Ellohen - A Origem do Mal

1 Prólogo - Presságios Desanuviados


Sua mão que agora escorria pela cintura procurando cuidadosamente a bolsa que servia de porta-objetos, levava um já amassado, e molhado, papel que obtinha o real motivo de estar naquele local e naquele exato momento. O dispositivo metálico acoplado em seu antebraço esquerdo reluzia, em sua base, luzes piscantes verdes, em sua maioria agrupadas em um único local. Ao que tudo indicava, seu objetivo estava próximo. Entretanto, um certo temor o fez hesitar por alguns segundos e notar o belo luar que iluminava a cidade em ruínas. A chuva apertara há poucos minutos assim que chegou a entrada do prédio abandonado. As ruas abandonadas da cidade e a falta de amital como combustível para iluminação das mesmas davam um ar ainda mais tenebroso para o que Landho conhecia como "arcabouço das trevas", as Terras Neutras. E assim era chamada pois a lei ali não imperava por não haver a quem se submetê-la. Não eram seres comuns que habitavam por essas terras. Com um leve acenar de cabeça, Landho sinalizou para dois jovens que estavam atrás dele, algo que os dois jovens entenderam prontamente que já era hora de seguir com os planos embora suas fisionomias não transparecessem uma confiança absoluta.

Os três seguiram para dentro do edifício com muita rapidez como que se quisessem fugir o mais rápido da forte chuva que encharcava as ruas de paralelepípedos desgastados e cheios de destroços. Não haviam portas na entrada, apenas alguns pedaços de madeira que teimavam em se prender às dobradiças. Dentro do prédio a calamidade se comparava ao estado da cidade. Até mais. A iluminação do luar já não adentrava o local, o que trazia uma certa obscuridade e umidade ao recinto. E a temperatura também já não era mais a mesma.

— Esfriou bastante — sussurou um dos jovens que acompanhavam Landho. A apreensão era notável na fisionomia do jovem que a todo momento parecia achar que mais alguém se encontrava ali, dado que olhava para todos os lados, como que se esperasse por um surgimento repentino.

— Isso vai ser fácil de resolver. Nada melhor que uma boa ação para espantar o frio. — retrucou Landho, tentando transmitir confiança para seus companheiros embora ele mesmo também estivesse sentindo uma fagulha de calafrio.

O outro jovem acenou a cabeça repetidamente como aprovação juntamente com um sorriso amarelo que não inspirava muita confiança.

— Venham! Vamos acabar logo com isso. — disse Landho ao mesmo tempo em que disparava em direção as escadarias, que embora velhas, ainda se mostravam bem fortificadas. Os passos dos três eram rápidos e silenciosos, era nítido que tinham tido treinamento para isso. O nível de ansiedade dos três era proporcional a cada andar que subiam, assim como o calor em seus corpos que expurgava cada vez mais o frio que outrora sentiam quando entraram no edifício.

No penúltimo lance da escadaria puderam ver um feixe de luz verde acima deles que era reproduzido pela fresta da porta que estava entreaberta. Os passos a partir de então se tornaram mais cuidadosos. Vozes de dentro do aposento podiam ser ouvidas ainda que distantes e indecifráveis. Os três rapidamente chegaram a entrada e posicionaram-se antes de tomarem qualquer atitude. Os dois jovens emparelharam-se em cada um dos lados da porta e Landho, mais atrás, sinalizou positivamente para os jovens que agora estavam tomados por uma confiança que antes não existia. Neste instante, cada um dos jovens empurrou com toda a força a parte da porta que lhe cabia, ao mesmo tempo em que com a outra mão lançaram, cada um, um dispositivo circular, que voou para dentro do salão liberando imediatamente uma densa névoa povoando toda a área. Os três antes de adentrarem vendaram-se com um pano, não um pano qualquer, mas um que podia-se ver muito mais além do que os olhos comuns. Agora sim, prontos, os três entraram no salão e puderam ver o que ali se encontrava. Eram aproximadamente dez pessoas que agora dispersas, formavam um círculo em torno de um objeto flutuante dourado reverberando uma incandescente chama verde amital.

As pessoas mal puderam entender o que estava acontecendo quando a densa névoa eclodiu diante de seus olhos. Agora se encontravam desorientados e tornariam-se presas fáceis para Landho e cia, assim pensavam, embora o objeto continuasse a emitir o forte amital. Landho equipado com seu dispositivo em seu antebraço esquerdo sequenciou algum tipo de comando que o fez brilhar e piscar freneticamente como que se estivesse fazendo algum tipo de leitura.

— São os tridentes! Protejam o erudito! Não deixem que quebrem o ritual! — bradou um dos homens que parecia ser o líder deles. Era um homem alto trajado de algumas placas de armaduras antigas e diferentes, algo como uma coleção. Suas cicatrizes pelo corpo e rosto, além da ausência de fios capilares, o diferenciavam da multidão.

Os jovens tridentes avançaram, cada um com uma espada de lâmina curta que ficavam guardadas nas costas na altura de suas cinturas. As pequenas espadas voavam por entre as névoas que rondavam o local, só se viam rápidos vultos cintilantes de suas movimentações em meio à nebulosidade. As primeiras vítimas foram fáceis, e não apresentaram dificuldade alguma para os dois, ao passo que Landho em frações de segundos disparou, através da energia canalizada pelo instrumento acoplado em seu antebraço, três tiros certeiros e designados as três pessoas do culto que estavam desnorteadas à sua frente. Simultaneamente os tiros foram disparados enquanto deslocava-se por entre as vítimas e realizava acrobacias para desviar de seus corpos enquanto tombavam feito madeiras cerradas na Floresta de Umbral.

As ações pararam quando um forte vento irrompeu pelo recinto e desanuviou-o. O erudito que mesmo sem poder enxergar nitidamente não deixou de dar prosseguimento ao ritual e em poucos instantes conseguiu abrir uma fenda que se pôs acima do artefato dourado flutuante. Uma fenda negra, pequena é verdade, mas o bastante para atrair a atenção dos tridentes que agora se viam atônitos. A fenda, mesmo pequena, reproduzia calafrios nos três e a atmosfera fria provindo dela fez a temperatura do salão baixar demasiadamente. Landho jamais havia visto uma fenda amital de tão perto, sempre ouvira histórias sobre elas, mas nunca havia, de fato, visto uma.

Landho agora precisava, mais do que nunca, impedir o erudito de finalizar o ritual e evitar que catástrofes piores pudessem ocorrer. — O que esses caras estão pensando? Eles são loucos? — os pensamentos em sua cabeça traduziam bem o temor pelo o que poderia acontecer se nada fosse feito à tempo. O líder dos cultistas aproveitou o lapso de tempo perdido por Landho para atacá-lo com um punhal direcionado a seu peito, visando algum órgão vital. Landho, agora pego de surpresa, não conseguiu esquivar-se completamente da arremetida e o punhal alojou-se no ombro de Landho que urrou de dor, mas ainda sim, teve força e mostrando-se destemido, Landho segurou fortemente a mão do cultista onde estava o punhal e com a outra mão que detinha o dispositivo de forte poderio militar agarrou a garganta do oponente, levantando-o do chão com certa facilidade ao mesmo tempo que quase que simultaneamente, o dispositivo brilhava intensamente até que o disparo se deu quando o cultista batia as pernas no ar tentando se livrar, porém sem sucesso. O que pôde se ver a seguir foi apenas o corpo jazido, sem a cabeça, do líder dos cultistas.

Landho, agora ferido, tombou para os lados e ajoelhou-se para verificar a gravidade do ferimento. Os dois jovens tridentes já haviam dado conta dos cultistas restantes e estavam agora agachados ao seu lado preocupados com o grave ferimento de seu superior.

— Não há tempo para isso. Impeçam o erudito de completar o ritual! Rápido! — bradou Landho para que a fenda fosse interrompida o quanto antes. Porém já era possível notar que o tamanho já não era o mesmo, havia se expandido mais. E por um instante, os tridentes puderam ver olhos vermelhos flamejantes no fundo da fenda. Aqueles olhos sinistros estremeceu as estruturas do trio instaurando um sentimento de desespero pelo o que poderia sair de lá de dentro da fenda. Os jovens logo se lançaram ao encontro do erudito a fim de impedi-lo, enquanto que o mesmo, encontrava-se em transe com o ritual e já não era mais olhos e ouvidos no mundo em que os tridentes se encontravam.

De repente, como que uma autodefesa intrínseca da fenda, uma outra forte ventania juntamente com corvos negros erigiu-se de dentro da fenda levando todos em sua área a voar como bola de papel por metros de distância. Os corvos agora estavam atacando ferozmente a quem tentasse chegar até o erudito, que no momento já não tinha mais pupilas, somente clarões brancos.

Landho em seu último ato decidiu usar todo o recurso que tinha, proveniente de seu dispositivo mágyko, e canalizou toda a carga para um único e último tiro para infringir ferimentos o suficiente para nocautear o erutido. E assim o fez. Sua mira já não era das melhores, mas a vontade e o senso de dever para com todos os povos de Vandar fora o suficiente para que Landho conseguisse reunir força e concentração o suficiente para dar um tiro certeiro. Assim, Landho com amital canalizado o suficiente no instrumento em seu antebraço liberou toda a carga de energia na direção do erudito gerando um grande impacto o suficiente para lançar o corpo contra a parede, desmontando-a toda em cima do ritualista. Foi um tiro suficiente para cessar todo o ritual. Os corvos caíam e se esfacelavam em penas negras, a fenda eclodiu e balançou as estruturas do prédio que agora agonizavam em virtude da iminente derrocada.

— Lev... Argh! — Landho tentou falar, mas a dor e a fadiga eram tamanhas que o impediam de fazê-lo com facilidade. — Levem o erudito vivo para Millöra. Precisamos dele vivo para sabermos mais... — falar era demasiado esforço para Landho, as pernas não se mexiam, pareciam presas duas bolas de ferro. Um dos jovens tridentes o ajudou a se segurar e a se por de pé.

— Não precisa falar, senhor. Cobin vai levar o erudito. Agora vamos embora daqui antes que o prédio desmorone. — remediou Toro a fim de tranqulizar seu comandante e planejar às pressas a saída do local.

Os passos apressados ecoavam pelos corredores iluminados por pequenas labaredas dançantes ao léu, prostradas imponentemente em suportes metálicos minuciosamente esculpidos à mão, um trabalho divino de grandes mestres artesãos. Podiam-se contar pelo menos oito, de cada lado do corredor, peças estas belíssimas que entoavam um cântico aconchegante na ambientalização magistral daquele pequeno, porém requintado corredor. Os quadros instaurados cuidadosamente lado a lado como se formassem uma linha do tempo, luziam e se enegreciam perante a vontade das chamas que bailavam conforme o cântico que a atmosfera trazia. Os pisos madeirados e primorosos harmonizavam ainda mais os passos que transmitiam certamente mais angústia do que anseio propriamente dito. A mulher que pisava forte e rapidamente pelo corredor, acompanhada de dois homens fortemente armados, encontrou-se rapidamente diante de duas portas fechadas à sua frente. Em seus braços estava uma pilha de livros escorados em seu peito, mas o peso não parecia importar para ela. Ouvia-se vozes do outro lado da porta e uma ruptura, desta aparente acalorada discussão, não parecia ser uma boa ideia antes de um primeiro batido às portas, conforme manda o manual de etiquetas. E assim, ela o fez. De cabeça baixa, cabelos curtos até os ombros e de cor castanho-marrom aguardou ansiosamente por resposta do outro lado da sala. Ajeitou os óculos que pendiam entre o nariz esguio e os olhos verdes-mel , edificou sua postura e respirou fundo. A porte se abriu em poucos segundos e a primeira figura notada foi Sir Avnos, um guarda real de Sant Sovhen, com suas vestimentas repletas de placas prateadas e luminescentes que se amontoavam dignamente por todo o corpo do jovem guarda. Era possível ver o símbolo de Ni'Ya no peitoral mais localizado próximo ao coração, era um adorno simples e elegante, que translucidava em um tom dourado e, para quem conhecia, transparecia segurança e respeito. Sua espada estava embainhada, presa à cintura, mas nem por isso o tornava menos perigoso, pois todos sabiam das altas e famosas habilidades dos Guardiões Reais de Sant Sovhen. O jovem, com um semblante inalterável, convidou aos três visitantes à adentrarem ao recinto.

— Entre Srta. Camadot, os conselheiros a aguardam. – pronunciou o guarda real assentindo com a cabeça, que agora pôde ser notada por Marin Camadot, as feições do rosto afilado do jovem cavaleiro, pois não aparentava ser tão jovem pelas cicatrizes que eram efeitos colaterais inerentes à vida levada pelos guardiões reais de Sant Sovhen. Marin rapidamente se prontificou a adentrar à sala enquanto que os dois homens que a seguiam se mantiveram prostrados e fadados a esperá-la do lado de fora.

A sala na qual Marin estava agora era igualmente bela ao corredor que a precedia. Em nada deixava a desejar em requinte e conforto, com exceção do seu tamanho e complexidade de estrutura. Na sala havia uma mesa retangular de madeira gigantesca onde caberiam facilmente pelo menos umas trinta pessoas em suas cadeiras e nelas estavam acomodadas pouco menos de cinco.

— Com licença, Millöra! – apressou-se Marin em dar o tom introdutório à conversa aos presentes no salão que agora estava silenciada com a sua entrada.

— Marin Delavante! Que notícias traz para este conselho? – indagou prontamente a mulher que foi identificada de Millöra. Era uma mulher perto dos seus trinta anos de idade, tinha uma aparência muito bela, longos cabelos castanhos-claros e cacheados nas pontas, olhos cintilantes esverdeados chamavam mais a atenção do que o conjunto da obra. Usava um vestido branco que cobria até os pés, ornamentado por pequenas insígnias douradas por todo o tronco finalizando até a cintura onde um laço também dourado separava bem os membros inferiores dos superiores. Até a sandália que usava era dourada, dando um de graça e e de muita confortabilidade a quem usava.

Marin pôde dar uma rápida olhada ao redor e pôde notar rapidamente que as pessoas que estavam presentes eram de status relevantes em Sant Sovhen, mas não os conhecia tão bem. Marin era uma literata, portadora de conhecimentos sobre os mais variados temas e era seu dever estar ciente de tudo o que aconteceu, desde os primórdios dos tempos, o que acontece e o que pode vir a acontecer.

— Millöra... – começou Marin enquanto desabava os livros sobre a resistente mesa de madeira escurecida. – Não são notícias tão boas. O Conselho recebeu informações de que o Protetor Real de Lumenhall, Johan Manduil, foi deposto na manhã de hoje com uma investida surpresa, que se iniciou na madrugada pelas tribos adjacentes da região.

— Mas como isso aconteceu? Como essas tribos conseguiram planejar, organizar-se e subjugar as forças do reino de Lumenhall? Como nada disso foi sequer suspeitado pelos reinos e por nós? – vociferou Akórdia enquanto batia com os punhos à mesa que estremecera com o impacto.

Houve um silêncio na sala, e por alguns segundos, assim se manteve. Até que Agnis Nortillus, que estava de pé, intrêmulo diante de uma janela que media o dobro do seu tamanho. Ele olhava pensativo para o cenário do lado de fora, as chuvas e as tempestades que se amontoavam lá fora elevavam ainda mais o ar de tensão da sala. Como se os problemas existentes já não fosse o bastante. O céu estava mais escuro do que o de costume e a lua reluzia esplendorosamente em consoante com as linhas turvas dos relâmpagos que cortavam agressivamente os céus de Vandar.

— Peço desculpas, Millöra. – finalmente uma voz irrompeu o silêncio que insistia em se enraizar no ambiente. Sua fisionomia era de um homem envelhecido, já passando dos seus sessenta anos, o que não condizia com seu ar imponente e olhos escuros e penetrantes que passavam uma sensação de vivência plena. Apesar dos longos cabelos brancos e barbas trançadas até as pontas, tinha uma atitude viril e suas palavras costumavam vir acompanhadas de mágykas de encantamentos devido a segurança e transparência com que as mesmas chegavam aos ouvidos próximos. – Como Conselheiro Primordial, sinto que era meu dever estar preparado para possíveis revoltas como esta. Admito que ordenei como prioridade a investigação de surgimento de novas fendas de amital e a crescente subtração do mesmo em terras protegidas. Acho que como nossos olhos se voltaram abruptamente para estes casos de risco maior, acredito que possamos ter deixado alguma coisa passar.

— Isso não é desculpa, Agnis! – exclamou Akórdia. – Agora temos dois problemas. E precisaremos dividir nossas atenções para reestabelecer a ordem em Vandar. É inadmissível permitirmos um atentado deste que vai de encontro com a Firmamento dos Justos. Imaginem o que poderá acontecer quando essas notícias chegaram à outras regiões de Vandar. Passaremos por incompetentes e outras revoltas como esta podem surgir.

— A Millöra está correta e diante deste fato precisamos agir rapidamente. – respondeu prontamente o Conselheiro Primordial. – De posse destas notícias, acredito que isso tenha sido um ataque planejado por pessoas ou organizações de fora dessas tribos.

— Como assim? – indagou Akórdia que agora parecia controlar um pouco mais seus ânimos.

— As tribos adjacentes de Lumenhall viveram em pé de guerra desde sempre, e pensar que do dia para a noite, eles resolveram se aliar e lutar por um objetivo único não parece ser algo muito normal.

— Millöra, devo concordar com o Conselheiro Agnis. – ecoou a voz do homem que estava de pé agora. Sua voz era rouca e impactante, assim como sua fisionomia, que transparecia um homem alto, forte e moreno. Sua faceta agressiva, a ausência de cabelos e inúmeras pequenas cicatrizes espalhadas pelo rosto solidificavam ainda mais o aspecto amedrontador que este homem representava. Sua armadura prateada com adornos dourados protegia quase que por completo seu corpo. – Essas tribos são notoriamente povoadas por selvagens. Não são amplamente conhecidos pela inteligência astuta, muito pelo contrário. Para isso ter acontecido, aposto minha vida que existe algo por trás deste ataque. Tenho homens prontos e preparados para reestabelecer a ordem. Se a Millöra, assim desejar.

— Sthavar, não podemos simplesmente mandar homens sem saber em que condição se encontra o terreno e quantos rebeldes estão em Lumenhall. Precisamos entrar em contato com os protetorados mais próximos e requisitarmos auxílio e planejarmos a retomada. — retrucou Akórdia enquanto andava em círculos para se acalmar.

— Sim Millöra, acredito que Brionade possa já fazer o trabalho de campo, sondar e nos passar a análise da situação em que se encontra Lumenhall. – respondeu Sthavar.

— Jubilos! Mande um comunicado para todos os reinos para que fiquem cientes do que acontecera e que se preservem. Diga à Brionade que estaremos mandando uma brigada e que precisaremos de homens para esta incursão de retomada da ordem em Lumenhall. – apesar da aparência delicada que fazia jus a sua beleza, quando Akórdia abria a boca à falar sua delicadeza era esfacelada devido a rigidez notória que era comum às suas falas. Em dias comuns sua compostura já demandava muito respeito, assim, quando se encontrava em estado de nervosismo sua autoridade transparecia e se consolidava muito mais do que lhe era de praxe.

O homem conhecido como Jubilos, que estava sentado à mesa observando apreensivo a todo desenrolar, saltou da cadeira em um pulo desencadeando um farfalhar de papéis pelo ar. Jubilos era um cara baixinho, com seus 1,60 centímetros de altura, não impunha muito respeito mas era querido dentre os residentes de Sant Sovhen. Era o responsável pela comunicação e tratativas do ateneu para com reinos e similares.

— Sim Millöra! Vou enviar agora. – respondeu o pequeno Jubilos.

— Mude a rota de Sant Sovhen para as proximidades de Brionade também. Sthavar conduzirá esta operação.- anunciou Akórdia enquanto seus olhos se voltavam para a visão de Sthavar que imediatamente consentiu com a cabeça. – Em quanto tempo chegaremos em Brionade, Jubilos? – indagou Akórdia voltando suas atenções para o pequenino já próximo da porta de saída.

— Pela manhã no segundo dia, Millöra. À contar de amanhã. Se o tempo ajudar.

— Muito bem. Dê a ordem ao comandante.

Assentindo com as palavras finais de Akórdia, Jubilos saiu pelo corredor à fora produzindo ecos de passos pesados.

— Millöra? — puxando a atenção para si, Marin estava quase que levantando o dedo como um aluno faria para fazer uma pergunta a um professor.

— Sim. O que foi?

— Tem mais uma coisa.

— Então diga. — retrucou millöra impaciente deixando Marin ainda mais nervosa.

— Segundo fontes, que fazem rondas em uma área próxima de Lumenhall, notaram uma elevada presença de amital na vegetação e nas águas de rios da área. Não há nada que solidifique a teoria de que possa estar havendo algum indício de fendas, mas seria melhor prevenirmos.

— Claro, neste momento temos muitas atividades estranhas espalhadas por Vandar. Qualquer tipo de atividade suspeita relacionadas a fendas de amital temos sempre que nos prevenir. — respondeu a millöra que agora se mostrava apreensiva.

— Talvez este ataque à Lumenhall tenha alguma coisa a ver com essa contaminação crescente de amital nos arredores, millöra. — complementou a jovem Marin.

— Verdade. Assim que restabelecermos o controle de Lumenhall enviaremos tridentes à área para descobrir o que pode estar causando essa contaminação. — Akórdia agora estava olhando janela à fora como se desejasse por uma intervenção divina em seu favor. — E quanto às terras neutras? Alguma notícia de lá, Sthavar?

— Millöra Akórdia, meus melhores homens já estão em atividade enquanto conversamos. Esperamos pelo menos capturar algum, dos contraventores, vivo. De acordo com o plano, e se tudo der certo, no máximo amanhã pela manhã já estarão aqui. — incrementou o Comandante das Forças de Sant Sovhen.

— Ótima notícia Comandante Sthavar! Quero ser informada imediatamente quando seus homens chegarem. Não consigo me aquietar enquanto não souber o motivo desses atos irresponsáveis, e que volto a dizer, não são atos isolados. Está claro para mim, e acredito que para os senhores também! Que isso se trata de um ato coordenado. Agora por quem? Não sabemos. — retrucou a Millöra.

— Como desejar Millöra — concordou o comandante — Iremos descobrir quem está por detrás desses planos. Não podemos deixar que Mandalas pisem neste mundo novamente e o simples conhecimento dessa possibilidade por parte de pessoas comuns já é uma preocupação e tanto.

— Como poderiam? Hoje em dia ninguém mais sabe o que é um Mandala! Soubemos fazer nosso dever de casa muito bem. Décadas e décadas de trabalho árduo por sinal. Tenho certeza de que não é isso! — entrou na conversa um homem que estava sentado de cabelos ruivos e encaracolados e bem vestido de roupas sociais e um tanto quanto formais.

— Tem razão Amon. Também não acho provável, mas temos que ficar de prontidão e abertos a considerar todas as possibilidades. Mas agora a preocupação está em Lumenhall. Nosso objetivo é parar as incursões deste grupo nefasto. Não descansarei enquanto esses atentados continuarem. Espero que vocês façam o mesmo. — refletiu Akórdia ao tempo que contemplava o luar esplendoroso pela janela e os raios do luar explanavam em sua face a preocupação de que dias terríveis estariam, iminentemente, por vir.