Elemental 6 - A Luz Contra As Trevas
3 Uma Aliada Derrotada
Kiara, depois da última luta, estava com a cintura completamente enfaixada pela ferida e doía ao toque. Matiloa estava trocando as ataduras de Kiara naquele momento, sempre com ela reclamando.
- Ai! Mati!
– Shh! Fica quietinha: Quanto mais quieta ficar, mais rápido irei acabar!
Depois de ter terminado de repor a faixa na Kiara, ela suspirou e disse:
– Já vi que pode demorar de cicatrizar...
– Aaah... Não diga isso!
– Poderia ter sido pior: Ter quebrado uma perna ou um braço.
Matiloa pausou por um instante e continuou:
-... Bem, tenho que lhe dizer umas coisas!
– O que seria?
– Antes de eu dizer, eu te falei que seus amigos ainda estão presos em seus respectivos selos ou ainda desaparecidos?
-... Não, mas continue!
– Acontece que Soul, é claro, não estava só atrás de você: Ele sabe que consegui te salvar, mas ele agora irá atrás dos outros, para contar vantagem com um grupo e nós precisamos ir atrás dos outros também!
– Então você quer dizer que...
– Exatamente: Vamos procurar pelos outros membros do grupo antes dele!
–... E você tem ideia de onde esteja, pelo menos de alguém, para começarmos?
– Sim: Consegui rastrear a localização de Ruth, a protetora de Acquarium: Ele está em alto mar, rondando os limites marítimos da própria cidade... Provavelmente, em algum navio!
Kiara pensou “É a cara dela: Velejando em alto mar!”. Ela se levantou ainda um pouco tremula e disse:
– Irei atrás dela!
– HEIM? Com esse ferimento enorme na cintura? Nem-pen-sar! Eu é que vou!
– Matiloa, é sério! Quero tentar! Eu errei daquela vez porque perdi a prática de lutar! Talvez nem seja preciso brigar com ela para Ruth vir conosco!
Matiloa tinha medo de permitir a saída dela: Além de arriscado, ela estava ferida. Ele suspirou profundamente e disse:
– Ok... Mas me faça o favor: Mantenha contato comigo! Use isso.
Ela tirou do bolso o que parecia ser um pequeno relógio de pulso e deu a ela. Kiara olhou para o relógio e perguntou, estranhando:
– Er... O que é isso?
– É um comunicador multiuso: Eu inventei isso quando ainda era jovem e guardava isso para qualquer momento útil... Também o adaptei para se disfarçar como um relógio normal!
Kiara agradeceu o presente a Matiloa e partiu em viagem.
***
Ela sobrevoava o mar perto de Acquarium quando viu dois navios atirando entre si: Um era um navio cargueiro da cidade de Xiao-Mei (provavelmente, em viagem de venda) e outro, era um navio pirata. Kiara viu que o sinal vinha do navio pirata: Ela começou a sobrevoar, de maneira que pudesse enxergar Ruth e não fosse percebida pelo navio. Depois de muito procurar, viu que não via ela lá; Resolveu ir procurar no cargueiro atacado (afinal, ela pode ter se movido), a fim de ver se ela estava lutando ali. Finalmente, ela viu uma imagem familiar: Uma capitã jovem e negra, de longos cabelos verdes e lisos (presos em Marias-chiquinhas), com olhos azuis e roupas de capitã, também azuis, com detalhes em dourado e botas marrons como terra. Era, com certeza, Ruth. Ela estava em cima do mastro do navio, atirando nos marujos que iam atrás dela com suas pistolas. Kiara preferiu observar à distância, já que temia que ela estivesse tentando render outro navio. “Como nos velhos tempos”, Kiara pensou consigo mesma.
***
Depois de a confusão ter se acalmado (e Ruth ter roubado mais um navio cargueiro para seus suprimentos), Kiara esperou alguns minutos voando até que eles se afastassem e ela pudesse chegar perto do navio. Ela começou a voar em círculos pelo navio, chamando a atenção de todos os tripulantes possíveis. Vários começaram a alertar a Ruth, até que ela finalmente veio reclamando:
– OK, seus palermas: Qual é a tal “Criatura-Voadora” que vocês tanto falam?
Mas Ruth pausou ao ver a amiga voando pelo navio, como se para Kiara, esquivar-se dos mastros fosse mera brincadeira, mas logo Ruth sorriu e acenou para ela, chamando-a para vir ao navio. Kiara pousou graciosamente na frente dela e sorriu, dizendo:
– É bom vê-la de novo!
Os tripulantes no navio estranharam: O que a garota tinha de familiar para a capitã? Um deles perguntou a ela e a isso, Ruth respondeu:
– Ela é uma velha amiga minha que havia desaparecido a... – Ela continuou, disfarçando a palavra “Alguns” com uma tosse. — Anos... Mas parece que ela finalmente voltou a aparecer!
Ela pausou sorrindo e deu as ordens aos marujos:
– Quero que a tratem como convidada de honra: Deem da melhor comida e o melhor quarto!
– Sim, capitã!
– E agora, cuidem do navio! – Ela respondeu, dando ênfase na última frase, com um sorriso sério.
– Sim, capitã! – Todos os marujos responderam quase como um só coro.
– Botando banca, hein Ruth? – Riu Kiara.
***
Já caindo à noite, Kiara e Ruth estavam nos quartos do navio, que “parecia” seguir para o infinito azul. Ruth explicava a Kiara todas as novas áreas descobertas até agora por Ossíria e que inclusive, ela mesma havia colonizado uma ilha, onde considera seu “Ca fofo” (era para lá aonde o navio seguia). Depois de tudo, ela falou:
– Perguntas, Kiara?
– Como não envelheceu se não ficou presa em algum selo ou coisa parecida? – Ela perguntou rindo.
- Nem eu sei! – Ruth riu junta -... Mas estou feliz de te ver de novo, amiga!
Após ela ter conversado com Ruth, Kiara explicou a situação para ela e disse que Soul poderia estar atrás das duas naquele exato momento. A pirata, apreensiva, tirou de um velho baú, no canto do seu quarto, sua arma predileta (Um par de pistolas de prata e ferro). Mas antes que ela pudesse falar algo, sentiram alguma coisa cair no navio: Pelo barulho do impacto, poderia ser até uma bala de canhão, mas não causou nenhum dano ao navio. Logo, começaram a ouvir sons do que parecia ser uma luta... Uma luta não: Algo pior. As duas subiram até o convés e viram rapidamente, todos os tripulantes atacando e se defendendo de um... Cavaleiro?
– Ah... Isso não é bom! – Disse Kiara, já pessimista.
Kiara reconheceu logo de cara quem era: Era Soul, mas estava diferente, como Matiloa descreveu. Apesar de ele estar fisicamente normal (Ele usava um longo casaco preto com mangas grandes e muito bem abotoado, com calças cinza e botas pretas, equipado com braceletes e ombreiras de prata, com detalhes em joias vermelhas, sendo que no físico era alto com cabelos pretos e olhos vermelhos como sangue, porém, um dos olhos tinha uma cicatriz da qual era cego e o mesmo era esbranquiçado, sendo que ele também era um Drake: Uma raça Ossíriana que era meio dragão. No caso dele, tinha asas cinza quase pretas, sendo as membranas roxas escuras, com um rabo longo da mesma cor, com várias argolas prateadas presos a ela e a ponta fina e afiada como uma adaga e da cabeça saíam um par de chifres prateados bem claros, curvando-se levemente), do corpo dele emergia uma aura muito tenebrosa, uma verdadeira mistura de sentimentos negativos: Ódio, Ironia... Ele parecia ter ânsia de ser o mais forte. O navio inteiro lutava para controlá-lo, mas Soul era mais forte: A longa espada passava rapidamente sobre os corpos dos tripulantes, que caiam aos grupos. Ruth, sem coragem para ver o resto dos tripulantes morrerem, gritou:
– Soul, pare com isso!
Ele parou só quando tinha poucos ainda de pé: Mesmo que não fossem muitos tripulantes, a maioria já estava morta a aquela altura. Ele pausa e olha Ruth dizendo:
– Por que pararia? Tem algo contra?
– Sim: Está destruindo minha tripulação!
Soul pausa, dando um riso cínico e voltando a falar:
– Isso só prova que você depende dos outros para lutar! Olhe para mim: Derrotei sua tripulação toda... E sozinho!
Ruth cerra os dentes e diz, se armando e berrando com raiva:
– Mentira: Eu posso lutar sozinha!
Kiara sentiu a mesma energia de Soul rondar a Ruth: A raiva e a frustração dela pareciam atrair tal energia negra. Ela empurra Ruth dizendo:
– Não: Soul está tentando enganá-la! Não fique com raiva!
– Não ficar com raiva do que? Ele destruiu minha tripulação! Ele não deveria ser perdoado!
“Ai, se eu fosse cabeça-dura assim...”, pensou a jovem maga. Soul riu e se posicionou com sua espada, se preparando para atacar Ruth. Tal posicionou a arma. A luta já estava evidente. Kiara não sabia mais o que fazer, já que agora ia começar uma verdadeira briga: Pará-los poderia ser pior ainda, pois ela poderia acabar se machucando ainda mais do que já estava (e apesar de se algo aparentemente pequeno, para ela que tinha uma defesa baixa, era extremamente doloroso). Soul começou, tomando impulso com um dos mastros e se jogando em cima de Ruth, que se esquivou. Ele deu uma freada brusca com os pés antes de se bater contra outro mastro, mas saiu correndo atrás de Ruth. Ela começou a atirar contra ele, que se esquivava à medida que Ruth atirava. Ela começou a se afastar lentamente enquanto atirava. Vendo que a munição normal havia acabado, tomou uma medida mais forte: Começou a atirar com munição mágica. Já esta, explodia quando batia em algo com sinais vitais (caso batesse em algo sem sinais vitais, a explosão seria bem menor). Soul tentou se esquivar dessas, mas foi atingido por três, caindo no mar. Ruth pausou e olhou para o mar, esperando para ser se ele voltava. As bolhas de ar logo pararam. Ruth voltou para Kiara e disse:
– Foi fácil!
“Até demais” Suspeitou Kiara. Ela ainda tentou se aproximar do local aonde ele havia caído, mas um brilho Vermelho-Escarlate apareceu na água e Soul voltou para a superfície, voando com suas asas. Ruth conseguiu ter tempo para recarregar a munição e atirar, mas ele pousou no navio e começou a defender-se dos tiros com sua larga espada. Aos poucos, a espada de Soul foi se danificando, até partir em duas. Aquilo provocou mais fúria nele, fazendo sua aura ficar cada vez maior ele ficar violento, ao ponto de atacar Ruth com os próprios punhos. Quando a munição dela acabou novamente, ele voltou a atacá-la sem dar tempo de ela usar munição mágica. Quando ela havia vacilado aberto as mãos, Soul conseguiu empurrá-la para mais distante e jogou as pistolas no mar com um chute.
– Não! Minha arma! – Ela disse, segurando o pânico do momento.
Ruth viu que não tinha outra escolha: Tinha que usar magia. Aproveitando-se do mar, ela começou a levitar camadas. Ruth começou a lançar as camadas contra Soul rapidamente, funcionando como adagas. Aproveitando-se de uma pausa do rapaz, fez com que a água formasse um escudo ao redor dele e começar a encolher. Soul, se sentido simplesmente “desconfortável”, concentrou sua energia e explodiu o escudo.
–... Pronto: Agora está mais confortável! – Ele comentou no meio da luta.
Ruth ficou surpresa, mas tentou voltar a atacá-lo com água. Soul, quando já estava ficando impaciente (novamente), conseguiu “segurar” a magia de Ruth.
– O-O que? — “Mas ele nem é do elemento água para fazer tal façanha!” Pensou a pirata, tentando mexer a magia, que estava completamente imóvel.
– Chega de brincadeiras: Agora é para valer!
Quando Soul terminou de falar, fez com que a água se transformasse em sombras e começou a bater em Ruth insanamente. Quando Ruth já se sentia completamente abatida, Soul parou, tomando fôlego e disse:
– Viu? ... Eu derrotei você... E sua tripulação... Algo a dizer?
Ruth permaneceu calada, arfando com as mãos nas feridas. Soul pausou, relaxando. Sua aura pareceu ter diminuído novamente. Ele fez com que a arma de Ruth (que caiu ao mar) fosse levantada até sua mão, foi ao encontro dela e disse, mostrando a arma dela (aparentemente) intacta:
–... Mas se aceitar vir comigo, pode ficar tão boa quanto eu!
Ruth olhou para ele, sangrando em vários lugares, e depois para Kiara. A maga a olhava, preocupada de que Ruth tomasse a decisão errada. A pirata disse:
– E... Se eu for com você... ?
– Posso fazer seu destino valer a pena... – Disse ele, estendendo a mão livre.
Ruth bufou de dor, ajoelha, com os braços abraçando as feridas. Ela estendeu a mão sangrenta, tentando levitar mais água para se curar, mas o rapaz disse, cerrando o olhar:
– Ainda quer insistir? ... Você é tola o suficiente para isso? ... Eu posso lutar até o último segundo, enquanto você tem que parar se curar... Sabia disso?
Ruth tremeu a mão, temerosa. Ela pausou por um instante, com as mãos no ar. Kiara estava focada demais na situação para pensar em curar sua amiga: O nervosismo fez ela se esquecer. Ruth abaixou a cabeça, levantando a mão ferida ao rapaz e sussurrou:
– D-Desculpe-me... Kiara...
Kiara, ao ouvir aquilo, tentou correr até ela, gritando um “Não!” apavorada, mas foi tarde demais: Ruth se rendeu a ele. A aura de Soul logo ficou a mostra: Tal passava pelo chão como tentáculos, que subiram Ruth, espalhando sua energia sobre ela. A mesma energia começou a se espalhar pelo navio e um brilho maligno e púrpuro se espalhou em tal. Kiara ficou imóvel, assustada, mas acabou voando de medo. Ela apenas pode ver o navio brilhar até formar um clarão que a cegasse e em seguida, desaparecer. Ela olhou para o mar, agora vazio, e tentou falar com Matiloa pelo comunicador:
–... Mati... O que houve aqui?
Matiloa soltou um longo suspiro e disse:
– Tarde demais... Soul foi mais rápido...
Kiara não queria acreditar no que ouviu: Ruth foi levada por Soul. Ela tentou procurar pela amiga pelo mar em vão, até chegar a sua ilha. Vazia. Kiara voltou para o templo, pouco tempo depois, em choro baixo. Matiloa não tinha como consolar a Kiara, pois não sabia como era perder a melhor amiga: Afinal, sempre viveu isolada no templo. Ela não queria conversar com a maga temporal: Passou o resto da noite trancada em seu quarto (Mesmo que Matiloa pudesse vê-la pelas paredes transparentes, preferiu nem passar perto do quarto dela: Só passou quando foi dormir).
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