Eldamälle

6 Capítulo 6 - Coversa


Na manhã seguinte, dois dias antes da cerimônia Legolas batia novamente na porta de Idril. Não foi preciso mais que uma batida para que ela se abrisse e sua noiva surgisse. Vestida com um longo vestido azul escuro, seus ombros a mostra, as mangas apertavam até a altura do cotovelo e se abriam gradualmente até chegar aos pulsos, seus fios eram presos em duas tranças laterais e se uniam atrás, prendendo todo o cabelo.
A achou muito bonita.
Seria a mais bela se usasse roupas de cores alegres e sorrisse”

– Bom dia, minha senhora- disse fazendo uma mesura.

– Bom dia meu senhor. A que devo a honra de sua visita?

– Pensei que poderíamos caminhar pelos jardins antes do desjejum.

Idril aceitou. É claro que ela aceitaria, jamais poderia fazer uma desfeita como aquela. Mas caminhar pelos jardins não era algo que a animasse. Era bonito, mas tudo era muito igual para ela. Enquanto abandonavam o castelo e se encaminhavam para os gloriosos jardins do rei, se permitiu observá-lo de soslaio. Seu cabelo com as habituais tranças. Vestia calças e uma túnica de mesma cor, até as botas de couro amarradas também eram claras. Era como se a própria luz do luar houvesse se moldado e dado forma aquele homem ao seu lado.

– Minha senhora estou a chateá-la? – perguntou tocando a mão dela.

– Por que pergunta isso meu senhor?

– Por que a fiz a mesma pergunta três vezes e você me deu três respostas diferentes.
Ficou calada por alguns segundos, e depois se virou para olhá-lo em seu rosto.

– Apenas não amo tanto os jardins quanto o senhor, majestade.

– Como não? – perguntou surpreso.

Deu alguns passos para frente e gesticulou.

A grama sempre tão verde e bem aparada se estendia até uma parede por onde galhos verdes apinhados de pequenas flores brancas desciam como uma cortina, um caminho de pedras brancas que levava em direção a uma pequena ponte arqueada feita de pedras brancas, era ladeada por canteiros com árvores com copas cortadas de diferentes formas, todas floridas. Flores pequenas e grandes brancas e rosa-pálido. Vermelho-terra e azul-claro. Algumas eram manchadas em diversas cores em uma mistura harmoniosa e muito bela.

– Elas são forçadas a serem assim. Aprecio a beleza livre da floresta.- disse com a voz calma e suas mãos entrelaçadas na frente de seu corpo.

Como pode ser tão difícil agradá-la?!”

Idril observou como Legolas pareceu ficar incomodado com sua opinião, mas não poderia mudá-la apenas para agradá-lo. Era o que pensava. Presas em hastes e aros de metal, sendo podadas e obrigadas a permanecerem sempre obedientes aos desejos de seus jardineiros.
Idril sentiu seu coração se comprimir e um sentimento de angústia tomar conta de seu peito.
Voltaram logo para o palácios, Go’Nor veio em direção a eles trazendo um recado da mãe de Idril. Ela se despediu e avançou em passos lentos.
*
*
*
Legolas permaneceu algum tempo conversando com Go’nor, andava de um lado para o outro gesticulado e bufando, reclamando sobre como Idril era fria. O elfo de cabelos negros acenava com a cabeça e comentava algumas coisas deixando que seu primo desabafasse.

O nervosismo começa a crescer em seu coração, mas ele terá que aprender muito antes e sofrerá também, mas tudo irá ficar bem. Idril parece ser honrosa e dará uma forte rainha, um dia.”

– E acima de tudo eu não conheço – disse Legolas parecendo transtornado.

– Então todo esse alvoroço se resume a isso?

– Eu não confio nela. Em nenhum deles. – disse parecendo pensativo – Me casarei em dois dias com uma pessoa que não conheço.

– O rei também parece não confiar neles. — disse Go’nor.

Isso fez Legolas ficar ainda mais agitado. Já não media suas palavras que estavam entaladas em seu peito desde que colocara seus olhos sobre esses eldar.
Se lembrou da diferença de comportamento e da maneira feroz que Idril lutou contra aquele de seu mesmo clã. Seus olhos brilhando friamente como uma geleira que reflete a luz pálida do sol.
Go’nor conhecendo Legolas desde que ele era apenas um recém nascido conseguiu ver o que se passava pela mente dele de maneira clara e cristalina.

– Está pensando em lady Idril naquela manhã não está?

– Parecia que ela iria matá-lo. – disse de maneira contemplativa.

– Meu príncipe tenho certeza de que ela iria matá-lo. Seus olhos brilhavam em fúria e até mesmo a lâmina de sua espada parecia desejar o sangue daquele pobre coitado.
Legolas ficou pensativo por alguns instantes.

– Eu vou ter uma conversa com ela. – disse parecendo decidido, e antes que seu antigo mestre começasse a tentar mudar sua idéia (Tolice era isso que ele achava. As razões desse povo não são para serem entendidas), mas Legolas não ouvia ou apenas ignorou os conselhos e pedidos.

Subiu pela escada de degraus largos e curtos, andou pelo pequeno caminho pavimentado com pedras brancas e peroladas. Esforçava-se para continuar andando, a cada passo sua vontade crescia mais e mais, queria respostas e ninguém parecia disposto a lhe dar elas.
“Bom dia príncipe” diziam elfos enquanto ele caminhava, ele respondia algo superficial e continuava seu caminho deixando para trás elfos surpreso. Seu príncipe devia estar com algum problema, ele sempre os cumprimentava. Algumas elfas, mesmo sabendo do casamento ainda tentavam flertar com ele. “Ela não é digna de nosso príncipe” diziam em sussurros ou em pedaços de pergaminho rasgados.

Quando chegou a porta do quarto de Idril bateu algumas vezes, mas quando ela se abriu não era sua noiva e sim Daeron.
Suas vestes eram negras como o habitual, mas estava sem capa e seu cabelo tinha duas tranças laterais que se juntava, seu cabelo era presa próxima a nuca por um pedaço de couro.
Legolas tentou imaginar quem o havia convencido a fazer esse penteado.

– Idril teve que sair – disse. Levantou uma sobrancelha em vista da agitação do elfo. Desapontamento ficou nítido em seu rosto – Posso ajudá-lo?

– Eu queria perguntar algumas coisas a ela.

– Ah...então eu posso ajudá-lo com toda certeza. Vamos, vamos. Entre. — disse dando espaço a Legolas, que entrou desconfiado e se sentindo desconfortável.
Olhou o quarto e percebeu que durante os dias que ela ficara ali não mudou nada de lugar e não adicionou objetos pessoais também.

– O que quer saber? – Perguntou Daeron se sentando sobre a cama, o corpo curvado para frente e os braço com os cotovelos apoiados em seus joelhos.
Legolas permaneceu em pé, ereto e com os braços atrás de suas costas. Pensou no que perguntaria primeiro, não sabia nada sobre Idril, mas resolveu começar pelo acontecimento que tanto o perseguia.

– Ela sabe manejar uma espada não é? – começou com uma pergunta sutil.

Sim, ela é treinada desde o cinco anos. Nosso povo treina as mulheres para elas guerrearem também, para que elas consigam defender a si próprias e nosso “lar” quando tivéssemos que sair por algum motivo. – respondeu sem hesitar.

– Ela ia matar um de seus homens. – não foi uma pergunta.

– Sim, ela iria. – por um momento Legolas pensou que ele iria dizer apenas isso, mas permaneceu em silêncio aguardando algo que ele não sabia – Ele a ofendeu, a pior ofensa para nosso povo. Uma ofensa que é punida com morte.

– Que ofensa seria essa?

– Traidora. Ele não entende os motivos de seu casamento. Era prometida dele. Não entendia a dor que ela sofre de ter que deixar tudo para trás e se tornar uma nova pessoa, deixar sua família e seus juramentos. Se esquecer de quem é.

Ficou surpreso com os relatos de Daeron, não imaginava algo parecido com isso. Não sabia nada sobre a mulher com quem iria se casar dentro de alguns dias, alguém com dividiria uma vida eterna. Sentiu-se mal, mas ao mesmo tempo se surpreendeu com a coragem e o amor que ela tem por seu povo.

– Ela não precisa fazer isso – disse Legolas um pouco confuso e surpreso com o que Daeron dizia– Eu não irei deixar de ser quem eu sou apenas por conta de um casamento.

– Os juramentos que ela irá fazer para vocês na cerimônia – disse pensativo – A desligará de qualquer obrigação que ela tivesse conosco.
Jurará lealdade, obediência e devoção durante toda sua vida. Um anel representará cada juramento. E um bracelete em seu pulso simbolizará que mesmo após a morte ainda o servirá. Essa é a maneira de nosso povo, somos leais o sacrifício de minha amada e única filha é a melhor demonstração de confiança que posso dar a você e seu pai.
Legolas se sentiu enjoado, algo muito pesado e ruim parecia ter se alojado em seu estômago. (Imaginou se não estaria ficando doente). Caiu em um precipício de pensamentos e lembranças, de dúvidas e insegurança, em algum momento pode ouvir Daeron se despedir. Mas isso foi registrado apenas por uma parte ínfima de seu cérebro.

Idril se sentia cansada, seus pés doíam e seus ombros estavam tensos, havia sido empurrada de um lado para o outro, trocou-se de roupa mais vezes do que em toda sua vida. Todos os tecidos do reino da floresta eram bordados de maneira minuciosa com desenhos bonitos e coloridos, eram confortáveis de se vestir . Foi elogiada o tempo todo. Diziam como ela tinha sorte de se casar com Legolas, que ele era um bom homem e que seria um bom marido, em algum momento até chegaram a comentar entre risadinhas esganiçadas em como ele deveria ser um bom amante.
Uma resposta afiada chegou a ponta de sua língua, mas com um olhar rígido de sua mãe endireitou sua postura e continuou a fitar seu reflexo no espelho. Fora espetada tantas vezes que tinha dúvida se era apenas um acidente.

– Desculpe minha senhora – balbuciou uma elfa de cabelos espessos negros e ondulados, usava uma tiara de flores e um vestido rosa bebê cheio de bordados. Um cinto de couro incrustado de pequenas pedras brilhantes.

– Não se preocupe com isso – respondeu sem movimentar sua cabeça se mostrando indiferente a qualquer coisa partindo dela.
Mas percebeu um brilho fugaz em seu olhar.
Por onde andava recebia aquele olhar. Alguns de desprezo ouviram vários comentários maldosos a respeito de si e de seu povo, mas todos eles resolveram fingir que não ouviam nem viam nada.

Eram superiores a isso, se lembrou da história que seu pai sempre lhe contava. A história de seu povo, como ele se alojou em construções subterrâneas em uma vale a oeste da Floresta das Trevas. Seu povo era em grande número e partiu em busca de terras novas, queriam um lugar apenas para ele, em sua maioria eram elfos sindar. Mas vagaram por lugares perigosos e seu número diminuiu cada vez mais.
Durante algumas vidas humanas, pouquíssimo tempo na vida dos elfos se alojaram em um vale, era isolado e poucos viajantes passavam por lá. Tinham que viajar durante dias para realizarem negócios, mas era um bom lugar para se viver. Tinha uma fonte termal e terra produtiva, ergueram casas de madeira entalhada por onde trepadeiras floridas se enroscavam e subiam até um teto. Construíram coisas muito belas lá. Mas então vieram “eles”, seu povo já fraco e reduzido havia se acomodado com todos aqueles anos de paz e quando saíram de lá a Terra Média já havia sido ocupada, partiram com ódio em seus corações e durante muito tempo vagaram, mas não foi para o mal, aprenderam ofícios e segredos. Tornaram-se guerreiros silenciosos, hábeis com espadas e arcos, luta corporal e magia. Forjaram grandes armas, as quais usavam agora. Acidentalmente descobriam uma gruta enquanto atravessavam o vale e receberam aquilo como um sinal de aquele poderia ser um lugar para se firmarem. Eram pouco mais de uma dúzia, escavaram os túneis rochosos criando verdadeiras fortalezas subterrâneas, rústico em comparação ao reino de Thranduil, mas era essa a beleza. Paredes que refletiam as cores do arco-íris quando eram tocados pela luz da lua. Como tudo era tomado pelo dourado ardente do sol durante o dia, até o cantar do vento se infiltrando pelas frestas rochosas. Apesar de serem frias era um lugar caloroso.

– Idril, não fique perdida em pensamentos – disse Eámanë. – Você fica com uma expressão abobalhada.

Idril fechou seus olhos e respirou fundo, não havia percebido que as duas ficaram sozinhas, era sufocante para ela. Sua mãe ajeitava o vestido da maneira que ela achava melhor, reclamava da lerdeza e das cores, deveria usar cores sóbrias como ela em seu casamento. Em seu clã as mulheres não tinham permissão para falar quando estavam na presença de desconhecidos, tinham que permanecer sentadas e belas. Uma beleza obscura e misteriosa.

– Claro mamãe. — disse em voz baixa, enquanto ela continuava a reclamar de como as coisas eram estranhas nesse lugar e que não via à hora de voltar para sua casa. Reclamou da comida, da música, dos quartos. Idril começava a se sentir impaciente e quando ela a liberou tirou o tecido por cima da cabeça ficando apenas com um fino tecido de algodão que era usado por baixo do vestido.

– Idril! – a repreendeu e disse como ela era uma menina boba.- Minha filhinha...você cresceu uma mulher tão forte, tão bonita. Faça isso por nós.

Idril suspirou e fechou os olhos enquanto se deixava ser levada até um pequeno banco com estofado vermelho.

– Nos dê sua força para que possamos nos reerguer. — dizia enquanto começava uma trança elaborada.

Algum tempo depois Daeron veio à procura da esposa, não disse nada a Idril, apenas lhe lançou um olhar de repreensão. Um olhar endurecido e afiado, ela baixou a cabeça envergonhada enquanto ele disse aquelas palavras sussurradas em seu ouvido:

Tem sorte de que estamos aqui. Caso contrário nesse momento levaria uma surra. Não coloque tudo a perder apenas por que não controla seus sentimentos!

*
*
*
– Meu senhor? – A voz de Idril o tirou de um estado de estupor pensativo no qual permaneceu desde que Daeron o deixara com aquelas palavras.
Poderia aceitar que ela se entregasse a ele durante toda sua vida, mas esses votos eram mais profundos, a deixaria presa a ele durante toda a eternidade. A promessa perduraria após a morte em outras vidas (caso ambos viesse a morrer e ressuscitar). Suas vidas entrelaçados até o fim dos tempos e caso houvesse um tempo após esse também estariam lá.

– Por que não me avisou? – sua voz era arrastada e continha um pouco de raiva nela.

Idril fechou a porta atrás de si e deu alguns passos para dentro do quarto. Acendeu algumas lamparinas que ficavam presas a parede. Ficou sem entender a expressão de Legolas, suas sobrancelhas estavam franzidas e seus lábios se pressionavam duramente em uma linha rígida. Não apenas seu roto, todo seu corpo estava tenso.

– O que eu fiz a ti meu senhor? – perguntou parando em frente a ele.
Legolas procurou por seus olhos abriu os lábios para dizer as palavras, dizer como se sentira enganado e usado. Mas também queria se desculpar por tudo de ruim que pensara a seu respeito. Pelas noites em que colocara viajas sob suas janelas e pela maneira indiferente que a tratava em alguns momentos.

– Não o que tem feito a mim e sim o que tenho feito a você – levantou-se inesperadamente da cama se sentindo inquiete e atrapalhado com as palavras – Estou falando sobre os votos, é mais sério do que pensei...

– Casamento para nosso povo é algo muito sério. Não sei para vocês.

– Para nós também! – disse Legolas e a olhou diretamente em seus olhos, se sentindo incomodada desviou o olhar para baixo. Legolas a viu suscetível e indefesa. Uma pessoa diferente da que viu lutar ferozmente. – Eu prometo cuidar de você para sempre, mas eu não posso prometer te amar. Você é uma completa estranha para mim. Sinto muito.

Enquanto falava pegou as mãos de Idril entre as suas, eram pequenas e macias. Ela o olhou surpresa com essa atitude.

– Por que se desculpa de algo que não seja sua culpa? Não estou cobrando seu amor meu senhor, sua proteção e sua palavra de que irá nos ajudar para mim já basta. — respondeu calmamente, sua voz clara e bonita. Legolas nunca tinha reparado no quanto sua voz era bela, a imaginou cantando e teve certeza de que seria algo muito bonito de se ouvir. Sorriu sincero para ela.

– Eu prometo minha senhora – depositou um beijo casto sobre os dedos de Idril.