Eles Não se Importam
4 Você é Como um Pai
Notas iniciais
Salvador, Bahia – 14:13 hrs
— “Ele foi chutado nas costas
Ele diz que precisava disso!
Seu rosto enrubesceu
Continuou ousando a se motivar!
Ele diz que um dia você verá
O lugar dele na história mundial!
Ele ousa ser reconhecido
O fogo profundo em seus olhos!”
Uma coisa de que Jota não tinha ciência, e que agora ele conhecia e que havia o surpreendido, era que o homem que ele tanto admirava cantava como nunca antes.
Distraído no meio da pequena plateia que havia ali, um palco muito bonito, embora improvisado, foi montado para as festividades da inauguração da creche. Jota estava entre as pessoas, estático, admirando a mágica que estava acontecendo naquele palco, na forma como aquele homem performava. Ele definitivamente não era como as outras pessoas ali, aquilo não parecia meramente ensaiado.
— “Quantas vítimas devem existir?
Sacrificadas em vão por toda terra…
E quantos conflitos devem existir
Antes que escolhamos viver os planos do Profeta?
Todos, cantem…"
De repente, um coral se iniciou. As crianças um pouco maiorzinhas, da creche antiga, pareciam bastante afinadas e contentes quando soltaram suas vozes para entoar junto ao adulto.
— "Todo dia crie sua história
Todo caminho que você escolhe, está deixando seu legado
Todo soldado morre em sua própria glória
Toda lenda conta sobre conquista e liberdade
Todo dia crie sua história
Toda página que você vira, está escrevendo seu legado
Todo herói sonha com nobreza
Todas as crianças deveriam cantar juntas em harmonia"
Por fim, Michael retornou ao centro do palco, onde finalizou aquela canção com a sua conscientização inspiradora.
— "Todas as nações, cantem…
Vamos, todos, harmonizar ao redor do mundo"
O público parecia encantado, como se não fosse tão comum, por ali, ver uma apresentação como aquela. Jota aplaudiu após alguns minutos aturdido, ele se sentiu em um daqueles shows beneficentes onde uma grande celebridade aparecia por alguns momentos, porém sem todo o empurra-empurra da plateia e a brutalidade dos guardas. Ele nunca havia visto um show, exceto na TV, e ver pela primeira vez era realizador.
Após as finalizações, todos foram convidados a entrar na nova creche. As paredes azuis céu por fora, rosa pastel por dentro, e todo o interior parecia surgido de um conto de fadas. O garoto estava um pouco acanhado, ele não conhecia muitas pessoas ali, então escolheu ficar admirando a decoração em seu canto, quando foi abordado pela morena dos olhos claros.
— Oi, Jota! Gostou do show do Michael?
— Hurum… — ele murmurou — eu não sabia que ele fazia shows.
— É só uma forma de expressão. Michael tem um pezinho nas artes, ele gosta de treinar as crianças pra cantar.
— Ah, então…
— Luna.
Os dois se viraram para a terceira voz que era, inegavelmente, a do adulto que Jota estava procurando.
— Michael! Você foi muito bem, hein? Jurei que ia vir uma segunda música depois daquela!
— Eu não queria atrasar a inauguração, vocês fizeram um trabalho lindo na creche.
— Valeu! Eu… — ela virou o rosto e já estava para iniciar um assunto quando notou, novamente, a presença do garotinho, acuado. Luna voltou seus olhos azuis ao Michael e sussurrou: — eu acho que o seu fã número um quer falar com você.
O moreno sorriu e olhou para o pequeno, que tinha as mãos nos bolsos e um olhar distante para a decoração do lugar. Luna saiu, deixando os dois a sós. Michael se aproximou dele.
— Ei… vamos lá pra fora? Aqui está bem barulhento.
O menino assentiu e o seguiu até o exterior. Michael não queria ficar muito perto da festa, comemorações tendem a ser um pouco inconvenientes às vezes, e o barulho, embora alegre, era um pouco incômodo se em excesso. Seguiram a pé pelo caminho de terra até aos poucos esvair-se os sons.
— Então… pensei que sua mãe viria contigo.
— É que… ela não pôde, ela teve que trabalhar.
Michael arqueou a sobrancelha, mas disfarçou sua expressão.
— Hum… mas ela sabe que você está aqui?
— Sim, sim, sabe sim. Disse pra eu me cuidar e tudo.
— Que bom… — ele sorriu e voltou a prestar atenção na estrada — porque eu realmente esperava que ela viria, já que escolhemos um feriado nacional pra fazer a festa.
O menino mordeu os lábios e se manteve em silêncio. Michael o encarou de canto e, com um sorriso fraco no rosto, indagou:
— Sua mãe foi trabalhar, Jota…?
Ele suspirou.
— N-não… eu… eu não sei.
— Ela acha que você está na escola?
— Sim… bom, eu não sabia que era feriado. Acho que foi por isso que ela me olhou estranho, mas não me impediu de sair.
Ele aquiesceu. Pararam de caminhar próximo a um morrinho, com uma vista direto para a extensa plantação do seu Joel. Michael se sentou no gramado e foi acompanhado pelo garoto.
— Uma hora, ela vai desconfiar…
— Eu sei…
— E, quando isso acontecer, o que você vai fazer?
— Eu… eu não sei.
O moreno o encarou.
— Você sabe o que precisa fazer.
Jota não retribuiu o seu olhar. Seus olhinhos pretos foram diretamente ao chão, absortos em pensamentos angustiantes. Michael viu sua expressão se fechar e, por um segundo, isso o preocupou.
— O que foi…?
Jota lentamente prosseguiu:
— Eu… eu sei que é esquisito dizer isso, mas… essas coisas que você me ensinou… eu nunca tive ninguém pra me ensinar isso. Às vezes, eu sinto falta do meu… — ele estagnou, mordeu os lábios e, então, prosseguiu — pai. E… eu gosto de você. Você é como um pai. Não é como ele que… foi embora… você é como um pai que tá aqui comigo. E, por causa disso, eu não quero que minha mãe me proíba de vir aqui, eu não quero…
Jota estava prestes a chorar, Michael conseguia sentir aquela lágrima tão próxima quanto o brilho dos seus olhos pretos, e aquilo apertou o seu coração. Ele adorava crianças, havia um motivo para isso: ele enxergava a pureza no coração delas, e poder ouvir os sentimentos genuínos que uma criança nutriu sobre sua pessoa, sentimentos fraternos de uma paternidade considerada, mesmo que ele jamais tenha procurado por isso, foi como receber um presente de Deus.
— Jota… eu posso abraçar você?
O menino mordeu os lábios, segurando aquela lágrima, e assentiu. Michael o entendia, crianças detestavam chorar, sobretudo garotos, mas ele tratou aquilo como se não tivesse nada de errado em soltar uma lágrima de vez em quando. O adulto se aproximou e o abraçou com todo o amor e respeito que tinha para lhe dar, e o menino retribuiu de maneira desengonçada, ainda um pouco perdido.
Michael beijou o topo de sua cabeça.
— Eu não tenho filhos… mas você tem um espaço especial no meu coração. Você me ensinou muitas coisas, Jota. Me ensinou a ter esperança nas pessoas, a perceber que as flores nascem no deserto. Você não precisava me ouvir, e me ouviu. Você me valorizou mais que as autoridades que juram cuidar de nós em todos os anos de eleição.
Eles lentamente se afastaram. Jota limpou o rosto rapidamente, envergonhado, mas o adulto, compreendendo aquela atitude, levou uma mão à sua bochecha e passou o polegar rapidamente pela maçã de sua face, limpando o último resquício de lágrima que havia ali.
— Não tenha vergonha de chorar. Tenha vergonha de não ter sentimentos.
O garoto aquiesceu em silêncio. Voltaram a olhar o horizonte e, nesse ínterim de reflexões, Michael voltou a falar.
— Eu queria te contar umas coisas… sobre minha vida.
Não é de hoje que Michael era um enigma na mente fértil de Jota. O seu passado, sua luta e o porquê de ele parecer ser tão diferente o intrigava completamente. O menino olhou para o adulto, esperando que prosseguisse.
— Eu não sou brasileiro — ele riu baixinho. Jota arqueou a sobrancelha. Michael, então, o encarou e voltou a falar: — Nem sempre morei aqui. Por mais que eu goste do Brasil, dessa terra quente, das pessoas gentis, nem sempre vivi aqui. Eu sou lá de cima… da América do Norte.
— Uau… você é tipo as celebridades da TV? Aquelas que falam meio difícil… tipo “rô ari u”?
Ele riu.
— Sim! Um dia, eu vim aqui a trabalho e… oh, boy, eu me apaixonei por esse lugar.
— Você trabalhava de quê?
Nesse momento, ele mordeu os lábios. Algo naquela pergunta mexia com os seus pensamentos, mas ele não esconderia mais.
— Eu era… uma celebridade.
Jota segurou uma expressão surpresa. Já o adulto, como se não tivesse orgulho do seu título anterior, apenas moveu os ombros.
— Talvez você conheça minha voz, não tem muito tempo que deixei de me apresentar.
— Por isso você parecia saber o que tava fazendo quando se apresentou no palco, não foi?
Michael assentiu.
— Você desconfiava?
— Um pouco.
— Você é esperto… — ele suspirou e voltou a olhar a paisagem — Eu me apresentava. Eu gostava do que fazia, mas eu sentia que tinha que fazer mais, e visitar esse país me trouxe a certeza disso. Era uma vida vazia, era glória demais para uma só pessoa. E eu queria, pelo menos, que a forma como eu era tratado fosse a mesma para com as outras pessoas. Era um pouco utópico, mudar o mundo era difícil, lidar com muitas cabeças era complicado, mas eu quis esse desafio pra mim. Um dia eu me olhei no espelho, e… bom, a mudança precisava começar em mim para depois seguir as outras pessoas.
— Você… deixou tudo pra ajudar essas pessoas?
Ele sorriu fraco e olhou para o garoto.
— Eu comecei pelo homem no espelho. Eu disse para que ele mudasse suas atitudes — ele suspirou, como se essas palavras o lembrassem de um passado não muito distante.
Jota ponderou sobre aquilo.
— Hum… você faz muito essas apresentações por aqui?
— Eu treino o coral das crianças, não me apresento com tanta frequência.
— Você… poderia fazer mais vezes? As pessoas gostaram muito.
— Eu não sei… — Michael mordeu os lábios — Nem todos sabem desse meu passado, eu prefiro não me arriscar.
— M-mas… — o garoto pôs os miolos para fritar por alguns segundos, precisava pensar em algo rápido antes que o adulto mudasse de ideia. Enfim acabou se lembrando de um detalhe — eu vou fazer aniversário! Dia doze. Você não poderia fazer o meu aniversário aqui e fazer uma apresentação? Eu chamo minha mãe dessa vez.
Michael não estava muito convencido, mas ouvir que o garoto finalmente teria coragem de falar com a própria mãe era o combustível que ele precisava para topar o seu plano, além, é claro, do seu aniversário. Michael queria que ele tivesse o melhor dia de todos.
— Está certo. Marcamos tudo no decorrer da semana, mas eu quero que conte à sua mãe antes de qualquer coisa.
— Feito!
Michael sorriu. Após todo aquele tempo conversando, ele se levantou para aposentar aquele momento.
— Vamos voltar? Vamos comer alguma coisa e, depois, você vai pra casa.
Jota concordou e seguiu com o adulto para o caminho de volta. No resto do dia, Michael se certificou de que o menino tinha sido devidamente alimentado, se certificou em deixá-lo um pouco mais confortável para que ele pudesse socializar com outras crianças, e também fez questão de passar o seu tempo com ele. Jota estava, pela primeira vez, experienciando um momento que nunca teve antes: ele estava vendo como um pai se comportava na prática, e isso, sem ele nem ao menos compreender, aquecia o seu coração.
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