Lílian faz questão de me deixar abrir a porta e eu não me oponho. Até poderia começar contar a você sobre esse quarto comparando-o com qualquer outro, mas então eu estaria te passando a ideia errada. A verdade é que eu não sei como descrevê-lo ou explicar a estranha ligação que se estabeleceu entre nós assim que adentrei o cômodo.

Acho que posso começar definindo-o como especial. Essa com toda a certeza é a palavra certa. O lugar tem uma vibração diferente de tudo que eu já senti e quando passo pela porta me sinto em casa, o que não faz o menor sentido, sendo que nada aqui me lembra minha verdadeira casa. Acho que a explicação mais sensata seria dizer que o sentimento de segurança que emana de suas paredes azuis e a imagem acolhedora do ambiente, me causam uma sensação que não experimentei desde que deixei minha casa pela manhã. Paz.

Eu gostei daqui.

Eu também.

Observo a porta as minhas costas, o tom agradável de azul, a maçaneta branca. Meus olhos se fixam na plaquinha, o dourado se destacando no azul metálico, as iniciais ali servem para deixar claro de uma vez por todas que aqui é meu lar agora, eu gostando ou não.

T.R.W

136

Um suspiro longo deixa meus lábios e volto a analisar o quarto em busca de algo que me ajude a afastar os sentimentos ruins a cerca da minha mudança inesperada. Ele não é pequeno, mas também não é enorme. Do tamanho certo. Sem que eu perceba, um pequeno sorriso perambula em meu rosto, tenho a impressão que esse lugar foi projetado especialmente para mim, o que novamente não faz sentido. Como saberiam meus gostos se não me conhecem?

Talvez eles te conheçam mais do que você imagina.

O que quer dizer?

É apenas um palpite.

A cama em frente a porta está perfeitamente arrumada, com um edredom azul escuro, não como o céu do lado de fora, mas sim como aquele do início da manhã, quando os primeiros raios de sol começam a das caras no horizonte. Ao observá-la sinto toda a exaustão — que acredito ser mais emocional do que física — vir a tona. Há um criado mudo do lado esquerdo e estantes brancas acima da cabeceira, estas me trazem recordações de um lugar que a muito tempo não chamo de lar. Pois é, parece que eu estava errada, não importa se o lugar se parece com a minha casa ou não, ele ainda pode despertar memórias do mesmo jeito. Lembranças felizes que nas últimas horas vem se tornando dolorosas.

Empurro as emoções para o buraco de onde saíram e busco algo que me distraia. Encaro a janela enorme a direita da cama, me dando conta que se trata de uma porta de vidro. Está entreaberta dando vista para a noite escura e uma pequena sacada, as cortinas brancas esvoaçando devido ao vento. Consigo ver uma janela iluminada a metros de distância, provavelmente um quarto da próxima ala. Ao lado das cortinas noto um objeto estranho na parede, se minha geografia estiver correta, acredito que seja uma bandeira da Grécia. Isso não faz o menor sentido.

O que fez sentido hoje?

Tem razão, não é uma novidade.

No canto esquerdo, ao lado de uma porta, se encontra uma escrivaninha branca e uma cadeira azul.

"—Como assim a sua cadeira está arrumada? — ele parece incrédulo.

— O que quer dizer? Ela não deveria estar?

— É claro que não! Elas tem o nome de cadeira da bagunça por um motivo. — nega freneticamente com a cabeça — Você, Thais Windchest, é uma vergonha para a sociedade adolescente."

A memória me atinge em cheio prendendo meus olhos no objeto. Só percebo que estou sorrindo quando paro de fazê-lo, me dando conta de que provavelmente ele está morto agora.

Pare de pensar nisso.

Não consigo.

Ele pode estar vivo.

Você não sabe disso.

Novamente tento espremer toda a amargura em minha mente, o mais fundo que consigo. Em cima da mesa se encontra um notebook, com o símbolo dos Sharks gravado na tampa.

— E aí? O que achou?

Quase dou um pulo vergonhoso ao ouvir a voz às minhas costas, por um momento me esqueci da presença de Lílian. Todo o tempo que observei o cômodo, perdida em pensamentos, ela se manteve calada encostada no batente da porta, como se de alguma forma soubesse que eu precisava de um tempinho. Encontro seus olhos verdes me encarando gentilmente, ela parece ansiosa para acabar com o silêncio pesado do lugar.

— Então, tudo isso é meu? — arqueio as sobrancelhas meio surpresa. Apesar de todos os sentimentos intensos, não posso mentir e dizer que não estou admirada.

— Sim, tudo que estiver aqui é seu. — responde exibindo um sorriso tão acolhedor quanto o quarto e por um momento quase acredito que ela tem noção de tudo que estou tentando afastar dos meus pensamentos.

— Por que tem uma bandeira da Grécia? — aponto para o quadrinho tentando desviar do seu olhar, é como se estivesse entrando na minha cabeça.

— Porque o primeiro da linhagem Shark, Zeth Anacleto, era grego, isso também explica as cores do quarto e do uniforme dos sharks. — ela finalmente desvia seus olhos de mim e caminha até a cadeira, sentando-se e explicando tudo como se já tivesse feito isso várias vezes.

— Pensei que fosse por causa da água. — ela franze a testa confusa e aponto para suas roupas azuis — A cor do uniforme.

— Bem, se fosse seguir esse raciocínio, deveria ser transparente, não?

— É, verdade. — concordo voltando a observar o lugar procurando algum detalhe que tenha escapado.

— Tem algumas coisas que você precisa saber — volto minha atenção para ela, parece indecisa — por onde vou começar? — ela olha em volta e seus olhos se iluminam ao olhar para a porta — Peça para a porta se fechar.

— O que? — pergunto confusa olhando para o objeto — É uma porta.

— Eu sei, apenas diga. — me volto para a entrada meio incerta.

— Feche. — não consigo evitar de me sentir uma idiota quando, como o esperado, a porta não se move — Isso é ridículo, é uma porta.

— Estranho. — ela leva uma mão ao queixo e reviro os olhos, estranho seria se algo acontecesse — Já sei, vem aqui.

Ela se levanta indo até a bandeira e me encara com expectativa, arqueio uma sobrancelha. Ela suspira e estende uma mão.

O que ela quer?

Que você segure a mão dela.

Por que?

Segure e vai descobrir.

— Coloque a mão sobre ela. — Lílian aponta para o pequeno quadro.

— Mas... — sou impedida de terminar quando ela segura minha mão e pressiona contra o vidro frio.

A bandeira brilha e palavras estranhas começam a subir pelo vidro, como se estivesse analisando alguma base de dados. Não sei explicar o tamanho da confusão que toma conta do meu corpo quando uma voz desconhecida soa pelo quarto.

Origem Hispânica.

Isso saiu da parede?

Sim.

Esse dia não para de ficar estranho.

— Mas o que? — afasto a mão do vidrinho que perde o brilho, as palavras sumindo assim como toda a minha sanidade.

Paredes falantes? Eu só posso estar louca.

— Sua família vem da Espanha, foi por isso que a porta não fechou. — não controlo minha expressão incrédula diante de suas palavras, um sorriso contente marca seu rosto.

— Ela não se fechou porque é uma porta. — as palavras saem rápidas e tremidas, ela me encara com tédio — Essa voz, veio das paredes?

— Sim. — ela aponta para a porta mais uma vez, impaciente — De a ordem em espanhol, ela deve obedecer agora.

— Eu não sei falar espanhol.

— Sabe sim, nós falamos todos os idiomas. — ela responde como se fosse óbvio e antes que eu possa fazer outra pergunta, Lílian me impede — Fale.

— Fechate. — falo a primeira palavra que me vem a cabeça e mais uma vez não posso deixar de me sentir uma idiota — Eu disse que não sei.

— Se concentre, apenas diga, não pense.

Suspiro cansada, mas faço o que me pede. Olho fixamente para a porta como se ela fosse me dar a resposta e me surpreendo quando outra palavra vem a minha mente como se sempre estivesse aqui o tempo todo.

Puerta cerrada.

Arregalo os olhos observando a porta ir de encontro ao caixilho. Com a boca levemente aberta encaro a Shark, ela exibe um sorriso satisfeito.

— Eu disse.

A confusão me impede de raciocinar direito, preciso de alguns segundos para formular palavras e, quando consigo, o que pronuncio não é algo muito completo.

— Como...?

— Todos os dormitórios são revestidos com tecnologia de ponta, basicamente vivemos com uma inteligência artificial como colega de quarto. — ela sorri e indica todos os cantos do lugar — Seu closet, a janela e a sala de equipamentos se abrem e fecham com suas ordens, só funciona com a sua voz e no idioma da sua família, o espanhol. Você pode mudar isso se for te deixar mais confortável.

— O que é a sala de equipamentos? — pergunto tentando sair do transe.

— Isso aqui.

Lílian aponta para a bandeira novamente, observo o objeto que continua apagado, mais uma vez sem entender o que ela quer.

— Peça para ela se abrir em espanhol.

Abierta. — dessa vez nada acontece.

— Você precisa ser clara com suas ordens. Tente falar algo como abrir closet.

Sem que eu precise pensar muito, a palavra salta dos meus lábios sem que eu perceba. É como se eu tivesse falado espanhol a vida inteira.

Armario abierto.

De início nada acontece, mas, passados alguns segundos, a bandeira emite uma luz azul e as linhas de uma porta aparecem na parede, logo depois se abre revelando um cômodo cheio de prateleiras e gavetas.

— Aqui ficam suas roupas e aquela porta — Lílian aponta para uma pequena porta ao lado das prateleiras — é onde está todo o seu equipamento para as aulas de combate. Alunos do fundamental e aplicado não podem guardar armas no quarto, só quando chegarmos ao formativo — ela está distraída com a sala, alheia a minha falta de compreensão — no quinto ano, quando ganhamos o direito de ter aulas optativas.

Observo a sala sem fazer muito esforço para entender o que ela quer dizer, segundo Max, eu vou ter tempo de aprender essas coisas.

Meus olhos param em um objeto muito familiar em meio aos calçados. Bem na frente de uma fileira organizada, chamando minha atenção como como uma estrela cadente, está o tênis azul que eu ganhei a pouco tempo atrás de presente da minha avó. Bem, não de fato a minha avó... A mulher que eu achava que era minha avó. Ela pediu que fossem bordadas minhas inicias na parte de dentro, mas eu não preciso ver elas para reconhecê-lo.

— O que meus tênis estão fazendo aqui? — pergunto sem desviar os olhos do objeto, mais lembranças vindo com tudo.

— Depois da cerimônia de escolha, alguns elementistas foram mandados para sua casa para pegar todas as suas roupas azuis e brancas que encontraram — explica observando ao seu redor curiosa — Martin deve ter dado acesso ao seu quarto. Eles sempre fazem isso com os recém-chegados, acho que para deixar vocês mais confortáveis.

Não evito me sentir aborrecida por desconhecidos terem permissão de entrar na minha casa e mexer nas minhas coisas, enquanto eu sou proibida de pisar lá.

Após observar todo o closet, minuciosamente, constato que realmente eles pegaram tudo o que encontraram da cor azul e branca no meu guarda-roupa. Apesar de estar satisfeita com o fato de não precisar me preocupar com que roupas vou usar, não posso deixar de odiar a invasão de privacidade.

— Ah! — Lílian leva uma mão a testa murmurando algo incompreensível, parece ter se lembrado de algo — Você precisa colocar uma senha aqui.

Ela puxa a bandeira para frente, como se fosse um portinha e indica o painel atrás dela. Analisando melhor, é muito semelhante a um cofre.

— Senha? — pergunto franzindo a testa. Contando todas as vezes que fiz isso hoje não me surpreenderia de já ter marcas de expressão.

— Para que ninguém entre. Existem duas maneiras de entrar ai, o comando de voz e a senha que ainda é a padrão, ou seja, 123456. Todos sabem ela. — assinto compreendendo vagamente — Vamos, digite, eu olho para o outro lado.

Nada de data de aniversário.

Como se eu fosse fazer isso.

Não seria a primeira vez.

Fica quieta.

Encaro o pequeno teclado indecisa, mas por algum motivo números se destacam em meus pensamentos e mesmo sem entender o porque de parecerem familiares, digito-os. 866042.

Escolha interessante.

Foi aleatório.

Não acredite muito nisso.

Por que?

É apenas um palpite.

Você e seus palpites.

— Terminou? — ela pergunta me olhando pelo canto do olho, assinto me afastando da porta — Ótimo. Agora vamos sair daqui, temos que pegar algo para você comer. — sigo-a de volta para o quarto — O jantar já acabou, então nós vamos ter que falar com Jason antes de começarem a limpeza.

— Espera! — sinto minha testa franzir mais uma vez — Como assim o jantar já acabou? Que horas são? Como o dia passou tão rápido? E quem é Jason? — os pensamentos desordenados me impendem de controlar as perguntas.

— Bem, o jantar foi às oito, agora já são nove horas — ela aponta para um relógio de parede acima da escrivaninha — você chegou aqui uma hora da tarde, porque nosso planeta tem um fuso horário de cinco horas mais tarde que a Terra — Lílian explica como se fosse a coisa mais simples do mundo, mas não posso deixar se me perguntar se esse "planeta" se trata de algum que já conheço ou outro totalmente desconhecido — depois teve o incidente com o arco e ficou você desacordada por sete horas. A cerimônia terminou às oito e quinze, você foi falar com o Martin enquanto nós jantávamos, por isso quando passamos pela sala vimos poucas pessoas, muitos alunos ainda estavam no refeitório. — ela conta nos dedos enquanto fala, como se estivesse calculando — E o Jason é um dos cozinheiros, ele é amigo de todo mundo. Precisamos ir logo ou não vamos chegar lá antes que a limpeza comece.

Ela anda apressada na direção da saída e encosto a porta do closet, as linhas somem imediatamente voltando a assumir a aparência de uma parede normal. Lílian me espera do lado de fora e não tenho certeza se preciso dar ordens para a porta ou se posso simplesmente fechá-la. A Shark parece entender minha dúvida.

— A maçaneta identifica suas digitais, sendo assim, você não precisa mandar ela abrir verbalmente — ela aponta para o objeto branco — isso impossibilita qualquer tentativa de outra pessoa abrir seu quarto. O comando verbal serve para quando alguém quer entrar e você está longe da porta ou não pode abrí-la manualmente por alguma razão. Pode fechar normalmente — ela me olha com expectativa e demoro a entender que ela espera que eu feche, encosto a porta lentamente e ouço o som da tranca — viu? Muito fácil. No caso de emergências, tem uma chave no criado mudo.

Ela sorri e sai andando pelo caminho que viemos. Ao contrário de antes, agora o corredor está lotado, várias garotas conversando animadamente e fico contente por estarem tão concentradas em seus assuntos que não prestam atenção em mim. Mais uma vez observando os corredores cheios de portas e a escada que segue para os andares superiores, não posso deixar de me perguntar como, em meio a todos esses alunos, consegui um quarto no primeiro andar.

— Como funciona a distribuição de quartos? — preciso me adiantar alguns passos para andar ao lado de Lílian e ter certeza que ela consegue me escutar.

— O que quer dizer? — ela está concentrada em desviar dos grupos aglomerados no corredor, mas desvia os olhos rapidamente na minha direção.

— Meu quarto é no primeiro andar. — ela assente confusa — Mas eu cheguei hoje. Ele não deveria ser um dos últimos, lá em cima?

Aponto para o teto para tentar explicar melhor minha dúvida, entretanto ela não demora para entender.

— Quando alguém se forma, seu antigo quarto fica vago. — ela sorri e acena para algumas pessoas antes de voltar a falar — Ano passado foram liberados uns sessenta quartos e no semestre passado mais uns dez, que pertenciam ao pessoal dos anos suplementares. Você está ocupando um deles. — alcançamos a escada e precisamos esperar um grupo subir para tentar descer — Nem sempre todos os quartos vagos são ocupados pelos calouros, os nascimentos variam bastante, tanto na Terra quanto aqui.

Assinto, as informações se encaixando e fazendo sentido. Sigo-a escada abaixo, o que não é uma tarefa fácil considerando que estamos indo contra o fluxo de pessoas. A sala está consideravelmente mais movimentada do que antes. Lílian passa cumprimentando outros alunos e até para por alguns segundos para comentar algo com alguns deles. Eu apenas me mantenho afastada e ela não me força a fazer parte de nada.

— Líli! — umas voz chama nossa atenção e, antes mesmo de olhar em sua direção, reviro os olhos involuntariamente.

Ele não é tão ruim.

Ele é insuportável.

Não são tão diferentes então.

Está ofendendo a si mesma sabia?

Não exatamente.

Viro-me encarando o garoto descendo as escadas lentamente vestido com uma camiseta branca, bermuda jeans e chinelos. O cabelo escuro extremamente bagunçado e parecem úmidos, ele exibe um sorriso brincalhão e quase consigo afastar a imagem do cara insuportável de algumas horas atrás. Quase.

— Oi. — a Shark sorri em sua direção.

— Não te vi no jantar — ele diz malicioso — nem você, nem o Max. — seu sorriso se alarga quando as bochechas de Lílian se coram de rosa.

— Nós tínhamos ido levar a Thais até a sala do Martin, jantamos mais tarde e depois vim trazê-la para ver o quarto, mas não sei onde o Max está. — ela desvia os olhos envergonhada.

— Certo. — os olhos escuros caem sobre mim — Olá, Thais. — cumprimenta com um sorriso educado, levando as mãos aos bolsos da bermuda.

Por que ele está sendo educado?

Eu disse que ele não era tão ruim.

Isso não está certo.

— Olá. — respondo indiferente.

— Vou levá-la para comer alguma coisa. Quer vir junto? — encaro Lílian descontente com sua oferta, fato que ela faz questão de ignorar.

— É uma boa ideia, ainda estou com fome. — ele sorri mais uma vez, reviro os olhos.

Onde estavam esses sorrisos amigáveis mais cedo?

Não guarde tanto rancor.

Calada.

Saímos do dormitório pela passarela de vidro e seguimos reto até o saguão de entrada. Me lembro vagamente do caminho que Max fez quando me levou até a cantina, por isso não me surpreendo quando continuamos em linha reta por alguns minutos. Quando estamos próximos do refeitório (eu acho) ouvimos uma discussão. A voz de Max ecoa pelos corredores, ele parece descontente e eu não iria querer ser os dois garotos a sua frente.Demoro alguns segundos para entender a ligação entre a raiva de Max e a bola que uma das crianças está segurando.

— O que ele está fazendo? — observo o Shark exaltado com os dois meninos que o encaram entediados.

— Seguindo as regras. — responde Lílian suspirando pesadamente, como se estivesse cansada de situações como essa.

— Eu acho que o garoto vai acabar jogando a bola na cabeça dele. — Austin sorri divertido e acabo acompanhando sem perceber.

— Cala a boca. — os olhos verdes o encaram fuzilantes — Vocês vão para o refeitório, eu vou tirá-lo de lá.

— Vai nessa agente L. — ele provoca saindo rapidamente do campo de visão dela.

Nos afastamos a passos lentos e consigo ouvir perfeitamente quando Lílian entra na discussão sem conseguir evitar o sorriso ao escutar os protestos de Max. Ao me dar conta que estou mais uma vez sozinha na companhia do Shark, respiro fundo insatisfeita, estou cansada de discutir.

Então não discuta.

Não é culpa minha quando ele começa.

Mas se torna parte sua culpa quando continua a discussão sem motivos.

Você parece minha mãe falando.

Ela é uma mulher sábia.

Sorrio com a lembrança da mulher mais forte que já conheci. O silêncio parece alto demais e isso apenas contribui para as memórias inconvenientes continuarem aparecendo.

— Ela gosta dele, não é? — tento começar um assunto que não leve a uma discussão idiota, preciso me distrair, mas não estou com saco para brigar.

— Sim — ele da uma risada divertida — mas eles não parecem se tocar disso. — o sorriso aumenta e ele olha momentaneamente por sobre os ombros, na direção de onde viemos — Mari acha que eles sabem e só não fazem nada a respeito.

Novamente um silêncio desconfortável cai sobre nós e, por algum motivo, me sinto ansiosa para quebrar essa tensão constrangedora que se estabeleceu desde que nos conhecemos. Não precisamos nos odiar, podemos melhorar isso.

— Martin te contou quem seus pais foram? — ele pergunta baixo e quase não consigo entender.

— Sim.

A resposta acaba sendo mais curta do que eu pretendia, mas a recente conversa com o diretor ainda é muito dolorosa para eu conseguir me estender sobre o assunto.

Estou cansada.

Eu sei. Eu também.

— Tudo? — ele volta a perguntar cauteloso.

— Depende, do que você está falando? — agora minha voz também está baixa. Ele não podia ter escolhido outro assunto?

Talvez ele não saiba sobre o que conversar.

— Da parte da guerra, da vitória e da desistência dos poderes. — pergunta me olhando de esguelha.

— Ele contou tudo. — confirmo com um suspiro triste.

O silêncio volta a se estabelecer, mais ensurdecedor do que nunca. Ele está hesitante em prosseguir com a conversa, posso ver isso em sua expressão indecisa, mas não estou disposta a fazer esforço nenhum se for para continuar nesse assunto.

— Você está bem? — Austin pergunta parando de andar e me encarando.

Paro na sua frente, mas não devolvo seu olhar, é atencioso demais e eu não estou estável o bastante para ser gentil. Encaro o chão, meus olhos estão ardendo de novo, mas me convenço que se trata apenas de um cisco intrometido. Não vou me permitir reconhecer todas essas emoções que estão borbulhando dentro de mim antes de estar em um lugar privado. Ele não precisa saber dos meus problemas.

— Sim.

— Tem certeza? — ele não parece nada convencido, mas não posso culpá-lo, eu também não colocaria fé na minha voz instável.

Assinto olhando para frente, consigo ver as portas de vidro da cantina, só mais alguns metros. Não podemos apenas seguir e fingir que está tudo bem?

— Lílian disse que precisávamos ir para a cantina antes do toque de recolher — mexo as mãos inquieta, ainda evitando seus olhos — não temos muito tempo, certo?

— Certo. — ele concorda, mas não se move e segura meu braço para me impedir de andar — Espera. Olha pra mim. — respiro fundo e encaro-o controlando o máximo que consigo a irritação. Seus olhos avaliam meu rosto minuciosamente — Você não parece bem.

— Jura, Austin? — solto meu braço com raiva, mas sei que muito do sentimento não tem nada a ver com ele — O que você esperava? Que eu saísse por aí sorrindo para as paredes?

— Não. — ele responde pesaroso e por um momento me sinto culpada.

— Desculpe.

— Tudo bem. Foi tão ruim assim?

Engulo em seco sem conseguir organizar as palavras, só o que me vem a cabeça são formas de colocar minha frustração para fora de maneiras nada educadas.

— Fui dada como morta. Na Terra. — respondo e ele não parece surpreso.

— Normalmente é o que acontece nesses casos.— assinto encarando mais uma vez o carpete cinza — Mas não é só isso. O que houve?

— Trinta pessoas morreram. — desvio os olhos rapidamente para ele tentando ver algum vestígio de repulsa, mas encontro apenas um olhar triste — O ônibus foi atacado por causa de mim.

— Não temos como ter certeza disso, monstros são apenas isso: monstros. Eles matam porque sentem vontade, nem sempre tem algo a ver com a gente — suspiro e volto a encarar as portas iluminadas da cantina, sei que não adianta discutir com ele.

O corredor esta significativamente mais escuro e isso deve significar que estamos nos aproximando cada vez mais das dez horas.

— Certo. Precisamos ir.

— Só mais uma coisa.

— Austin — encaro-o cansada — eu realmente não quero conversar.

— Eu sei — ele tem um olhar extremamente gentil o que não combina em nada com o garoto irritante que conheci mais cedo — só queria dizer pra você não ligar para o comportamento dos outros. Seus pais são famosos, isso é indiscutível, mas não se sinta na obrigação de suprir as expectativas dos outros, apenas seja você mesma. Certo? — concordo levemente e ele parece satisfeito — Vamos, se não você vai dormir sem jantar hoje.

— Ei! — chamo quando ele já está a alguns passos na frente, se vira para mim confuso — Obrigada.

Ele sorri minimamente e espera que eu o alcance para enfim entrarmos na cantina. O lado de dentro está uma enorme bagunça. Cadeiras em cima das mesas, água para todo lado, várias pessoas com macacões brancos e máscaras perambulando pelo local.

Observando toda a água à nossa frente, Austin faz um gesto rápido e o líquido se move para o lado deixando uma passarela seca. Não me surpreendo tanto, depois do que vi hoje, eu já esperava algo assim de um Shark.

Andamos até um balcão chamando a atenção de um cara que está apoiado sobre ele. Seus cabelos são ruivos como os meus e os olhos castanhos dourados como os de minha mãe, está usando uma camiseta vermelha, uma calça bordô e um tênis branco. Sua pele é bronzeada e o sorriso debochado é brilhante demais.

— Olá, se perderam à caminho do dormitório? — ele não parece nem um pouco contente com a nossa presença — Não deveriam estar na cozinha a essa hora, já vamos começar a limpar e vocês não podem ficar aqui.

— Jason, qual é? Como se você se importasse. — Austin retruca revirando os olhos.

— Eu me importo muito, adivinha que vai ser demitido se algo acontecer com vocês. — diz apontando para seu rosto — O que vocês querem?

— Thais não jantou, então viemos pegar algo para comer.

— Sinto muito, mas regras são regras. — Jason fala fazendo sinal de negativo.

— Fala sério, o que deu em você? Que eu me lembre "Jason não segue regras". — o garoto revira os olhos entediado — Vamos lá cara, ela é nova e foi por causa do Martin que não veio jantar no horário certo. — Austin insiste fazendo o rapaz suspirar cansado, ele me encara e uma expressão curiosa toma seu rosto.

— Então você é a herdeira de Alequen Windchest. Me contaram sobre a sua cerimônia de escolha.

Encaro o balção desconfortável. Lá vamos nós de novo. Auston pigarreira e Jason parece se dar conta da situação não muito agradável.

— Ok, isso não foi muito educado da minha parte. Sinto muito. — ele sorri envergonhado e parece arrependido — Vamos começar de novo. Prazer, meu nome é Jason Chama, sou o cozinheiro chefe e fiscalizador da limpeza. — ele estende a mão com um sorriso brincalhão — Seja bem-vinda ao Eurocado School, mesmo o slogan sendo horrível, somos pessoas legais.

— Obrigada — sorrio minimamente segurando sua mão e, na tentativa de acabar de vez com a tensão, acrescento — finalmente alguém que acha a mesma coisa que eu, aquele slogan é horroroso. — ele solta uma gargalhada concordando.

— Tudo bem, vou ver o que tem de comida na cozinha e já trago, por favor, não mexam em nada, só... Fiquem. — ele pede abrindo uma porta lateral atrás do balcão e sumindo de vista.

— Eu não sou um cachorro. — Austin resmunga.

Observo melhor o refeitório percebendo que é maior do que em tinha imaginado. Mais cedo, quando fiz o tour com Max, não tive tempo de avaliar seu tamanho real. Mesas de aço com dez cadeiras cada estão agrupadas em um canto do cômodo, a iluminação aqui não é feita pelas esferas flutuantes, a luz vem do chão, como na praça e percebo que o teto de gesso tem a mesma tecnologia. Talvez aqui eles precisem de iluminação por mais tempo, ou algo assim. As paredes de vidro estão cobertas por longas cortinas que eu não tinha notado antes.

Ouço alguns barulhos e resmungos, então Jason sai apressado da cozinha, trazendo dois pratos equilibrados nas mãos.

—Aqui. É o que temos pra hoje. — diz colocando os pratos sobre o balcão.

Consigo identificar bolinho de carne, arroz, um pedaço de lasanha, batata frita, salada de tomate, salada de pepino, risoto e linguiça. Uma mistura daquelas, mas, depois de um dia inteiro sem comer, parece o paraíso. Se isso é o resto, vou ficar muito feliz de ver como é todo o cardápio.

— Valeu cara. — Austin agradece encarando a comida satisfeito — A gente termina bem rápido e deixamos vocês voltarem ao trabalho.

— Acho ótimo. — Jason se afasta acenando rapidamente.

Sigo Austin até a mesa mais próxima e literalmente ataco a comida. O sabor é magnífico, uma das melhores refeições que já fiz. Ele come quase na mesma velocidade, não sei se por causa do horário apertado ou porque está tão deleitado quanto eu, acho difícil acreditar que jantou a pouco tempo.

Quando terminamos, agradecemos à Jason devolvendo os pratos e ele quase nos expulsa da cantina desejando um rápido boa noite. Provavelmente ele também tem horários a cumprir. Ao sairmos da cantina percebo que as luzes estão quase apagadas e o colégio se encontra em um silêncio colossal.

— Já devem ser quase dez horas — ele diz se adiantando pelo corredor — é melhor você voltar para o seu dormitório, o inspetor da sua ala não é nem um pouco tolerante.

Voltamos para a sala rapidamente, nossos passos ecoando pelos corredores vazios e escuros. Austin sobe as escadas do dormitório masculino e eu adentro o feminino. O corredor ainda tem algumas pessoas fora dos quartos, mas são bem poucas, refaço o caminho que Lílian seguiu mais cedo e fico aliviada quando encontro a porta do 136.

O quarto está extremamente silencioso, sem nem sequer um ruído e me pergunto se as paredes são a prova de som também. Começo a vasculhar ao redor e descubro que a porta da esquerda é o banheiro, paredes de lajotas brancas com pequenas ondas azuis desenhas do lado de dentro do box, onde também fica uma pequena janela de vidro fosco. O chão é azul claro, da cor das paredes do quarto, uma pia branca e quadrada em frente a porta, o vaso sanitário da mesma cor, mas que mais me chama atenção é o pequeno tapete no chão. Branco com peixes azuis. O tapete do meu banheiro. Os caras entraram até no meu banheiro?

Pela primeira vez desde que cheguei, gargalho com a ideia dos elementistas invadindo meu banheiro na Terra e resgatando meu pequeno tapete. Não posso deixar de admitir que, de certa forma, o objeto me deixa confortável, faz com que eu me sinta em casa.

Ainda rindo, entro no closet e pego um pijama. Quando enfim estou embaixo do chuveiro solto um suspiro de prazer. Agora consigo entender porque a água sempre foi tão convidativa e agradável.

De volta ao quarto percebo que uma brisa fresca ainda está correndo pelo lugar. A sacada é pequena, mas dela consigo ver uma parte de jardim e todo o bloco da ala D com poucas janelas ainda iluminadas. Tranco a porta da varanda, mas não fecho as cortinas, assim o quarto permanece iluminado pelo luar.

A cama é extremamente confortável e o edredom macio. Tudo cheira a casa nova, mas esse quarto, ao contrário dos outros lugares que conheci hoje, me passa segurança. Seria muito fácil fingir que estou em casa se não fosse pelo fato de que meus pais não estão a uma porta de distância.

Minha tentativa de dormir rápido é frustrada pelos pensamentos chegando descontrolados. As recentes descobertas me lembrando das imagens do acidente e dos fatos que Martin me informou a cerca da minha verdadeira família. Ele tinha razão, é tudo muito desagradável.

Esse é o meu lugar agora. Esse é o meu quarto e eu vou morar aqui por longos anos. Vai ser mais fácil se eu aceitar de uma vez.

Aqui, sozinha no escuro, a salvo de todos os olhares curiosos, deixo as emoções me dominarem e não me lembro o exato momento em que começo a chorar, só sei que isso se estende por um longo tempo, até a inconsciência se apiedar de mim e finalmente me abraçar.