Ellohen - A Origem do Mal

2 Capítulo 1 - Um destino inesperado


Aquela manhã que acabara de nascer estava cintilante, e uma brisa suave que passava por entre as ruas da cidade mais badalada de ellohen, dava um ar de rara calma ao local que em pouco tempo iria se tornar bastante movimentado. Andher era bela. Repleta de cenários naturais, casas bem fortificadas e instaladas que reforçavam ainda mais a ideia de um bom lugar para se viver. O castelo imponente no alto da montanha era um dos grandes atrativos da cidade. As inúmeras torres, incontáveis cavaleiros com suas armaduras cintilantes e pomposas que rodeavam o local sempre a espreita de atividades suspeitas. O castelo mosqueado de borralho também trazia em sua arquitetura a nostalgia de eras passadas. À frente da grande fortaleza trazia o estandarte do reino, uma ave conhecida como Niravitta. A ave sagrada de seis asas do mundo de Corellan, um símbolo de paz e justiça no mundo. Bem à frente do castelo seguindo pela estrada de pedra, a praça central que vivia movimentada de comerciantes, encontrava-se bastante movimentada com barracas improvisadas e carroças entupidas de mercadorias de maneira a faturar o máximo com as centenas de pessoas que percorriam pelo centro todos os dias em diversos tipos de buscas. Era fácil vender ali. O conjunto habitacional da cidade era excelente comparado a diversas cidades da região. As casas eram bem fortificadas, e o trabalho dos artesãos e ajudantes reais em manter um nível de conforto aos cidadãos era glorificante, todos tinham direito a uma moradia digna. Assim era o pensamento da diretriz real, pois para se ter uma ideia, uma das casas mais humildes do local era bem arquitetada e ornamentada com madeiras e rochas calonas – as mais resistentes da região – de forma que desse um tom aconchegante e a sensação de proteção ao local. Era pequeno, dois cômodos apenas, mas era o suficiente para a família que vivia ali.

Um senhor de idade simpático, usando bermudões e uma camiseta azul clara punida pelo tempo, possuía mãos rígidas de muitos anos sofridos entre guerras e trabalhos artesanais. Sua barba branca o fazia parecer mais velho do que realmente era. Este era Adonis. Sempre fora um avô exemplar para Hytanör, um pai na verdade — como assim considera seu neto. Um garoto com seus, recém, 16 anos de idade completados, cheio de vida e sonhos, que recebeu toda educação possível de seu avô. Cabelos castanho-claros, lisos e repicados, juntando com seu modo de se vestir — de maneira desleixada — faziam-no parecer mais pobre do que já era. Não fosse pelos belos olhos verde-claros, Hytanör seria um fantasma vagando por entre a sociedade. E seria assim não fosse seu temperamento forte e senso de justiça incomum para um adolescente de sua idade, isso não o ajudava muito no dia-a-dia, pelo contrário, acabavam envolvendo-o em confusões na academia. Tinha uma beleza rara, mas escondida debaixo dos trapos e o pouco cuidado que tinha consigo. Um bom garoto que não teve a sorte de conhecer seus pais, e dessa maneira viveu toda sua infância aos cuidados de seu avô.

Na noite anterior, Hytanör teve um estranho e perturbador sonho em que ele estava de pé em uma vasta planície com poucas árvores, sendo essas destroçadas. Era noite e mal podia-se ver o que havia no horizonte, como se não houvesse nenhum tipo de luz no mundo. Estava diante de um ser sob um manto negro encapuzado. A única coisa que Hytanör pôde ver do homem eram seus olhos, ou o que pareciam ser. Eram olhos sem pupilas, extraordinariamente brancos como um cego. Vendavais e trovoadas iluminavam o cenário horripilante, mas o que mais assustava eram os olhos que agora ficaram vermelhos e flamejantes como sangue. O homem parecia imóvel, o que era um certo alívio para Hytanör. A distância entre os dois não se alterava até que um estranho movimento feito pelas mãos do misterioso homem encapuzado incinerou o ar desenhando algum tipo de símbolo desconhecido e proferiu algumas palavras. Palavras essas irreconhecíveis para a compreensão de Hytanör e que entraram diretamente em sua cabeça como se fosse um grito aterrorizante de uma mulher histérica ou algo pior. Uma dor tão forte aos tímpanos que se agachou involuntariamente, como se ali, naquele campo verdejante fosse encontrar algum tipo proteção. Então tudo parou, e o alívio pela interrupção daquele tormento quase o fez ficar feliz. E então ele ouviu com dificuldades:

— O sol sangrará quando o mal de eras antigas despertar. As raízes do mal não podem se recriar ainda, meu jovem. Aguardo ansiosamente o dia em que iremos nos deleitar com o reencontro. – disse o estranho com uma voz que causaria calafrios ao mais corajoso da guarda real de Andher, a voz estremeceu as bases de Hytanör. Com os dedos em chamas ainda expostos no ar, fez-se um sinal, algo parecido com uma cruz de fogo. A cruz flamejante em pleno ar abriu-se exatamente como um portal, mais parecia um buraco negro de onde podiam-se ouvir gritos de lá, clamores de pessoas que pareciam desesperadas. Deste buraco, que mais parecia ser uma porta para o inferno, saiu algo bem similar a uma pantera negra de olhos – penetrantes – vermelhos, que saltou de um mundo desconhecido para onde estavam. A imensa fera – de quase 3 metros de altura – encarava o jovem Hytanör como se estivesse saboreando o momento antes de partir para o jantar. Os dentes afiados eram do tamanho da cabeça de um ser humano adulto.

Hytanör sentia-se cansado, seu corpo pesava no sonho de tal maneira que não conseguia ficar de pé e seu joelho não parecia quer se desprender do chão, parecia cada vez mais real a sensação da morte. Sentia sua cabeça pesada e seus sentidos estavam se esvaindo, as palavras estranhas do inimigo iam sumindo até que apenas os lábios continuavam a se mexer sem qualquer som. Tudo o que pensava era em como sair daquele pesadelo e rezar para que alguém o acordasse. Mas antes de livrar-se do pesadelo e das correntes... Espere aí! Hytanör estava acorrentado pelos pulsos que o prendiam fixamente à terra.

— Mas... o que é isso? – exclamou, surpreso por não ter percebido quando ocorrera tal fato.

Olhou para o grande animal negro, que ainda estava retribuindo fitando-o fixamente em sua direção. O medo era total em seu coração, não tinha como se defender, estava preso. E mesmo que não estivesse o que poderia fazer diante de tão feroz animal já que as presas do grande felino fariam um rombo no mais poderoso escudo de Andher, nenhum general do rei seria páreo para ele. Foi então que, como num estalar de dedos, o grande felino avançou em sua direção! É agora – pensou. Não havia mais nada a fazer. Apenas fechou os olhos e virou o rosto, aceitando de bom grado a morte.

— Arrghhh! – acordou assustado à cama, tão suado como se tivesse acabado de correr de Andher até a cidade vizinha, Crisalis. Olhou para seu corpo, e para sua surpresa, uma marca de enormes garras estava lanhada em sua pele como se tivesse sofrido um ataque letal que havia cicatrizado. Não havia sangue. Apenas as marcas.

Nunca tinha passado por isso, os pesadelos eram frequentes, mas nunca tão reais quanto fora este. Apressou-se em pôr uma camisa para que seu avô não visse a cicatriz e ficasse preocupado. Se Adônis tivesse visto teria ficado tão preocupado que iria ficar noites sem dormir em vigília novamente, assim como da outra vez.

— Hytanör! – falou alto seu avô aproximando-se à cama, com um tom preocupante – está tudo bem?

— Sim, vô. – respondeu ele, sem tanta firmeza na voz. – eu acho. – resmungou baixinho.

— Teve outro pesadelo? – disse Adonis, próximo agora.

— Sim, mas não se preocupe vô. Foi só um susto, já passou. – disse o garoto ainda aterrorizado, mas disposto a demonstrar tranquilidade em suas palavras para não preocupar seu avô.

Aquela manhã em tudo era diferente das milhares de outras que se passaram para Hytanör. Tinha um exame logo cedo e não estava nem um pouco tranquilo para tal, a insegurança tomava conta de seus pensamentos mesmo sem desejar. Haviam muitas coisas passando por sua cabeça, e um exame tradicional e importante como o que haveria mais tarde deveria lhe inspirar, mas não era o que estava ocorrendo. Nem mesmo as confusões entre os estudantes, o que lhe era de praxe, lhe animavam. A academia de aspirantes onde os jovens de Andher estudavam era muito boa, lhes davam conhecimento suficiente para participar do Gran Marid, um exame no qual somente os melhores em suas respectivas categorias são selecionados. Todas as cidades residentes da região Sul de Vandar enviavam seus escolhidos à organização. Estas organizações são chamadas de Ateneus. Existem quatro em todo mundo. Quatro ateneus em toda ellohen, que são academias especiais que abrangem uma determinada região. O ateneu responsável por Vandar era Sant Sovhen, e seria uma academia comum, não fosse pelo fato de ser uma ilha – magykamente – flutuante e por onde os maiores heróis – e vilões – de ellohen passaram. Então, não há um jovem no mundo que não almeje chegar a esta academia, acredite, todos dariam o que pudessem para estar lá. Os ateneus possuem interesses próprios e objetivos diferentes. Uma vez por ano eles passam pelos reinos de suas regiões recrutando seus novos alunos, e sempre turmas do último ano, como a de Hytanör. Durante o "Gran Marid", são acolhidos – por cidade – 30 jovens. Divididos em três categorias: Os dez melhores nas provas e testes – ou seja, os mais inteligentes. Os dez mais providos de amital – a mágyka bruta. E então os 10 melhores guerreiros, que se desenvolvem melhor na luta corporal. Todos queriam ir para Sant Sovhen, e não era diferente com Hytanör, porém as preocupações lhe tiravam a concentração para focar no objetivo.

Adonis estava agora próximo à porta esculpindo detalhes em uma cadeira de quatro pernas que fora recomendado por uma família real de Andher. O sol castigava fortemente seu corpo gasto, porém Adonis parecia calejado contra o sol, para ele – estar sob o forte calor – era quase como tomar uma taça refrescante de zaril – uma bebida típica da região – de uva amarosa diante de um sol escaldante. O velho já passara por coisas bem piores na vida. Adonis falara da cadeira encomendada pela família real para Hytanör durante toda semana, quase que se gabando de suas habilidades, achando que finalmente seu trabalho iria ser reconhecido e assim, quem sabe, poderiam melhorar de vida.

— Está ficando muito bela.- disse Hytanör com um aspecto físico melhor.

— Ahn?... Ah sim! Muito bela, não? – disse o solito senhor orgulhoso – O Sr. Amalith vai adorar, tenho certeza! Creio que ele irá ficar muito feliz com os adornos que fiz. Está simplesmente magnífico! Eu sou o melhor!

— Menos né, vô. Mas tenho certeza que vão gostar. – disse o jovem dando um leve sorriso retribuído da mesma forma pelo seu avô. Por um instante pareceu despreocupar-se com o exame, mas logo pegou-se pensando em como o dia de hoje era importante para seu futuro, como em poucas horas sua vida poderia tomar um rumo definitivamente diferente para melhor, ou para pior.

— Ah meu neto... – disse Adonis esperando os olhos preocupados de Hytanör se encontrarem com os dele — ...não se preocupe, você vai conseguir! — apoiou Adonis com uma cara serena e confiante.

— É! Vamos ver... – pensou Hytanör. Deu um abraço em seu velho e correu para a porta, saindo de casa rumo à academia. Os passos apertados pelo chão abusivamente sujo de tralhas e lixos de comerciantes ecoavam pela mente quase que como uma contagem regressiva para a linha de chegada.

O dia estava lindo, repleto de aves rodeando a cidade, o bom humor estava estampado no rosto de todos os moradores, era um dia de festa para eles, mas não para Hytanör. Tinha muita coisa em jogo.

A academia estava em uma euforia fora do comum, mas era o grande dia. Era compreensível. Os conselheiros de Sant Sovhen já estavam no local para o grande dia, suas montarias aladas – os Naccins – eram grandes aves como falcões, porém tinham caudas e patas como as de um dragão. A penugem era escura como a noite não fosse alguns traços dourados em algumas penas. Estavam em fileiras aguardando seus mestres voltarem. Eram exuberantes, imponentes e mortalmente perigosos. Todos sabiam disso através das aulas de história dos monstros ensinadas na academia. Os alunos estavam alvoroçados com a presença deles, porém ninguém era estúpido o bastante para se aproximar dos animais. Hytanör não era muito popular entre os alunos, embora vivesse se metendo em confusões e tivesse alguns – poucos – amigos. Vivia se metendo em apuros com Lukka Servant – era o filho do general das tropas de Andher – Arthuros Servant – e sua ganguezinha de bajuladores. E lá estava ele, envolto de três amigos – que mais pareciam capachos – olhando com um sorriso malicioso para Hytanör, cochichando algumas palavras que pareciam ser direcionadas a ele e com certeza não eram exatamente elogios. Aqueles olhos azuis perversos e cabelos até os ombros extremamente escuros davam um ar de prepotência que só ele tinha. Seu rosto fino coincidia com seu corpo esguio. Era belo à sua maneira, pois fazia sucesso com as meninas. E antes que o impulso tomasse conta de Hytanör, seu amigo Ellos – um de seus poucos amigos, certamente o melhor – aproximou-se e lhe tirou a atenção de Lukka.

— Olá Hytanör! – deu-se um aperto de mãos entre os dois – Está nervoso? É hoje cara! Eu nem dormi direito essa noite de tanta preocupação. E você? Conseguiu dormir bem?

Ellos era um cara legal, tinha olhos estranhos algo como um mel bem claro. Com seus cabelos um pouco compridos e loiros, era um dos alvos preferidos da gangue de Lukka. Ellos também era como Hytanör, tímido e vivia sendo importunado por esses valentões, mas ao contrário de Hytanör, Ellos não tinha forças para revidar, seu ponto forte era a mágyka e não tinha permissão para usá-la fora dos domínios acadêmicos e muito menos por motivos pessoais. Quando ele ficava ansioso desembestava a falar como um papagaio. Falava pelos cotovelos. Era compreensível, pois o dia de hoje era aguardado há tanto tempo por todos que ficava difícil conter as emoções.

— Sim, dormi bem. Vamos torcer para que tudo dê certo, né? – O pesadelo da noite anterior veio à mente de Hytanör, era quase como se sentisse seu peito rasgando novamente por aquela fera. Levou à mão ao peito e tentou não pensar novamente nisso, mas era difícil não pensar. Quem ficaria tranquilo com um sonho desses?

— O que houve Hyta? – disse Ellos, referindo-se ao gesto de Hytanör de por a mão no peito.

— Ah... – baixou a mão. – não é nada Ellos. É só uma coceira. Venha! Vamos entrar, o general está dando o sinal para o Grand Marid.

Os alunos adentraram à academia em filas indianas, ouvia-se murmúrios de desespero, nervosismos, comentários desesperançosos e até preces. O clima de tensão já tinha tomado conta de todos.

Adentrando o salão principal da academia, uma grande sala circular repleta de estátuas de heróis antigos embelezava o local como se estivessem observando os candidatos, revelava-se mais a frente uma grande aglomeração de estudantes. O chão totalmente feito de mármore possuía pinturas de contos antigos, como batalhas entre seres mitológicos de eras antigas, eram pisoteadas pelos vários pés agora mais ansiosos. Mais a frente tinha uma grande mesa onde soldados da realeza de Andher anotavam nomes dos candidatos, um a um, como um alistamento de alunos. Os papéis sobre a mesa, que já formavam pilhas, eram levados por mensageiros para diversos lugares. Junto às mesas estavam homens fardados, roupas que mais pareciam ser para uma festa de gala do que para uma batalha. Eram brancas com adornos dourados, tinham insígnias douradas no braço esquerdo que os identificava como homens de Sant Sovhen. Eram somente três pessoas para este encargo, e a demora para Hytanör e Ellos passarem por esta burocracia era demasiada. Ao fundo um grande corredor abarrotado de adereços – como papéis, flores e dizeres de incentivo e boas vindas ao evento – que deixavam o clima de nervosismo ainda mais acirrado. Era fácil se deixar levar pelo evento e assim a concentração ir para o espaço. Mas era isso que eles queriam, testar a todos. Saber quantos se portariam diante do dia mais importante de suas vidas e manter a calma. Ellos mantinha-se ocupado lendo um livro sobre a execução de magias, o título era algo como "Como obter sucesso em invocações de mágykas". Era como aqueles garotos que deixam para estudar na véspera da prova.

Em um dado momento Hytanör pôde notar um grupo de garotas conversando fervorosamente, porém uma mantinha-se quieta, observando a movimentação e ao que parecia, tão ansiosa quanto Hytanör. Essa era Lorihenne Amalith da família real Amalith. Filha de Luthian e Lauren Amalith. Era linda como poucas – ou nenhuma – em Andher. Loira, de olhos azuis-claros. Seus cabelos lisos e levemente cacheados nas pontas davam um ar de sutileza e inocência. Já seu rosto quase sempre sério e observador deixava claro que ela – apesar de nova – não se deixava passar por coitadinha, muito menos indefesa. Isso era uma coisa que ela não era. Indefesa. Muito pelo contrário.

Durante alguns minutos Hytanör se perguntou o porquê de olhar tanto para ela. Como se ela fosse olhar e dar bola para um "zé ninguém" como ele. Até que... ela olhou. E para Hytanör. Prontamente, Hytanör totalmente sem jeito acenou. Coisa mais estúpida que poderia fazer e evitar se pudesse prever o futuro. Lorihenne, apenas voltou sua atenção para frente e soltava alguns comentários com suas amigas que davam gargalhadas. Hytanör sentiu-se um idiota completo.

E quando o tempo parecia se rastejar, chegou a vez de Hytanör.

— Seu nome, jovem? – disse um dos três soldados. Hytanör pôde notar em seu peito, próximo ao ombro um crachá com os dizeres "Locky Davran".

— Hytanör, senhor. Hytanör Impera'Dhante. – respondeu com afinco.

— Sim. Vejamos... – Locky coçou a cabeça com a pena, parecendo desconfortável com o intenso calor que fazia no salão. – ...bem, você foi designado para os testes de habilidades em batalhas. É por aquela porta. – disse o homem com certa pressa apontando para uma porta a sua direita.

Ellos vinha logo atrás de Hytanör, nervoso que só ele. Os dois se cumprimentaram e desejaram-se boa sorte. Agora estavam por si. Precisavam encarar seus próprios desafios.

Hytanör caminhava pelo corredor enfileirado por tochas, e quadros de momentos épicos de heróis em toda história de ellohen estavam pendurados pelas paredes. O corredor seguia por uma reta que daria para a arena externa da academia, próximo ao limite da floresta do rei. Hytanör já conhecia o caminho, passara horas treinando ali durante os anos na academia. Sentia-se bem ali. À medida que se aproximava da entrada os raios do sol escaldantes percorriam por todo seu corpo exumando toda escuridão que jazia no corredor. A vibração da plateia lá fora estava contagiando todos os candidatos. E... Espere aí! Plateia? – pensou Hytanör. Pensava ele que os testes seriam realizados de forma secreta, fechados ao público, mas por algum motivo não era da maneira esperada. Nunca imaginava-se lutando diante de um público. Já era tímido o bastante diante da turma, agora teria de dar o melhor de si diante das dezenas de pessoas que assistiam as lutas, que neste momento, já haviam começado. Hytanör tentou limpar sua mente de qualquer preocupação ou nervosismo, mas era difícil diante de toda aquela gente gritando. Passado o "susto", Hytanör pôde notar que a grande arena fora dividida em quatro campos menores, onde quatro lutas estavam sendo realizadas simultaneamente.

O solo da arena era de terra batida, o que faria alguém se machucar ainda mais em uma queda. O anel em torno da arena estava lotado, até mesmo os comerciantes puderam entrar para vender seus sanduíches de carne de búfalo à base de óleo channi – um óleo retirado dos escorpiões gigantes de Malith. É estranho, eu sei, mas vendia. Também tinham refrescos para todos os gostos e rum de solstício à vontade para os "homens-ogros", – são homens bárbaros que adoravam ver o sangue alheio ser derramado ao chão, mas quando a situação ficava ruim para o lado deles, corriam para a mamãe – típicos machões. Ao lado esquerdo estavam os colegas de classe de Hytanör se preparando, alguns se exercitando, outros meditando. Todos de alguma maneira tinham suas superstições e faziam questão de mostrar ao público.

Hytanör dirigiu-se à bancada que estava instalada pegou seu número, olhou para o papel e viu "14". Agora era apenas aguardar o momento de entrar em ação, quem quer que fosse seu oponente. O tempo corria e alguns vencedores foram sendo nomeados e parabenizados pelos conselheiros de Sant Sovhen. Em um momento Hytanör notou uma figura no alto do anel da arena. Um senhor, velho, que parecia ter a mesma idade de seu avô Adônis, com barbas brancas trançadas e cheias de anéis metálicos dourados, um belo manto branco com adornos dourados sobre uma armadura leve igualmente bela. Um grande símbolo em seu peito trazia o símbolo de Sant Sovhen. Um imenso cajado fazia parte de seu repertório, estava descansando recostado no trono ao lado do Protetor do Reino Anglórius Marselis. Era um regente temido, mas igualmente amado por seu senso de justiça e boa vontade em ajudar a todos, além de dar direitos iguais a todos os cidadãos. Sua armadura impecavelmente brilhante trazia adornos de uma ave branca celestial de seis asas no peito, o brasão da cidade. O homem velho sentado ao lado do rei pareceu retribuir o olhar para Hytanör e lhe deu um sorriso de canto de boca. Foi estranho, parecia que ele o conhecia. — Que estranho — pensou Hytanör. E então alguém tocou-lhe no ombro e tirou-lhe a atenção. Hytanör virou-se e se deparou com uma estudante da sua sala. Era Maron, foi difícil de lembrar o nome, mas Hytanör tinha uma boa memória, era só forçar um pouquinho e pronto.

— Ei Hytanör. Você é o 14? – disse ela olhando para a mão de Hytanör que estava com o papel.

— O quê? Ah sim. Sou eu. Por quê? – respondeu como se tivesse acabado de sair de um transe.

— É a sua vez agora. Seu oponente já está na arena. – apontou para a arena atrás de Hytanör.

Hytanör virou-se em um instante e o que viu o fez sentir-se surpreso, mas ao mesmo tempo aliviado. Sabia que poderia enfrentá-lo e outras vezes desejou que fosse dessa maneira. Lukka estava esperando com um sorriso estampado no rosto, de roupas pretas que pareciam ter pequenas placas de ferro instaladas, além de uma espada de madeira em uma de suas mãos. Seria um bom momento para um acerto de contas, e tirar aquele sorriso sarcástico da cara. À força.

Hytanör pegou sua arma, também uma espada de madeira e caminhou até a arena. Estava tenso, é verdade. Mas sabia que não poderia falhar, tinha que dar essa alegria a seu avô, e também a si mesmo.

— Quem desistir ou perder a consciência será reprovado. E sem golpes baixos. – disse um dos juízes que estavam administrando as lutas. – Estamos entendidos?

— Sim!

— Sim!

— Que comecem então! – exclamou no mesmo momento em que saiu da linha de frente.

Lukka "voou" na direção de Hytanör como um raio, a fim de pegá-lo de surpresa. E conseguiu. No susto Hytanör conseguiu defender-se das espadadas de madeira que tinham como alvo seu braço esquerdo e seu rosto. Já no terceiro ataque, Hytanör, que já se encontrava desequilibrado, recebeu um ataque por baixo. Uma rasteira que o jogou ao chão, estatelando suas costas naquela areia batida que mais parecia uma rocha forte de tão dura. O descuido fez com que Hytanör se irritasse. O que piorou ainda mais quando Lukka parou de atacar e preferiu tirar um sarro com a cara de Hytanör pedindo-o para que se levantasse. A raiva era imensa, mas Hytanör sabia que Lukka era rápido. Mais do que ele – afinal Lukka era filho do general mais forte de Andher – e por essa maneira tinha de pensar em uma estratégia que lhe desse alguma vantagem ou que desse iguais condições aos dois. Hytanör pensou em algo e estava convicto de que funcionaria. Partiu para cima de Lukka desferindo golpes ineficazes, pois o mesmo era muito rápido. Sua espada passava a alguns centímetros dele. Hytanör tinha de chegar perto o bastante para desferir um golpe certeiro e então tentou mais uma vez. Colocando o máximo de velocidade que podia em seu ataque, e então, Hytanör fez uma jogada de mestre. Enganou Lukka, fingindo que iria atacá-lo lateralmente na altura do peito com a espada, mas no meio do ataque girou o corpo e deixou a perna contornar o ar seguindo o movimento de seu corpo. E Pimba! Bem na fuça de Lukka. Uma cena espetacular que levantou a platéia. Ellos que já estava na arena gritou junto com a torcida. Lorihenne estava sentada no anel superior e observava atenta a luta. O raciocínio de Hytanör fora brilhante, sabia que poderia encurtar a distância que separava os dois com a perna. — Os membros inferiores são maiores, é claro — pensou. A jogada foi muito boa, mas Lukka – que havia caído ao chão com a pancada – já estava se levantando. Com a mão no nariz, que agora sangrava, Lukka encarava Hytanör com uma cara de poucos amigos, fuzilando-o com olhares que dariam medo a qualquer garoto de sua idade, mas não Hytanör. Lukka já estava bastante irritado por ter sido atingido e agora, parecia que iria brigar para valer.

— Ora, ora! Parece que alguém andou aprendendo algumas manobras novas – disparou Lukka. – mas vamos ver como se comporta agora que levarei mais a sério.

— Cala a boca e venha logo! – disparou Hytanör enraivecendo mais ainda Lukka.

A luta recomeçou com ares tenebrosos, a rivalidade saudável parecia não ser prioridade entre os dois. Hytanör conseguia se defender dos ataques com muita dificuldade enquanto ia sendo encurralado até o canto da arena. Todos pareciam prestar mais atenção na luta entre os dois quase se esquecendo de outras duas que estavam ocorrendo ao lado. Um clima de tensão pairava no ar enquanto o som de duas madeiras se encontrando fortemente no ar se propagava no local junto com os suspiros de algumas pessoas na plateia. Até que Lukka conseguiu furar o bloqueio de Hytanör e acabou acertando diversos golpes em diferentes partes de seu corpo levando-o ao chão. Hytanör estava seriamente ferido e sua espada estava a uns 10 metros de distância, sua perna doía o bastante para não conseguir ficar de pé. Parecia o fim. Era o que Hytanör pensava, chegara até aqui, mas infelizmente não ia conseguir realizar seu sonho. Lukka se aproximava calmamente, ainda com raiva, parou diante de Hytanör que de muito machucado estava agachado, tentando encontrar forças para levantar.

— Seu sonho acaba aqui Hytanör. Sant Sovhen não foi feita para pessoas fracas como você! – disse Lukka enquanto erguia a espada de madeira para dar o golpe final.

Então algo aconteceu. Uma lufada de vento forte o bastante para fazer Lukka recuar alguns passos irrompeu por toda arena até se desfazer em alguns segundos. Lukka – que tapou os olhos para que as areias não entrassem – voltou-se para Hytanör que agora levantava-se calmamente, mas ainda muito machucado. Com a cabeça baixa – olhando para os próprios pés – ali ficou. Parado, esperando por algo.

— Acho que já está na hora de acabar com isso. – disse Lukka ainda confuso com o que tinha acabado de acontecer. Ele caminhou em direção de Hytanör que permanecia imóvel e então quando se aproximou, empunhou a espada e hesitou por um momento, como se estivesse receoso do que poderia acontecer, e então desferiu o golpe da vitória. Mas não foi. O silêncio imperava na arena e até mesmo as outras lutas que pararam para assistir a surpreendente batalha entre os dois jovens. Surpreendente porque Lukka sempre fora muito conhecido e temido pelos jovens de sua faixa-etária, por ser filho do general Arthuros e ter aprendido a arte da batalha com seu próprio pai.

Um estalo ecoou pela arena, seguido de outro estalo ainda maior. Era a espada de madeira que havia se partido pelas mãos de Hytanör, logo após ele ter segurado com apenas uma das mãos.

— Incrível!

— Fantástico!

— Quem é esse garoto!? – disseram vários espectadores. A plateia ficou de pé, ninguém mais aguentava ficar sentado, tamanha era a tensão. Os conselheiros e examinadores de Sant Sovhen estavam incrivelmente vidrados na luta. Hytanör levantou seu rosto que ainda estava olhando fixamente para o chão e deu uma bela encarada em Lukka. Seus olhos estavam amarelos. Como as de um felino, amarelos como ouro reluzente e uma fenda negra ao centro como um buraco negro pronto para sugar tudo e a todos que estivessem por perto. Hytanör não falava, parecia que estava em outro mundo e o que fez no momento seguinte foi assustador. Hytanör acertou a boca do estômago de Lukka com tamanha rapidez que poucos conseguiram enxergar tal movimento. O punho instalou-se no abdômen de Lukka. Mas não foi um soco qualquer. Mas "O Soco". Lukka ajoelhou-se de dor, e exatamente com a facilidade que uma barata que é esmagada por pés humanos, seu rosto também foi espremido contra a areia batida da arena pelos pés de Hytanör. A plateia estava adorando. Hytanör puxou-o pelo pescoço e com espantosa e surpreendente força e ergueu-o com uma mão, e naquele momento estava pronto para encerrar com a luta. E então...

— O que está acontecendo? – Hytanör falava consigo mesmo. – Isso pode matá-lo. Pare! – ordenou para que seu corpo obedecesse.

— Deixe-me lhe mostrar como se luta. Você está estragando tudo! Do jeito que as coisas iam, você iria perder! – disse uma voz grave, profunda e extremamente tenebrosa.

— Quem é você? – disse Hytanör surpreso. – Onde está?

— Sou seu melhor amigo, aquele em quem pode confiar. Agora se me permite, deixe-me terminar com isso.

— Nãããoo! Essa luta é minha, não preciso que lutem por mim. – Hytanör gritou com toda raiva embutida de dentro de sua alma.

Hytanör agora parecia confuso e então todo o corpo de Lukka que antes parecia ter 200 gramas, agora parecia ter 2 toneladas. Lukka caiu no chão consciente, mas se contorcendo de dor. Hytanör cambaleava para trás como aqueles bêbados sem rumo que frequentam as tavernas de Andher. Seus olhos agora estavam verdes novamente, não sabia o que tinha acontecido, e suas pernas agora pesavam como chumbo. Era cada vez mais difícil manter-se de pé. E então Hytanör caiu. Seus olhos foram se fechando lentamente junto com sua visão que agora estava totalmente tomada pela escuridão. Estava inconsciente.

Hytanör acordou em um lugar familiar, já estivera por aqui. E então olhou para o lado e percebeu. Estava na enfermaria real da cidade. Os vários leitos ao lado tinham outras pessoas acidentadas de todas as formas possíveis. Estava enfaixado em algumas partes do corpo e sentia poucas dores, mas nada que o impedisse de andar. Levantou-se e viu algumas pessoas entrarem pela porta, eram seu avô, seu amigo Ellos e um homem vestido de roupas brancas e o brasão da cidade em seu peito, era um curandeiro real de Andher. Seu avô e Ellos se aproximaram.

— Você está bem, meu neto? – disse Adonis preocupado.

— Sim, vô. Estou muito bem agora. Mas, o que aconteceu comigo? – respondeu Hytanör ajeitando-se na cama.

— Você sofreu uma forte pancada na cabeça e isso pode ter lhe causado o desmaio. O curandeiro disse que não houve nada demais, apenas uma escoriação e que sarou durantes esses dias.

— Dias? Como assim? Quanto tempo fiquei inconsciente? – perguntou perplexo, olhando agora para Ellos.

— Você ficou dois dias em coma Hytanör. – disse Ellos. – Ficamos preocupados, mas agora está tudo bem.

— Mas e o Gran Marid? Eu perdi, não foi? – perguntou e o medo percorreu por todo o seu corpo, como se já soubesse a resposta.

— Infelizmente sim meu neto, mas não fique chateado. Pois não acabou para você. Você foi muito bravo lá na arena. Estou extremamente orgulhoso de você. Mas acredito que você queira boas notícias não é? Então melhor deixa-lo conhecer uma pessoa, ela quer lhe falar em particular, você entenderá. – revelou seu avô bagunçando o cabelo de Hytanör com as mãos antes de se afastar.

— O quê? Quem vem me ver?

— Você já vai saber. – disse Ellos com um sorriso no canto da boca, dando as costas saindo da sala – Te espero no porto.

— Porto? Como assim? – Hytanör estava confuso, sua cabeça doía cada vez que tentava compreender todas as palavras que absorvera agora pouco, queria entender o que tinha acontecido.

Tão logo saíram seu avô e seu melhor amigo, um homem entrou pela porta do quarto. Um senhor alto – de idade – por volta de seus 60 anos. Vestia um manto branco como a neve adornado por detalhes em dourado. Os olhos azuis e barbas trançadas fizeram Hytanör lembrar-se daquele homem que estava na arena, no alto do anel, junto à família real. Era ele. Só podia ser. Seu bastão que emanava uma fonte de amital tão poderosa não estava com ele, mas nem por isso deixava de ser mais ameaçador. Os olhos azuis-claros penetrantes e profundos do velho encontraram-se com os de Hytanör. O velho sentou-se ao lado de Hytanör no leito, e pôs a mão na testa do garoto enfermo.

— Finalmente se recuperou Hytanör. Temíamos não poder mais esperá-lo. – revelou ele com uma voz extremamente calma e grave. A voz passava uma tranquilidade e paz que nem mesmo seu avô Adônis era capaz.

— Como assim "temiam não me esperar mais"? Eu fui desclassificado, não fui? Eu perdi. – disse ao tempo que se virou para a janela, sua voz estava embargada de tristeza por conta de seu fracasso. Pela janela pôde ver crianças brincando com alguns gatos, correndo de um lado para o outro, enquanto alguns comerciantes gritavam com as crianças tentando espantá-las de suas barracas antes que quebrassem algo. Imaginava Hytanör que passaria o resto da vida em Andher, seja arrumando confusões ou sendo explorado por algum patrão perverso.

— Desculpe minha indelicadeza Hytanör. Me chamo Agnis Nortilus. Sou o Comandante Geral das Forças de Sant Sovhen e Conselheiro Primordial da Millora Regente de Sant Sovhen, Akórdia Nephalla. Aquela que tem a palavra final no ateneu. Sou seu porta-voz em Ellohen e fico encarregado por organizar as novas turmas de alunos. Como você sabe, existem três formas de ser admitido. E realmente, por essas três regras você foi desclassificado, porém existe uma outra regra que poucos sabem e apenas uma vez me utilizei desta exceção para conceder a um aluno este direito. De acordo com esta antiga regra, posso admitir qualquer aluno que achar que mereça esta honra baseado em algum fundamento que o ateneu preze. E você, meu jovem, lutou com tanta bravura e honradez que me emocionou, há muitos anos que um velho como eu não sentia uma emoção em uma batalha tão acirrada e inteligentemente conduzida. Nada mais justo em conceder a você este direito de se juntar a nós em Sant Sovhen. Adiei a partida para Sant Sovhen em dois dias para que você pudesse ir conosco. Caso ainda queira ir, é claro. – disse Agnis sorridente como se tivesse acabado de dar a maior notícia do mundo para um jovem sonhador, ou um presente para uma criança abandonada.

Hytanör mal podia acreditar nas palavras que ouvira, ficou chocado demais para responder algo de imediato, seus lábios mal se mexiam diante das cenas de momentos que passavam por sua mente, momentos de alegria e dificuldade que passara com seu avô. Lembrou-se de seu avô, que sempre acreditou e agora que estava tão perto de seu sonho, estava muito feliz. Finalmente seu grande objetivo havia sido alcançado.

— Estou vendo que não gostou muito da ideia. – disse Agnis sorrindo num tom irônico.

— Não! Não é isso. – disse rapidamente Hytanör eufórico. – Quero muito fazer parte do ateneu. Quero me juntar a vocês. Quero aprender. – O brilho dos seus olhos era notável.

— Muito bem. – disse Agnis prontamente se levantando. Arrume suas coisas, vamos partir imediatamente. Já segurei a embarcação por muito tempo. Acho que já estão bastante contrariados por isso. – disse com um sorriso estampado no rosto.

O mundo nunca mais seria o mesmo para Hytanör quando chegasse ao Ateneu de Sant Sovhen. Muitas histórias, diversões e aventuras aguardavam por ele lá. Talvez até um pouco mais que isso.