PI, PI, PI, PI, PI. Devia ser a decima vez que o despertador infernal tocava. Mas Eileen se levantou apenas depois de ver que estava definitivamente atrasada. Todos os dias era aquele drama para acordar cedo. Eileen gostava de pensar que era uma criatura noturna, o sol não lhe animava tanto quanto a lua.

Terminou de se arrumar faltando vinte minutos para sair, andar quatro quadras até a escola antes de fecharem os portões permanentemente e ganhar mais uma advertência por atraso.

Antes de sair do quarto olhou-se no espelho da penteadeira, a figura que viu não passava de uma garota normal: pele pálida (tipicamente Inglesa), cabelos longos e escuros e óculos de sol. Mas Eileen sabia que atrás das lentes escuras seus olhos nada discretos lhe encaravam, de cores diferentes o direito era de um verde límpido e cristalino e o esquerdo tão escuro que não podia distinguir a íris da pupila. Sem os constantes óculos escuros Eileen não passava despercebida em lugar algum.

Ouviu os primeiros sinais de vida nos quartos ao lado e decidiu que era hora de ir, pegou a mochila e passou pelos corredores silenciosamente até a porta da frente, não queria encontrar as outras garotas da casa, considerando que na noite anterior tentou desmaiar uma delas batendo sua cabeça na parede.

Eileen saiu olhando para o céu, para seu alivio o dia estava nublado dando um tempo no sol incessante daquele verão anormalmente quente de Londres, mas o tempo estava pesado e abafado tornando difícil até respirar.

Olhou para trás enquanto virava a esquina, para o pequeno prédio espremido entre tantos outros, sobre o batente da porta tinha uma placa com a inscrição “Casa de Transição Rose and Ross”. Chamada apenas de Casa da Rose pelas inquilinas, era uma casa temporária para garotas órfãs que estavam próximas de completar a maioridade.

A Casa de Rose fora o lar em que Eileen passara mais tempo, três longos anos. Não era nada ruim se considerar que passava a maior parte do dia na escola e no trabalho de meio período. Mas agora, indo para a escola, Eileen não tinha certeza se passaria mais uma noite no lugar.

Eileen não parava em orfanato ou casa adotiva alguma desde que aprendera a fugir aos oito anos. Odiava os caseiros trambiqueiros que só queriam os benefícios dados pelo governo, quando se acolhia um órfão. E quando raramente os tutores eram legais, os problemas a seguiam, o estupido déficit de atenção e a hiperatividade tornavam sua personalidade ainda mais difícil de lidar, e então ela acabava devolvida a sistema como um produto com defeito.

Uma infância difícil sem duvida. Depois de sua ultima fuga aos quatorze anos, Eileen se preparava para mais uma casa adotiva quando o agente social lhe trouce a noticia de que ela havia sido apadrinhada e serie mantida e mandada para uma casa de transição para garotas por um benfeitora com boas ‘condições’. No começo ela não ligava se sua madrinha era uma ricaça com consciência social barata e que ser apadrinhado era algo raríssimo, ela havia ficado tempo suficiente nas ruas para saber que nada de bom vinha de graça ou por muito tempo, ela pegaria o que precisasse e fugiria assim que tivesse chance. Assim pensava naquela época.

A madrinha de Eileen era sigilosa e nunca a visitara, mas devia ter dado uma contribuição muito gorda para Casa da Rose, pois ela diferente das outras garotas tinha seu próprio quarto com banheiro, o que despertava a inveja e antipatia das demais meninas que tinham que dividir os quartos e o espirito bajulador da Sra. Rose, uma mulher atarracada e rechonchuda com a cara permanentemente em carranca, sempre pronta para ladrar ordens para todos os lados.

A benfeitora de Eileen ainda lhe pagava uma escola particular e lhe mandava uma certa quantia todos os meses. Ela não teria ficado só porque tinha regalias, mas acabou fazendo amizades na escola e se apegando ao emprego no parque de diversões . Meses se passaram e ela se encachou mais naquela vida, a fuga foi ficando pra depois e nunca aconteceu.

Mesmo que as outras sete garotas da Casa não gostassem dela, e vivessem para inferniza-la, a estadia ali era suportável. Eileen, contra todos os seus extintos, ignorava as garotas o melhor que podia e lhes respondia bem respondido quando tinha chance, mas na noite anterior a Galinha mãe (apelido comum da garota no bairro), Katty, a provocou até seu limite no jantar, quando Eileen respondeu a altura, Katty pulou com as unhas armadas para ataca-la, no entanto Eileen era dos grupos de luta e atletismo da escola e não foi esforço nenhuma para ela desviar, pegar os cabelos tingidos de Katty e manda-la de encontro a parede. Pratos foram arremessados pelos ares e bocas escancaradas. Todos pareciam achar que os pratos voando foram por conta do conflito, mas Eileen não tinha tanta certeza disso. O pior nisso tudo, não foi a briga por incrível que pareça, porque naquela noite a Sra. Rose tinha como convidados um casal de possíveis benfeitores e ainda usara no jantar seu melhor jogo de louças de porcelana que tinha lá pelos seu 40 anos.

Naquela noite Eileen dormiu de porta trancada, acordara e saíra sem ser vista, mas ela sabia que não teria mais paz vivendo na Casa da Rose. E tinha certeza que ninguém mais a queria ali, nem mesmo seu bom “dote” ajudaria a Sra. Rose a se esquecer do fracassado jantar.

Afastou os pensamentos de fuga quando entrou para a sala de aula e tentou aproveita ao máximo a companhia dos amigos e os treinos na Educação Física se aquele fosse realmente seu ultimo dia. Eileen ficara encantada com o programa de educação esportiva da escola quando chegara. Seu benfeitor fazia questão que ela praticasse todas as lutas, modalidades de atletismo, esgrima e arco e flecha quanto fosse possível, a garota não protestou, essa era a melhor parte do seu dia; onde libera toda a energia acumulada e adrenalina, parecia ter sio feita para esse tipo de coisa. Era uma das melhores em todas as modalidades, embora que olhasse para seu corpo delicado e pequeno dissesse que não passava de uma bailarina.

Estava de folga o trabalho, mas não voltou pra Casa de Rose depois da escola, em vez disso foi se sentar em uma praça para colocar as ideias no lugar. O céu estava escuro e o vento forte, uma tempestade daquelas se aproximava. Eileen queria que fosse noite, a luz da lua sempre lhe ajudava a clarear os pensamentos. Ela não havia conseguido formular um bom plano quando começou a voltar para casa, talvez tivesse perdido o jeito, mas não podia ficar mais na praça, gotas pesadas já caiam e o céu parecia prestes a desabar. Quando finalmente chegou a sua rua a chuva já caia livremente e ela estava encharcada até os ossos.

Eileen reparou em uma figura do outro lado da rua, enfrente a Casa de Rose, no meio da tempestade, a figura usava uma capa de tecido escuro com um capuz que lhe cobria o rosto, mas a garota tinha a sessão que a pessoa lhe observava, louco, pensou entrando. Lá dentro tirou as botas, com elas na mão subiu aos pulos para seu quarto, não parecia ter ninguém em casa além do Sr. Ross tocando piano em seu escritório.

Eileen tinha pena do Sr. Ross, era um homem mirrado e gentil que ficava enfiado em seu escritório dia e noite tentando fugir da mira de sua mulher mandona e das garotas desagradáveis.

Cansada, a garota tomou um banho quente e demorado, colocou uma boa roupa e arrumou uma mochila com tudo que precisaria se fugisse, olhou triste para sua estante atulhada de livros (dinheiro da mesada bem gasto) não havia como levar aquilo que lhe fazia tão feliz. Então ouviu ruídos no primeiro andar, decidiu não esperar mais e abriu a janela para pular, ela já estava com uma perna pra fora quando a Sra. Rose gritou:

-Eileen? Está aí? Dessa aqui!

Eileen prendeu a respiração, com certeza a mulher havia notado o molho de chaves da garota no aparador, se saísse agora corria o risco de ser pega, achou melhor descer e ver o que ela queria pra depois sair à surdina.

-Eileen Grey! Dessa já! – gritou novamente.

-Já estou indo! – desceu pensando em como odiava aquele nome que a Sr. Rose gritava com tanto vigor. Eileen até passava (significava esperta e viva) mas Grey? Quanta criatividade de quem colocou aquele nome!

Eileen descobriu a Sr. Rose na sala de jantar. Ela a olhou de cima a baixo claramente desaprovando suas roupas...

Notas finais
Então... sei que não é um capitulo finalizado. Mas comentem se estiverem curiosos ;)