Elas brilham por você

1 Look how they shine for you


Notas iniciais
É um clichê. Ponto. Eu avisei, então... Eu provavelmente não terei filhos, mas costumo imaginar como é a sensação de ser literalmente responsável pela criação de uma vida. Discussões teológicas à parte, é um milagre, não é mesmo? Also, essa história é dedicada a minha sobrinha, que me fez ter uma vaga ideia do que é ter um filho ♥E é só. Boa leitura!

Your skin

Oh yeah your skin and bones

Turn into something beautiful

You know

For you I'd bleed myself dry[1]

Ele nunca imaginou que poderia ficar tão tenso e angustiado. Aquela noite fora planejada para ser tranquila. Pelo combinado, àquela hora, deveriam estar reunidos com a família na casa de praia, tomando champanhe e assistindo à queima de fogos. A sala de espera de um hospital era o último lugar onde Guilherme teria desejado passar a virada do ano, mas ali estava ele, nervoso, andando de um lado para o outro, suando frio e roendo as unhas.

Ele olhava constantemente para as portas duplas no final do corredor por onde sua esposa fora levada horas antes, à espera de alguma novidade. Médicos e enfermeiras iam e vinham o tempo todo, mas ninguém parava para lhe dizer nada. Estava arrependido de não ter entrado junto com Sabrina. Era o momento mais importante da vida deles e estavam separados. Guilherme foi invadido por um estranho sentimento de culpa. E se ele tivesse feito alguma coisa errada que desencadeou o parto? O nascimento de sua filha estava previsto para meados de fevereiro, mas Sabrina estava terminando de se arrumar para a festa de réveillon quando a bolsa estourou e ele foi obrigado a esquecer de tudo e levá-la ao hospital.

Uma TV estava ligada na sala de espera, com o volume baixo, e mostrava as imagens da virada do ano em diferentes partes do mundo onde isso já havia acontecido algumas horas antes, lugares como Japão e Austrália. Ele olhou para o relógio e constatou que ainda faltavam cinco minutos para meia-noite. Seu celular tocou, pela quinta ou sexta vez nos últimos trinta minutos. Ele atendeu e falou com o pai. Repetiu o que já dissera nas ligações anteriores. Ainda não sabia de nada. Ninguém precisava deixar a festa. Eles iam ficar bem. Desligou o telefone e voltou a roer as unhas.

Ficou lembrando do dia em que Sabrina contou que estava grávida. Fora uma verdadeira surpresa. O plano original era que só teriam filhos depois dos trinta anos, ainda assim ele ficou feliz com a perspectiva de ser pai, embora essa ideia também o assombrasse e o fizesse sentir-se inseguro.

Cinco minutos passaram e ninguém apareceu. A TV agora mostrava uma contagem regressiva. Ele pensou em Sabrina. Era a primeira vez em dez anos que passariam a virada do ano separados. Ele preferiu pensar que era por um bom motivo e em breve estaria com ela — com elas. Quando a contagem chegou ao um, os fogos de artificio começaram a estourar na televisão. No hospital, Guilherme viu alguns funcionários plantonistas parando um instante para se abraçarem e desejarem feliz ano novo uns aos outros. Uma enfermeira foi até ele e lhe desejou feliz ano novo também, ao que ele respondeu, quase automaticamente.

Depois todos voltaram ao trabalho e Guilherme continuou esperando.

Já era quase uma da manhã quando o médico apareceu. Não era o médico que acompanhara Sabrina durante o pré-natal. O Dr. Carlos estava em algum lugar da Espanha, já que sua esposa supostamente só daria à luz dali a dois meses. No lugar dele, o médico de plantão fizera o parto, e embora não soubesse nem o nome dele, Guilherme seria grato pelo resto de sua vida por ele estar trabalhando na noite de réveillon.

O homem estava tão sério que por um instante Guilherme ficou apavorado, temendo que alguma coisa tivesse saído errada. Mas depois considerou que fazer um parto não deveria ser algo fácil e o médico provavelmente estava cansado — ele chegara ao hospital com a esposa antes das oito da noite, afinal.

— Como elas estão? — perguntou, ansioso.

— Sua esposa está bem, o parto foi difícil, mas ela está bem.

— Minha filha?

— Ela está na UTI neonatal. — Guilherme arregalou os olhos, assustado ao ouvir a palavra UTI e quase interrompeu o médico, mas ele continuou falando. — Ela é uma mocinha saudável, mas nasceu prematura e requer alguns cuidados especiais. — O alívio de Guilherme quando o médico informou que ele poderia ver a esposa e depois a filha recém nascida era nítido. Assim como as lágrimas que cismaram em cair de seus olhos.

Ele seguiu o Dr. Gustavo — descobriu pelo nome bordado no jaleco — pelo corredor; enquanto caminhavam, o médico explicou que a filha dele nascera a zero hora e dez minutos, aproximadamente, e comentou que aquela era uma excelente maneira de começar um novo ano.

Primeiro ele foi ao quarto onde sua mulher estava. Sabrina parecia cansada, estava um pouco pálida, mas incrivelmente linda. Era talvez uma coisa óbvia de se dizer, mas Guilherme acreditava nunca tê-la visto tão bonita quanto naquele momento em que acabara de se tornar uma mãe. Ele a beijou de leve nos lábios e acariciou seus cabelos.

— Como você está? — perguntou.

— Bem.

— Desculpe por não ter ficado com você o tempo todo — ele pediu, sinceramente e Sabrina sorriu.

— Você teria me deixado mais nervosa, meu bem — apontou, segurando a mão dele, grata por todo o apoio. Para um homem que até alguns anos atrás não planejava ter filhos, Guilherme estava lidando muito bem com a novidade. Ele ficara ao seu lado desde o primeiro momento e dera todo o apoio que ela precisou durante a gravidez.

— Eu posso vê-la? — ele perguntou, olhando da esposa para o médico. Ambos assentiram.

— Ela é linda — Sabrina disse, embora ela mesma tivesse visto a filha por pouquíssimo tempo. O médico mal a deixara segurar o bebê, e a levara para a UTI.

Guilherme despediu-se da esposa quando o Dr. Gustavo lembrou que estava um pouco tarde e Sabrina tivera um parto longo e difícil, portanto, seria bom que ela descansasse.

— Além disso — acrescentou o médico —, você deve estar ansioso para conhecer sua filha.

Ele estava realmente. Voltou a seguir o médico e foi levado por um corredor até a UTI neonatal. Ele a viu de uma distância razoável, protegido pelo vidro, mas isso foi o bastante para sentir seu coração inundado por algo que até então ele desconhecia. Sua filha era o único bebê lá, mas mesmo que não fosse, ele achava que a teria reconhecido. Ela era tão pequena e parecia tão frágil que ele perguntou novamente ao médico se estava tudo bem, ao que o Dr. Gustavo confirmou que a criança não corria nenhum risco. Novamente Guilherme sentiu o rosto molhado por lágrimas e ganhou do médico tapinhas de incentivo nas costas.

— Já escolheram o nome? — perguntou Dr. Gustavo. Guilherme pensou um pouco, considerando a pergunta. Na verdade ainda não tinham realmente decidido, já que só a esperavam um pouco mais tarde, entretanto, naquele momento acreditava que sua filha escolhera o próprio nome.

— Vitória — disse e de alguma forma sabia que Sabrina iria concordar. O médico assentiu, depois avisou que, infelizmente, o papai não poderia ficar mais muito tempo ali. Um pouco contrariado, Guilherme cedeu. Podia não entender por que deixar o bebê sozinho em vez de colocá-la junto da mãe nos primeiros momentos depois de deixar o ventre, mas confiava nos médicos. Olhou mais uma vez para a pequena criatura e depois saiu.

Retornou ao quarto da esposa e encontrou Sabrina dormindo. Ele a beijou na cabeça e deixou o quarto. Deu alguns telefonemas para avisar a todo mundo que estavam bem e que a filha nascera perfeita. Se ambas estavam bem, a coisa mais acertada a fazer era ir para casa e descansar — toda a tensão da espera, a angústia e o medo de que algo acontecesse com uma delas ou com as duas, o deixara cansado também. Mas além de cansado, Guilherme estava muito ligado para dormir, mais ainda para ir para casa. Ele só voltaria quando as levasse consigo, pensava. Conversou com a enfermeira de plantão e ela disse que ele poderia ficar no quarto com a esposa — o plano de saúde deles, na verdade, garantia isso.

Antes disso, porém, ele saiu para tomar um pouco de ar. Era madrugada do primeiro dia do ano. Ele parou na calçada do hospital, sentindo o frio gelado tocando-lhe o rosto. Apesar de ser noite de réveillon, aquela parte da cidade estava quieta. Apenas as ambulâncias estavam estacionadas em frente. Ele sentou em um banco de madeira e se permitiu chorar. Como era um choro de felicidade, sentiu o peito mais leve.

Olhou para o céu, os olhos úmidos nublando sua visão, ainda assim, o brilho das estrelas não passava despercebido. Quando era criança, Guilherme gostava de deitar no gramado do jardim e ficar olhando para o infinito estrelado, tentava contar as estrelas do céu e, evidentemente, perdia-se na conta. Agora, olhando para elas, sua consciência foi invadida pela magnitude daquele momento.

A ideia por trás do conceito de “ano novo” nunca pareceu fazer tanto sentido. O casamento, quatro anos atrás, já fora uma decisão importante em sua vida, e agora tudo estava mudando novamente. Ele não era mais um simples homem de vinte e oito anos em busca de realização profissional. Tudo seria diferente, desde os grandes planos até as mais corriqueiras rotinas do dia-a-dia. Ele era um pai. Havia peso nisso.

O novo ano trouxera-lhe, literalmente, uma nova vida. Aquela criança minúscula era criação sua e de Sabrina. Era o pequeno milagre deles. Ele conhecia muitos “pais” e já os ouvira comentar sobre tudo que havia de bom e sobre todas as preocupações, obrigações e tudo que envolvia tal tarefa. Mas nada poderia tê-lo preparado para o seu momento. Ele sabia que não havia uma fórmula para criar um filho nesse mundo caótico e a certeza de que, a pessoa que sua filha seria no futuro iria depender da maneira como seria criada o deixava apavorado. Mas não um pavor que o fizesse querer fugir. Nada disso. Ele pensava nela, tão pequena e frágil, e no quanto a amava. De fato, ele já a amava desesperadamente, embora ela estivesse em sua vida há tão pouco tempo, aquele sentimento já não cabia dentro dele.

Dali em diante, tudo que ele fizesse seria por ela. Cada hora, cada minuto e segundo de sua vida, seria vivido em função dela e a imensidão dessa responsabilidade o fazia sentir-se pequeno. Perguntava-se se ele estaria realmente pronto para isso, embora soubesse que não havia mais tempo para tal questionamento, tudo que ele poderia fazer agora era se esforçar. O mais engraçado, porém, era que embora assustado com todo o peso que acompanhava seu novo papel de pai, Guilherme sentia-se incrivelmente forte. A reprodução era uma prerrogativa da raça humana, um mecanismo de preservação destinado a manter a espécie, mas agora Guilherme estava certo de que não era isso. Era muito maior e talvez as pessoas em geral devessem dar mais importância a algo tão grandioso como o ato de dar a vida.

Ele não era um homem religioso, não tinha certeza se acreditava em Deus ou em algum Ser semelhante, mas não poderia ficar indiferente naquele momento, pois havia algo de divino nele. Ainda com os olhos voltados para as estrelas ele agradeceu pela dádiva que recebera, por ter sido escolhido para ser o pai daquela garotinha que nascera junto com o novo ano.

Look at the stars

Look how they shine for you

And all the things that you do[2]

Notas finais
_________________________________ [1]Sua pele/Sim, sua pele e seus ossos/Transformaram-se em algo bonito/E você sabe/Por você eu daria todo o meu sangue http://www.vagalume.com.br/coldplay/yellow-traducao.html [2] Olhe as estrelas/Veja como elas brilham para você/E para tudo que você faz http://www.vagalume.com.br/coldplay/yellow-traducao.html
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!