Elementium - Volume 1 - A Ascensão
6 Espadas Voam
Na manhã seguinte acordo com batidas insistentes na porta. Involuntariamente meus olhos se desviam para o criado mudo em busca do pequeno relógio, mas ele não está aqui. Fracos raios de sol iluminam o quarto, o cheiro de lugar novo ainda está invadindo o ar e a silhueta dos móveis me lembra que estou muito longe de casa. Fecho os olhos firmemente e puxo as cobertas até a cabeça tentando me forçar a voltar a dormir, mas, do lado de fora, as batidas recomeçam.
— Senhorita Windchest? — uma voz feminina chama — Senhorita Windchest, você irá se atrasar.
Manda ela ir embora.
Sabe que não posso.
Eu não sei de nada.
— Bom dia, Mey. — uma voz familiar a cumprimenta — Algum problema?
— Preciso entregar algumas coisas a senhorita Windchest, mas acho que ela ainda está dormindo.
— Eu me esqueci de avisar que horas as aulas começavam — ela diz e mais uma vez minha porta é bombardeada por punhos impacientes — Thais! Acorda! Você vai se atrasar!
Levanto de mau humor, me arrastando até porta. Lílian me encara com uma expressão entre diversão e hesitação do outro lado. Atrás dela está Mey, a auxiliar da diretoria, sorrindo docemente. Dirijo-lhes um sorriso sem humor, minha única vontade é voltar para a cama e permanecer lá por muitos dias.
Afasto os pensamentos de perda e tristeza, que ainda insistem em se agarrar em mim com força, para o lugar mais fundo da minha mente e tento me concentrar nas possibilidades de conhecer melhor todo esse mundo. As duas parecem tão desconfortáveis quanto eu e percebo que não fui lá a pessoa mais educada. Faço um esforço e sorrio levemente para elas percebendo que May carrega uma pilha de roupas em uma mão e alguns papéis na outra.
— Bom dia. O que é tudo isso? — pergunto.
— Bom dia. — ela se adianta na minha direção me entregando a pilha —Seu uniforme, o horário de aula e informações da sala. Sua aula começa às oito.
— Obrigada, Mey.
— Não há de que. Boa aula meninas. — ela se despede e caminha calmamente pelo corredor.
— Bom dia, Lílian. — cumprimento colocando as roupas sobre a cama bagunçada.
— Bom dia. Você conseguiu jantar ontem? — ela pergunta com um semblante culpado, mas apenas assinto sorrindo ao me lembrar porque ela não sabe a resposta.
— Você conseguiu salvar o Max de levar uma bolada? — pergunto tentando segurar a risada, ela apenas revira os olhos e assente.
— Conseguiu dormir? — o ar fica tenso imediatamente e de repente os papéis em minhas mãos parecem muito interessantes. Assinto sem encará-la, fingindo ler as informações e ela não prolonga a conversa — É melhor você se apressar, tem que tomar café e depois ir para a aula.
— Tudo bem, eu já vou. — respondo ainda evitando seus olhos, não quero correr o risco de ver pena neles outra vez.
— Ótimo, te vejo na cantina. – fala e sai acompanhando algumas meninas.
Assim que ela some após fazer uma curva, observo o movimento do corredor dois. Está lotado de meninas carregando livros, outras com jalecos pendurados nos ombros e algumas com espadas, mas não permaneço parada por muito tempo, os olhares estão começando a se desviar para mim.
Quando a porta está novamente fechada, minhas costas escoradas na madeira e o ambiente acolhedor me abraçando com carinho, volto a me sentir segura. Eu sei que em algum momento vou ter que atravessar a porta e encarar o que me espera do lado de fora, mas vou me permitir aproveitar o silêncio e aconchego por mais alguns minutos.
O banho matinal sempre foi a coisa que me ajuda a me preparar para o dia. Aqui não é diferente. A sensação da água em contato com a minha pele sempre foi extremamente agradável e agora, sabendo sobre toda essa coisa envolvendo poderes, entendo que todo esse amor pelo elemento deve ser intrínseco desde que nasci.
Quando volto para o quarto, me sinto profundamente mais calma e disposta a enfrentar o que me aguarda.
O uniforme que Mey trouxe não é exatamente o que eu esperava. Quando se pensa na palavra uniforme logo se remete a roupas padronizadas e iguais, mas as únicas coisas que as roupas a minha frente têm em comum são as cores, que não fogem do azul e branco, e os emblemas bordados.
Acho que consigo perceber uma perfeita divisão entre uniforme formal e informal. Na primeira categoria se encontram as saias xadrez, as camisas brancas, o blazer e a gravata. Já em relação ao informal tenho a opção de usar calça jeans, camiseta branca, moletom ou jaqueta.
Todas as peças que compõem a parte de cima do uniforme contém dois símbolos, um representando os sharks e o outro o brasão do colégio. Eles variam a cor de acordo com a tonalidade da roupa onde, se o tecido for azul, o bordado estará em branco e vice-versa. A excessão é a gravata azul royal, que não apresenta nenhum emblema.
Não parece confortável.
Concordo.
Sem ter que pensar muito a respeito, apanho um conjunto do uniforme informal e me arrumo rapidamente. Constatando que elas são bem mais confortáveis do que eu imaginei que fossem, me sinto ainda mais satisfeita com a escolha. Calço os tênis azuis que vi no armário na noite passada e me preparo para lutar com meu cabelo.
Eu fui uma criança dotada de uma cabeleira volumosa e isso não mudou com o tempo. Observo as ondas rebeldes caírem até o meio das costas quando liberto-as do coque e, quando me certifico que está apresentável, resolvo deixar solto.
Quando meus dentes estão limpos e me sinto pronta o bastante para sair, respiro fundo uma última vez e abro a porta, deixando para trás minha zona de conforto. No entanto não tenho muito tempo para me localizar no novo ambiente porque, assim que fecho a porta e estou prestes a tomar a direção da saída, meu corpo é atingido fortemente me levando ao encontro do chão.
— Santo Nicolal! Perdão. — ela diz agitada enquanto ainda estou tentando entender a bagunça de roupas pretas e livros ao meu redor — Eu machuquei você?
Consigo me sentar e olhar para a garota ajoelhada à minha frente. Os cabelos pretos em completa desordem e as roupas amarrotadas, provavelmente devido a queda. Ela segura alguns livros enquanto outros ainda permanecem no chão, os olhos escuros me analisam minuciosamente, talvez em busca de algum machucado.
— Não, eu acho que não. — respondo ainda um pouco confusa.
Ela se levanta e estende a mão que aceito de bom grado. Quando ela ajeita os cabelos e organiza as roupas consigo reconhecê-la, é a mesma shadow que passou correndo pelo corredor na noite de ontem.
— Olá, meu nome é Milena Gauthier, prazer em conhecê-la. — ela sorri amigável — Você deve ser a Thais, certo?
Não consigo, por mais forte que seja a vontade, afastar o desconforto. Desde minha conversa com Martin uma parte de mim se sente mais insegura que antes. Não consigo ter certeza se ela me identifica apenas porque viu minha cerimônia de escolha ou, com toda certeza o que me aborrece mais, me conhece apenas porque sabe sobre a história.
— Sim. – respondo retribuindo com um sorriso hesitante — Prazer em conhecer você também.
— Bom, seja bem-vinda. — apanha seus livros do chão e indica a saída com a cabeça — Está indo para a cantina?
Assinto observando a forma como ela carrega tudo aquilo com extrema habilidade e não posso deixar de me questionar: Eu devia estar levando algum livro comigo ou coisa parecida?
— Se você quiser ajuda para chegar lá, posso ir com você. — ela sorri quando, antes que termine de falar, eu já estou concordando freneticamente — Ok, mas preciso deixar isso no meu armário antes. É caminho.
Ao contrário de antes, quando Mey e Lílian me acordaram, os corredores estão quase vazios, somente alguns poucos alunos ainda se movimentam na direção, de acordo com a minha memória, da cantina. Milena entra em um dos corredores de armários e faz algumas curvas até finalmente pararmos em frente a um conjunto de armários pretos.
Ela empilha os livros em um canto e tenta organizar algumas coisas que caem. Me encosto na parede contrária e observo-a lutar com um jaleco que cai para fora do armário insistentemente.
— Hum... Eu devia ter algum livro? — pergunto indecisa se devo ou não interromper o momento de guerra dela com seus objetos.
— Tenho certeza que está tudo no seu armário. — responde jogando o jaleco uma última vez para dentro e fechando a porta rapidamente — Não se preocupe com isso.
— Claro, obrigada. — agradeço nervosamente.
Eu tenho um armário?
Provavelmente.
Mas ninguém falou nada sobre ele. Eu nem sei o número ou a senha.
Pare de se preocupar tanto, está uma pilha desde que saiu do quarto.
Eu não conheço essas pessoas. Eu não conheço esse lugar. Não consigo não me preocupar.
Thais. Relaxe, vai dar tudo certo.
Vai ficar tudo bem. Eu vou conseguir. Vai dar certo. Respiro fundo depois de repetir isso várias vezes e sigo atrás da shadow me concentrando em entender o caminho que estamos seguindo. Preciso começar a me localizar aqui ou vou sempre precisar de um guia, o que não é ideal quando se conhece pouquíssimas pessoas.
O refeitório está pouco diferente da noite passada. Suas mesas de metal estão espalhadas por todo o ambiente acompanhadas das cadeiras, os balcões laterais agora cheios de comida. Percebo que as paredes de vidro laterais na verdade se tratam de portas. As cortinas vermelhas, que eu posso jurar que eram brancas ontem, estão puxadas para o lado e a portas abertas deixam a luz do sol entrar iluminando todo o lugar.
Claro que, totalmente ao contrário de ontem, o lugar está apinhado de alunos. Por um momento hesito em entrar. Não me sinto confortável com todas essas pessoas aqui, a cantina perece muito menor do que ontem quando não tive problemas em caminhar pelo ambiente. Respiro fundo mais uma vez seguindo Milena antes que ela tenha a chance de perguntar o que está acontecendo. Eu não iria conseguir responder.
A última vez que me senti insegura em entrar em um lugar movimentado foi quando mudei de escola, a pouco tempo atrás. Mas naquela ocasião, eu ainda tinha meus pais para reclamar após o período de aulas. Eu ainda tinha minha casa para correr e simplesmente me esconder depois de um dia ruim. Eu ainda tinha a minha vida.
Os alunos ocupam quase todos os lugares disponíveis e não consigo perceber nenhuma organização específica porque, levando em consideração toda a bagunça de cores, os... Dominadores? Pode ser. Os dominadores de cada elemento podem sentar onde quiserem. É perceptível que grupos de alunos mais jovens se sentam juntos e isso se repete com os alunos mais velhos. Aos menos algo ainda continua como sempre foi.
— Lena!– Milena se vira bruscamente na direção da voz sorrindo ironicamente — Você está atrasada.
Ele se aproxima também sorridente e não parece perceber minha presença. Ele é alto, talvez um metro e setenta, as roupas em uma combinação interessante de camiseta roxa e calça branca deixam claro que se trata de um dominador do gelo. O cabelo é castanho claro, penteado em um topete que deve ter demandado tempo para ficar pronto e os olhos da mesma cor brilham igual aos de uma criança bagunceira. O tom de pele é tão pálido que por um momento me pergunto se ele não está doente.
— Eu não estou atrasada Hausenback, você está adiantado. — responde Milena e analisa o refeitório em uma rápida busca, sorrindo ainda mais quando parece encontrar seu alvo – Mas posso ver o motivo. Ela ainda não se cansou de você?
— Engraçadinha. – o sorriso dele some dando espaço para uma expressão aborrecida, só então parece me notar e, em uma nítida tentativa de mudar de assunto, se apresenta — Olá, você eu não conheço. Sou James Hausenback.
— Thais Windchest. – aperto sua mão, sorrindo satisfeita pela falta de reação em relação ao sobrenome.
Eu disse que não ia ser tão ruim.
Vamos ver. Ainda tenho que sobreviver o resto do dia.
— Bom dia. – me assusto quando alguém se aproxima por traz, mas sua atenção não está em mim.
Não o conheço ou, se já o vi, me esqueci de quem é. O moreno recém integrado a conversa tem os cabelos mais escuros e mais bagunçados do que os de James. Ele também é alto, talvez da mesma altura que o primeiro garoto. Seu estilo é semelhante a de um skatista e todas as roupas são brancas. Observando melhor seu casaco, indentifico as letras AI'S bordadas em preto. Um pequeno pássaro está debruçado sobre as letras. Não tenho ideia do que significa o animal, mas tenho certeza que o garoto é um Aire.
— E aí cara. — diz James cumprimentando-o.
— Lena. — ele sorri para ela enquanto desorganiza seus cabelos.
— Sai fora, Bryan! — ela o afasta, mas retribui o sorriso — Essa é a Thais.
— Oi. Bryan Dresch. — Diz estendendo a mão para que eu apertasse, é o que faço.
Enquanto isso outro garoto se aproxima com uma bandeja nas mãos, totalmente lotada com bolos, torradas e sucos. Moreno, cabelos pretos e olhos verdes. Trajado com tênis, calça marrom e camiseta verde. Posso apostar que o segundo símbolo gravado em sua camiseta representa o elemento da terra.
— Galera, o bolo de chocolate está delicioso, dessa vez eles se superaram. – ele começa entusiasmado, mas parece constrangido quando me pega observando-o – Ah... Oi. Você é a garota nova não é?
— Sim. — respondo sorrindo tentando deixá-lo confortável, eu não tenho direito nenhum de constrangê-lo — Prazer, Thais Windchest.
— Luige Fassoni. — ele retribui o sorriso, mas ainda parece tímido.
— Eu estou adorando ficar aqui parado fingindo que não temos horário limitado para comer. — fala James ironicamente — Vão em frente, continuem gastando nosso tempo de café da manhã.
— O que aconteceu? — Bryan pergunta quando o garoto sai em direção as bandejas.
— Ele levou um fora da Michelle e...
— Cala a boca, Milena! — James grita irritado.
Sigo-os até o balcão onde está a comida, apanhando uma bandeja no caminho. Mantenho uma distância confortável entre o grupo de amigos e eu, afinal não quero me intrometer em seus assuntos.
A abundância de comidas me surpreende e demoro algum tempo para decidir o que vou comer. Mesmo com a aparência apetitosa das várias opções, não consigo me imaginar comendo tudo isso. Culpo totalmente o nervosismo que tomou conta do meu estômago e roubou meu apetite.
Quando percebo que estou tempo demais olhando para a comida e atrapalhando a fila de alunos ansiosos atrás de mim, pego algumas torradas e um dos diversos sucos. Isso não passa despercebido por Milena, a qual eu tinha plena certeza que estava concentrada apenas nos amigos.
— Não pode comer só isso. — ela pega mais duas torradas e um pedaço de bolo depositando-os em minha bandeja — Agora sim! Nós temos três regras principais e uma delas é se alimentar bem porque toda a energia lhe proporcionada pela comida será usada nos treinamentos.
Não ouso questioná-la porque ela não parece que vai recuar, apenas sorrio desconfortável e, no momento em que eles voltam a conversar entusiasmados, me esquivo para fora da fila, com o objetivo de me afastar o máximo possível para tentar encontrar um lugar menos movimentado. Se ela percebe, não tenta me impedir.
Você devia ao menos agradecê-la.
Ela está ocupada agora.
Você precisa parar de fazer isso.
Eu não estou fazendo nada.
Esse é o problema. Não pode fugir das pessoas para sempre.
Então vou fugir só por mais alguns minutos.
Varro com os olhos toda a extensão na cantina em busca de um lugar sossegado, onde eu possa comer em paz sem ter que me forçar a me encaixar em conversas que não quero participar. No entanto, Lílian não parece disposta a me deixar ficar no canto escuro da cantina, isolada e feliz. Assim que seus olhos me encontram (depois que eu falho miseravelmente em me esconder) ela levanta uma mão e, quando finjo não enxergar, ela chama meu nome mais alto do que eu esperava.
Vá até eles.
Acho que não tenho muito escolha.
Eles gostam de você.
Eles não me conhecem e eu não conheço eles.
Ótima hora para conhecer.
Antes que ela possa fazer mais algum sinal escandaloso, assinto com a cabeça e ando nervosamente para a mesa em que ela está sentada. Max está lá também, sorrindo de forma acolhedora.
Eles são sempre assim ou só querem facilitar as coisas?
Isso realmente importa?
Acho que não.
Então aproveite a deixa.
Tento retribuir o sorriso, mas tenho certeza que exibo uma careta nervosa. Nunca foi muito a minha especialidade causar a famosa boa primeira impressão. Nem a segunda impressão. Ou a terceira. Em geral eu acabava fazendo amigos em situações bem inconvenientes.
Conheci minhas melhores amigas quando nos perdemos dentro do prédio, tínhamos ido fazer a prova para um concurso de biologia do meu colégio. Meu antigo colégio. Nenhuma de nós sabia como sair, então fomos obrigadas a conversar, o que acabou facilitando a busca.
Sento na cadeira em frente a Max com os olhos fixos na bandeja. Tenho plena consciência da garota sentada ao lado de Lílian. Seus olhos acompanham meus movimentos e tenho vontade de afundar na cadeira até desaparecer.
— Então, você é a Thais Windchest. — não é uma pergunta, mas não consigo conter o movimento de concordância, seus olhos são intimidadores demais — Eu vi sua escolha ontem, abalou pessoas.
Mais uma vez a vontade de desaparecer é grande. Ela ainda está me encarando, mas eu não sei se quer uma resposta, um comentário ou qualquer outra coisa. Não sustento seu olhar e volto a me concentrar em minha comida.
— Ah. – "falo" sem encará-la.
— Eu sou Marian, Marian Mccain.
Ela sorri levemente agora. Eu não estou entendendo o que está acontecendo aqui. Alguém me ilumina pelo amor de Deus.
Ah para! Não foi tão ruim.
Você está prestando atenção no que está acontecendo?
Estou e você está indo muito bem.
Certo, agora sabemos que você entende muito menos que eu sobre interações humanas.
Por falta de ideia melhor, lhe dirijo um sorriso sem graça e ela não tenta manter outro tipo de conversa, apenas volta a olhar para o balção de comidas. Quase tenho a impressão de ver um semblante arrempendido em seu rosto. Observo-a rapidamente, para não correr o risco de ter que sustentar outro olhar intimidador. Está trajando roupas pretas. Shadow.
— Que bom que se conheceram. — Lílian fala tentando acabar com o silêncio constrangedor que tomou conta da mesa — Agora só falta conhecer o Jack, ele já volta, foi buscar o café.
Claro Lílian, adoro conhecer pessoas novas. Estou soltando foguetes aqui.
Para de ser assim! Que coisa.
Mais uma vez fecho os olhos por alguns segundos, respiro fundo e me acalmo. As coisas não vão ser ruins e desconfortáveis para sempre, tenho certeza disso e até lá eu preciso me manter calma.
Observo os outros alunos enquanto me delicio com o sabor das torradas perfeitas desse lugar. A comida com certeza não me deixa desconfortável, nem desapontada.
— Você está sentada no meu lugar.
Em um primeiro momento não me dou conta do sujeito parado atrás de mim, muito menos percebo que está falando comigo. Só quando ele repete o "cumprimento" é que me viro para ver de quem se trata.
Está vestindo moletom azul e calça jeans. O cabelo escuro está muito mais bagunçado do que na noite anterior e a inconfundível expressão de sono o deixaria engraçado se ele fosse tão desagradável quando resolve abrir a boca.
— Não vi seu nome nele. – respondo deixando o sorriso de escárnio se alastrar pelo meu rosto.
Que isso?!
Cansei da antipatia.
— Eu estou aqui a um ano e esse lugar é meu. Você vai querer um convite formal para sair? – ele diz irritado, mas já estou cansada da sua mudança constante de humor.
— Te mando o endereço do destinatário. — me volto para frente e encontro Max com um sorriso contido no rosto.
— Escuta aqui gar...
— Fala sério, Clarck! De novo com a coisa do "seu lugar"? — fala o garoto de roupas pretas chegando com duas bandejas na mesa, ele se senta ao lado de Marian e lhe entrega uma — Pode sentar ai, ele gosta de encher o saco das pessoas.
— Não se mete, Jackson. — Austin parece mais irritado, mas não me dou o trabalho de descobrir com quem.
— Oi, meu nome é Jackson Gareth, mas pode me chamar de Jack. — ele sorri carismático e não tenho dificuldade em retribuir — Acho que seu amigo pensa que eu estou falando com ele.
— Me avisem se vocês forem começar a discutir, quero mudar de mesa antes. — Marian resmunga aborrecida.
— Não tem discussão, pelo menos não da minha parte. — afirma Jack colocando um braço em volta da garota.
— É, não tem discussão. – Austin, finalmente parecendo conformado com a situação, senta-se no lugar ao meu lado.
Não consigo chegar a uma conclusão sobre o relacionamento dos dois. A primeira vista parecem se odiar, mas não tenho certeza se é o caso.
A julgar pelas vestes pretas de Jack, ele também é um Shadow e, ao que tudo indica, Marian é sua namorada. Ou algo muito perto disso.
Durante o café me fazem perguntas sobre minha infância e sobre meus pais, mas evitam tocar no assunto do acidente. Respondo a tudo da melhor maneira que consigo, mas sei que muitas das perguntas recebem respostas vagas e um pouco mal humoradas.
No fundo tenho vontade de ignorá-los até que esqueçam a minha presença e comecem a conversar entre si, como aconteceu com Milena e seus amigos, mas esse grupo não parece disposto a deixar que eu me isole. Por isso tento me enturmar para não causar constrangimentos maiores. Sem contar a voz incessante na minha mente que fica me lembrando a importância de fazer novas amizades.
De nada.
Você já pode parar agora. Eu estou me esforçando.
Estou orgulhosa.
Algum tempo depois, quando a conversa já não se trata apenas do meu passado e estou mais confortável com toda a situação, a cantina começa a esvaziar. Max se levanta com uma rápida despedida sendo, quase imediatamente, seguido por Lílian. Ambos depositam suas bandejas em uma janela — que me lembro, dá acesso a cozinha — e se dirigem para as portas.
Tento afastar o nervosismo mais uma vez, para não destruir todo o momento agradável, mas não tenho muito sucesso. Eu deveria seguí-los? Eu preciso encontrar a minha sala, não? Onde estão os meus materiais? Eu tenho realmente um armário?
E lá vamos nós de novo.
Acredito que toda a aflição que estou sentindo está muito bem estampada no meu rosto, levando em consideração que eles pararam de tentar manter o assunto de antes e estão me olhando compadecidos.
— Ei! Relaxa, eles são do segundo ano, você é da mesma sala que a gente. — Austin me dirige um sorriso simpático — Nós levamos você até lá.
Esse garoto é bipolar ou era só fome?
Não sei.
Assinto me permitindo sentir um pouco de alívio, mas a inquietação no meu estômago ainda permanece e me deixa mais enjoada a cada minuto.
— Por falar nisso, é melhor nós irmos. — diz Marian levantando-se junto com Jack e devolvendo a bandeja à cozinha.
Entrego minha bandeja sorrindo agradecida para a moça do outro lado e sigo-os para fora do refeitório. Os corredores estão lotados de alunos correndo com livros, outros guardando e pegando materiais nos armários. Benditos armários!
— Hum... Eu preciso de materiais para a aula. — começo um pouco constrangida por não ter ideia de como agir. Isso não melhora quando eles apenas concordam — Eu não sei como... Digo, onde eu...
Respiro fundo me xingando por não conseguir me expressar direito. O que está acontecendo comigo? Droga! São só alunos como eu, porque é tão difícil apenas perguntar onde devo me informar sobre o armário?
Jack e Marian, mexendo em seus armários — localizados em um complexo de escaninhos alternados em branco e preto — se encaram antes de se voltarem para mim confusos.
Ótimo, vamos todos ficar confusos aqui. Vai ser lindo.
Se acalme.
Isso sou eu tentando ficar calma.
— Martin não lhe deu uma chave? — Marian parece calma enquanto fala, mas não consigo ignorar o olhar confuso.
— Não, eu estou com ela. — diz Austin retirando o pequeno objeto do bolso e me entregando com um olhar culpado — Ele me pediu para entregar e eu acabei esquecendo.
Mesmo tentando muito, não consigo impedir a expressão irritada, mas, para não deixar as coisas ruins, lanço-lhe um sorriso sem graça.
A chave é cinza e está presa à uma plaquinha azul. O número 458 seguido pelas letras SH’K — que deve representar SHARK — está gravado em dourado, assim como a placa na porta do meu quarto. No lado contrário encontro as mesmas inicias: T.R.W.
— Obrigada. — agradeço e ele responde com um aceno de cabeça.
Certo. Eu tenho a chave, mas onde está o armário?
Acredito que você precisa procurá-lo.
Sim, mas não sei nem onde eu estou, como vou saber onde devo procurar?
Observo o corredor, desviando de alguns alunos apressados, tentando encontrar alguma placa ou sinal divino que me ajude a ter uma ideia de qual direção tomar. Para o meu azar, não tem placas no corredor e eu ainda não aprendi a interpretar sinais divinos.
Por que não tenta se guiar pelo número dos armários próximos a você?
Ótima ideia!
Me esquivo de mais um grupo empolgado que passa pelo corredor. Estão trajados com um tipo de uniforme de combate — eu acho — e com espadas nas bainhas dos cintos. Ignoro a conversa sobre invocar alguma coisa e observo a plaquinha em uma porta branca. Deixe me ver. O armário mais próximo é o número... 124.
Péssima ideia.
Desculpe.
Quando já estou convencida de que vou precisar andar pelo prédio inteiro atrás do bendito e que, provavelmente, vou perder algumas aulas, Marian fecha seu armário e se aproxima.
— Qual o número? – pergunta ela para o meu alívio.
— 458 – respondo.
Ela olha ao redor rapidamente e parece calcular algo mentalmente antes de se virar assentindo, como se respondesse a uma pergunta própria. Parece que não sou só eu que paro para responder minha própria consciência.
Não sou sua consciência.
Quieta.
— Fica perto do armário da Lira, no segundo andar. – diz ela.
Não sei quem é Lira, nem como chegar ao segundo andar, mas já é mais do que eu tinha antes, então apenas concordo e me preparo para começar minha busca.
—Eu posso te levar até lá. — completa quando, provavelmente, vê a confusão em meu rosto. Sorrio agradecida.
Sigo-os até uma grande escadaria no fim do corredor, a mesma que subi e desci com Max no dia anterior. Após quatro lances de escadas, adentramos o segundo andar. Os corredores estão um caos assim como no térreo. Marian aponta para esquerda, mas antes de seguir por ali, se volta para os garotos.
— Vocês dois vão para a sala, não façam o professor Ghaffin ter mais motivos para odiar vocês.
— Ele não me odeia. — Austin retruca com um sorriso ladino — Somos ótimos amigos.
— Some daqui Austin. — Marian o empurra para o próximo lance de escadas, mas seu sorriso acaba com a tentativa de parecer irritada — E é para ir pra sala, não ficar passeando.
— Sim, mãe. – provoca Austin subindo os degraus.
— Vou garantir que ele não se perca pelo caminho, não se preocupe. —Jack afirma pegando os materiais das mãos dela e se despedindo com um selinho.
Se ele se despede de mim, não reparo, estou ocupada encarando meus tênis. Marian lidera o caminho a passos rápidos. Andamos quase até o fim do corredor principal, o andar não é muito diferente do anterior. Seus corredores são indenticos, cheios de bancos, janelas de vidro e portas de salas. Tenho a impressão de avistar vários armários coloridos, os quais não percebi no tour com Max. As portas, posso perceber agora, são cor mostarda, assim como os quadros das janelas.
Meus olhos correm pelos detalhes do corredor como se estivessem vendo eles pela primeira vez, tudo pareceu tão monocromático no dia anterior, quase posso jurar que havia muitas dessas coisas eram brancas. Talvez eu não tenha prestado tanta atenção assim, mas agora não tenho tempo de analisar melhor, pois Marian se adianta em uma curva e sou obrigada a seguí-la para não me perder.
Quando já tenho a plena certeza de que não vou conseguir andar por esse lugar sem treinar muito o caminho, ela finalmente para em frente a um grupo de armários azuis e sinaliza para um a sua frente.
— É esse, teremos aula de Cimexlogia agora. — informa enquanto observa o corredor, agora menos movimentado, nervosamente — Não demore, o sinal já vai bater e não vamos querer encontrar com os monitores.
Quase que como um deixa, o sinal soa por todos os lados fazendo os poucos retardatários se apressarem para suas salas. Abro o armário quase em pânico e observo os materiais — muito bem organizados — ali guardados. Apanho o penal, um caderno e o livro intitulado Cimexlogia Moderna: A ciência das criaturas. Sem ter muito tempo para assimilar direito o nome, fecho a portinha e corremos até a sala — quatro laces de escada acima o que deixou meus pulmões em frangalhos — fugindo de um dos monitores.
Entramos quase junto com o professor que apenas nos olha torto. Marian senta-se ao lado de Jack e eu — odiando a ideia de carteiras compartilhas — ao lado de uma garota de cabelos castanhos. Suas roupas, uma mistura de cinza e amarelo, me deixam em dúvida sobre qual elemento ela pertence. Luz talvez. De qualquer forma, não sou eu quem vai iniciar um diálogo desnecessário.
Você não era tão antissocial assim.
Experimenta morrer e se mudar para um mundo desconhecido para você ver o que acontece.
Olha o drama.
Monstros Experientes. Esse é o assunto da aula, o que reforça a ideia que o livro já tinha me dado. É nessa matéria que vou conhecer e entender aquelas coisas assustadoras que vi no prédio do governo. É aqui que vou estudar os responsáveis por toda essa zona que se tornou a minha vida.
Distraída com a minha falta de capacidade de entender e acompanhar todas as informações que o professor passa, não percebo quando ele interrompe a aula e sai do seu tablado, se aproximando mais das nossas mesas. Os olhos fixos no fundo da sala.
— Senhor Clark, gostaria de compartilhar a graça com o resto dos seus colegas, eles não ouviram a piada. – por mais que sua voz passe a impressão de irritação, ele parece mais cansado do que bravo.
Não me contenho e acompanho os outros, me virando e encontrando Austin no fundo da sala. Ele parece tentar segurar a risada e seu companheiro de mesa, aparentemente, compartilha do mesmo senso de humor.
— Não foi nada não professor – recupera o fôlego e por um momento acredito que ele irá se desculpar, mas eu não o conheço muito bem – Só gostamos da sua tatuagem.
Como se fosse um efeito em cascata, todos nos voltamos para o professor. Não preciso me esforçar para encontrar a tal tatuagem, localizada no antebraço. O rosa choque do contorno do desenho me faz questionar como não vi antes.
Você tinha coisas como assistir a aula para se preocupar.
Certo.
Professor Ghaffin tem várias reações ao mesmo tempo. Primeiro, ele fica vermelho, não sei se de raiva ou vergonha. Segundo, um brilho esverdeado começa a surgir ao seu redor e por último, mas não menos importante, ele se torna uma garoto de dezessete anos.
"No sentido figurado Thais?", você pode estar se perguntando, mas não meu caro, não é no sentido figurado. O homem, que antes parecia estar na casa dos quarenta, simplesmente voltou ter a aparência de um adolescente.
Se eu estivesse em perfeitas faculdades mentais até poderia afirmar, com cem por cento de certeza, que tive uma experiência extra corpórea e me vi, pasma e estática, sentada na cadeira observando o homem/garoto andando até o aluno inconveniente como se nada tivesse acontecido. Mas eu não me considero muito confiável nesse momento.
Portanto vou apenas dizer que permaneço, provavelmente com cara de quem viu uma assombração das bravas, no meu lugar observando a cena se desenrolar em frente aos meus olhos, absorvendo da melhor maneira que meu cérebro consegue.
— Está achando graça senhor Clarck, pois bem, eu poderia me estender e tentar explicar a você o porque deste desenho estar aqui, — ele aponta para o unicórnio brilhante no braço — mas acho que só gastaria o meu tempo porque pessoas como você jamais entenderiam o significado.
Ele para em frente a mesa no garoto e o encara de cima. Ele mantém a voz de certa forma calma e o rosto inexpressivo. Austin, ao invés de recuar, encara-o ironicamente.
Qual é o problema dele?
Não sei, mas tome cuidado. Pode ser contagioso.
— Além do mais, se acha que vai continuar com suas gracinhas na minha aula, está muito enganado. Eu tolerei você nos últimos meses, mas estou cansado. Acha que vai sobreviver lutando contra eles somente sabendo usar uma espada? — é uma pergunta retórica, mas o garoto se empertiga na cadeira e tenho certeza que responderia se o professor tivesse lhe dado tempo — Sinta-se a vontade para tentar, aposto que ganhará um lugar ao lado de seu pai no prédio do governo.
Ainda estou confusa com o pequeno truque que ele fizera, mas tenho sanidade suficiente para observar Austin cerrar os punhos quando ouve a palavra "pai", ele encara o professor com raiva estampada no rosto.
— Ótimo, que bom que entendeu. — ele volta a caminhar para a frente da sala — Os monstros experientes são conhecidos pelo padrão que lutam e pela capacidade de explorar as fraquezas do oponente, quando encontrarem um, vocês deverão manter escondido o máximo possível seu ponto fraco ou serão facilmente derrotados. – continua com a explicação de antes e ao se virar novamente para a turma, já postado em seu tablado, ele tem mais uma vez a aparência de um homem mais velho – Nesta categoria estão as criaturas que geralmente atacam com inteligência, explorando o local para usar a seu favor, mas como todos sabemos, monstros de campo como este não atuam em bando, sendo assim não é difícil derrotá-los. Seu ponto fraco é a velocidade e seu próprio padrão...
Ele prossegue com a aula, mas deixo de prestar atenção e olho na direção de Austin, que agora mexe com o lápis sem prestar atenção em nada ao seu redor. Torcendo para que ele não perceba que está sendo observado me permito tentar entender a expressão em seu rosto, tenho quase certeza de identificar dor, mas não uma dor qualquer, aquela dor que você guarda por anos tentando esquecê-la, mas que quando vem à tona machuca como da primeira vez em que a sentiu.
Ao fim de seu monólogo, o professor pede para sentarmos em duplas, que não precisam ser necessariamente nossos companheiros de carteira. Ele entrega um questionário sobre monstros e avisa que quem não compareceu as aulas anteriores deve sentar com alguém que compreende o assunto.
A garota ao meu lado senta-se com um menino mais a frente, antes que eu tenha a chance de sugerir algo. De qualquer forma, não tenho certeza de que eu iria de fato levantar a ideia sobre fazer dupla com alguém com quem eu nunca conversei.
Olho para as perguntas presentes no trabalho e tenho certeza absoluta que eu sei apenas preencher o meu nome. Não faço ideia de como "drenar um Mathacachi em ambiente árido".
— Posso?
Me viro em resposta ao som da sua voz, ele ainda está com a expressão sofrida de antes e sua voz mais baixa do que me lembro de já ter escutado. As mãos enfiadas nos bolsos e um caderno preso no braço. Ele faz um pequeno sinal em direção a cadeira ao meu lado quando o olho confusa.
— Você sabe esse assunto? — pergunto me lembrando do pequeno evento de minutos atrás.
— Não sou o Max, mas entendo alguma coisa sobre os monstros. – ele responde com a voz baixa se sentando pesadamente sobre a cadeira.
— Certo. — olho-o hesitante, se não sabia como puxar assunto com o Austin de antes, esse, abatido e quieto, torna essa tarefa muito mais difícil. Volto meus olhos para o papel em busca de alguma coisa que possa ajudar —Quais são as principais características dos Malum Electric? – pergunto assinando rapidamente o questionário para evitar ter que encará-lo.
— Depois me perguntam por que reprovei. – ele resmunga emburrado.
Mesmo que eu tentasse, seria impossível impedir minha testa de franzir. Olho-o incrédula e ele se move desconfortável. Não era minha intenção julgá-lo, mas a ideia me parece meio absurda levando em conta como ele age confiante sobre muitas coisas.
— Você reprovou na primeira série?
— Sim. — ele revira os olhos e aponta para o trabalho — Mas isso não vem ao caso, não tem uma pergunta mais simples? Alguma que envolva combate? — pergunta tentando ver o papel que meus punhos cobrem.
Demoro alguns segundos para voltar a atenção para o questionário, agora em busca de "uma pergunta mais simples". O que diabos isso deveria significar? Como é que eu vou saber quais são perguntas simples?
Respiro fundo tentando acalmar o nervosismo crescente em meu estômago. Está tudo bem Thais, ele reprovou na primeira série, mas com certeza deve saber alguma coisa.
— Ok, então você é bom em combate? – pergunto tentando me situar a cerca do seu conhecimento sobre a matéria.
— Sim. – responde fitando o chão, mas com um pequeno sorriso orgulhoso.
— Então, como você lutaria com um Malum Electric?
— Certo, eu iria observar se ele está usando garras de eletricidade porque eles são rápidos e com elas podem causar graves ferimentos. É ideal prestar atenção no ambiente, porque eles costumam usar água para ampliar seus ataques.
Ele mantém uma mão no queixo enquanto fala, como se estivesse juntando informações internamente. Minha mão se mexe freneticamente tentando anotar tudo e não deixo de sorrir quando percebo que a estratégia deu certo.
— O tempo também é importante porque eles conseguem invocar raios em tempestades. Procuraria saber sua idade, pois são mais fortes quando atingem a juventude e depois provavelmente escolheria um arco como arma para que não corresse o perigo de ele usar minha própria espada como corrente de energia contra mim. – quando ele termina de falar, encaro satisfeita as duas respostas rabiscadas no espaço das questões: "Site três características de um Malum Electric" e "Quais fenômenos devem ser observados em uma luta contra um M.E".
Em todas as questões faço com que Austin responda sem se dar conta disso, o que não é muito difícil visto que ele nem ao menos presta atenção no que estou fazendo, mas fico contente em fazê-lo falar, dessa forma ele parece menos melancólico. Quando finalmente termino de responder o questionário de quatorze perguntas, meus dedos estão doendo e minha mão cheia de riscos. Entrego a folha à Austin para que ele assine seu nome e confira o que quiser conferir, mas ele não parece muito interessado em ler nada, apenas me encara estupefato e escreve seu nome sem protestar.
Não preciso perguntar à ele para saber que não está disposto a se mover até o professor, por isso cabe a mim a tarefa de deixar o trabalho sobre a mesa do Sr. Ghaffin. Ele passa os olhos rapidamente pelas respostas e me encara desconfiado ao ler os nomes no topo da folha, mas não permaneço em frente a sua mesa tempo suficiente para que ele coloque seus pensamentos em palavras, afinal minha dupla contribuiu com a tarefa tanto quando eu e, além disso, não tenho nada a ver com o desentendimento dos dois.
— Como você fez isso? — ele questiona assim que me jogo na cadeira ao seu lado.
— O quê?
— Como respondeu tudo?
— Eu apenas explorei sua habilidade de combate ajustando as perguntas do professor para outras que você conseguisse responder. — respondo com um sorriso orgulhoso no rosto.
Ele me encara por alguns segundos, talvez tentando encontrar algum sinal que indique que estou debochando dele, mas apenas retribui o sorriso quando percebe que não é essa minha intenção.
Enquanto ele se distrai com algumas duplas ao nosso redor, em geral trocando provocações, consigo perceber que seus olhos ainda carregam a dor que identifiquei antes, mascarada pela momentânea alegria, mas com toda a certeza ainda presente.
— O que houve com seu pai? – pergunto sem pensar e na mesma hora percebo que fiz besteira.
Ele volta seu olhar para mim ignorando um comentário do garoto lamp atrás dele. Me encara por tempo suficiente para me deixar desconfortável, seus olhos vazios e ao mesmo tempo irritados, e então abaixa a cabeça fitando o nada, enquanto batuca os dedos na cadeira. A conversa com os demais esquecida e a minha presença passa a ser ignorada.
Inconveniente.
Foi sem querer!
Concerte isso.
— Desculpe. — falo me virando para frente.
Ele não responde, apenas continua em seu mundo, longe de todos. Depois de alguns minutos, quando quase todas as duplas já terminaram o dever, a conversa rola solta e alta pela sala, alguns alunos até estão em pé reunidos em volta de carteiras. Não demora muito para o sinal soar pelos corredores fazendo com que todos se apressem para fora da sala. Apanho meu material e não tento puxar conversa com o garoto ao meu lado, apenas me movo atrás da multidão de pessoas.
Tento metalizar todo o caminho até meu armário, mas alguns pedaços de memória estão faltando. Resolvo começar descendo, já que sei que estou acima dele. O segundo andar continua tão movimentado quando antes e preciso andar pelos corredores algumas vezes até encontrar o armário de número 458. Acho que vou começar a me guiar pelo fato de ter um banheiro a poucos metros dele.
Analisando melhor o corredor, percebo que se trata do penúltimo a esquerda da escadaria, próximo a parede lateral do prédio, a julgar pela janela com vista para um campo que está localizada no fim do corredor principal, à alguns metros de distância.
Devolvo os materiais que peguei mais cedo e encaro o restante dentro do armário. Não faço a mínima ideia de qual aula terei agora. Eu realmente deveria ter prestado atenção aos papéis que Mey me entregou.
— Deixe os materiais ai, você tem que voltar para o quarto e pegar o uniforme de combate. – me viro e encontro Milena encostada no batente da porta do banheiro. James e Bryan poucos passos atrás.
— Nós temos a próxima aula juntos. – explica James.
— Vamos. – diz Milena praticamente me arrastando.
Voltamos ao dormitório tão rápido que quase não processo direito o caminho. Quando estou dentro do quarto me dou conta que não sei exatamente do que se trata esse tal "uniforme de combate", mas lembro que Lílian disse que estaria dentro no closet.
A portinha azul tem gravado o mesmo símbolo do meu uniforme. O símbolo que agora também me representa. Pequenas ondas presas dentro de um círculo.
Sem ter certeza se preciso dar ordens à ela, me arrisco a abrí-la normalmente, satisfeita quando ela não resiste a minha investida. Já estava até imaginando como eu ia lidar com alarmes soando pelo quarto se a ação fosse encarada como uma violação.
Imagino Martin vindo as pressas para meu quarto esperando encontrar um intruso para apenas me ver no meio das minhas roupas completamente envergonhada. Não sei se iria conseguir explicar que eu pateticamente não sei lidar com meu quarto/inteligência artificial.
Afasto os pensamentos sorrindo com a minha total falta de compreensão em relação a minha nova casa. Preciso melhorar isso, mas no momento apenas vou me contentar com o fato de que não soaram sirenes quando eu abro minha "sala de equipamentos".
Dentro do compartimento encontro botas e calças — de um material que não sei identificar — azuis, camisetas semelhantes a que estou usando agora e um colete preto. Analiso a última peça, identificando mais uma vez o símbolo dos sharks acompanhado do brasão do colégio. Imagens surgem inesperadamente em meio as minhas lembranças e me dou conta que é o mesmo uniforme que Lílian e Austin estavam usando no dia anterior.
Me visto percebendo que a calça, antes larga demais, de alguma forma se ajusta ao meu tamanho. Quando o colete está firmemente preso em meu tronco, testo a mobilidade para ter certeza de que sou capaz de me mexer normalmente. Devo admitir que esperava que o colete fosse dificultar as coisas, mas estava completamente enganada, meu corpo tem total liberdade para se movimentar.
Batidas rápidas na porta me tiram do transe e me dou conta que talvez usei tempo demais observando o uniforme. Tempo esse que eu não tenho.
Marian está me esperando do lado de fora o que, não posso deixar de dizer, me deixa surpresa e um pouquinho desconfortável. Como ela sabe onde é meu quarto? Lílian lhe contou? Ela me seguiu?
Você pode, por favor, parar com a paranóia?
Desculpe.
— Muito bom, você fica bem nesse uniforme, vai se acostumar rápido. – diz ela — Vamos.
Ela se adianta apressada pelo corredor e desisto completamente da ideia de descobrir como ela sabe o número do meu quarto, agora preciso prestar atenção no caminho que ela vai seguir. No entanto não tenho realmente que me esforçar, pois fazemos basicamente o mesmo caminho da cantina.
Dessa vez, quando chegamos as portas de vidro do refeitório, Marian vira a direita e caminha rapidamente até uma porta muito familiar. Combate I e II. Ótimo, tenho lindas memórias em relação a essa sala.
Ao contrário da primeira vez que adentrei o local, agora consigo visualizar seu interior. A sala é extensa, equipada com um grande arsenal do lado esquerdo, com várias opções de armas como: arcos, lanças, espadas, bestas e algumas outras armas antigas. Uma parte do cômodo é forrada de tatames onde, imagino eu, ocorrem lutas. Alguns sacos de pancadas e bonecos de treino estão espalhados pelo lugar.
Grupos de alunos se localizam em diferentes partes da sala e, após uma rápida análise, percebo a clara divisão por elementos.
— Você tem que ficar com a turma do professor Oliveira, ele é quem ensina os Sharks. Eles estão ali. – fala Marian apontando para um grupo de pessoas a minha direita.
A turma de sharks não é muito grande — dez pessoas talvez — e reconheço alguns que estavam na sala de Cimexlogia. Consigo ver Austin afastado dos outros, conversando com uma garota. Ela é alta, cabelos pretos lisos e pele pálida. Mesmo antes de ver seu uniforme, tenho certeza que pertence aos shadows.
— Oi. – ele chama minha atenção quando me aproximo do grupo.
Afastando as memórias desagradáveis de momentos atrás — ainda me sentindo culpada, diga-se de passagem — e ignorando o olhar antipático da garota, ando lentamente na sua direção.
Ele está vestido com o mesmo uniforme que eu e, nesse caso, a mesma roupa que usava quando o conheci, mas, ao contrário de ontem, agora ele segura uma espada. A lâmina é cinza escura e tem um tipo de cristal no punho.
Paro de me aproximar quando chego a uma distância que considero confortável e segura, mas ele não parece satisfeito. Por que ele está envergonhado? Fui eu a inconveniente da história, não? Por que ele está agindo como se tivesse me ofendido?
Eu já parei de tentar entender.
Sábia escolha.
— Estava esperando você chegar. — ele caminha ainda com aquela expressão estranha.
Ele estava esperando por mim? Por que? Ele nem gosta de mim, isso não faz sentido nenhum.
Antes que eu possa tentar organizar pensamentos que me ofereçam algum sentido para toda a situação, ele me distrai com um rápido movimento da mão direita. A mão da espada. Ou era a mão da espada, até ele jogá-la para o lado. Prendo a respiração no fundo da garganta acompanhando o que seria o percurso do objeto, quase gritando para o grupo que seria atingido, mas nada acontece. A arma simplesmente some poucos segundos depois de deixar a mão de Austin.
Acredito que não é preciso eu relatar aqui que estou encarando o vazio embasbacada sem ter a mínima ideia do que acabei de ver. A essa altura acho que você já está familiarizado com as minha reações à situações como essa.
— Como...?
É a única palavra que deixa minha boca após segundos de reflexões confusas. Mais uma vez, o que diabos está acontecendo aqui?
— As armas são encantadas para desapareceram e reaparecerem quando quisermos, assim... – como se não bastasse a performance de antes, ele levanta a mão mais uma vez e a espada volta rapidamente para ela – viu?
— Legal. – respondo quando consigo encontrar as palavras, ciente de que esse não é o termo que eu usaria se estivesse em minhas plenas faculdades mentais.
Ainda perdida nas imagens que se conectam devagar na minha mente, só percebo que a garota se aproximou de nós quando ela pigarreia de forma irritante. A expressão antipática ainda está presente em todas as suas feições, mas agora ela parece irritada também.
— Thais, essa é a Patrícia Slater. – Austin a apresenta quebrando o silêncio tenso.
Ela não parece realmente interessada em me cumprimentar e eu não também não tomo a iniciativa. Algo em sua cara de nojo desperta um sentimento grosseiro dentro de mim.
— Eu tenho que ir Au, minha aula já vai começar. Nos vemos depois. – diz ela dando um beijo na bochecha dele.
Patrícia não anda até o grupo dos shadows, como eu imaginei que faria, apenas sai da sala voltando para os corredores. O ar parece muito mais leve quando ela desaparece pela porta.
— Não liga pra ela — Austin volta a me encarar com um sorriso tão estranho quanto sua expressão envergonhada. Por que ele está fazendo isso? — Patrícia age assim com todas as garotas que apresento. – ele acrescenta indiferente — Você precisa conhecer sua espada.
Sem me dar tempo para protestar ou concordar, ele caminha calmamente até uma parede lateral, a mais próxima de nós. Ela tem um teclado embutido, muito semelhando ao que existe na porta do meu closet. Austin aperta alguns botões e se volta para mim entusiasmado. Levando em consideração que a última vez que vi alguém com essa expressão descobri que as paredes do meu quarto falam, não posso deixar de esperar outra revelação extravagante.
— Coloque seu pulso aqui.
Olho para onde ele aponta, um quadrado verde, parecido com leitores de códigos. Encaro o objeto desconfiada, mas pressiono meu pulso contra o material gelado. Assim como a ocasião envolvendo meu quarto, alguns segundos se passam até que o aparelho tenha alguma reação. O leitor emite uma luz verde e consigo escutar barulhos de engrenagens até que por fim, em letras caixa alta, a palavra misterio aparece piscando na pequena tela.
— Ótimo, agora levanta a mão — Austin se afasta alguns passos sorrindo — mas cuidado com o impacto, tem que estar com a mão bem firme. – ele fala extremamente animado.
Levanto o braço, hesitante e, quase no mesmo instante, sinto algo se chocar contra minha mão que, reagindo por reflexo, segura o objeto firmemente. O punho se encaixa perfeitamente entre os meus dedos e é revestido com couro. Analiso de perto a espada, ainda estupefata com seu aparecimento repentino, a lâmina é comprida e fina, a ponta perigosamente afiada, peso ideal e, logo abaixo da minha mão, um cristal está brilhando intensamente. A luz, inicialmente branca, se torna azul em poucos segundos. Sinto um formigamento familiar nos dedos e a sensação se alastra pelo braço. Não consigo evitar sentir desgosto quando observo minhas veias se tornarem azuis, mas, diferente de todas as outras vezes, o fenômeno não dura muito tempo.
— Calma, ela esta reconhecendo seu sangue.
Nos últimos momentos, perdida entre o brilho do cristal e a reação das minhas veias — coisa que o senhor diretor afirmou que não iria mais acontecer — acabei me esquecendo da existência do garoto. Ele me encara com curiosidade e, involuntariamente, meu rosto esquenta.
— O nome dela é Misterio. Não tem acento então acredito que está em espanhol — ele indica novamente o leitor — ela é sua espada agora, tem um laço com você. — franzo a testa e ele sorri abertamente — É sério! Quando estiver em uma luta ela será capaz de saber exatamente o que você vai fazer antes mesmo de agir. Foram programadas para serem armas inteligentes, tem um vínculo com a nossa mente — observo o objeto mais atentamente tentando ver algo que a diferencie de outras que já vi em museus e livros de história — ela pode lê-la sem dificuldade e só responderá a você, qualquer um que tente usá-la sem sua permissão será queimado pelo cabo.
— Por que o cristal? — analiso a peça do cabo, agora mais pálida, mas ainda tingida de azul.
— Ele é o centro de poder, o material usado nas armas foi criado para utilizar nossa essência, o cristal é o que armazena e distribui o seu poder pela espada. Você jamais deve se cortar com nenhuma arma dessas — agora ele assume uma expressão séria — elas foram feitas para drenar, se entrarem em contato direto com seu sangue você pode morrer. Entendeu?
— Perfeitamente. — respondo olhando-o diretamente dessa vez, ele parece realmente se preocupar com a possibilidade.
— Ótimo. Descarte a espada, o treino já vai começar. — levanto uma sobrancelha em questionamento. Não deveríamos aprender a usar armas nessa aula? Ele parece entender a pergunta muda — Não usamos essas espadas no nível fundamental, somente no formativo. É perigoso para alunos inexperientes.
— Então por que nos deixam ter uma?
— Para que possamos criar uma ligação cedo e nos deixam praticar a invocação delas, mas nunca utilizar nos treinamentos.
Certo, faz sentido. Pelo menos eles são sensatos o bastante para saber que deixar um bando de crianças lutar com armas letais não é uma boa ideia.
Procuro um local vazio da sala, para o caso de eu não conseguir fazer isso direito, não seria muito legal da minha parte matar alguém no meu primeiro dia de aula. Quando me certifico que a espada não irá atingir ninguém, arremesso-a o mais forte que consigo, sem ter certeza se a força tem algo a ver com o tal descarte. Alguma coisa eu devo ter feito certo, a julgar pela forma como ela desaparece à poucos centímetros de mim.
Satisfeita pela tarefa concluída com sucesso, me sinto mais confiante para começar a aula. Sim caro leitor, eu sei que foi uma realização simples e provavelmente sem ligação nenhuma com o que vou ter que fazer durante o treinamento, mas preciso me animar com alguma coisa ou isso tudo vai ir por água abaixo.
Antes que eu possa de fato me juntar ao pequeno grupo de alunos, o garoto segura meu braço e se aproxima de mim, cheiro de canela invade meu nariz.
— Mais uma coisa... – Austin sussurra – Ele morreu, quando eu tinha seis anos.
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