Notas iniciais
halelujah

Meu estômago roncou tão alto, que parecia o de uma criança africana sem comer há três semanas qualquer coisa.

–Olha só, bem na hora. – observou Mordread- Eu ia já dizer-lhe sobre o jantar lá em baixo...

Olhei como se perguntasse: “e minhas respostas?”. Mas ele não ligou muito, apenas abanou a mão no ar, dissipando a ideia de ter que ficar falando e falando. Virou-se para a porta e começou a andar, com passos largos. Estava ele brincando de amarelinha mental?!

“Quase sou pego, o que será que fariam se me vissem bisbilhotando?”. Levantei da cama, e notei que haviam aparecido magicamente algumas roupas no criado mudo. Uma camiseta branca, um paletó, calças sociais, um frade vermelho e um chapéu-coco. Ah, e pra finalizar com a noite de gala, sapatos de bico fino. “Esse povo precisa sair do século dezessete...”. Resolvi apenas vestir a camiseta e a calça jeans que estavam guardados na gaveta de baixo, junto com meus sapatos — que não eram de bico fino.

Fechei a porta e continuei o caminho, dessa vez, mais calmo. Pude ver detalhes nas paredes do corredor. Elas têm um aspecto aveludado, com o relevo uniforme de listras na vertical. Esse padrão me lembrava de algo...

Descendo a escadaria, com o tapete vermelho, o salão, e as costas de Mordread à minha frente. Ele estava recostado na base da escada, olhando para o majestoso piano a me esperar. Parei ao seu lado, pareceu não perceber minha presença por um segundo, perdido em pensamentos.

–O que você tanto olha Mordread?

Pergunto sem convicção. Ele pareceu sair de um transe de muitos anos, tinha no rosto uma feição triste.

–Dave, -inspirou ele profundamente recuperando-se -sabia que os espinhos de uma rosa são passados em seus genes para sua própria proteção? E que ao espetar-se nos espinhos delas, algumas pessoas aprendem que não as devem tocar para ver sua beleza. Outras pensam que as rosas têm os espinhos por pura maldade, e as exterminam dizendo se proteger, deixando seu jardim sem beleza. Mas também, existem aquelas pessoas que nem chegam perto das rosas, que preferem ficar como estão, em um jardim sem enfeites, sem chamarizes, apenas com um revestimento de cimento, cinza e inóspito...

Ok. Esse cara tá viajando muito longe. Ele ficou aqui, pensando sobre rosas e como alguém as veria? Isso e preocupante...

–Que tipo de pessoa você é? Aprenderia a ver a beleza da rosa, a mataria, ou simplesmente a ignoraria?

Ele sorriu amarelo numa pausa.

–Eu, ahm... acho que...

–Ah... Me responda depois. –disse com um aceno- Venha, vamos nos empanturrar.

Fomos pelo salão, na direção contrária da que eu até hoje tomei neste lugar. Fomos até depois do piano. Pensei que lá não havia nada, apenas uma parede, mas embaixo da escada, havia uma porta relativamente pequena, onde deveriam ser guardadas tralhas de qualquer tipo.

Mordread abriu a portinha e entrou, parecia escuro lá. Esperei até ele colocar o tronco para fora da porta e disse impaciente: “Vamos logo!”, e entrou. Eu escutei o som de algo passando muito rápido pelo ar, como uma bala. Silêncio. Estranhei muito. Contudo, aproximei-me da portinha e tive de me abaixar um pouco para entrar.

Pois é. Era realmente escuro. Não dava para ver nada, e à medida que eu ia me esgueirando por dentro do quartinho, batia os pés em muitas coisas. Quando algo que não esbarrei quebrou.

–SFHG!- assustei.

Alguém começou a recolher as partes que devem ter se quebrado no chão.

–Mas que droga, eu não vejo nada nesse lugar. Mordread bem que devia colocar alguma iluminação aqui e...

Era Aamári.

–Ei. –me dirigi.

Ela assustou, e deixou tudo cair de novo. Parou um pouco e olhou estreitando os olhos no escuro.

–Ah. É você Dave. Desculpe, é que não posso vir aqui sem derrubar uma única relíquia de merda... –ela voltava a recolher os cacos de algo de porcelana.

Abaixei-me para ajuda-la a recolher. Estávamos em silêncio, até que nossas mãos se tocaram por um instante, e eu pude sentir uma onda de energia passar pelo meu corpo. Será que não era alguma outra habilidade sobrenatural? Terminando de recolher, ela começou a dizer:

–Este lugar é um P.C.C., ou seja, um portal de casualidade compacto. Abadone que o instalou.

Fingi entender o que ela havia dito, com a maior compreensão que alguém que não entende nada de portais poderia ter.

–Então... –disse eu- Como este lugar funciona mesmo?

Ela riu e compreendeu que eu não sabia de nada.

–É bem simples. Estes portais estavam sendo vendidos na época que os seres queriam mais rapidez para chegar aos seus cômodos, então, basta pensar onde você quer estar, e “puft”, você aparece lá. Nós temos a versão de luxo, — disse ela, parece que, se vangloriando- portanto temos muitos cômodos.

Eu olhei para ela e quis saber por que, se haviam tantos cômodos, estávamos justo em um escuro, com poeira até a alma, e cheio de “relíquias”. Mas quando eu ia perguntar sobre isso ela me interrompera.

–Nós queremos chegar até a cozinha, certo?

–Certo...

–Tente então chegar comigo até lá, campeão!

“Campeão?”. Por acaso ela era meu pai falando comigo, quando eu não conseguia acertar nenhum chute numa maldita bola de futebol?

–Como devo fazer?

Ela fez uma careta e disse de nariz empinado:

–Não sei bem... Eu só penso em algumas características do lugar que quero ir e pronto.

Ok. Parei um pouco e comecei a pensar onde queria chegar. Cozinha. Um lugar onde fazem comida, e onde comem. Bem... Lá tem facas, geladeira, mesa, fogão e essas coisas.

–Ei, ei. Não precisa se esforçar tanto não cara. Deixa que eu faça dessa vez, mas da próxima você já deverá saber fazer. – disse ela.

Simplesmente cantarolou alguma canção, e para brincar um pouco disse: “Puft!”. E chegamos a um lugar.

Era bem grande. Um cômodo inteiro, com quase um hectare onde não havia nada além de uma mesa em seu centro, uma frigideira gigante, Mordread e Abadone sentados do lado de um balcão no canto do salão.

–Uau... Essa é a cozinha de vocês?- disse e sem muito entusiasmo.

–Pode crer que sim. –resmungou Abadone.

Aamári me ignorou e foi até eles saltitando, como uma criança de cinco anos quando ganha um sorvete de flocos.

–Nós já temos aqui os ingredientes, falta apenas a carne. –disse Mordread.

–Eu vou pegar. –secamente disse Abadone. –E ele vem comigo.

Apontava para mim.

–Eu?- respondi.

Mas depois vi o quanto a pergunta foi idiota, pois não havia ninguém mais nessa sala estranha. Imaginava onde estavam os ingredientes que eles já tinham, e onde iríamos pegar a carne.

Abadone começou a andar na direção de uma porta de ferro que até então eu não havia visto no canto do salão. À medida que nos aproximávamos- eu e ele- pude ver que era uma porta de ferro reforçada, com um cadeado muito grande prendendo-a, e havia cristais de gelo se formando em suas bordas. Paramos.

–Este é o freezer. –disse com simplicidade Abadone, dando uma olhada de cima a baixo para a porta e levantando o queixo- Vai precisar se preparar para entrar aí.

Eu olhei para ele e para a porta. E de novo para ele, e para a porta.

–Ah tudo bem. –disse já percebendo que eu não entendera- Primeiro pegue uma roupa que te aqueça, lá dentro é tão frio que você poderia morrer congelado só de por os pés no chão. Depois pegue alguma arma, para se proteger de animais hostis, e para me ajudar a matar a comida. Deixe que eu leve os mantimentos, não sabemos quanto tempo passaremos lá dentro.

“Que viajem é essa mano?!”. Foi o que eu queria dizer, mas já começava a me acostumar com nada lá fazendo sentido algum.

Ele havia parado de se mexer do nada, e uma roupa surgiu em sua frente. Grossos casacos de pele, e uma lança/martelo/massa que ele devia ter, de certo, conjurado. Já sei! Eu devia apenas pensar no que quero e aparecerá, “puft”, né? Ok. Esvaziei minha mente e pensei no casaco mais quente que poderia existir, nas calças mais grossas que os pelos do Tony Ramos, e em uma lança. Eu não havia entendido o porquê da lança ainda...

De repente. Apareceram todas as coisas que desejei, na minha frente. Abadone me olhou surpreso, e saudou contraindo o lábio inferior, em movimento de aprovação.

–Muito bem então. Vista logo para entrarmos. –ele me apressou.

Vesti, e peguei a lança.

–Pra que as armas? –perguntei.

–As boas carnes são as presas mais difíceis, — fez uma cara de louco- se não forem os predadores...

Provavelmente, não vou gostar de entender o porquê de cara maníaca dele.

Abadone segurou o cadeado da porta com as duas mãos e sussurrou algo. O cadeado então fez um barulho de ranger metálico e abrira-se. Ele se voltou para mim.

–Não se preocupe se demorarmos. O tempo lá é diferente do daqui. Enquanto aqui se passam dois segundos, lá pode se passar dias, meses ou até séculos. Mas você viverá para voltar... Vamos?

Sorriu.

“Pelo amor de qualquer coisa que rege essa “bagaça” de universo!”.

Foi o que eu pensei quando Aabadone abriu aquela porta. Um vento frio, congelante, que me fez trincar os dentes e tremer. Um vento uivando, como um lobo a lamentar-se pra lua, me empurrava para trás de tão forte.

–Não se separe de mim de agora em diante de forma alguma, escutou?!

Acenei com a cabeça, confuso.

Ele colocou a mochila nas costas, cheia de coisas que alguém que quisesse sobreviver no polo sul usaria, e marchou em direção ao mundo branco de neve e gelo à frente. Andamos um pouco e escutamos o trancar da porta. Abadone tirara da mochila uma corda grande e gritou em meio à tempestade:

–Tome! É pra você não se perder de mim aqui! Qualquer coisa puxe a corda três vezes!

Meus olhos começaram a doer com a branquidão da paisagem. Percebendo isso, ele me deu da mochila óculos de natação escuros. Agradeci, e continuamos a marchar em frente.

Após uns minutos de marcha. Eu pude perceber que havia algo nos seguindo, se escondendo na tempestade. Olhei em redor mais atentamente e pude ver o vulto de uma coisa azul-claro e estranho. Continuando o caminho, me esbarrei com Abadone, que havia simplesmente parado, parecia atento.

–Você já percebeu não é? –perguntou.

–Sim. É algo que deveria nos preocupar?

Ele se concentrou mais ainda. Olhou para trás e gritou:

–Se abaixe!!

Imediatamente coloquei as mãos sobre a cabeça e me joguei na neve. Uma lança passou zunindo por cima de minha cabeça e fincou-se na branquidão bem na frente do meu nariz.

–AH!- gritei.

Abadone me agarrou pelo braço, me ajudando a levantar. Gritou:

–Corra Dave! Agora!

Sem querer levar uma lança na bacia da perna, disparei a correr pra qualquer direção. A corda foi se esticando, e então após algum tempo de corrida, parei de sentir a tensão que dizia que o corpo de Abadone estava lá. “Ele havia se soltado?!”. “Me deixou aqui?!”. Desesperei.

–Abadone!!

Nada.

–Abadone cadê você?!

Eu olhava em volta desesperadamente, buscava alguma coisa que não fosse branca, tentava escutar algo que não fosse o vento. Era esse o meu fim? Preso num freezer sem noção com criaturas estranhas me perseguindo?

Quando vi que essas criaturas haviam me achado, e pulado em cima de mim, me paralisando. Não tive tempo mais de pensar, apaguei.

Notas finais
coming soon
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.