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5 5- Atípica viajem


Notas iniciais
Obrigado pelos comentários construtivos gente, ajudou muito, tomara que gostem desse aqui >.

Ela jogou a flor para mim, talvez tenha sido o arremesso descuidado, ou talvez fosse minha falta de capacidade de pegar algo em movimento no ar, que me fez deixar a flor cair em meu peito, e nada na minha vida ardeu como aquilo. A flor estava agora laranja, devido sua temperatura, soltava fumaça devido à umidade do ar que a envolvia, bateu em meu peito e caiu no chão, eu gritei como nunca havia gritado antes, a dor ia do meu peito a todo meu corpo, passando pela ponta do pé até o último fio de cabelo. Parecia que estava sendo enfiado ferro quente pelas minhas entranhas, ferro derretido, passava pela minha goela dando-me ânsia de vômito. Com as mãos, tentava tirar minha alma do corpo, mas era inútil, me debatia como um peixe fresco sendo jogado diretamente no fogo.

No chão, rasguei minha blusa e olhei para onde Aamári havia jogado a flor, havia lá a marca do objeto que agora residia aos meus pés. Por todo meu peito, estava a tatuagem da flor de lótus vermelha na posição frontal. Agora já parara de arder.

Quase perdera a consciência com a dor, vapor saía pela tatuagem. Olhei para meu corpo como um todo para checar se não havia derretido, bem... Estava lá ainda. Quando olhei para Aamári,- ou onde ela deveria estar- sumiu, junto com o medalhão. Estava agora apenas eu naquele lugar branco e infinito, um silêncio agora calmo, que me dava o descanso para minha mente.

–Olá, Eu.

Essa voz vinha de algum lugar de meu interior.

Estava sozinho. Ela me deixou sozinho aqui, estou perdido. Comecei a andar para qualquer lugar, inútil, não era como da última vez, nenhuma porta, nem imagem, apenas o esbranquiçado nada. Ouvi uma voz completamente distorcida.

–Vamos discutir algumas coisas...

De onde, pelos infernos, vinha aquela voz? Ecoava em todo lugar e existência, mas parecia também não vir de lugar nenhum.

–Aamári! Cadê você?!- grito ignorando a voz.

Estava ficando com medo de ficar sozinho em meio a vozes. Minha mão tremia. “Nunca mais quero saber de seguir meninas por passagens dimensionais, até agora não foi nada proveitoso...”.

–Por que você não cala a boca um minuto e relaxa? Sab...

A voz novamente proclamou-se, mas foi interrompida pelo meu desespero idiota.

–Alguém!!- tento sem sucesso.

–CALE A BOCA!! — a voz grita com todas as suas forças, agora irritada.

Em meu peito, a tatuagem começa a brilhar em um vermelho escuro, intenso, uma sombra saiu dela. Tinha aspecto leitoso e denso, saiu de meu peito e ficou voando a um metro de mim, começara a tomar forma.

Ela caiu no chão com súbito peso e ergueu-se num formato debilmente humano, um humanoide. Ela tremia como se a atmosfera daquele lugar a desmanchasse, parecia frágil como um filete de água caindo da torneira. Duas órbitas vermelhas formaram-se na parte onde deveriam estar os olhos, e um buraco formou-se onde estaria a boca. Era horrível fita-la, seus olhos, ou melhor, seus dois buracos, aprofundavam-se em minha alma. Passaram-se minutos de silêncio e cara-a-cara.

–Quem é você?- pergunto ao ser desfigurado à minha frente quebrando o vácuo de som.

Ela inspira profundamente, quase como um suspiro de pesar, pela morte de alguém pouco próximo. Girou a cabeça, estalando-a, e deu uma pausa.

–Eu sou você. – ela continua fixa em mim – sou sua essência, aquilo que se formou durante sua existência, como um representante da vida, sou aquilo que vocês, humanos, tentam definir como “alma”.

Ela disse alma com certo sarcasmo no tom de voz, que não era nada agradável, soava como uma faca arranhando um quadro negro.

–Eu não entendo... — disse quase que recuando para longe dela.

–E como iria!- ela grita com escárnio- nem mesmo eu me conheço, sou você, e como você não me entende, como eu poderia?

Fiquei atônito por alguns segundos, aquela monstruosidade era minha existência? Eu sou uma sombra indefinida e grotesca? Como isso era possível? Eu devia pensar mais sobre isso...

–Estou fraco. — disse ela/eu- não sei por que, mas sinto que minha forma expressiva material está decadente, sinto que não poderei ficar por muito tempo assim. Escute você, -referia-se a mim- eu tenho algumas coisas a dizer, e preste atenção. Estava em estado inativo, adormecido, por assim dizer, desde seu nascimento, porém, quando entrou por aquele túnel paralelo entre esses mundos desconhecidos, algo me despertou, na verdade você apenas conseguiu ver o menino entrando pela máquina de refrigerante porque eu já estava sentindo sua presença, dei a você um pouco de minha visão, quase nada, mas foi o suficiente para seguir o do chapéu.

Deu uma pausa como que se concentrando em algo extremamente difícil de fazer enquanto se fala. Continuou:

–Enfim, acordei, e estou perdido, não tenho nenhum rumo, não sei para que existo, não sei se deveria, mas sei que é por algo que vale a pena, e pressinto que seus novos “amiguinhos” poderão me/te ajudar com essas dúvidas.

Sua forma tremeluziu rapidamente e voltou ao normal logo depois.

–Preciso que você descubra algum meio de termos contato direto por tempo ilimitado, pois não conseguirei ficar assim por mais tempo, consumirei muita energia, creio que quando nos vermos novamente, teremos mais o que fazer. Por enquanto, cuide-se...

O mundo girou e girou como um roda-roda, e no final da ciranda, tudo escureceu.

Abri os olhos. Ah pelo amor de qualquer coisa, como estava cansado. Parecia que um mar inteiro de agulhas caía sobre meu corpo. Pisquei duas ou três vezes, minha visão clareou-se. Estava numa cama, era macia e aconchegante, tinha malhas de cor rosa no cobertor sobre mim, cheirava bem. Dei uma olhada no quarto, tinha papel de parede- em apenas um lado das quatro paredes- estampado com a vista pra uma praia, onde o pôr do sol era sereno, gaivotas iam a sua direção, e logo abaixo do horizonte criado pelo mar, estava uma casa de praia de madeira, muito simples, mas relaxante.

De quem era esse quarto? Não havia janelas, era um pouco claustrofóbico, e escuro, apenas uma fraca luz saindo de um abajur no criado mudo diminuía a penumbra. “Nunca estive aqui antes.”. Levantei da cama lentamente, segurando para não gritar de dor, minhas pernas pareciam quebrar ao menor peso. De pé, acostumado já com a dor, andei em direção à porta do cômodo. Estava frio, sem o cobertor fiquei com as extremidades geladas, e a maçaneta não ajudava a esquentar. Espera um pouco... Que roupas eu estou usando?! Parecia um pijama de 1823, verde musgo com bolinhas verde-escuro. Alguém me colocou isso, e não me era agradável essa ideia. Ignorei a ideia de algum estranho me despindo e cuidadosamente abri a porta.

Apenas abri o bastante para espiar o lado de fora, era-me familiar, um corredor longo e estreito com luminárias em sua parede, que ficavam ao lado da porta. Cortando ao meio o corredor estava um tapete vermelho, dava um ar nostálgico. Mas, eu já havia visto esse lugar. Passei para o corredor, ele dava em uma escadaria, era onde ficava um salão aberto e vazio, apenas com um piano... “Droga.”

“POR QUE EU TINHA QUE ACORDAR AQUI?!”. Gelei quando ouvi vozes vindas do quarto atrás de mim, suava frio. Corri voltando do caminho de onde vim, pude escutar o ranger da porta das vozes se abrindo. Alguém falou:

–Vou ver como ele está. Já deve ter acordado.

“Não, você não vai vir não, porque eu ainda estou fechando a porcaria da porta!”. Silenciosamente fechei-a, pulei na cama e me cobri com a coberta de malha rosa. A porta foi-se abrindo timidamente.

–Então você já acordou Dave. –constatou Mordread, parecia aflito.

Fingi surpresa com sua presença.

–Você deve estar querendo explicações para toda aquela viajem não?

Acenei com a cabeça.