Eles Não se Importam
3 Símbolo de Egoísmo
Notas iniciais
Salvador, Bahia – 10:37 hrs
— Bom dia, mãe!
Enquanto tocava o radinho de pilha, ela não percebeu o vulto passando por suas pernas e indo em direção ao espelho. Sem dar muitos detalhes, Jota vestiu sua farda e estava pronto para ir quando ouviu a voz da mulher reverberar por toda casa.
— Ei, tá indo aonde tão cedo?!
Ele parou na saída e suspirou.
— Vou buscar meus livros antes que alguém roube! Acho que a diretoria guardou, mas quero ter certeza.
— E não vai comer nada?
— Eu como lá, não tem problema!
— Hum… okay, mas, se a escola não abrir pra te atender, volte pra casa. Não quero que você fique lá, esperando.
O menino assentiu e seguiu em direção ao lugar que não saía de seus pensamentos. Chegou à casa característica com aquela macieira bonita na frente, em seguida chamou pelo Michael e esperou que ele o atendesse.
O moreno sorriu assim que o viu da janela.
— Entre!
E Jota seguiu rumo ao outro mundo no quintal daquele homem estranho e tão gentil. Tomaram a bicicleta, ele se esqueceu completamente de perguntar sobre sua mochila e seus livros, apenas se acomodou junto ao adulto e seguiu com ele pela trilha de terra seca sob um sol lindo e brilhante.
— Pra onde vamos hoje?
Michael sorriu.
— Eu vou te mostrar o meu mundo.
Aquela frase fez os olhos do menino se acentuarem. Eles seguiram em direção ao campo de colheita da comunidade, um lugar extenso e verde onde havia uma plantação dos mais variados tipos possíveis. Algumas pessoas estavam lá naquele momento, trabalhando para cuidar das plantas e manter as pragas afastadas.
— O que eles estão fazendo?
— Estão cuidando da horta da família. São pessoas que vivem desse tipo de trabalho, e eu as chamei justamente para não dependermos dos alimentos intoxicados das indústrias. Aqui, a comunidade tem do bom e do melhor.
— Uau… — o garoto desceu da bicicleta e se aproximou com cuidado — Vocês têm tudo aqui! Não precisam sair pra comprar nada, não é?
O moreno aquiesceu, com um sorriso orgulhoso e um tanto inocente no rosto.
— Todo o trabalho da comunidade é revertido para a própria comunidade. É assim que mantemos a nossa luta — ele virou o rosto para o horizonte e fez um aceno. — Joel!
Um homem de mais ou menos 40 anos se aproximou, com um sorriso no rosto.
— Michael! E quem é o garotinho?
— Esse é o Jota, um amigo. Ele veio visitar a comunidade.
O homem foi até a sua plantação mais próxima e colheu alguns tomates bem brilhosos e bonitos, com os quais presenteou o garoto, que limpou na própria camisa e mordeu um pedaço na mesma hora.
— Hmm… obrigado! Por que você escolheu fazer parte da resistência?
— Ah, Michael é só alguns anos mais novo que eu, e ainda tinha esse fogo pra querer mudar as coisas… — ele riu, o que fez o Michael o acompanhar casualmente — Ele deu um lugar melhor pra minha família. Antes, nós éramos pagos uma vez sim, uma vez não, e nem conto quando acontecia algum atraso na colheita. Agora ele fez a gente sentir que nosso trabalho é mais valorizado.
Embora o homem falasse de um jeito engraçado, Jota conseguiu entender o segredo do porquê daquela comunidade parecer dançar em sintonia. Mas havia uma coisa que, vez ou outra, ele se pegava questionando… Se Michael não é o líder, por que ele parece tão importante ali?
— Então… Michael te contratou?
— É, por aí. Ele chamou eu e minha família.
— Caham… — Michael murmurou — Joel, vou levar o Jota pra passear. Sua plantação está perfeita, excelente trabalho!
Ele fez um sinal com a cabeça e chamou o garoto para a bicicleta, que foi sem pensar duas vezes. No meio do caminho, entre as pedaladas, Jota resolveu questionar isso.
— Michael… o que você fazia antes de fazer parte da resistência?
— Isso não importa muito, Jota. Eu não tenho mérito nenhum, por nada. Chamei o senhor Joel, assim como a Nena também chamou as pessoas que ela conhecia. Todo mundo aqui trabalhou um pouco pra criar o que você está vendo agora.
O menino tentou matutar tudo aquilo em silêncio. Ele não entendia por que motivo Michael ocultava tanto as suas raízes, ou por que ele não gostava de ter os créditos sobre coisas que ele claramente merecia. Jota achava tudo aquilo meio depreciativo, como se o próprio adulto estivesse menosprezando os seus próprios esforços. Ele queria mudar aquela situação, mas não sabia como fazer, não conhecia o homem o suficiente.
Michael parou de pedalar próximo a um pequeno prédio de dois andares em reforma. Antes de interagir com as pessoas que ali estavam, ele se virou para o garoto.
— Entendeu o que eu disse?
— Eu… acho que sim.
O moreno levou a mão ao ombro do garoto e o encarou.
— Um líder é um símbolo de egoísmo e finitude. As revoluções têm prazo de validade, porque têm líderes ou inimigos com sobrenome. Quando esse sobrenome não existe mais, não há mais nada para fazer. Nossa luta nunca vai acabar… entendeu? Não enquanto crianças estiverem morrendo e pessoas estiverem passando fome por causa de um governo opressor, omisso e hipócrita.
Jota aquiesceu.
— Entendi…
— Vamos criar a nossa história — disse Michael, sorrindo. Por fim, voltou a prestar atenção naquelas pessoas e foi acompanhado pelo garoto. — Luna! E como estão as coisas por aí?
— Michael! — A tal da Luna desceu por um pilar roliço que conectava o térreo ao primeiro andar, em seguida, em passos largos, correu para se jogar nos braços do adulto. Jota, como a maioria dos garotos, intimidou-se ao admirar a beleza da menina que parecia ter a mesma idade da professora — E quem é esse meninão?
— É o Jota. Ele está visitando…
Ela sorriu para o garotinho.
— Ei, Jota! Você gosta de fazer bagunça? Porque bem que estamos precisando de gente pra pintar aquela parede ali…
— Eu posso ajudar? — indagou o próprio Michael, já com os seus grandes olhos pretos reluzindo ao ouvir a palavra “bagunça”.
Luna riu e assentiu.
— Tem espaço pra todo mundo! Vamos!
Os três seguiram até um pequeno grupo de pessoas, que já estavam pintando uma parte da parede. Luna deu um pincel ao Jota e outro ao Michael.
— Vai sujar toda essa sua camisa vermelha, viu? Dá até uma pena de te ver assim, todo arrumadinho.
— Se eu escolher cores quentes, não vai dar pra notar — ele brincou, rindo em seguida. — Então… como vocês estão fazendo?
— Estamos pintando essa parte do prédio de azul céu, e o interior de rosa pastel. Deem pinceladas de cima abaixo pra padronizar com o resto e cuidado com essas fitinhas aqui, colamos porque nessas partes vamos desenhar alguma coisa.
— Vocês pensaram em tudo… e eu tenho certeza que foi você que escolheu essa paleta, estou certo?
— Você me conhece bem… — ela sorriu.
Jota se sentiu meio de escanteio, mas não era bobo nem nada: aquela menina parecia interessada, e não era na camisa vermelha de cetim que o moreno usava. Michael, completamente desligado das intenções dela, ou assim fingindo, puxou o garotinho para sua frente e guiou suas pinceladas até que ele pudesse pegar o jeito.
— Por que você tá me ensinando uma coisa que eu já sei?
— Oh, boy… você sabe?
— Sim. É só pintar, e eu entendi as regras.
— Ah, sim, sim… desculpe.
É… ele estava fingindo.
Jota segurou uma risada e pintou sem falar nada. Michael novamente estava perdido em seus pensamentos, quase não completou o seu pedaço da parede. Eles ficaram pouco tempo nessa atividade, pois Luna chegou com alguns refrescos e estipulou uma pausa para que todos pudessem beber e descansar.
O adulto buscou um canto isolado para arejar a cabeça, e nada melhor que admirar aquela paisagem verdejante. Absorto no seu próprio mundo, levou as mãos aos bolsos e olhou para o horizonte, foi acompanhado instantes depois pelo menino, que grudou nele como se fosse algum parente seu. Ele se aproximou e se sentou no gramado.
— Você gosta da Luna?
— O-o quê…? — Michael despertou de seus pensamentos.
Jota sorriu e repetiu sua pergunta.
— A tia bonita, dos olhos claros. Você gosta dela, não é?
Michael sorriu de canto e abaixou o olhar, um tanto acanhado. Se aproximou do garoto e se sentou ao seu lado, no gramado.
— Ela é muito bonita…
— Pode apostar!
— Mas isso não é conversa pra criança — Michael cortou, rindo em seguida.
— Ah, qual é… vamos, confia em mim! Eu não vou contar! Eu confiei em você e confio até agora.
O moreno suspirou e ficou em silêncio. Meio contrariado, hesitou se devia continuar aquele assunto, não era algo que gostava de sair comentando por aí, mas se sentia mal por não retribuir as palavras do garoto.
Ele voltou a olhar o céu.
— Ah, Jota… eu amo muitas mulheres, mas não posso retribuir o amor delas.
O menino levantou as sobrancelhas.
— Muitas…? E elas deixam?
Ele sorriu com a sua inocência.
— Um dia quero descansar… ter minha esposa, meus filhos... mas, enquanto estiver na luta, não posso pensar nessas coisas — ele olhou pro garoto. — Eu não quero te assustar com essas conversas, mas nossa resistência é uma luta constante. Eles estipulam líderes, marcam nomes, premiam cabeças… eu não me sentiria bem se algo acontecesse comigo e eu não pudesse nunca mais estar lá para os meus filhos. Por isso eu evito essas coisas. Enquanto a comunidade ainda precisar de mim, minha vida é da nossa luta.
O menino assentiu.
— Você é um herói.
— Nós somos — ele levou uma mão ao ombro do garoto, que aquiesceu em silêncio.
— Então… nós vamos passear mais?
Assim que ele disse isso, Michael finalmente lembrou-se da escola do garoto. Olhou para o céu e encontrou um sol se pondo no horizonte, quase a findar.
— Oh, man… já são umas cinco, eu acho. Você perdeu sua escola.
— Ah, não tem problema! A escola é chata, aqui é muito melhor!
Michael se levantou e se espreguiçou.
— Mas continue indo, a escola é importante.
— Posso estudar aqui?
— Jota, você teria que pedir à sua mãe para fazer a transferência.
O moreno seguiu até a bicicleta e a levantou, Jota o seguiu, montaram e partiram em direção à porta do quintal do adulto. No meio do caminho, a conversa se estendeu.
— Se eu pedir pra ela… será que ela não vai me proibir de vir aqui?
Michael deu ombros enquanto olhava para a estrada.
— Não dá pra saber. De qualquer forma, já é errado que você venha aqui sem o consentimento dela.
— Mas ela não ia deixar se eu pedisse, e eu gosto daqui, eu gosto desse lugar, as pessoas são legais… eu gosto de você.
Michael não respondeu àquelas palavras. Não naquele instante. Quando chegaram aos portões de madeira da sua casa, ele parou a bicicleta e levou o garoto para dentro.
Atravessaram o corredor. Antes que o menino saísse daquela casa, o adulto tocou em seu ombro e se inclinou para conversar.
— Talvez ela te proíba, mas obedeça sua mãe. Diga a ela pra onde está indo.
— Mas… mas eu não quero que ela me proíba de voltar! E se ela proibir?
Michael ponderou.
— Hum… então faça o seguinte: semana que vem será a inauguração da creche da comunidade e a escola irá fazer uma apresentação para o evento. Diga a ela que você foi convidado a assistir. Pode chamá-la também, se você quiser.
Jota achava uma ótima ideia, embora os seus medos dissessem o contrário. Ele não falou nada, não podia arriscar perder a conexão que criou com aquele grupo, pensou em refletir mais sobre isso em casa.
— Preciso ir. Deixei minha bolsa aqui ontem, não foi?
— Ah, sim! Ela está por aqui, eu encontrei pouco tempo depois que você se foi.
Michael se levantou e foi buscar a bolsa do garoto. Após o reencontro dos seus pertences e uma despedida rápida do adulto, Jota voltou para casa com a cabeça doendo e a mente fervilhando. Sua mãe ainda não havia chegado, ele teria tempo para ensaiar aquelas palavras, o fim de semana estava para chegar e tempo era o que não ia faltar. Ainda sim, Jota se sentia pressionado: ou era fazer a coisa certa e arriscar não voltar mais no refúgio, ou era mentir mais uma vez como nas outras vezes e não provocar a desconfiança de ninguém. Ele estava pressionado, mas estava decidido, e a sua escolha não era difícil…
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