Notas iniciais
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Pela enesima vez naquela semana, eu folheava o sexto livro do Harry Potter, era o meu livro favorito, já havia lido tantas vezes que a historia se entrelaçava com meu passado, meu presente, muitas vezes cheguei a achar que o enredo era memórias remanescentes de minhas vidas passadas ou algo em que envolvia uma vida paralela. Talvez isso explique o porquê eu me sinto completamente fora de lugar. Será mesmo que eu pertenço a essa realidade?

Meus dedos tocaram suavementes as paginas já amareladas do livro que estava pousado em meu colo. Institivamente comecei a chorar. Um choro silencioso. Era apenas suspiros de dor. Dor que não se pode exprimir em lágrimas. Como que por mágica, me vi novamente com 11 anos. "Nossa como eu era magricela" Eu parecia ansiosa andando de um lado pra outro na sala de estar. Chovia lá fora e isso parecia me deixar ainda mais ansiosa. De repente meu pai, um tanto ensopado, aparece na minha frente. "Maddie! Maddie! Olha o que eu comprei pra você"

"Querido, você vai pegar um resfriado!" Minha mãe resmungou aparecendo no corredor, carregava um toalha branca com as iniciais dos nomes deles. — A & E -

"Eddie! Meu tapete egipcio novo!" ela empurrou gentilmente ele pra fora do local onde estava o tapete.

"Oh, minha flor, me desculpe. Você sabe que eu te amo. Posso comprar outro!" Ele se aproximou dela e a beijou levemente.

"Eu ainda estou aqui, pessoal!" Exclamei explicitando no meu tom o quanto estava enojada com a cena. Por que eles sempre fazem isso? "Pai! Onde está minha surpresa?"

Eles se soltaram e me olharam, ambos com aquele sorriso amarelo estampado nas faces. Meu pai tirou com cuidado um embrulho de dentro do casaco e me entregou. Desembrulhei ferozmente, fazia semanas que ele repetia sobre essa tal surpresa e isso estava me dando nos nervos. Queria saber o que era aquela tao aclamada surpresa.

Estava ali. As letras em dourado. A cor verde que emoldurava-o, e o desenho de um garoto magricela usando oculos e exibindo sua cicatriz em forma de raio, um velho com uma barba enorme estava ao lado dele. E uma penseira... Minha visão ficou embaçada e percebi que estava chorando.

Dois pares de braços me envolveram em um abraço apertado — um par de braços molhados e um par de braços com cheiro de laranja.

- JORDAN? — uma senhora loira com roupas elegantes e rosto magro estava me fitando com expressão de irritação. — Querida, eu sei o que está passando. Mas eu não tenho o dia todo. Precisamos pegar o avião em 2hrs!

- Tudo bem. — falei secamente tentando acabar de vez com aquele dialogo. A mulher me fitou novamente e então saiu do quarto me deixando sozinha com meus pensamentos mais uma vez. A ultima vez. Toquei meus livros e alguns outros objetos que restavam. Eu não poderia levá-los. Ela foi explicita ao dizer que não teria espaço para minhas coisas e mais ainda ao fazer a minha mala. Eu deveria estar muito perturbada com o luto pra aceitar que uma estranha fizesse minhas malas e pior, pra ir morar na casa de um estranha.

Peguei minha mochila e sai do quarto. Nao queria mais estar ali, pois cada centimetro daquela casa tinha uma lembraça deles.

Sai rapidamente dali, parando apenas quando pensei ter sentido o aroma de laranja.

A viagem até o aeroporto foi silenciosa, Madame Helen, esse era o nome da loira, não era muito jogar conversa fora e eu não me importei. Há duas semanas não estava me importando com nada. Há duas semanas minha unica familia havia morrido. Há duas semanas eu estava sozinha no mundo. Eram apenas eu, a dor e o Enigma do Principe.

- Se estiver com fome pode ir a lanchonete. Ainda temos 40 minutos antes de partir. — ela proferiu as palavras no tom severo e um tanto arrogante que percebi ser uma de suas caracteristicas.

Assenti e dei as costas a ela. Quando cheguei a praça de alimentação estava ligeiramente lotada. Comprei um suco e um sanduiche procurei em vão uma mesa vazia. Nada. Voltei ao local onde havia deixado Madame Helen e sentei ao seu lado em uma de muitas cadeiras que estavam vazias. Ela estava folheando uma revista de moda, parecia entretida com o que lia.

Comi rapidamente e depois fiz o mesmo que ela, mas definitivamente não lia revista de moda. Abri o livro na página 394 e sorri ao pensar no Professor Snape. Harry e o Professor Dumbledore conversavam sobre o Lord Voldemort. Dumbledore explicava para o Harry sobre as horcruxes...

"-Ele fez sete Horcruxes?- questionou Harry, horrorizado, enquanto vários retratos nas paredes soltaram exclamaçoes semalhantes, de susto e indignaçao. -Mas elas poderia estar em qualquer parte do mundo..."

A mão fina tocou meu ombro.

- Está na hora, querida. — Madame Helen fez uma careta e pude jurar que ela estava tentando ser simpatica.

Horas depois nos encontravamos em frente a uma imponente Mansão no alto de uma colina. Me perguntei metalmente se a Mansão dos Malfoy seria daquele jeito. E sorri ao pensar que na realidade paralela eu me casaria com o Draco e seria uma Senhora Malfoy.

- Esta é sua nova casa. — Ela sorriu. E dessa vez pude perceber que era verdadeiro. Talvez ela não fosse tão ruim assim.

A parte de dentro da Mansão era ainda mais rica e bonita. Muitos quadros e objetos que revelavam o gosto de Madame Helen por arte contemporanea. Ela me conduziu ate um dos muitos quartos na parte de cima na Mansão. O quarto estava pintado num tom leve de azul e a cama era enorme.

- Descanse um pouco. Depois peço para Clotilde lhe avisar que horas o jantar estara pronto. — Ela saiu antes mesmo que eu pudesse argumentar.

Fechei a porta do quarto, deitei na cama e desatei a chorar. E esse foi o resumo da minha primeira semana na Mansão de Madame Helen. Nunca nos viamos, apenas nas refeiçoes e não havia conversas. Descobri por umas das empregadas, Clotilde, que Madame Helen não tinha filhos e que o marido havia morrido há muitos anos atras de um câncer no pâncreas. Clotilde também me contou das vezes que meu pai havia visitado a mansão, ele era afilhado de Madame Helen, esse era o motivo de eu estar vivendo com ela.

Samantha, a cozinheira, me revelou que meu pai era a unica pessoa, depois do Mr. Andersen, que conseguia encher de alegria o frio coração da Madame Helen.

- Ela esta sofrendo muito- Samantha sussurrou ao meu ouvido quando estavamos no jardim

- Madame Helen? Pelo meu pai? Me disseram que ela não gostava da minha mãe, por isso eu nunca a conheci. Ela renegou meu pai quando ele se casaram.- Resmunguei, ressentida.

- É verdade. — ela falou, pensativa. — Sinto muito. Todos sentimos pelo seu pai. Desculpe não conhecer sua mãe. Mas sinto muito por ela também. — ela afagou meu rosto e sorriu tristemente, os olhos marejados de lagrimas.

As lagrimas brotaram de meus olhos. De repente ambas nos encontravamos chorando.

- Mas o que isso significa, Ms Jordan, Ms Baynes? — a voz fria de Madame Helen me acordou do transe e eu a fitei.

- Me desculpe, Madame Andersen! — a voz de Samantha era de suplica e medo.

- Estavamos conversando sobre o papai e então começamos a chorar. — falei. Tentando entender porque ela expressava profunda irritação.

- Eu proíbo esse tipo de relação. Ms

Baynes você precisa entender que há limites entre patroes e empregados. Ms. Jordan coloque-se no seu lugar e aja como um moça bem educada e rica. Agora você é uma. Não sei que tipo de educação sua mãe te deu vindo de onde ela veio, acho que não foi das melhores... — Ela proferiu as ultimas palavras com odio nos olhos e sorriso em desdem.

Uma furia subiu em mim quando ela se referiu a minha mãe.

- Não fale assim da minha mãe! — gritei furiosamente.

- Vejam só. Além de parecidas fisicamente, também exibem o mesmo temperamento explosivo. — ela continuava a sorrir desdenhosamente, mas os olhos estavam inquietos.

- Porque você é assim? Qual seu problema com minha mãe? — gritei, apontando o dedo na cara dela.

- Aquela negra da sua mãe roubou meu filho! — Ela parecia ter perdido a cabeça.

- Ele não era seu filho e qual o problema da minha mãe ter sido negra? Não gosta de ver pessoas negras? Então porque se deu ao trabalho de me acolher? Olha aqui. Sou negra! — Eu gritava histericamente enquanto batia no peito repetindo que era negra.

- BASTA! — Ela gritou. — Cala a sua boca e vá já pro seu quarto. Você só tem 16 anos e eu mando em você! — Ela puxou meu braço agressivamente. Me esquivei das mãos dela e a empurrei, corri pra cozinha e vi meu livro em cima da mesa. Com a gritaria todos os empregados estavam agitados.

- MADELINE SUSAN JORDAN! Venha aqui.

Quando eu ouvi o grito estridente de Madame Helen, peguei o livro e segurei contra o peito.

Ela apareceu na cozinha, descabelada e incrivelmente suada, nao parecia nem um pouco com a Senhora elegante que me encontrou no Cemiterio ha semanas atras.

- Quem você pensa que é pra me desobedecer em frente aos empregados? — ela caminhou até a mim com os olhos flamejando de odio. Ela entao viu que eu segurava contra o meu peito. Sorrindo de maneira maligna ela arrancou o livro de mim — HARRY POTTER? Que idiotice é essa? — Liberta mais um vez do transe pelo grito dela, tentei pegar o livro da mão dela. Mas ela me empurrou rudemente e me bate contra a mesa. E o pior aconteceu. Ela rasgou o livro. Arrancou a capa e algumas paginas dos primeiros capitulos.

- Sua....!

Apanhei os restos do livro e quando dei por mim já estava correndo em meio aos campos ao lado da casa com o livro pressionado sobre meu peito. Algumas folhas eu segurava com a mão esquerda. Corri, corri sem saber pra direção e como eu conseguia correr tanto. Ja estava começando a ficar cansada quando tropecei em algo e cai de cabeça no chão. Senti meu corpo sendo sugado e eu quis vomitar. Tudo ficou preto. Uma dor de cabeça latente.

Senti o sol começar a queimar meu rosto, meus braços e me perguntei porque isso estava acontecendo se poderia jurar que ainda era inverno. Não sei por quanto tempo tudo fiquei ali. Parada. Sentindo a dor me consumir. Escutei passos e uma voz diferente murmurava algumas palavras.

"Como o dragão que cospe fogo,

O meu corpo cospe palavras de amor por você"

Uma musica. Mas que musica estranha.

Gemi instivamente quando coloquei a mão na testa.

- Oi? Tem alguém aí? — a voz era doce e suave. Era uma garota.

Gemi de novo. "Droga! Não consigo falar"

- Oh meu deus! Você está

sangrando! Você esta me ouvindo?- As mãos pequenas dela envolveram minha cabeça... Ela tinha cheiro de morango.

Tentei abri os olhos. Foi dificil, mas com um pouco de persistencia eles se cansaram de resistir a mim e abriram. A primeira coisa que vi foram os cabelos vermelhos muito vivo brilharem intensamente ao contato com o sol. E depois fitei os redondos olhos castanhos. Eles expressam medo, nervosismo e ao um pouco de alivio ao encontrarem com os meus.

- Qual seu nome? Consegue se levantar?

Eu consegui levantar com a ajuda da ruiva. E minha visão foi direta pra uma casa enorme com varios andares. Era como se eu tivesse vendo o filme. Pisquei os olhos pra ver se aquilo era real. Era?

Olhei pra ruiva ao meu.lado e juntei todas as forças pra perguntar:

- Qual seu nome?

Ela, pela primeira vez, sorriu. E o sorriso dela era tão bonito.

- Gina. Gina Weasley.

Notas finais
=D oi!