Elegia a Abril

1 Elegia em Prosa à Tola de Abril


Eu não sei. Eu juro que não sei, talvez... Talvez seja melhor eu não contar. Devo fazer isso mesmo? Há mais gente que sabe da história, além de mim. Eu só era vizinha dela. Nem a conhecia direito. Eu não gosto de gente esquisita, você sabe.

No que vai mudar se eu contar? Vocês não têm argumentos para me fazer falar. Oh, colaboração? Eu não serei presa, serei? Tenho só catorze anos. Não posso ser presa, não agora. Não, eu sei que não cometi nenhum crime. Mas talvez achem que eu neglicenciei ajuda a ela...

Bem, então...

Sim, sim, eu era vizinha dela. Ela sempre foi uma menina estranha. Chegou aqui ano passado, e já devia ter uns onze anos na época. Era meio esquisita, sabe? Ela ainda estava fazendo a quinta série. Não, não que eu ache gente de onze anos na quinta série estranha, mas... Ela era mesmo bizarra. Muito. A começar que ela era pequenininha. Depois, que só usava rosa-choque e verde-berrante, parecia que ia desfilar para a Mangueira. Ah, sim, ela mudava, às vezes. Sim, ela ia para o colégio sem uniforme. Era para agradá-la. Ela precisava ser agradada, acho. Então que ela era loira, mas loiro natural. Sabe o quão esquisito e raro é ver uma loira natural? Pois é.

Então, ela era assim.

Ah...

Eu preciso mesmo continuar? Certo... Então, huh... O que fazia dela estranha? Bem, ela vivia destacada do mundo. A conheci em um recreio e lá estava ela, sentada em um banco, olhando para o nada ou para um caderno, escrevendo nele sem parar e falando com o nada. Meu Deus, aquilo me incomodava muito. Ela nunca pareceu ter muitos amigos, sabe? Então... É... Bem... Ela era adotada. Eu não sabia o que havia acontecido exatamente, mas, bem, não era da minha conta. Não deveria ser. Nunca foi.

Mas eu acabei indo falar com ela...

E com o tempo, nos tornamos amigas...

E ela começou a se mostrar cada vez mais estranha... Um dia, ela me apresentou para uma amiga imaginária dela. Meu Deus, aquilo foi triste. Deprimente. Ela chamava a amiga imaginária dela de mãe. Sim, de mãe, é esquisito, não é? Vivia dizendo “mamãe” isso, “mamãe” aquilo. Ela também trazia uma boneca para a escola, às vezes, e essa também era a “mamãe”. Era esquisito...

Foi naquele ponto que eu decidi me afastar. Não faria bem para mim.

Como vivíamos em apartamentos próximos, eu só podia inventar desculpas toscas para ela... E-ela acreditava fácil. Era muito bobinha. Aí comecei a ignorá-la... Fingir que ela não existia. Era triste, porque ela parecia confiar muito em mim... Vivia me contando dos pesadelos que ela tinha. Era alguma coisa sobre um pé de cabra, ou cano de metal, não lembro. E sobre um carro.

E ela acordava gritando. Eu ouvia tudo do meu quarto.

Sabe, eu não gostava do jeito que ela me olhava... E de como ela sorria...

Então, bem... Bem... Um dia, os pais dela foram viajar... Iam a deixar sozinha por três dias... E eu estava encarregada de checá-la de vez em q-quando...

E-eu devia saber que não daria certo...

No primeiro dia, eu a ouvi gritar. No segundo, eu ouvi a mesma coisa, mas parou rápido, então decidi ir ver o que havia acontecido. Entrei no apartamento dela, fui até seu quarto e entrei nele.

Eu não estaria falando a verdade se dissesse que aquele quarto era um combustível para pesadelos. Era pior. As paredes eram cor de vinho—Não, não era sangue! C-claro que não. Imagine só... Mas... T-talvez fosse para disfarçar o sangue... Afinal, havia manchas mais escuras lá... E o cheiro era horrível, sim...

Ah... O resto? O-o resto? Ah, ele era muito escuro, sim, era um breu, mas as luzes estavam acesas na hora. Eu havia as desligado uma vez e ligado outra, e sim, aquilo era escuro. Ela não estava no quarto... Ah, o quarto? C-como ele era? Bem... Bem... Nas paredes... Havia os desenhos dela. Desenhos em preto e branco, de gente deformada. Bem, eu acho que era gente...

Era esquisito, você sabe...

Havia muitas bonecas lá... Todas pareciam ser feitas à mão, por ela, então havia algumas partes faltando... Outras haviam sido rasgadas mesmo, por ela, acho.

Mas o que mais me espantou foram os móveis. Fora os mais pesados, estavam todos arranhados e quebrados, como se ninguém tivesse tomado conta deles por um bom tempo. Pensando bem, até os mais pesados estavam assim, arranhados, como se por uma faca...

Uma faca, meu Deus...

Ah... E-então... Não havia ninguém em casa, não é? E estava tudo silencioso, não é? Então... Eu fui andando para a sacada do quarto dela, que tinha uma rede, e parei no meio do caminho, porque a bolsa dela estava lá, e o caderno estava jogado no chão. Tinha folhas espalhadas no chão, e eu peguei ele para ler...

Eu nunca achei que eu pudesse ser uma pessoa tão ruim assim...

Sabe o que estava escrito lá?

Algo como:

“Primeiro de Abril – Mamãe, eu te amo. Nós ficaremos juntas para sempre.”

Virei uma página e...

“Um de Abril – Mamãe, eu te amo. Não se preocupe mais com o papai. Ele não vai mais te bater.”

E outra e...

“Abril, 1 – Papai foi embora. Aqui é legal. Pena que eles não te vêem.”

“01/04/1993 – Ele ainda me quer, mamãe? Eu tenho medo dele.”

“Primeiro de Abril – Ele está me assombrando, mamãe. Onde você está? Me proteja dele.”

E havia uma, com a tinta ainda fresca, que manchou meus dedos quando passei eles pela folha:

“01/04/1993 – Eu vou fugir. Vamos fugir juntas, mamãe. Odeio esse lugar.”

Aí foi que notei o rastro de rasgos de papel até a sacada.

Foi horrível, sim. E-eu corri até lá... E ela estaria lá, feliz, olhando o nada, não estaria? Bem... A rede estava cortada... E havia um banco perto do buraco...

Eu corri, subi no banco, me dobrei para a frente, pela abertura, e... E olhei para baixo.

Meu Deus, havia tanto sangue... Ela... Ela tinha caído... E bateu nas paredes... E manchou tudo... Vai dar um trabalhão para limpar, não vai?

Ah... Me perdoe, eu... Eu estou viajando, não estou?

Mas... Mas eu vi ela lá... Caída... Morta... Ela estava morta, eu acho... Na mão dela, a boneca. A mamãe. A boneca.

A mãe dela... Ela morreu... Foi assassinada, não foi? Pelo pai...

Meu Deus, que horror...

E... I-isso aconteceu... Faz um ano. Você sabe que dia é hoje, n-não sabe? E-eu estive a vendo, nos meus pesadelos. Estou com raiva de mim mesma. Eu... Eu deveria ter sido melhor com ela. Mas não fui. E ela morreu por isso. Se eu tivesse a ajudado, talvez... Ela tivesse sobrevivido! Talvez... Talvez...

T-Talvez...!

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