Ela&Ela

4 Uma noite do caralho parte 2: vadiando por aí


A visão da rua estava estranha por causa das minhas lágrimas. Parecia cada vez mais difícil andar ou respirar. Estava ofegante mas mesmo assim não conseguia parar de correr, assim como nas maratonas que fazia na infância. Só ouvia latidos e o som de insetos. A rua parecia muito mais barulhenta do que isso.

Não tinha vontade de voltar pra casa. Pensei em fugir para um recanto isolado, onde ninguém me machucaria. Uma vez peguei uma doença viral forte e quase morri. Lembro dos meus pais chorando na cama de hospital enquanto eu tentava entender. A sensação era a mesma. Por que ele fez aquilo comigo?

Tudo está tão escuro que eu respiro aliviada quando encontro uma loja de conveniência próxima a um posto. Enxugo minhas lágrimas e ando lentamente até lá.

Sei que poderia muito bem beber na festa, mas eu queria me isolar. Coloquei o resto de dinheiro na mesa do caixa.

–Me dá uma garrafa de whisky.

–Não é suficiente — Diz o moço avaliando a grana.

Droga!

–Eu pago.

Ouço a voz de Brenda atrás de mim. O homem rapidamente pega a garrafa de whisky. Algo na postura e no comportamento dela fazia as pessoas acreditarem que fosse mais velha.

Ou talvez fosse o vestido preto e curto que fazia ela ter uma aparência bastante ousada.

Enfim. Deixo que Brenda pague para mim e me sento no chão em um canto da loja. Por um momento achei que ela iria simplesmente pagar outra bebida e ir embora. Ela se senta ao meu lado com outra bebida na mão.

–Caramba. Você é rica?

Não acredito que fui eu que puxei assunto.

–É. Mais ou menos. E você?

–Não. Por que me seguiu? E, ah, obrigada pela bebida.

–Não sei bem porque. Só me deu vontade. E de nada.

–Também não sei explicar porque vim aqui. Acho que só queria me isolar.

Acabei de dizer claramente que não quero companhia, mas ela não parece estar ofendida.

Consigo sentir sua respiração. Ela estava muito próxima de mim. Sinto tanta preguiça que não consigo me afastar.

–Não vou dizer que sinto muito porque seria hipócrita da minha parte. Uma amiga minha estava escondida em um dos cubículos. Quando nos beijassemos ela iria tirar a foto e ele terminaria com você. Eu realmente estava com ciumes. Mas isso foi antes de descobrir que ele é um bosta.

Ah, então a vadia mandou alguém tirar foto?!

–Tá -Digo com visível preguiça de conversar mas com uma leve irritação.

Para demonstrar seu arrependimento, Brenda tira o celular do bolso e apaga a foto na minha frente. Continuo desconfiada.

Ela não diz mais nada até que a bebida começa a surtir efeito. Começamos a ficar inquietas. Brenda me puxa para fora daquele lugar.

O ar frio da noite me faz tremer. Ela me envolve em seus braços rapidamente. Brenda diz alguma coisa idiota que me faz rir em alto e bom som. A essa altura éramos duas loucas na rua.

Andamos desajeitadas pelas ruas, hora no asfalto, hora na calçada. Acho que só estávamos afim de esquecer todos os problemas por um momento.

Vejo carros passando de longe. Percebo a luz deles através da minha visão periférica. Nenhum carro passa por alguns momentos. Sinto a presença deles novamente.

Brenda e eu estávamos rindo e se divertindo feito duas crianças.

Ela me empurra para o lado de forma repentina. Uma escadaria levava a algum tipo de loja. Saio rolando até perder a consciência.