Ela&Ela
3 Uma noite do caralho parte 1: a otaria
O que aconteceu me deixou no mínimo inquieta. Seria realmente difícil inventar uma desculpa. Guilherme era machista e homofóbico e com certeza não era o cara que curtia ver duas meninas. Ele se sentiria traído e magoado e se separaria de mim, além do risco de resolver contar para todo mundo. Aff!
Calma, Mia. Isso não vai acontecer. Vai ser a minha palavra contra a dela. Quero ver! Talvez eu pudesse negociar com ela, apesar de que provavelmente não funcionaria. Ouço minha mãe bater na porta. Isso me desperta dos meus pensamentos. –Abre essa porta, Alcântara!Vixi, estou fodida! Quando minha mãe me chama pelo sobrenome já sabe, né? Vou apanhar ou ficar de castigo no mínimo.Abro a porta esperando que não fosse algo grave. –Por que você saiu do emprego, mocinha? Seu pai e eu estamos putos da vida! Poxa, Mia! Você precisa aprender a ser independente. Eu sei que você voltou com ele e tal mais... Já te falei mil vezes pra não depender de amor. Se vocês se separarem você tá fudida! É, eu aprendi a ser boca suja com a minha mãe. –É por isso que eu estou me esforçando na escola. Juro pra senhora que passo de ano dessa vez. Ela pareceu se acalmar com minhas palavras. Por um momento pensei que minha mãe tivesse descoberto sobre o beijo. Seria o fim! –É melhor passar mesmo. Se não vai ficar de castigo o ano inteiro. –Pode deixar. Não vou te decepcionar. –Seu pai quer saber se você quer ir com ele ao show dos Letrados. É uma banda da nossa cidade que eu e meu pai curtiamos desde que eu era criança. Mas não estava muito a fim de ir. Considerando que minha mãe iria implicar comigo já que depois do divórcio eu só vejo-o de vez em quando e eu acabaria sendo forçada a ir, resolvo aceitar o pedido. –Otimo -Disse abrindo um sorriso que quase rasgou sua boca de tão grande. -É bom que você e seu pai estejam próximos. Não quero que o divórcio te prejudique. Na verdade, nunca me prejudicou. Na época eu fiquei triste mas acabei percebendo que os dois ficaram estranhamente mais gentis comigo.–É. Concordo. Observo as marcas de expressão e olheiras que vieram com a meia idade. Seu cabelo castanho estava amarrado em uma trança. Possuía olhos castanhos e um rosto bonito. Usava um avental amarelo. Ficamos paradas olhando uma para a outra por alguns momentos. Minha mãe resolve quebrar o silêncio. –Então... Como estão as coisas com o Guilherme? –Estão indo muito bem. E como estão as coisas com o Alberto? Faço ela corar com a pergunta. Ele era o vizinho/ficante dela. Sempre evitava tocar no assunto pois achou que eu a julgaria por já estar na meia idade. Que besteira a dela! –Muito bem — Ela diz rapidamente. -Você está com fome? Eu fiz lasanha. É só tirar da geladeira e esquentar. Ela sumiu da minha vista e eu pude finalmente voltar ao silêncio dos meus pensamentos. Disse que estava sem fome e isso encerrou toda a conversa. Ah, e só por curiosidade, o nome dela era Clara. Decido parar de pensar nisso e tentar fazer algo que com certeza me faria esquecer: ir à uma festa! Espero com ansiedade que minha mãe durma. Ouço as luzes sendo apagadas. Ela sempre dormia cedo. Abro meu armário e mexo no cofrinho em busca de dinheiro para o táxi. Visto meu casaco. O vento que vinha da janela anunciava que estava frio lá fora. Abro a porta e atravesso o corredor. Desço as escadas rapidamente. Recolho a chave atrás do jarro de planta e saio de casa. Tomo cuidado com possíveis assaltantes ou violentadores. Ando furtivamente até o próximo telefone público. Depois de chamar por um táxi, era só aguardar. Sou obrigada a esperar quase meia hora. Fiz questão de sugar todo dinheiro que tinha no cofre. Os táxis cobram mais caro quando é de noite. A noite parecia silenciosa e perigosa sobre a janela do táxi. A boate era o único lugar aberto em meio aquela rua vazia. Vou em direção às luzes. O segurança me barra pedindo meu documento. Eu sempre ando preparada. Puxo-o do bolso da calça jeans. As pessoas dançavam como loucas. Decidi fazer o mesmo. Pela primeira vez nos últimos dias, eu estava pouco me fodendo pros problemas da minha vida. Não precisei de bebida alcoólica. Apenas a música e as pessoas alegres me deixavam contente. Danço com desconhecidos e canto músicas em inglês sem me preocupar com a pronúncia, como se estivesse no chuveiro da minha casa. De repente, o telefone vibra no meu bolso. Pego-o. Mensagem da minha mãe. Olho nervosamente para a tela."...Envie essa mensagem para dez pessoas..." Percebo que é só uma mensagem idiota de corrente. Suspiro de alívio. Olho para frente. Alguns dizem para não comemorar antes do tempo. Brenda estava a alguns metros na minha frente e olhando diretamente para mim. Provavelmente entrou usando documento falso. Desvio o olhar rapidamente. Minhas bochechas estavam vermelhas. Alguns segundos depois recebo uma mensagem. Abro-a com um misto de curiosidade e medo.
"Traição é uma coisa muito feia." Deslizou o dedo pelo tela com as mãos tremendo. Aquela vadia provavelmente pegou meu Whatsapp com alguém do colégio. Baixo a imagem que acompanhava o texto. Ela é carregada.Guilherme estava beijando uma garota em um beco. Ela usava shortinho curto e estava de dia. Quase deixei o celular cair no chão, mas não consigo evitar que minhas lágrimas caiam. Saio correndo pela multidão. Encontro a entrada da boate. Não sei para onde ir. Eu só queria me afastar do mundo e das pessoas idiotas que faziam parte dele.
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