Eles Estão Vindo
4 Usurpação
Hugo
Hugo abriu os olhos devagar, e a luz que penetrou neles ardia. Conforme os abria aos poucos, encarou o teto branco e liso de um dos quartos de pronto socorro do Edifício Logus. A picada no braço doía, mas agora era uma diferença. Estava sentado em uma cadeira hospitalar e em sua veia estava sendo injetado algum líquido. A última coisa que existia na sua cabeça era a escuridão abafada, uma figura conhecida, e a voz fria: “Ele vai dormir agora.”
O corpo estava pesado, fez força para se levantar e tentar arrancar a agulha quando uma voz o interrompeu:
— Hugo, deita. Você precisa repousar.
Era Celeste. Os olhos dela estavam fundos e vazios, o que assustou o garoto à princípio. Celeste sempre era calorosa e positiva, o que significava que o atentado deveria ter sido realmente grave. Porém a postura da garota continuava sendo a de uma cientista em meio à crise, controlada e distante.
— Onde ela está? — Hugo conseguiu perguntar, a voz rouca. Sua cabeça latejava. Celeste baixou o rosto.
— Você está falando de…
— Ela não sobreviveu. — a resposta cortante vinha de Levi. O mais velho estava escorado na parede, parecendo ter envelhecido dez anos em horas. Tremia da cabeça aos pés e encarou os dois irmãos com melancolia, ao dizer novamente:
Sara não sobreviveu. O corpo dela foi encontrado no alçapão debaixo do palco do auditório.
Hugo sentiu o estômago embrulhar. As memórias retornaram para sua mente como um punhal. Sara viva. Sara ajoelhada, Jake segurando-a acima dela. A voz de Miru.
— Não — ele conseguiu dizer depois de engolir a seco. — O Jake e a Miru… eles…
— Eles estão desaparecidos. — respondeu Celeste. Ela abraçava o próprio corpo, desolada. — Achamos que se separaram de nós na confusão, tentando outra saída. Não estão em lugar nenhum. A segurança está procurando por eles e pelo atirador.
— Você foi encontrado desacordado. — complementou Levi, ainda trêmulo. — Havia tomado algum tipo de tranquilizante. Hugo percebeu um olhar de questionamento vindo do irmão.
“Será que ele pensa que eu me droguei?”
O pensamento lhe trouxe remorso. Celeste começou a soluçar e se jogou em cima de Hugo abraçando-o. O rapaz deu espaço para que ela se sentasse do seu lado. Não conseguia imaginar o que ela e Levi deveriam estar sentindo naquele momento. Uma irmã morta, dois irmãos desaparecidos e um irmão possivelmente suicida, tudo de uma única vez. Hugo apenas abraçou Celeste e achou que seria melhor compartilhar em outro momento o que havia visto. Talvez fosse um delírio, mesmo que no fundo soubesse que não faria sentido.
Levi desencostou da parede e sentou no chão do lado da cadeira hospitalar, com a cabeça apoiada nas pernas de Celeste. Aquele momento terrível parecia um pesadelo sendo revivido. O dia em que a doutora Beatriz havia morrido era a última vez que os Aubert se sentiram tão miseráveis. Hugo então decidiu agir exatamente como havia sido no dia da morte da tutora: um garoto enlutado e que queria apenas a companhia dos irmãos. Torceu para que não vissem seus traços de terror e desespero enquanto escondia um segredo assustador.
O tempo passou em uma névoa. Depois do que pareceram horas de Celeste e Hugo abraçados, com Levi embaixo deles, alguém bateu na porta. A enfermeira havia entrado há alguns minutos para retirar o soro que Hugo estava tomando, então os três estranharam quem seria. Ao mesmo tempo, uma pontada de esperança surgiu no garoto de que pudessem ser notícias boas.
Mas era apenas uma das educadoras. Ela se apresentou como Camila, uma das médicas coordenadoras do Pronto Socorro do Edifício Logus. Usava roupas hospitalares cinzas e tinha o cabelo amarrado.
— Boa tarde, queridos — o tom dela era gentil. — Como vocês devem saber, temos peritos do Instituto Médico Legal no Edifício Logos, então eles estão facilitando o processo de liberar o corpo de vítimas entre nossos aprendizes.
Hugo sabia que nenhuma daquelas palavras significava algo bom. Era apenas a afirmação concreta de que Sara estava mesmo morta. Talvez Miru e Jake também. Suas unhas cravaram nas pontas de seus dedos da mão com a ansiedade.
— Precisamos que vocês façam o reconhecimento do corpo de Sara Aubert — continuou Camila. — Estou aqui para acompanhar vocês.
— Sobre os outros, Doutora… — iniciou Celeste, provavelmente a pergunta que Hugo estava morrendo para saber a resposta.
— Não tenho como fornecer esse tipo de informação, Celeste — A dra. Camila respondeu de modo automático e logo em seguida, suspirou: — Eu sinto muito.
— Celeste, você pode ficar com o Hugo — orientou Levi, enquanto se levantava. Era impressionante como seu irmão conseguia assumir algum tipo de comando em um momento como aquele.
— Eu vou junto — contestou Hugo. — Estou melhor.
— Hugo… — Celeste colocou a mão em sua bochecha, com ternura. — Você está… vulnerável, talvez não seja o melhor momento…
— Eu quero ir — insistiu. De qualquer forma, aquela talvez fosse uma oportunidade para atender o que havia acontecido. O IML iria apontar qual causa da morte? Teria marcas no pescoço de sua irmãzinha? A imagem lhe deixou arrepiado. Segurou a mão de Celeste e tentou transmitir seu olhar mais instável possível. — Se eu não vê-la, é como se eu… pudesse vê-la aqui, entende? Como se eu pudesse ouvir a voz dela.
Celeste começou a chorar de novo e encostou o rosto no peito do irmão. Hugo acariciou seus cabelos, e ao se deparar com o olhar de Levi, seu irmão estava o julgando furiosamente.
— Iremos os três, então, Doutora. — concluiu o mais velho se virando de costas para a cena. Hugo gostaria mesmo de algum dia poder interpretar um personagem que convencesse Levi.
Os três Aubert foram guiados até a câmara. A porta do lugar se abriu na frente deles, revelando um ambiente sombrio e gélido. O ar cheirava a metal e produto químico. Levi e Celeste caminhavam à frente, de mãos dadas. No centro da sala, havia uma maca coberta por um lençol e um profissional do necrotério se encontrava ao lado, como se estivesse esperando por eles. Hugo também reparou em um jovem encostado no canto da sala, utilizando roupas escuras, mas não prestou muita atenção.
O profissional perguntou se podia levantar o tecido. Levi e Celeste se entreolharam e depois olharam para trás, verificando Hugo. O garoto assentiu com a cabeça. O lençol foi tirado e os três se aproximaram. O jovem Aubert estava com sua respiração presa conforme analisava, atônito, o corpo na maca. Celeste soluçou e encostou o rosto no ombro de Levi. O mais velho fechou os olhos, apertou as pálpebras, e murmurou com a voz embargada pela dor.
— Sim. É Sara Aubert.
— Não.
Hugo deu a volta ao redor da maca, ansioso. Tentou respirar fundo e prestar atenção nos detalhes, para caso estivesse enganado mas era impossível. Aquela não era sua irmã.
— Não é ela — sussurrou Hugo. A pele da garota era mais escura, os cabelos mais curtos e as roupas muito largas. Era alguém parecido com sua irmã mas como se estivesse caracterizado dela. Como um figurino de teatro. Celeste olhava preocupada para o irmão mais novo.
— Senhor, nosso irmão recobrou a consciência há pouco tempo depois de ingerir uma dose alta de tranquilizante — explicou Levi.
— Vocês não estão vendo?! — gritou Hugo nervoso, o que fez seus dois irmãos se sobressaírem. Odiava quando era tratado como desequilibrado. — Não é ela! É como se fosse uma substituta!
O trabalhador observava confuso, mas anotou algo em uma prancheta que tinha numa mesa próxima.
— Hugo, acho que você precisa descansar — interviu Celeste, num tom pacífico. — Temos… muitas coisas para processar agora.
— Por que vocês querem substituir os corpos? — perguntou Hugo se aproximando do profissional de necrotério. — Sobre o que foi aquele atentado afinal? O que aconteceu de verdade com a minha irmã?
— Hugo. Chega. — repreendeu Levi. Porém, o rapaz se sentia furioso e estava com os pulsos cerrados. Queria gritar o que tinha visto no alçapão.
— Senhor, pode se retirar. — interrompeu uma voz. A figura que estava encostada na parede quando os Aubert haviam entrado, agora se revelava. Era um rapaz da idade Levi, que usava roupas beges e um distintivo amarrado por um cordão no pescoço. — Eu assumo a partir daqui.
O profissional cobriu o corpo e saiu da câmara por uma porta que dava entrada para outro compartimento. Estavam sozinhos os três irmãos e aquele homem intimidador. Não pela sua aparência, nem pela sua idade. Era apenas um jovem como os Aubert, tinha cabelos escuros bastante lisos, olhos de formato fino e uma pele parda. Era até bonito. Mas o que o assustava nele era a posição que ele ocupava. Aquele era um policial.
— Hugo, não é? — perguntou o rapaz diretamente. — Você sabia que fomentar informações conspiratórias é crime, correto?
Informações conspiratórias? Aquilo só podia ser piada. Hugo havia sido criado pelo projeto Logos, toda a sua educação fora baseada em valorizar a ciência precisa e as informações com base em evidências.
— Hmm, senhor oficial — tentou Celeste.
— E sabia, que em contextos de tragédia humana, esse tipo de fomento é um agravante, correto? — o policial havia ignorado por completo a irmã de Hugo e o olhava com uma pose ameaçadora.
— Sim, senhor — a frase fora o melhor que conseguia dizer naquele momento.
Ótimo. Eu realmente não vou querer lidar com esse tipo de criminalidade hoje — comentou o policial. Hugo percebeu que o garoto tinha um sotaque carregado com a letra “r”. Ele era do interior? Essa possibilidade deixou o Aubert ainda mais nervoso. — Muito prazer, sou o detetive Calebe Amaral, da Equipe de Themis e vou pedir para que a senhorita Celeste Aubert e o senhor Hugo Aubert — caso esteja dentro de suas faculdades mentais — me acompanhem até a delegacia para prestar depoimento.
— Sobre o que seria esse depoimento, senhor? — questionou Levi preocupado.
O detetive Calebe o observou de cima abaixo da mesma forma como se olha uma mala antes de colocá-la dentro do bagageiro de um carro.
Nada que você não vá poder participar depois. Mas uma ocorrência de cada vez — respondeu Calebe com rigidez. — Levi Aubert, o senhor está preso preventivamente por agressão doméstica.
— O QUÊ? — Celeste e Hugo se indignaram ao mesmo tempo. Levi perdeu toda a cor de seu rosto.
— Você tem o direito de permanecer calado. — continuou o detetive. — Qualquer coisa que você disser a partir de agora poderá ser usada contra você no tribunal. Vai me acompanhar pacificamente até a delegacia e seus irmãos irão junto para prestar depoimento do desaparecimento de Jake e Miru Aubert. Sem algemas, porque acho isso meio antiquado não é?
Hugo e Celeste começaram a protestar falando ao mesmo tempo, mas Levi suplicou com os olhos para que eles parassem. “Vamos dar um jeito”, era o que o mais velho tentava transmitir, mas estava ainda mais trêmulo do que quando Hugo havia acordado. Calebe fez um sinal para que ele andasse e o repetiu para Celeste e Hugo. O garoto não conseguia acreditar no pesadelo que a sua vida havia se transformado nas últimas horas. Os três Aubert estavam sendo escoltados pela polícia.
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