não deixe Ártemis te controlar, Feres. – Selene gritava.
Em momento algum Selene se defendeu e ate o fim pediu a amado que não se rende-se.
O mal estava completo. Deusa e seu bebê estavam mortos em sua forma humana. Quando Feres se livrou das garras de Ártemis pediu aos deuses para morrer. Mas este era seu castigo. Conviver com a culpa e carregar o sangue dos entes amados.
Em seus braços viu o corpo da única que amou se desintegrar. A deusa nunca mais voltaria a aparecer.
Não demorou muito para que o guerreiro de alma destruída morresse pelas mãos dos espectros de Hades.
E século após século Feres voltava à procura da deusa, refém do amor tragicamente interrompido. E a deusa assistia o seu suplício sem poder mudar aquele rumo. Teria que ser paciente até o momento que seu plano poderia ser executado.
Mas nunca o abandonou. Em seus sonhos o visitava, e pela luz da lua o acariciava.
Quando Feres torna a nascer numa família lemuriana, Selene tem certeza. Agora era o momento de voltar. E assim renasce como Isa, treinada como guerreira, sem saber sua origem divina. Ao ter sua memória ativada, Isa tem ikhor correndo em seu corpo, e as características da deusa Selene surgem. Agora são uma só.”
Mú olha estarrecido para a lunar. Era como se tivesse uma parte de si revelado finalmente. E seu pensamento sempre tão focado nos outros, teve a triste resolução para proteger Isa e seu bebê.
__ Eu preciso ficar só! – Nada mais disse. Mú se teleportou deixando uma Isa emocionalmente abalada.
Sua mais estranha previsão se tornou realidade. Um soluço vindo do âmago do ser ecoou pelo jardim. Mas ela sabia que ninguém jamais ouviria ou entenderia a dor que corria por seu ser.
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