Notas iniciais
Estou de volta! Dessa vez temos um ponto de vista novo, espero que se interessem pelo personagem.

Celeste

Celeste Aubert havia experienciado mais emoções do que gostaria naquele dia. Assim que a garota e seus dois irmãos chegaram na Delegacia Municipal, ela recebeu um toque de mensagem em seu celular. Havia sido enviada por Camila, a generosa tutora que havia acolhido os jovens no hospital. Ela contou que já havia sido abordada pelo detetive Calebe, e portanto, estava ciente que Levi seria interrogado. O Edifício fornecia assistência de advocacia para seus aprendizes, então a doutora não hesitou em solicitar pelo serviço para os irmãos.

Aquilo aliviou um pouco o coração de Celeste. Eles estariam acompanhados para o depoimento, então ela deveria apenas escutar as orientações. A garota gostaria de poder pensar o mínimo possível naquele momento. Queria estar isolada em um canto de casa com seus dois irmãos, apenas respirando fundo por algumas horas. Havia sido arrancada de seu momento íntimo de perda para lidar com procedimentos judiciais irritantes. Pouco depois do atentado, ela imaginava que isso iria acontecer, afinal havia sido uma catástrofe de grande proporção, e muito provavelmente premeditada.

Após a morte da Doutora Beatriz, Celeste ajudou Levi com alguns segmentos burocráticos, embora ele evitasse permitir que a irmã se envolvesse nisso. Querendo ou não, era o que acontecia. As pessoas morriam e o mundo tinha que continuar rodando, cobrindo o buraco deixado por elas aos poucos. Mas a acusação contra Levi pegou-a desprevenida. O Aubert mais velho havia sido exemplar durante toda a sua vida, sendo um dos únicos na família com nenhuma passagem pela polícia. Celeste não faria ideia do que dizer ou no que pensar para defendê-lo. Ela odiava quando sua razão precisava sufocar o que estava sentindo. Por isso, um advogado que pudesse dizer a ela exatamente o que fazer trazia certo conforto.

A Delegacia também não ajudava a elevar o espírito da garota. Depois de entrarem no local, o detetive Calebe os conduziu por uma sala de espera vazia e dois corredores estreitos. As paredes tinham pintura lascada e o chão era encardido. Era totalmente o oposto do que a jovem estava acostumada a encontrar na limpeza hospitalar do Logus. Quando chegaram em uma segunda sala de espera, Calebe começou a anunciar a chegada de Levi para um dispositivo em seu pulso, o que Celeste reconheceu como um comunicador digital. A linguagem que ele utilizava intercalava sequência de algoritmos com termos técnicos e a garota imaginou se tratar do código policial. Hugo aproveitou-se da distração do detetive e se aproximou da irmã, murmurando:

— Nunca achei que fosse vir numa delegacia. Essa espelunca me dá arrepios. — Celeste assentiu com a cabeça, os olhos exalando angústia.

A sala que estavam continha duas portas de madeira rachada, uma em cada lado oposto do cômodo. Uma mesa de recepção, com alguns papéis organizados em pastas ocupava o espaço em frente para as fileiras de cadeiras estofadas. Havia também uma saída com escada para o andar de cima e alguns retratos na parede. A Aubert reconheceu serem rostos de policiais condecorados. Como uma boa criança do Logus, Celeste nunca ouviu comentários positivos a respeito da polícia municipal.

Boa parte da corporação era formada por jovens que vinham dos interiores para adentrar nas cidades e “trazer ordem” para as capitais. Geralmente essa conduta incluía abordagens violentas, especialmente com crianças e adolescentes dos projetos educacionais adotivos. Celeste sempre escutava que devia evitar qualquer problema com a polícia, porque o tratamento com jovens como ela não seria gentil.

A garota tocou carinhosamente o braço do irmão como forma de dizer que estava tudo bem. Claramente não era verdade, mas ela ainda estava preocupada com a cena que Hugo havia feito no necrotério. A forma que ele afirmava com certeza que o corpo não era de Sara, partiu o coração de Celeste em mil partes. Hugo não somente havia sido encontrado próximo a irmã mais nova, como também havia sido drogado. Por mais que essa segunda parte ainda a perturbasse um pouco, ela não conseguia imaginar o quão doloroso seria para ele estar tão perto de Sara antes dela morrer. Talvez os efeitos do remédio somado ao trauma recente do atentado estivessem resultando em alguma culpa do sobrevivente.

Era visível que Hugo tentava aparentar certa impaciência, mas Celeste conseguia perceber, pela forma que ele cutucava as pontas dos dedos, o quanto ele estava assustado.

— Certo. — anunciou Calebe em voz alta. — Srta. Celeste, já está confirmado o comparecimento do advogado?

— Sim, senhor. Deve estar a caminho. — respondeu em um tom controlado.

Levi a olhou com curiosidade e Celeste se culpou por não ter mencionado ao irmão sobre o contato da Dra Camila. Havia acontecido tudo muito rápido e ela estava cansada, com medo e preocupada com Hugo. Mas cuidar de Levi também era uma prioridade naquele momento.

— Ótimo. Hugo você será o primeiro a prestar depoimento. Será nesta sala da direita. A Srta. Celeste pode se sentar e Levi vem comigo até a mesa. Eu serei responsável pelo seu interrogatório e preciso que você confirme algumas informações.

Hugo pareceu nervoso, mas Levi e Celeste obedeceram prontamente. A garota puxou o irmão mais novo para as cadeiras de estofado rasgado e os dois se sentaram enquanto Levi se debruçava na mesa escutando o detetive atentamente. O que a jovem mais queria era que seu irmão olhasse para ela. Ela queria transmitir coragem ao mesmo tempo que precisava da companhia dele.

Naquele momento, um homem entrou afobado na delegacia. Celeste o reconheceu como o Sr. Torres, que vez ou outra estava com os doutores do Conselho, principalmente quando chegavam novos aprendizes. Ele era marcante para a garota por conta de seu jeito afobado e sua tosse recorrente, abafada por um lencinho que carregava no bolso. Assim que o viu, Celeste imediatamente soube que a estadia ali seria longa. Se realmente os três Aubert tivessem que prestar depoimento, o advogado somente poderia acompanhar um de cada vez.

— Doutor, o senhor pode acompanhar Hugo Aubert na sala à direita para o depoimento. — disse Calebe sem desviar o olhar dos documentos que ele oferecia para Levi. — Detetive Calebe Amaral, vice-capitão da Equipe de Themis.

Celeste estranhou o novo título com o qual o detetive se apresentou, porém se manteve quieta. Hugo e o Sr. Torres se dirigiram para o interrogatório, deixando apenas um silêncio mortal no ar. A irmã mais velha batia os calcanhares no chão ininterruptamente, torcendo para que Hugo estivesse estável para conceder respostas neutras. O testemunho do garoto não deve ter durado nem dez minutos, o que pareceu uma hora arrastada para Celeste. Esse tempo foi o suficiente para que ela repassasse as imagens do atentado em sua cabeça. Os gritos. As pessoas amontoadas nas saídas. O calor mortal que tomara conta do seu corpo e a paralisia repentina que a impedira de correr adequadamente.

A única lembrança que a jovem tinha era de Levi segurando fortemente sua mão e ambos tentando ficar debruçados no chão, logo abaixo do palco. Ela não tinha a ousadia de levantar o olhar e se perguntava se em algum momento o irmão havia o feito. Quando Hugo saiu da sala, acompanhado pelo Sr. Torres apertando com força o ombro do garoto, Celeste escapou do seu ciclo de memórias traumáticas. Ela notou que o irmão estava pálido e o advogado sussurrava algo em seu ouvido. Desviou o olhar para Calebe e percebeu o detetive concentrado ouvindo algo em sua escuta.

— Srta. Celeste é a próxima — ele ordenou. — Pode-se dirigir à sala da esquerda, por gentileza. Está com algum objeto cortante ou metálico? — a pergunta surpreendeu a Celeste, porque não havia sido feita antes. Será que Hugo havia causado problemas?

— Hmmm… acho que meus brincos — respondeu em um tom passivo. O detetive estendeu a palma da mão aberta para ela, em espera. Celeste entregou com cuidado suas bijuterias, o coração palpitando.

— Hugo, o senhor pode cair fora da minha delegacia — exigiu Calebe enquanto jogava os brincos de Celeste em uma gavetinha da mesa.

— A delegacia não é sua.

A voz de Levi fez com que a garota sobressaltasse. Ele estava em completo silêncio desde que haviam chegado, abrindo a boca somente para confirmar o que Calebe solicitava. O Aubert encarava o detetive com uma expressão fria. O policial inclinou levemente a cabeça para o lado e estreitou os olhos. Celeste queria mergulhar o rosto no chão. Não é possível que esses meninos querem arrumar confusão no lugar mais armado da cidade, lamentou mentalmente.

Hugo pigarreou alto:

— Te espero lá fora, maninha. — O garoto tinha as mãos atrás das costas e foi lentamente até a saída. — Boa sorte.

— Vamos querida — o Sr. Torres pegou Celeste pelo braço e a levou para para a sala onde seu interrogatório aconteceria. Ao espiar Calebe novamente na mesa, se deparou com o detetive digitando algo furiosamente em um celular. A garota então procurou uma última vez pelo olhar de Levi, e dessa vez, o encontrou.

Você surtou. Ela tentou se comunicar com o rosto. No entanto, a expressão de Levi era amável. Ele moveu os lábios sem deixar o som sair e Celeste conseguiu lê-los: Eu te amo.

O estômago da garota despencou. Levi, mesmo em seus momentos imprevisíveis e raros de imprudência, era a pessoa que ela mais admirava. E ele precisava dela naquele momento. Ela sabia que teria que se manter crente. Com os ombros tensos e a cabeça erguida, Celeste seguiu em frente para seu depoimento.


Notas finais
Curiosidade: esse capítulo seria algo menor, mas senti a necessidade de trabalhar mais as emoções da Celeste. O relevante mesmo vem no próximo, vejo vocês lá!